O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

FERNANDO PESSOA - TEXTOS FILOSÓFICOS


«Demonstrar a existência de Deus é demonstrar que o universo aparente tem uma causa consciente.»Os argumentos relativos ao problema da existência de Deus têm sido viciados, quando positivos, pela circunstância de frequentemente se querer demonstrar, não a simples existência de Deus, senão a existência de determinado Deus, isto é, dum Deus com determinados atributos. Demonstrar que o universo é efeito de uma causa é uma coisa; demonstrar que o universo é efeito de uma causa inteligente é outra coisa; demonstrar que o universo é efeito de uma causa inteligente e infinita é outra coisa ainda; demonstrar que o universo é efeito de uma causa inteligente, infinita e benévola outra coisa mais.
Importa, pois, ao discutirmos o problema da existência de Deus, nos esclareçamos primeiro a nós mesmos sobre, primeiro, o que entendemos por Deus; segundo, até onde é possível uma demonstração.
O conceito de Deus, reduzido à sua abstracção definidora, é o conceito de um criador inteligente do mundo. O ser interior ou exterior a esse mundo, o ser infinitamente inteligente ou não — são conceitos atributários. Com maior força o são os conceitos de bondade, e outros assim, que, como já notámos têm andado misturados com os fundamentais na discussão deste problema.
Demonstrar a existência de Deus é, pois, demonstrar, que o universo aparente tem uma causa que não está nesse universo aparente como aparente, que essa causa é inteligente, isto é, conscientemente activa. Nada mais está substancialmente incluído na demonstração da existência de Deus, propriamente dita.
Reduzido assim o conteúdo do problema às suas proporções racionais, resta saber se existe no raciocínio humano o poder de chegar até ali, e, chegando até ali, de ir mais além, ainda que esse além não seja já parte do problema em si, tal como o devemos pôr.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

PAPA BENTO XVI QUESTIONA FALTA DE FÉ


Já andei pelo catolicismo, pelo ateísmo e agora estou numa situação de agnóstica, relativamente à fé. Respeito no entanto qualquer tipo de religião, que não seja fundamentalista.

Relativamente às preocupações do Papa, se há um afastamento das pessoas, as razões quanto a mim devem ser imputadas à Instituição Católica e para não estar com mais delongas por demais conhecidas, posso simplificar com uma pergunta. Se há menos praticantes, não será por culpa dessa Instituição não ter sabido ou não ter querido acompanhar a modernidade, encontrando-se muito longe das preocupações das pessoas?

UM PROFETA

UM PROFETA - de JACQUES AUDIARD

Já tinha visto o excelente filme, DE TANTO BATAR O MEU CORAÇÃO PAROU, um filme na área do policial, mas introspectivo. O Profeta, pode ser uma continuição do personagem que vive uma solidão brutal, com dificuldades de enraizamento e também anda pelo mundo do crime. O herói é Malik, um jovem árabe que vai para a prisão e se vai enredar numa teia de cumplicidades e traições, em que a vida humana nada importa. O filme ao mostrar a vida na prisão é de um metódico e implacável realismo. Malik tem naquele mundo inóspito e violento de construir uma identidade. Audiard teve ao seu lado o fotógrafo Stéphane Fontaine que sabe explorar as cores de forma a criar um envolvimento que, sendo realista, implica também uma subtil visão poética dos corpos, da sua pele e da sua solidão. UM PROFETA, é em todos os aspectos impecável.

[Gosto bastante de cinema, mas como dizia Brecht, a simplicidade é a coisa mais difícil de conseguir, quando é impregnada com a diversidade do mundo. Nem sempre há cinema «daquele» que eu gosto, acabo por ir pouco ao cinema e ficar em casa a rever filmes. Às vezes dizem-me mais sobre o mundo de hoje do que os filmes de hoje! Michael Haneke, referiu-se numa entrevista, à paixão pela memória que vale a pena valorizar, referindo-se ao cinema, eu dava mais amplitude a essa ideia, acrescentando e à literatura, à poesia, à pintura, à música...]

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

ALBERT CAMUS


Albert Camus (Michel Laffon) morreu há 50 anos, no dia 4 de Janeiro de 1960, Prémio Nobel em 1957 e com uma obra importante, muitos consideram o morto mais vivo da literatura francesa do século XX. Os seus livros continuam a vender-se bem, são procurados pelos jovens, principalmente os romances, A Peste e O Estrangeiro, mas também é sempre oportuno ler o romance A Queda, os ensaios, O Mito de Sísifo e O Homem Revoltado, as peças de teatro, Os Justos, Calígula ou O Equívoco.
Esta data motivou que surgisse uma celeuma relativamente a Camus, Nicolas Sarkozy decidiu transferir os seus restos mortais para o Panteão. Todos os presidentes franceses, durante o seu mandato têm feito isso, o último foi Jacques Chirac que patrocinou a Entrada no Panteão de André Malraux e Alexandre Dumas.
Muitos vêem neste propósito de Sarkozy uma manobra política, uma forma de despertar o consenso no país. Contra este propósito estão os filhos de Camus, alegando ser um «contra-senso» e uma «recuperação» política por parte da direita. Jean Daniel director de Le Nouvel Observateur, amigo de Camus também reagiu contra e Jean-Marie Le Pen foi contundente: é uma escolha eleitoralista, esta de um escritor pied-noir, a quatro meses das eleições regionais.
Os socialistas, sobretudo, receiam que, a propósito da consagração de Camus, o presidente prossiga a sua política de «sarkozyzação» de personalidades de esquerda profundamente desiludidas com a desagregação do PS, assim tem acontecido relativamente a cargos do estado.
Camus um escritor solitário/solidário no discurso que fez, quando lhe foi entregue o Prémio Nobel disse: Cada geração, sem dúvida, julga-se vocacionada para refazer o mundo. A minha sabe, no entanto, que não o refará. Mas a sua tarefa é talvez maior. Consiste em impedir que o mundo se desfaça.
Toda a sua vida, enquanto intelectual comprometido com a defesa da sua obra e das suas ideias, foi a ilustração desse ponto de vista.

LHASA DE SELA (1972-2010)