O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE
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quinta-feira, 7 de julho de 2011

FEZ PRECISAMENTE NO DIA 2 DE JULHO, 50 ANOS QUE HEMINGWAY MORREU

[ERNEST HEMINGWAY (1899-1961) – LIVROS E MULHERES]


Estava casado com Mary Welsh, sua quarta mulher, com quem viveu os seus últimos anos, a maior parte do tempo em Cuba, onde o escritor convivia com gente simples, que o levou a escrever The Old Man and The Sea ( O Velho e o Mar). Mary esteve com Hemingway durante 15 anos, foi a mulher que esteve mais tempo com ele. Era jornalista e teve um casamento anterior. Viveu com a Hemingway a sua consagração ao receber o Prémio Nobel em 1954. Os dois viajaram muito. Em 1954, fazendo uma incursão de caça em África Hemingway, sofreu um acidente aéreo e chegou a ser dado como morto, mas foi encontrado vivo e posto num segundo avião que se incendiou. A partir daí, com sequelas severas, Mary passou a ser a sua enfermeira. Hemingway, herdou riscos de depressão, já o seu pai se tinha suicidado, começou a beber muito e isso levou-o a cometer o acto terminal contra a sua vida, alvejando-se com um tiro de espingarda.
Apaixonado pela literatura e pelas mulheres, viver com Hemingway não era uma «fiesta»!
A primeira das suas quatro mulheres foi: Hadley Richardson. Nessa altura era jornalista e tinha 21 anos, enquanto Hadley era mais velha oito anos. Hemingway tinha-se oferecido para condutor de ambulâncias da Cruz Vermelha em Itália, mas ficou ferido. Regressou aos Estados Unidos e conheceu Hadley, casaram e partiram para a Europa. Os dois viveram a aventura em Paris, onde conheceram muitas personalidades ligadas à arte, como James Joyce, T.S. Elliot ou Ezra Pound. Fizeram parte da «Geração Perdida», dos protegidos de Gertrudes Stein, depois de terminada a Grande Guerra. Errâncias por França, idas a Pamplona às touradas, tudo está descrito no romance que então publicou, Paris é uma festa e que dedicou à mulher e ao seu filho Jonn.
Estiveram juntos durante seis anos, até Hemingway se apaixonar por Pauline Pfeiffer, com quem se casou em 1927 e se divorciou em 1940. Desse relacionamento nasceram dois rapazes: Patrick e Gregory. Os dois regressaram aos Estados Unidos, nesta altura surgiu o romance, A Farewell to Arms ( Adeus às Armas), resultado da experiência de Hemingway na guerra em Itália.
Em 1937 Hemingway regressou à Europa, devido à Guerra Civil de Espanha, para apoiar os revolucionários contra os fascistas, ele era um homem de esquerda sem reticências e aí conheceu a jornalista Martha Gellhorn, que ditou o fim do casamento com Pauline. Casaram em 1940 e estiveram juntos até 1945. Martha contrariamente às duas anteriores mulheres, não se deixava ofuscar por Hemingway, nunca desistiu de ser repórter e fazia questão em ser melhor que o marido. Trabalharam juntos em Espanha, desse experiência Hemingway escreveu o livro, For Whom the Bell Tolls ( Por Quem os Sinos Dobram). O casamento não durou, Hemingway sentia-se preterido a favor da carreira exaustiva da mulher em vários cenários de guerra.
Em 1946 casou com Mary Welsh.
Outros livros de Hemingway: Across the River and Into the Trees (Do Outro Lado do Rio e Entre as Árvores) e em 1986 foi publicado, The Garden of Eden (O Jardim do Éden)

quinta-feira, 30 de junho de 2011

QUE DIFÍCIL ESCOLHER OS LIVROS DA NOSSA VIDA...

Considero bastante difícil, depois de muito ler, fazer uma lista dos livros da minha vida, ( como os filmes e como as músicas) até porque há livros que faziam todo o sentido numa determinada época da vida e noutra já não fazem tanto, por outro lado também é de considerar a temática e assim uns agradam por uma razão, outros por outra. Apesar disto vou sempre ler, quando alguém fala de livros preferidos, até para ler o que ainda não li. Neste caso foi uma escritora editora.

Dos livros citados li: «Odisseia» de Homero, já que foi para mim livro obrigatório, «A Mancha Humana» de Philip Roth, «A Tia Júlia e o Escrevedor» de Mário Vargas Losa, «Poesia» de W.B. Yeats. São livros de facto do meu agrado, mas que sejam os mais…aí reside a minha dificuldade!

Não li «Pedro Páramo in «Obra Reunida» (Uma pequena obra prima que inspirou o realismo mágico), nem «Nenhum Olhar» de José Luís Peixoto, embora tivesse lido outros livros dele.

Como quarteto de ouro da literatura portuguesa do século XX, são considerados: «Sinais de Fogo» de Jorge de Sena, «Finisterra» de Carlos de Oliveira, «Húmus» de Raul Brandão e «Mau Tempo no Canal» de Vitorino Nemésio. Li estes livros, mas o último livro, custou-me bastante a ler, eu é que sou sempre muito persistente!

Não sei…sei sem dúvida que acrescentaria «O Livro do Desassossego» de Bernardo Soares.


sábado, 14 de maio de 2011

MANUEL ANTÓNIO PINA GANHOU O PRÉMIO CAMÕES

No Rio de Janeiro, por unanimidade, o júri contemplou Manuela António Pina com o Prémio Camões, o mais importante prémio da língua portuguesa. Pina ficou surpreendido, o júri considerou o escritor «inventivo e original» movimentando-se em vários géneros literários, conto, poesia, crónica, literatura para a infância, teatro…
O jurado brasileiro, António Carlos Secchin, salientou o alto grau de inventividade e originalidade e com este prémio sublinhou a necessidade de os livros deste autor serem finalmente editados no Brasil.
Manuel António Pina é muito conhecido pelas suas crónicas «Por outras palavras», diariamente escritas no Jornal de Notícias, incorporando literatura em todas as áreas do quotidiano e onde recupera também a figura, cada vez mais em desuso, do intelectual empenhado, segundo palavras do Professor Universitário, José António Gomes, que acrescenta, « num tempo em que não faltam exemplos de escritores que permanecem no jogo da promiscuidade de acordo com as forças políticas do momento, há que louvar a sua coragem».
Com uma vasta obra, já recebeu vários prémios e já foi homenageado nas três cidades do seu coração: Sabugal (onde nasceu), Guarda (onde passou a infância) e Porto (onde vive há 4 décadas).


Muitos perguntarão, mas quem é Manuel António Pina?

Ele responde, com as palavras do poeta Jorge Luís Borges, que tanto admira:

«EU SOU TODOS OS LIVROS QUE LI, TODAS AS PESSOAS QUE CONHECI, TODOS OS LUGARES QUE VISITEI»


Em entrevista:

SOBRE O PRÉMIO: Os prémios não fazem as obras, nem os livros melhores ou piores, mas são um reconhecimento e todos gostamos de ser amados. Mas é embaraçoso, porque tendo em vista a lista das pessoas que já receberam este prémio – e não quero fazer a rábula da modéstia – receio não estar ali a fazer nada…


SOBRE AS SUAS CRÓNICAS: Tento fazer o melhor, mas nem sempre sai bem – nunca releio as minhas crónicas, porque são feitas sobre pressão, que tende a adormecer o nosso espírito criativo. Mas dão-me prazer, o que raramente acontece com o tema – sofro muito à procura dele, perco seis ou sete horas nessa busca – e a política acaba por ser recorrente. E as crónicas são também uma lição diária de humildade, porque uma crónica jornalística acaba sempre a embrulhar o peixe no dia seguinte. Tudo acaba no esquecimento.

.
SOBRE POESIA: Onde sinto o meu próprio sangue é na poesia. Muitos escritores falam da necessidade de escrever e, sem dramatizar, também tenho essa sensação. Mas raramente os poemas me saem à primeira, alguns demoram vários anos – tenho poemas que demoraram dez anos, ou mais, a concluir. Como dizia Rilke, o primeiro verso é-nos dado, os outros são conquistados. Às vezes anda-se à procura de uma palavra, de um verso, de uma relação entre o substantivo e o adjectivo. E quando aparece a palavra reconheço-a! Ando sempre com um caderninho onde anoto palavras, faço listas enormes de palavras até encontrar uma. Há dias, encontrei a palavra «exasperado», e já tinha passado por ela sem a reconhecer.


SOBRE POLÍTICA: A política está em toda a parte, mas a política sobra a qual geralmente escrevo é a partidária, e essa é muito medíocre. Estamos metidos num nó górdio e olha-se à volta e não se vê nenhum Alexandre – nada senão mediocridade e mediania.



BIOGRAFIA: http://www.infopedia.pt/$manuel-antonio-pina
POESIA: http://www.citador.pt/poemas.php?poemas=Manuel_Pina&op=7&author=20197





quarta-feira, 4 de maio de 2011

PRÉMIOS LITERÁRIOS



Lídia Jorge ganhou o Prémio da Latinidade “João Neves da Fontoura”.
Presidido pelo ensaísta Eduardo Lourenço, o júri da edição do galardão deste ano decidiu atribuí-lo a Lídia Jorge “pela consagração da sua obra como escritora que muito tem contribuído para o enriquecimento do património cultural e literário do Portugal contemporâneo”.
Até 2008 designado por Prémio da Latinidade “Troféu Latino”, passou em 2009 a ter o nome de Prémio da Latinidade “João Neves da Fontoura”, ministro dos Negócios Estrangeiros brasileiro a quem se deve a criação da União Latina como organização internacional.
Com este Prémio criado em 2002, a União Latina visa homenagear uma personalidade ou instituição que se tenha distinguido, pela sua obra, na difusão da Latinidade, nos domínios artístico, literário ou científico.


Nascida em Boliqueime, no Algarve, em 1946, Lídia Jorge licenciou-se em Filologia Românica na Universidade de Lisboa, deu aulas, escreveu quinze livros editados em várias línguas, entre eles romances, antologias de contos e uma peça de teatro.
A publicação do seu primeiro romance, em 1980, “O Dia dos Prodígios”, foi considerado marcante num período em que se tinha iniciado uma nova fase da literatura portuguesa.

Nas edições anteriores foram galardoados o cineasta Manoel de Oliveira (2002), o ensaísta Eduardo Lourenço (2003), o arquitecto Álvaro Siza Vieira (2004), o ex-Presidente da República Mário Soares (2005), a investigadora de estudos clássicos Maria Helena da Rocha Pereira (2006), o historiador José Mattoso (2007), o ator e encenador Luís Miguel Cintra (2008), o artista plástico Júlio Pomar (2009), e o arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles (2010).
Fundada em 1954, a União Latina é composta por 36 Estados de língua oficial ou nacional românica e tem como objectivo promover a reflexão sobre os valores culturais e linguísticos do conjunto da comunidade latina e a consciência da identidade cultural comum destes povos.




Fado do retorno - Lídia Jorge

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada

Voltaste, já voltaste
Já entras como sempre
Abrandas os teus passos
E paras no tapete

Então que uma luz arda
E assim o fogo aqueça
Os dedos bem unidos
Movidos pela pressa

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada

Voltaste, já voltei
Também cheia de pressa
De dar-te, na parede
O beijo que me peças

Então que a sombra agite
E assim a imagem faça
Os rostos de nós dois
Tocados pela graça.

Amor, é muito cedo
E tarde uma palavra
A noite uma lembrança
Que não escurece nada

Amor, o que será
Mais certo que o futuro
Se nele é para habitar
A escolha do mais puro

Já fuma o nosso fumo
Já sobra a nossa manta
Já veio o nosso sono
Fechar-nos a garganta

Então que os cílios olhem
E assim a casa seja
A árvore do Outono
Coberta de cereja.


O escritor Pedro Tamen vence o Grande Prémio da Poesia, atribuído pela Associação de Escritores Portugueses, com "O Livro do Sapateiro”

Em Fevereiro deste ano, “O Livro do Sapateiro” já tinha vencido o prémio Correntes d’Escritas. Em edições anteriores, o Grande Prémio da Poesia distinguiu Natália Correia, Eugénio de Andrade António Ramos Rosa, Fernando Echevarria, Gastão Cruz, Fiama Hasse Pais Brandão, entre outros.

Pedro Tamen nasceu em Lisboa em 1934, tendo recebido ao longo da sua vida literária vários galardões, entre eles o Prémio D. Dinis em 1981; em 1919, o Prémio da Crítica e o Grande Prémio Inapa de Poesia; em 1997, recebeu o Prémio Nicola e em 2000 foi distinguido com o Prémio Imprensa e o Prémio do PEN Club.


Não falo de palavras, nem de goivos,

mas de horas atadas ao pescoço.

Poema verdadeiro é sermos noivos:

saber tirar a pele e o caroço

ao grito entre a morte e outra morte

que nos mantenha lassos e despertos

até que venha o talhe que nos corte

e nos retire os poços e desertos.

Por isso, meu amor, o que te dou,

beijo beijado em corpo claro e vivo,

é mais que o verso que te dizem,

ou aliterante, agudo ou conjuntivo.


Colado a tudo, mesmo a contragosto,

o rio inventa o verso, e não assim

como se ao espelho visse o próprio rosto,

mas tu além-palavra, ao pé de mim.

(Escrito de Memória, 1973)



terça-feira, 5 de abril de 2011

SER OU NÃO SER...

Viajante sobre um mar de névoa (CASPAR DAVID FRIEDRICH) . William Shakespeare - To be, or not to be (from Hamlet 3/1) . “To be or not to be, that is the question; Whether ’tis nobler in the mind to suffer The slings and arrows of outrageous fortune, Or to take arms against a sea of troubles, And by opposing, end them. To die, to sleep; No more; and by a sleep to say we end The heart-ache and the thousand natural shocks That flesh is heir to — ’tis a consummation Devoutly to be wish’d. To die, to sleep; To sleep, perchance to dream. Ay, there’s the rub, For in that sleep of death what dreams may come, When we have shuffled off this mortal coil, Must give us pause. There’s the respect That makes calamity of so long life, For who would bear the whips and scorns of time, Th’oppressor’s wrong, the proud man’s contumely, The pangs of despised love, the law’s delay, The insolence of office, and the spurns That patient merit of th’unworthy takes, When he himself might his quietus make With a bare bodkin? who would fardels bear, To grunt and sweat under a weary life, But that the dread of something after death, The undiscovered country from whose bourn No traveller returns, puzzles the will, And makes us rather bear those ills we have Than fly to others that we know not of? Thus conscience does make cowards of us all, And thus the native hue of resolutionIs sicklied o’er with the pale cast of thought, And enterprises of great pitch and moment With this regard their currents turn awry, And lose the name of action.” Mulher diante da aurora - CASPAR DAVID FRIEDRICH . “Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre Em nosso espírito sofrer pedras e setas Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja, Ou insurgir-nos contra um mar de provocações E em luta pôr-lhes fim? Morrer.. dormir: não mais. Dizer que rematamos com um sono a angústia E as mil pelejas naturais-herança do homem: Morrer para dormir… é uma consumação Que bem merece e desejamos com fervor. Dormir… Talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo: Pois quando livres do tumulto da existência, No repouso da morte o sonho que tenhamos Devem fazer-nos hesitar: eis a suspeita Que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios. Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo, O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso, Toda a lancinação do mal-prezado amor, A insolência oficial, as dilações da lei, Os doestos que dos nulos têm de suportar O mérito paciente, quem o sofreria, Quando alcançasse a mais perfeita quitação Com a ponta de um punhal? Quem levaria fardos, Gemendo e suando sob a vida fatigante, Se o receio de alguma coisa após a morte, –Essa região desconhecida cujas raias Jamais viajante algum atravessou de volta –Não nos pusesse a voar para outros, não sabidos? O pensamento assim nos acovarda, e assim É que se cobre a tez normal da decisão Com o tom pálido e enfermo da melancolia; E desde que nos prendam tais cogitações, Empresas de alto escopo e que bem alto planam Desviam-se de rumo e cessam até mesmo De se chamar ação.(…)” . Tradução de SILVA RAMOS, Péricles Eugênio da”. Hamlet Editora Abril, 1976. ISBN.

sábado, 26 de março de 2011

INSTANTE - SAMUEL BECKETT


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Que faria eu sem este mundo sem rosto sem questões
Quando o ser só dura um instante onde cada instante
Se deita sobre o vazio dentro do esquecimento de ter sido
Sem esta onda onde por fim
Corpo e sombra juntos se dissipam
Que faria eu sem este silêncio abismo de murmúrios
Arquejando furiosos em direcção ao socorro em direcção ao amor
Sem este céu que se eleva
Sobre o pó dos seus lastros
Que faria eu… eu faria como ontem como hoje
Olhando para a minha janela vendo se não serei o único
A errar e a mudar distante de toda a vida
preso num espaço marionete
Sem voz entre as vozes
Que se fecham comigo.

{Samuel Beckett}

Cada vez mais a escrita de Samuel Beckett é visto como o ponto culminante da grande literatura do século XX - sucedendo a obra de Proust, Joyce e Kafka. John Calder analisou a obra de Beckett, sobre principalmente o que escreveu sobre o nosso tempo em termos de filosofia, teologia e ética e considera que o seu contributo tem sido ignorado. Mente aguda Samuel Beckett aborda com humor e muita coragem as premissas básicas e as crenças, através da qual a maioria das pessoas vive. A sua sátira pode ser mordaz e a sua sagacidade devastadora, não encontrou como escapar da tragédia, mesmo com o conforto que nós construímos para nos proteger da realidade. A arte, para a maioria dos intelectuais tem substituído a religião, no entanto, Beckett desenvolveu uma mensagem moral - que está em contradição directa com os valores da ambição, do sucesso de aquisição e ele olha para a ganância, a adoração a Deus e a crueldade para com os outros. A honestidade, a integridade e a profundidade do pensamento de Beckett expressa através dos seus romances, peças teatrais e poesia, outros escritos e correspondência é chocante, ao pensamento convencional, mas o que ele tem a dizer também é reconfortante. Beckett oferece uma ética diferente para se viver - uma mensagem com base estóica de coragem, compaixão e uma capacidade de compreender e perdoar.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

«O INOMINÁVEL» - SAMUEL BECKETT


“Procurei por todo lado. E todas as perguntas faço a mim mesmo. Não é por curiosidade. Não Posso calar-me. Não, nem tudo é claro. Mas o discurso tem de ser feito.”
“É o fim que é o pior, não, é o começo que é o pior, depois é o meio, mas depois é o fim que é o pior, essa voz a cada instante, é que é o pior… é preciso continuar ainda um pouco, é preciso continua ainda muito tempo, é preciso continuar ainda sempre…”
“Eu sou palavras, eu sou feito de palavras, palavras dos outros. Eu sou todas as palavras a poeira de verbo. E preciso de palavras (…) é preciso tentar logo, com as palavras que restam.”
“não posso continuar, vou continuar”

“Je ne peux pas continuer, je vais continuer”
“I can´t go on, I’ll go on”

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

MARIA GABRIELA LLANSOL (1931-2008)



Maria Gabriela Llansol é provavelmente a mais inclassificável das escritoras portuguesas. Escreveu «nas margens da língua» e «fora da literatura», e viveu vinte anos no exílio da Bélgica, onde colheu inspiração para uma obra sem paralelo na literatura portuguesa.
O núcleo principal da sua obra inicia-se com duas triologias (Geografia de Rebeldes e O Litoral do Mundo) que ensaiam uma releitura da história intelectual e espiritual da Europa, com recurso à metamorfose ficcional de uma ampla galeria de figuras, das beguinas medievais a Camões, de Hölderlin a Nietzche ou de Bach a Fernando pessoa. Depois disso, envereda por uma «ordem figural do quotidiano» em cerca de vinte livros reveladores de uma escrita visionária e intensa de grande originalidade, que lhe valeu por duas vezes o Grande Prémio de Romance e Novela da APE, e que faz juz ao prognóstico de Eduardo Lourenço segundo o qual «Llansol será o próximo grande mito literário português, por paralelo com o Próprio Pessoa». Deixou um imenso espólio manuscrito de milhares de páginas inéditas, em curso de publicação (Assírio & Alvim).
(VAI SER HOMENAGEADA EM MARÇO NO CCB)
Muito pouco se encontra na Internet sobre a Gabriela Llansol, encontrei o site
http://espacollansol.blogspot.com/, de onde transcrevi o que escrevi e que me suscitou muito interesse em conhecer a sua obra.



34
.
Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios.
Treinar-se a respirar
Florescentemente.
Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal
os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio.
Conceder
Às cortinas o dom de sombrear.
Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor.
Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes.
Ficar na dureza
Firme.
Conter.
Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer.
Soprá-la para dentro de ti ----------
-------------até que a dor alegre recomece.
294
Eu estava habituada a vir para casa com um velho amigo
Que me punha a mão nos ombros.
Eu raramente tropeçava
Porque dele irradiava o calor das macieiras e a paz das Tílias.
Era a árvore dos meus passos.
E, regressando a casa,
Regressava à Paisagem que humana me fazia.
.
maria gabriela llansolo começo de um livro é precioso assírio & alvim2003
.
O texto é a única forma de identificar o sexo e a humanidade de alguém porque, ó poeta estranho, o sexo de alguém, é a sua narrativa. A sua, ou a que o texto conta, no seu lugar. Assim o sexo será como for o lugar do texto.

Quando se deseja alguém, como tu desejas Infausta,
e ela deseja Johann,
é o seu lugar cénico que se deseja,
os gestos do texto que descreve no espaço
e chamar-lhe precioso companheiro;
de mim, direi que fui uma vez enviado,
trouxeste a frase que nunca antes leras,
o meu corpo a disse,
e não reparaste que ficaste com ela escrita.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

MELO E CASTRO - «UM RETRATO DE COSTAS»

Um Retrato de Costas

Um retrato de costas. Encontro este retrato numa velha gaveta. Casa antiga. Fechada. Há quanto tempo fechada por dentro? Casa dentro da cidade. Sala dentro da casa. Armário dentro da sala. Gaveta dentro do armário. Retrato dentro da
gaveta. Retrato de costas. Costas sem peito visível. Onde estarão os olhos? E terá mesmo olhos? E o corpo terá mesmo volume? E matéria? Ou será só costas, uma superfície escura, uma mancha levemente curvada a indicar os ombros? Ou a pergunta escondida? Onde estará o peito? Virado para lá ou só costas do lado de cá? Onde aí estarão os olhos? Que profundidade contemplarão? Que espaço construirão? E, a que voltará as costa esse peito? Do lado de cá a escuridão da mancha das costas na fotografia. Mas que saberão os olhos que eu não vejo das costas que impressionaram esta velha chapa fotográfica? Que saberá esse peito do meu peito? Que verão esses olhos dos meus olhos que agora interrogativamente observam as costas negras do peito que nunca poderão ver? Será o espaço das costas tão só imaginário como parece ser o espaço do peito? Serão mesmo estas costas a fronteira, o limite entre o real e o imaginário? Ou será afinal só uma velha fotografia dentro da gaveta. Gaveta dentro do armário. Armário dentro da sala. Sala dentro da casa. Casa dentro da cidade. Cidade dentro do País. País dentro do Mundo. Mundo dentro do Universo. Universo em que as noções de costas e de peito são tão relativamente relativas que só no meu peito e nos meus olhos vejo realmente as costas negras deste retrato de uma pessoa que desconheço e que poderia talvez até ser eu próprio.

in Antologia para inici-antes de E. M. de Melo e Castro.Editora Ausência, Porto, 2003.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

LEMBRANDO JOSÉ SARAMAGO ...(Azinhaga, Golegã, 16 de Novembro de 1922 — Tías, Lanzarote, 18 de Junho de 2010)


«Foi só muitos anos depois, quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer." Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada.»
José Saramago, Discursos de Estocolmo - 7 e 10 de Dezembro de 1998
Arte de Amar
Metidos nesta pele que nos refuta,
Dois somos, o mesmo que inimigos.
Grande coisa, afinal, é o suor
(Assim já o diziam os antigos):
Sem ele, a vida não seria luta,
Nem o amor amor.
Química
Sublimemos, amor.
Assim as flores
No jardim não morreram se o perfume
No cristal da essência se defende.
Passemos nós as provas, os ardores:
Não caldeiam instintos sem o lume
Nem o secreto aroma que rescende.
Demissão
Este mundo não presta, venha outro.
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos, se dependentes.

Passado, Presente, Futuro
Eu fui. Mas o que fui já me não lembra:
Mil camadas de pó disfarçam, véus,
Estes quarenta rostos desiguais.
Tão marcados de tempo e macaréus.
.
Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:
Rã fugida do charco, que saltou,
E no salto que deu, quanto podia,
O ar dum outro mundo a rebentou.
Falta ver, se é que falta, o que serei:
Um rosto recomposto antes do fim,
Um canto de batráquio, mesmo rouco,
Uma vida que corra assim-assim.
José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

FRAGMENTOS DE UM DISCURSO AMOROSO - (1977) de Roland Barthes



Este ensaio causou muita polémica e levanta várias questões sobre o amor, escrito numa época em que a sexualidade ou até mesmo a pornografia ditavam a lei, muito de acordo com o presente, apesar de terem passado 33 anos.
Barthes, foi ao século XIX, onde a paixão era algo importante na psicologia e referiu o Werther de Goethe. O romance que desencadeou uma famosa vaga de suicídios. Hoje este tipo de amor está fora de moda, nos meios intelectuais é pouco abordado, a não ser com algum gracejo e troça, depreciando o sujeito apaixonado, que é considerado um lunático e um louco. A nível mais popular, fala-se de amor à boca-cheia, aparece em todas as canções e novelas, há uma certa apetência para isso, mas no fundo é sempre assim algo exagerado e piegas.
O amor-paixão é considerado como uma doença, que há que curar, não é mais um enriquecimento, como acontecia no século XIX, em que se notava bem as poses de um apaixonado. Hoje já não são reconhecíveis, podemos encontrar-nos com alguns na rua, mas nada têm de característico. O objecto amado, é uma pessoa, que o apaixonado despersonaliza, uma imagem criada de uma forma muito pessoal, um objecto único. A atracção súbita, o «enlevo», é provocada por uma imagem, uma imagem viva, uma imagem em acção.
A paixão, para muitas pessoas actualmente, equivale ao «grande amor», que dura toda a vida. O apaixonado de Barthes concordaria com o «grande amor», mas para ele «toda a vida» não tem sentido, porque ele encontra-se num absoluto do tempo. Este apaixonado está sempre a caminho de um sofrimento ao qual nunca escapa. O sofrimento é uma espécie de valor, algo que é puro e isento de qualquer falta. O desgosto de amor está implícito. O bom senso diz que há um momento em que se tem que largar o «estar apaixonado» e «amar». Põe-se de parte os logros, ilusões, dominações, cenas, dificuldades…Para aceder a um sentimento mais pacificado, mais dialéctico, menos ciumento, menos possessivo. O sofrimento do apaixonado implicitamente está ligado ao «grande ciúme». Presentemente o ciúme pode existir, mas não é tão acentuado, podemos até ficar surpreendidos, com uma espécie de partilha entre vários ou de cada um tem a sua vida.
Barthes considera que é possível amar várias pessoas ao mesmo tempo, considera que é até algo «delicioso», estar mergulhado num clima de amores múltiplos, de flirt generalizado, mas essa situação não pode durar muito, em determinada altura há uma cristalização, quando o apaixonado mergulha na paixão. Acabam os devaneios, o apaixonado foi agarrado por uma força tirânica, só que ele também é uma força tirânica para o alvo da sua paixão. Não é agradável amar e ser amado desta forma. O apaixonado quer combater isto e não consegue, tem consciência que é uma humilhação e ao mesmo tempo pode sofrer por submeter a outra pessoa. Na realidade está demasiado «agarrado» pela sublimação.
Um apaixonado pode ser considerado um «pateta», porque vive numa des-realidade, a realidade para ele é uma ilusão. Tudo que diverte os outros, as suas conversas, as suas indignações, não lhe dizem nada. O seu real é a sua relação com o objecto amado e fica alienado de tudo o mais ou não lhe dá grande importância. Facilmente nesta inversão sente-se um inadaptado social, pode ter reacções estranhas e as outras pessoas consideram-no um idiota. «O amor é cego», de uma certa maneira sim, o apaixonado conjuga aspectos de neurose e de psicose: é um atormentado e um louco. Fica cego!
Roland Barthes numa entrevista, foi inquirido sobre a sua experiência. Para escrever este ensaio, baseou-se em casos da sua vida, em experiências de outras pessoas, em livros, mas depois confessou que teve também uma cristalização e que escreveu o livro para não se perder, não cair no desespero, porque a escrita tem o maravilhoso poder da pacificação. Desculpou-se de certo modo dizendo que não era uma unidade em si e a moral que quis passar era de afirmação: Não nos devemos deixar impressionar pelas depreciações de que o sentimento amoroso é objecto. É preciso afirmar. É preciso ousar. Ousar amar…
Barthes acabou por dizer que mesmo em épocas de paixão mais moderada, ninguém está imune de ser agarrado, mas o melhor é mesmo «amar».

terça-feira, 24 de agosto de 2010

DOCUMENTÁRIO DE AGUSTINA BESSA-LUÍS

Gostei de rever este documentário e ouvir a escritora a falar de si. Da infância, adolescência, da escrita, do seu casamento (interessante a forma como escolheu o companheiro, colocando um anúncio num jornal: Homem inteligente e culto...), dos seus êxitos, do seu relacionamento com o realizador Manuel de Oliveira, nem sempre cordato....enfim gostei de estar com Agustina, que dizia:

"Eu não me levo muito a sério. É a melhor maneira de viver. Aquele que se leva a sério está sempre numa situação de inferioridade perante a vida."

O seu primeiro livro foi o «Mundo Fechado» e desse livro, mandou cópias aos escritores, que na altura ela considerava importantes: Pascoaes, Torga, Aquilino, Ferreira de Castro.
Torga não respondeu, Pascoaes estava muito doente e pouco depois morreu, mas mais tarde foram encontrados nos seus papeis uns apontamentos para Agustina, favoráveis ao livro.


"Escrever é comover para desconvocar a angústia e aligeirar o medo...Ama-se a palavra usa-se a escrita despertam-se as coisas do silêncio em que foram criadas."

A sua escrita, são divagações sobre a condição humana. Uma visão cáustica, cruel e implacável sobre as paixões, com falhas de coerência e lógica, porque elas também existem na vida real.
Os seus grandes influenciadores foram, Dostoievsky e Freud, porque eles foram ao fundo da alma.
O seu romance preferido: Um Inverno Frio.



A Capacidade de Adaptação dos Portugueses
Os observadores estrangeiros maravilham-se de que Portugal resista à crise política e económica com tal poder de adaptação. Há nos Portugueses uma sinceridade para com o imediato que desconcerta o panorama que transcende o imediato. O infinito é o que eu situo - dizem. E assim vivem. Protegidos talvez por essa condição de afecto pelas coisas, pelos seus próprios delitos, que não consideram dramáticos, só ao jeito das necessidades. De resto — quem se apresenta a salvar-nos que não esteja suspeitamente indignado? Os que muito se formalizam muito escondem; os que acusam demasiado privam-se de ser leais consigo próprios. O país não precisa de quem diga o que está errado; precisa de quem saiba o que está certo.

Agustina Bessa-Luís, in 'Dicionário Imperfeito'

Garras dos sentidos

Não quero cantar amores,
Amores são passos perdidos,
São frios raios solares,
Verdes garras dos sentidos.
São cavalos corredores
Com asas de ferro e chumbo,
Caídos nas águas fundas,
não quero cantar amores.
Paraísos proibidos,
Contentamentos injustos,
Feliz adversidade,
Amores são passos perdidos.
São demências dos olhares,
Alegre festa de pranto,
São furor obediente,
São frios raios solares.
Da má sorte defendidos
Os homens de bom juízo
Têm nas mãos prodigiosas
Verdes garras dos sentidos.
Não quero cantar amores
Nem falar dos seus motivos

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

JULIEN GRACQ (1910 - 2007)

Centenário do nascimento de Julien Gracq (1910 - 2007), escritor francês, cujo nome verdadeiro era Louis Poirier.
Cracq escreveu dois romances excepcionais, Le Rivage des Syrtes e Un Balcon en Forêt, além de obras contundentes de crítica e ensaio. Grande admirador de Ernst Jünger. Professor de História e Geografia, recusou o Prémio Goncourt. Esteve próximo dos surrealistas, tendo sido amigo de André Breton, mas recusou ser assimilado.
Um escritor alérgico aos holofotes, de tempos a tempos, lançava um livro, mostrando que era um visionário, tal a sua capacidade de narrar histórias inquietantes e desconcertantes.


BIOGRAFIA COMPLETA: AQUI

LE RIVAGE DES SYRTES – Tradução de Pedro Tamen. É o seu romance mais célebre e uma arrebatadora obra de ficção europeia do século XX.
Uma cidade, capital de um império em declínio, consome-se na espera de um inimigo virtual. Esta capital do rumor, é o centro de todas as intrigas, o cadinho de todos os presságios, o vulcão de todas as superstições. Sonâmbulos, os habitantes da cidade vegetam na sombra da ameaça ancestral: acabarão a desejar o ataque libertador, que os devolva à sua antiga condição de seres com história.


Uma sensação de vento nas têmporas, é o que causam os seus livros, escritos num francês de tal riqueza lexical e sintáctica, que chega a ser estonteante. Gracq é um mago, a quem não fazia falta trazer a filosofia para a ficção, porque a sua ficção era toda ela metafísica, como um quadro de Chirico ou o Pélléas de Debussy.

Mega Ferreira.


quarta-feira, 4 de agosto de 2010

BERTOLT BRECHT (1898-1956)



Discutido, criticado, atacado, perseguido. Brecht lutou durante toda a sua vida pelos oprimidos. Claramente assumiu posições de esquerda e procurou colocar a luta de classes em tudo que escreveu. Nunca de forma dogmática. Sempre buscando a dúvida dialéctica.
Brecht nasceu, no dia 10 de Fevereiro de 1898. Como ele mesmo disse, viveu em tempos negros: viu a 1ª. Grande Guerra, viu a Revolução ser massacrada na Alemanha e seus líderes serem barbaramente assassinados, assim como milhares de operários e também as lideranças sindicais.Viu a fome nos anos 20, viu a ascensão de Hitler, viu a perseguição. Em 1933 viu o incêndio do Parlamento Alemão - o Reichstag - e compreendeu que tinha chegado uma nova era. Sabia que os próprios nazistas tinham colocado fogo no parlamento e colocado a culpa nos comunistas. As perseguições iam aumentar. Era hora de fugir.A partir daí fugiu de país em país, sabendo sempre que não era bem-vindo. Finalmente nos Estados Unidos sentiu na carne o que era a Caça às Bruxas. O anti-comunismo estava mais forte do que nunca no país que se dizia a terra da liberdade.Apesar de todas as perseguições, Brecht nunca parou de escrever. Escreveu de tudo: poesia, teatro, ensaios, roteiros de cinema. Mas apesar de a sua produção ser enorme tinha grandes dificuldades para sobreviver e sempre com o constante rótulo de comunista.Depois do fim da guerra voltou para a Alemanha, mas sabia que ela não era mais a mesma: era o tempo das duas Alemanhas. Num curto período de tempo finalmente Brecht teve o seu teatro e o seu colectivo de trabalho: o
Berliner Ensemble. Em 1954 o Berliner Ensemble fez a sua primeira grande viagem pela Europa, e a partir daí o nome de Bertolt Brecht, passou a ser um dos nomes mais importantes para o teatro no século XX.
Brecht, tornou-se muito conhecido como dramaturgo, escreveu mais de meia centena de peças, como por exemplo:
Baal, Tambores na Noite, O Casamento do Pequeno Burguês, A Excepção e a Regra, Os Sete Pecados Capitais, Terror e Miséria no Terceiro Reich, Os Fuzis da Senhora Carrar, Galileo Galilei, Mãe Coragem e seus Filhos, Schweik na Segunda Guerra Mundial, O Círculo de Giz Caucasiano, entre outras.Tornou-se relevante para o teatro até aos nossos dias, as suas peças estão regularmente em cena em todo o mundo.
Também o género cabaret, o tornou famoso. A parceria Kurt Weill-Bertold Brecht, na Alemanha dos anos 1920-1930, foi frutuosa. Bertolt Brecht revolucionou a linguagem teatral colocando o seu teatro ao serviço da desmistificação. Exigia, em primeiro lugar, que o actor mostrasse o personagem e não apenas o representasse. No mundo da música, este espírito instalou-se principalmente nas suas parcerias com os compositores Kurt Weill e Hanns Eisler.
Com Kurt Weill, Brecht criou um vasto e original universo musical que nos revela muito sobre a agitação social, política e cultural que impregnava a atmosfera da Berlim na época da República de Weimar. Weill imprimia à sua escrita musical uma ampla referência à música popular tocada nos clubes nocturnos e cabarés das esfumaçadas noites de Berlim, enquanto o texto de Brecht funcionava como uma poderosa arma de crítica social.
Três obras bem significativas da parceria Weill-Brecht,
“A ópera dos 3 vinténs” “Ascensão e queda da cidade de Mahagonny” (“Aufstieg und Fall der Stadt Mahagonny”) e “Happy End”. Também escreveu muita poesia.
Morreu com 58 anos no dia 14 de Agosto de 1956.


CONSULTA: AQUI

AS BOAS ACÇÕES

.
Esmagar sempre o próximo

não acaba por cansar?

Invejar provoca um esforço

que incha as veias da fronte.

A mão que se estende naturalmente

dá e recebe com a mesma facilidade.

Mas a mão que agarra com avidez

rapidamente endurece.

Ah! que delicioso é dar!

Ser generoso que bela tentação!

Uma boa palavra brota suavemente

como um suspiro de felicidade!

.

.
I
.
Eu vivo em tempos sombrios.

Uma linguagem sem malícia

é sinal de estupidez,

uma testa sem rugas

é sinal de indiferença.

Aquele que ainda ri

é porque ainda não

recebeu a terrível notícia.
Que tempos são esses, quando

falar sobre flores é quase um crime.

Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?

Aquele que cruza tranquilamente a rua

já está então inacessível aos amigos

que se encontram necessitados?
É verdade: eu ainda ganho o bastante para viver.

Mas acreditem: é por acaso.

Nado do que eu faço

Dá-me o direito de comer quando eu tenho fome.

Por acaso estou sendo poupado.

(Se a minha sorte me deixa estou perdido!)
Dizem-me: come e bebe!

Fica feliz por teres o que tens!

Mas como é que posso comer e beber,

se a comida que eu como,

eu tiro de quem tem fome?

se o copo de água que eu bebo,

faz falta aquem tem sede?

Mas apesar disso, eu continuo comendo e bebendo.
.II
.
Nos livros antigos está escrito o que é a sabedoria:

Manter-se afastado dos problemas do mundo

e sem medo passar o tempo que se tem para

viver na terra;

Seguir seu caminho sem violência,

pagar o mal com o bem,

não satisfazer os desejos, mas esquecê-los.

Sabedoria é isso!

Mas eu não consigo agir assim.

É verdade, eu vivo em tempos sombrios!
Eu vim para a cidade no tempo da desordem,

quando a fome reinava.

Eu vim para o convívio dos homens no tempo

da revolta

e me revoltei ao lado deles.

Assim se passou o tempo

que me foi dado viver sobre a terra.

Eu comi o meu pão no meio das batalhas,

deitei-me entre os assassinos para dormir,

Fiz amor sem muita atenção

e não tive paciência com a natureza.

Assim se passou o tempo

que me foi dado viver sobre a terra.
.III
.
Vocês, que vão emergir das ondas

em que nós perecemos,

pensem,

quando falarem das nossas fraquezas,

nos tempos sombrios

de que vocês tiveram a sorte de escapar.
Nós existíamos através da luta de classes,

mudando mais seguidamente de países que de

sapatos, desesperados!

quando só havia injustiça e não havia revolta.
Nós sabemos:o ódio contra a baixeza

também endurece os rostos!

A cólera contra a injustiça

faz a voz ficar rouca!

Infelizmente, nós,

que queríamos preparar o caminho para a amizade,

não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.

Mas vocês, quando chegar o tempo

em que o homem seja amigo do homem,

pensem em nós

com um pouco de compreensão.

.


.
1
.

De que serve a bondade

Se os bons são imediatamente liquidados,

ou são liquidados

Aqueles para os quais eles são bons?

De que serve a liberdade

Se os livres têm que viver entre os não livres?

De que serve a razão

Se somente a desrazão consegue o alimento de que todos necessitam?
.
2
.

Em vez de serem apenas bons, esforcem-se

Para criar um estado de coisas que torne possível a bondade

Ou melhor: que a torne supérflua!

Em vez de serem apenas livres, esforcem-se

Para criar um estado de coisas que liberte a todos

E também o amor à liberdade

Torne supérfluo!

Em vez de serem apenas razoáveis, esforcem-se

Para criar um estado de coisas

que torne a desrazão de um indivíduo

Um mau negócio.


.
Quem construiu Tebas, a das sete portas?

Nos livros vem o nome dos reis,

Mas foram os reis que transportaram as pedras?

Babilónia, tantas vezes destruída,

Quem outras tantas a reconstruiu?

Em que casas

Da Lima Dourada moravam seus obreiros?

No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde

Foram os seus pedreiros?

A grande Roma

Está cheia de arcos de triunfo.

Quem os ergueu?

Sobre quem

Triunfaram os Césares?

A tão cantada Bizâncio

Só tinha palácios

Para os seus habitantes?

Até a legendária Atlântida

Na noite em que o mar a engoliu

Viu afogados gritar por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou as Índias

Sozinho?

César venceu os gauleses.

Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?

Quando a sua armada se afundou

Filipe de Espanha

Chorou.

E ninguém mais?

Frederico II ganhou a guerra dos sete anos

Quem mais a ganhou?
Em cada página uma vitória.

Quem cozinhava os festins?

Em cada década um grande homem.

Quem pagava as despesas?
Tantas histórias

Quantas perguntas

.

O ANALFABETO POLÍTICO
.
O pior analfabeto

é o analfabeto político.

Ele não ouve, não fala,

nem participa dos acontecimentos políticos.

Ele não sabe que o custo da vida,

o preço do feijão, do peixe, da farinha,

do aluguer, do sapato e do remédio

dependem das decisões políticas.

O analfabeto político

é tão burro que se orgulha

e estufa o peito dizendo

que odeia a política.

Não sabe o imbecil que,

da sua ignorância política

nasce a prostituta, o menor abandonado

e o pior de todos os bandidos:

O político vigarista,

pilantra, corrupto e lacaio

das empresas nacionais e multinacionais.

MAIS POEMAS: AQUI

POEMAS ERÓTICOS: AQUI


C&H

sábado, 17 de julho de 2010

FILOSOFIAS DE VIDA

A cada etapa da vida do homem corresponde uma certa Filosofia. A criança apresenta-se como um realista, já que está tão convicta da existência de pêras e das maçãs como da sua. O adolescente, perturbado por paixões interiores, tem que dar maior atenção a si mesmo, tem que se experimentar antes de experimentar as coisas, e transforma-se portanto num idealista. O homem adulto, pelo contrário, tem todos os motivos para ser um céptico, já que é sempre útil pôr em dúvida os meios que se escolhem para atingir os objectivos. Dito de outro modo, o adulto tem toda a vantagem em manter a flexibilidade do entendimento, antes da acção e no decurso da acção, para não ter que se arrepender posteriormente dos erros de escolha. Quanto ao ancião, converter-se-á necessariamente ao misticismo, porque olha à sua volta e as coisas lhe parecem depender apenas do acaso: o irracional triunfa, o racional fracassa, a felicidade e a infelicidade andam a par sem se perceber porquê. É assim e assim foi sempre, dirá ele, e esta última etapa da vida encontra a acalmia na contemplação do que existe, do que existiu e do que virá a existir.

Johann Wolfgang von Goethe, in "Máximas e Reflexões"

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O DISTINTO E CONTROVERSO JORGE LUIS BORGES

JORGE LUÍS BORGES, foi um caso à parte, pelo seu universalismo, a variedade e a excentricidade dos seus temas. Transitava pelos clássicos e por temas exóticos com uma intimidade assombrosa. Não satisfeito com Dante, Shakespeare ou Kafka, mergulhava nas sagas islandesas, nas lendas orientais e deliciava-se com As mil e uma noites, traduzidas por Sir Richard Burton. Eventualmente incursionava pelos subúrbios da sua amada Buenos Aires. Multifacetado escritor (poesia, conto e ensaio), notável estilista da língua espanhola moderna, talvez mesmo um dos mais relevantes do século XX, o Homero do Rio da Prata.
Manchou-lhe a gloriosa trajectória (nos últimos anos de vida, Borges virara um totem cultural consumido pela média internacional) a sua confraternização pública com as ditaduras militares. Ao apertar a mão de Augusto Pinochet em 1976, aceitando-lhe uma condecoração, perdeu definitivamente a possibilidade de lhe outorgarem o Prémio Nobel de Literatura.
BIOGRAFIA DE JORGE LUÍS BORGES:
http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u221.jhtm

O Presente não Existe
Não é extraordinário pensar que dos três tempos em que dividimos o tempo - o passado, o presente e o futuro -, o mais difícil, o mais inapreensível, seja o presente? O presente é tão incompreensível como o ponto, pois, se o imaginarmos em extensão, não existe; temos que imaginar que o presente aparente viria a ser um pouco o passado e um pouco o futuro. Ou seja, sentimos a passagem do tempo. Quando me refiro à passagem do tempo, falo de uma coisa que todos nós sentimos. Se falo do presente, pelo contrário, estarei falando de uma entidade abstracta. O presente não é um dado imediato da consciência.
Sentimo-nos deslizar pelo tempo, isto é, podemos pensar que passamos do futuro para o passado, ou do passado para o futuro, mas não há um momento em que possamos dizer ao tempo: «Detém-te! És tão belo...!», como dizia Goethe. O presente não se detém. Não poderíamos imaginar um presente puro; seria nulo. O presente contém sempre uma partícula de passado e uma partícula de futuro, e parece que isso é necessário ao tempo.


Jorge Luís Borges, in 'Ensaio: O Tempo'

LIMITES

sábado, 5 de junho de 2010

FERREIRA GULLAR - PRÉMIO CAMÕES 2010

TRADUZIR-SE
.
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte
-será arte?
.
Ferreira Gullar

quinta-feira, 20 de maio de 2010

SOBRE A DEMOCRACIA...

Com um universo político carregado, que me põe confusa, qual tempestade de nuvens negras e nevoeiros rasteiros, que me anexam a luz, tenho andado a ler alguma coisa sobre política à margem da real política. Sinto-me mais esclarecida? Nem por isso! Teoria é uma coisa, «praxis» é algo completamente diferente!... Ocasionalmente fui ter a Aldous Huxley.

A Corrupção é Proporcional à Democracia

Os homens são atormentados pelo pecado original dos seus instintos anti-sociais, que permanecem mais ou menos uniformes através dos tempos. A tendência para a corrupção está implantada na natureza humana desde o princípio. Alguns homens têm força suficiente para resistir a essa tendência, outros não a têm. Tem havido corrupção sob todo o sistema de governo. A corrupção sob o sistema democrático não é pior, nos casos individuais, do que a corrupção sob a autocracia. Há meramente mais, pela simples razão de que onde o governo é popular, mais gente tem oportunidade para agir corruptamente à custa do Estado do que nos países onde o governo é autocrático. Nos estados autocraticamente organizados, o espólio do governo é compartilhado entre poucos. Nos estados democráticos há muito mais pretendentes, que só podem ser satisfeitos com uma quantidade muito maior de espólio que seria necessário para satisfazer os poucos aristocratas. A experiência demonstrou que o governo democrático é geralmente muito mais dispendioso do que o governo por poucos.


Aldous Huxley, in 'Sobre a Democracia e Outros Estudos'


A Sugestibilidade Humana

Os ideais da democracia e da liberdade chocam com o facto brutal da sugestibilidade humana. Um quinto de todos os eleitores pode ser hipnotizado quase num abrir e fechar de olhos, um sétimo pode ser aliviado das suas dores mediante injecções de água, um quarto responderá de modo pronto e entusiástico à hipnopédia. A todas estas minorias demasiado dispostas a cooperar, devemos adicionar as maiorias de reacções menos rápidas, cuja sugestibilidade mais moderada pode ser explorada por não importa que manipulador ciente do seu ofício, pronto a consagrar a isso o tempo e os esforços necessários.
É a liberdade individual compatível com um alto grau de sugestibilidade individual? Podem as instituições democráticas sobreviver à subversão exercida do interior por especialistas hábeis na ciência e na arte de explorar a sugestibilidade dos indivíduos e da multidão? Até que ponto pode ser neutralizada pela educação, para bem do próprio indivíduo ou para bem de uma sociedade democrática, a tendência inata a ser demasiado sugestionável? Até que ponto pode ser controlada pela lei a exploração da sugestibilidade extrema, por parte de homens de negócios e de eclesiásticos, por políticos no e fora do poder?


Aldous Huxley, in 'Regresso ao Admirável Mundo Novo'

Li há anos um livro de Aldous Huxley, ADMIRÁVEL MUNDO NOVO, mas como não tinha ideia nenhuma sobre esse livro, fui à internet ver do que se tratava:

Admirável Mundo Novo é uma fábula futurista escrita em 1932, que narra um hipotético futuro onde as pessoas são pré-condicionadas biologicamente e condicionadas psicologicamente a viverem em harmonia com as leis e regras sociais, dentro de uma sociedade organizada por castas. A sociedade desse "futuro" criado por Huxley não possui a ética religiosa e valores morais que regem a sociedade actual. Qualquer dúvida e insegurança dos cidadãos era dissipada com o consumo da droga sem efeitos colaterais chamada "soma". As crianças têm educação sexual desde os mais tenros anos da vida. O conceito de família não existe.

Estranho!?...Condicionalismo biológico, condicionalismo psicológico, castas, sem valores morais, drogas, crianças, família...não chegamos a tanto e no entanto há aspectos, que lembram isto e aquilo...numa síntese geral não passaríamos de marionetas!...

terça-feira, 11 de maio de 2010

SOBRE GÜNTER GRASS (1927)

Günter Wilhelm Grass estudou em Dantzig e, aos 17 anos, aderiu à juventude nazista, através da Waffen-SS. Ferido na guerra (1945), foi preso em Marienbad, então Checoslováquia, e libertado no ano seguinte. Trabalhou em minas e como aprendiz de pedreiro. Estudou desenho e escultura na Academia de Arte de Düsseldorf e na Academia de Artes de Berlim.
Já escrevia poemas, lidos para um grupo de escritores influentes, o grupo 47, mas só depois de mudar para Paris, passou a dedicar-se à literatura. Ao romance de crítica social "Die Blechtrommel" (O TAMBOR), seguiram-se "Katz und Maus" e "Hundejahre".
De ideais políticos de esquerda, participou de forma activa na vida pública do seu país e provocou polémica, renovou a literatura alemã do pós-guerra por meio de textos de irónicos e grotescos, especialmente satirizando a complacente atmosfera do milagre económico da reconstrução pós-nazista. Em 1999 o Nobel de Literatura.
Com uma obra que contesta, desde o início, as ideias nazis que o atraíram na juventude, hoje é considerado o porta-voz literário da geração alemã que cresceu durante o nazismo, e descreve-se a si mesmo como um Spätaufklärer, um devoto da iluminação, numa era cansada da razão.


Quando publicou DESCASCANDO A CEBOLA, livro autobiográfico, o mesmo produziu um choque, com a declaração do escritor Günter Grass, da sua participação como membro da Waffen -SS (tropa de elite do exército do Reich). Esta revelação provocou muita polémica entre escritores e jornalistas. Os argumentos dividiram-se basicamente em dois, de um lado estavam os que declaravam que isso não invalidava o valor dos seus romances, além de considerarem a pouquíssima idade de Grass quando actuou na Waffen . Do outro, questionaram a demora de Günter em revelar esta participação. Numa entrevista concedida a Der Spiegel, Grass comenta a repercussão que sua actuação na tropa nazista teve e explica-se. Ao ser indagado quanto a demora para a revelação, o escritor alemão declarou: Acreditava que minha obra como escritor e cidadão era suficiente. O entrevistador do Der Spiegel, fez uma relação com um trecho do livro autobiográfico, DESCASCANDO A CEBOLA e o romance O TAMBOR, buscando no romance um sentimento já revelador desta culpa de actos passados e a sua justificação pela pouca idade: No instante em que invoco o garoto de treze anos que eu era na época, em que me sinto tentado a julga-lo, ele me escapa. Ele não quer ser avaliado ou julgado. Foge para o colo da mãe e diz: «Eu era apenas um garoto, apenas um garoto. (DESCASCANDO A CEBOLA).
«Não sou responsável pelas coisas que fiz quando criança.» (Personagem Oskar em O TAMBOR). Num outro romance ainda podemos verificar o aparecimento de um possível traço autobiográfico e a sua relação com este sentimento de culpa, trata-se de MAUS PRESSÁGIOS. Alexandre e Alexandra, os protagonistas revelam: Não era necessário remexer no passado, porque as poucas aventuras à margem traziam lembranças inexactas ou mal ordenadas. E o facto de que ele, aos 14 anos, fosse soldado e aos dezassete, membro entusiasta da organização da juventude, era perdoado aos dois, mutuamente, como defeitos congénitos da sua geração; não era preciso descer a nenhum abismo; até porque ele, nos momentos em que duvidava de si próprio, dizia que tinha de lutar continuamente contra o jovem hitlerista que tinha dentro de si… Estaria Grass, ao longo de todos os seus romances, já dando pistas da sua vida passada? Seriam todos os seus romances um desabafo particular?