O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Retrato do Herói

fotg. ?

Herói é quem num muro branco inscreve 
O fogo da palavra que o liberta: 
Sangue do homem novo que diz povo 
e morre devagar    de morte certa. 

Homem é quem anónimo por leve 
lhe ser o nome próprio traz aberta 
a alma à fome    fechado o corpo ao breve 
instante em que a denúncia fica alerta. 

Herói é quem morrendo perfilado 
Não é santo    nem mártir    nem soldado 
Mas apenas    por último    indefeso. 

Homem é quem tombando apavorado 
dá o sangue ao futuro e fica ileso 
pois lutando apagado morre aceso. 

Ary dos Santos, in 'Fotosgrafias'

quinta-feira, 14 de junho de 2012

ESCUTA ZÉ NINGUÉM!

Escrito em 1945, Escuta, Zé Ninguém! foi o resultado de tumultos e conflitos íntimos de um cientista e pensador profundamente inconformista. Lido por milhares de leitores ao longo de várias gerações Escuta, Zé Ninguém!, é ainda hoje um livro de reflexão importante. 

«Terás de entender que és tu quem transforma homens medíocres em opressores e tornas mártires os verdadeiramente grandes; que os crucificas, os assassinas e os deixas morrer de fome; que não te ralas absolutamente nada com os seus esforços e as lutas que travam em teu nome; que não fazes a menor ideia de quanto lhes deves do pouco de satisfação e plenitude de que gozas na vida.»

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Não Há Vício que se não Esconda Atrás de Boas Razões

LE CHIEN ANDALUZ - FILME DE LUIS BUNUEL E SALVADOR DALI
Não há vício que se não esconda atrás de boas razões; a princípio, todos são aparentemente modestos e aceitáveis, só que a pouco e pouco vão-se expandindo. Não conseguirás pôr fim a um vício se deixares que ele se instale. Toda a paixão é ligeira de início; depois vai-se intensificando, e à medida que progride vai ganhando forças. É mais difícil libertarmo-nos de uma paixão do que impedir-lhe o acesso. Ninguém ignora que todas as paixões decorrem de uma tendência, por assim dizer, natural. A natureza confiou-nos a tarefa de cuidar de nós próprios, mas, se formos demasiado complacentes, o que era tendência torna-se vício. Aos actos necessários juntou a natureza o prazer, não para que fizéssemos deste a nossa finalidade mas apenas para nos tornar mais agradáveis aquelas coisas sem as quais é impossível a existência. Se o procuramos por si mesmo, caímos na libertinagem. Resistamos, portanto, às paixões quando elas se aproximam, já que, conforme disse, é mais fácil não as deixar entrar do que pô-las fora. 

Séneca, in 'Cartas a Lucílio'

quinta-feira, 31 de maio de 2012

REFLEXÃO-MISHIMA


«Naquele momento, teria sentido uma alegria muito enganadora ao pensar que o meu desejo, a satisfação do meu desejo forneceria uma prova evidente da minha impossibilidade de sentir o amor. Mas a carne traiu-me: aquilo que o meu espírito queria, o meu corpo fê-lo no seu lugar. Achei-me desta maneira perante uma nova contradição. Falando um pouco vulgarmente, diria que, convencido de nunca vir a ser amado, limitara-me a sonhar acerca do amor; e que, finalmente substituíra o amor pelo desejo, facto que me trouxera a paz. Mas subitamente descobri que o próprio desejo exigia de mim o esquecimento das minhas condições de vida, o afastamento da única barreira entre o amor e eu: a certeza de nunca vir a ser amado. Julgara o desejo uma coisa muito mais límpida do que é na verdade, não suspeitara minimamente de que ele nos obrigava, por muito pouco que fosse, a ver-nos sob uma luz de sonho.»

Excerto de "O Templo Dourado", de Yukio Mishima, 
Tradução de Filipe Jarro, 
Edição: Assírio e Alvim, 1985 

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Imagem google
 Aqui eu te amo e em vão te oculta o horizonte.
Estou a amar-te ainda entre estas frias coisas.
As vezes vão meus beijos nesses barcos solenes,
que correm pelo mar rumo a onde não chegam.

 poema "Aqui eu te amo"

  "La verdad es que no hay verdad.»
 [A verdade é que não há verdade.]
- Obras completas: De "Arte de pájaros" a "El mar y las campanas," 1966-1973, Pablo Neruda

segunda-feira, 21 de maio de 2012

MAURICE RAVEL, «A Hora Espanhola»


MAURICE RAVEL, «A Hora Espanhola, deliciosa comedia picante em um acto, mal recebida na época por excesso de ousadia.
Ravel foi um mestre absoluto do impressionismo musical francês e a sua música uma extraordinária sucessão de coloridos sonoros, que não obedeciam às regras da harmonia tonal tradicional. Uma desobediência que foi mal recebida na época.
Apesar de tudo, Ravel conseguiu fazer uma ponte entre tradição e inovação.
Foi também um extraordinário orquestrador que trabalhava os coloridos orquestrais e os jogos de timbre de um modo único. O exemplo mais expressivo é o Bolero, em que a mesma melodia é repetida dezenas de vezes e que não é enfadonho pela constante surpresa da orquestração, conseguindo tirar um efeito mágico. Outra característica desta obra é a variedade de influências e de referências estilísticas e culturais que se fundem nesta obra singular. Ravel apreciava as atmosferas musicais exóticas: espanholas, africanas, árabes, japonesas e a música afro-americana que deu origem ao blues.
A sua influência espanhola vem da mãe que era basca e em França havia tradicionalmente um grande fascínio por Espanha, misto de fanatismo religioso com a sensualidade, no ritmo das danças bem marcadas e o rubro dos elementos de barbárie, touradas e duelos.