segunda-feira, 24 de junho de 2013
sábado, 22 de junho de 2013
«TODAS AS CARTAS DE AMOR SÃO RIDÍCULAS» - FERNANDO PESSOA
Fernando
e Ofélia
O encontro/desencontro
destes dois seres predestinados para nunca se encontrarem e, uma vez
encontrados, cada um deles viver, um na plena e redentora ilusão de se saber
amado – miticamente «para sempre» -, e outro num mundo alheio, insuspeitado e
ingénuo, votada à desilusão.
Se
Ofélia, tivesse lido o menor dos poemas do seu efémero e improvável «namorado»
onde nada se glosa senão a evidência de que a vida é pura Ficção e a chamada
Ficção a única e impenetrável «verdade» dela, não teria embarcado nessa travessia
do coração para um porto que nunca existiu para o companheiro/fantasma dessa
viagem sem viajante dentro. Ofélia tinha razão quando Fernando vinha com o seu
duplo infernal Álvaro de Campos, que a afastava dela. Fernando
Pessoa teve como única musa o desamor.
No
combate venceu a Literatura, monstro sublime da imaginação, única paixão que
assolou Pessoa.(Eduardo Lourenço)
ALGUMAS CARTAS DE FERNANDO A OFÉLIA, UMA DELAS ESCRITA PELO SEU HETERÓNIMO ÁLVARO DE CAMPOS:
Meu Be«be»zinho lindo:
Não imaginas a graça que te achei
hoje á janella da casa de tua irmã! Ainda bem que estavas alegre e que
mostraste prazer em me ver (Álvaro de Campos).
Tenho estado muito triste, e além d'isso
muito cansado - triste não só por te não poder ver, como também pelas
complicações que outras pessoas teem interposto no nosso caminho. Chego a crer
que a influência constante, insistente, hábil d'essas pessoas; não ralhando
contigo, não se oppondo de modo evidente, mas trabalhando lentamente sobre o
teu espírito, venha a levar-te finalmente a não gostar de mim. Sinto-me já
differente; já não és a mesma que eras no escriptorio. Não digo que tu
própria tenhas dado por isso; mas dei eu, ou, pelo menos, julguei dar por isso.
Oxalá me tenha enganado...
Olha, filhinha: não vejo nada claro no
futuro. Quero dizer: não vejo o que vãe haver, ou o que vãe ser de nós, dado,
de mais a mais, o teu feitio de cederes a todas as influencias de familia, e de
em tudo seres de uma opinião contraria á minha. No escriptorio eras mais
dócil, mais meiga, mais amorável.
Enfim...
Amanhã passo á mesma hora no
Largo de Camões. Poderás tu apparecer à janella?
Sempre e muito teu
CARTA A OFÉLIA
QUEIRÓS - 31 DE MAIO DE 1920
Bebezinho do Nininho-ninho:
Oh!
Venho só quevê pâ dizê ó Bebezinho que gotei muito da catinha dela. Oh!
E também tive munta pena de não tá ó pé do Bebé pâ le dá jinhos.
Oh! O Nininho é pequenininho!
Hoje o Nininho não vai a Belém porque, como não sabia se havia carros,
combinei tá aqui às seis ho'as.
Amanhã, a não sê qu'o Nininho não possa é que sai daqui pelas cinco e
meia. [desenho de uma meia] (isto é a meia das cinco e meia).
Amanhã o Bebé espera pelo Nininho, sim? Em Belém, sim? Sim?
Jinhos, jinhos e mais jinhos.
CARTA A OPHÉLIA
QUEIROZ – 25 DE SETEMBRO DE 1929
Exma. Senhora D. Ophélia Queiroz:
Um abjecto e miserável indivíduo chamado Fernando Pessoa, meu
particular e querido amigo, encarregou-me de comunicar a V. Ex.ª — considerando
que o estado mental dele o impede de comunicar qualquer coisa, mesmo a uma
ervilha seca (exemplo da obediência e da disciplina) — que V. Ex. ª está
proibida de:
(1) pesar menos gramas,
(2) comer pouco,
(3) não dormir nada,
(4) ter febre,
(5) pensar no indivíduo em questão.
Pela minha parte, e como íntimo e sincero amigo que sou do meliante de
cuja comunicação (com sacrifício) me encarrego, aconselho V. Ex.ª a pegar na
imagem mental, que acaso tenha formado do indivíduo cuja citação está
estragando este papel razoavelmente branco, e deitar essa imagem mental na pia,
por ser materialmente impossível dar esse justo Destino à entidade fingidamente
humana a quem ele competiria, se houvesse justiça no mundo.
Cumprimenta V. Ex. ª
Álvaro de Campos
eng. Naval
CARTA A OFÉLIA QUEIRÓS - 9 DE
OUTUBRO DE 1929
Terrivel Bébé
Gosto das suas cartas,
que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e
é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o
bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é sempre, e
eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que a
havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao princípio, e parece-me que ainda
lhe telephono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na bocca, com exactidão e
gulodice e comer-lhe a bocca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e
encostar-me ao seu hombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e
pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto
final até recomeçar, e porque é que a Ophelinha gosta de um meliante e de um
cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gás e
expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e
enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é
como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fôsse uma boneca minha,
e eu fazia como uma criança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto
parece ser impossível ser escripto por um ente humano, mas é escripto por mim .
Cartas de Amor, Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de
David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça
Queiroz.) Lisboa, Ática, 1978 (3ª ed. 1994)
segunda-feira, 17 de junho de 2013
isidore ducasse conde de lautréamont / cantos de maldoror .
Durante toda a minha
vida vi os homens, de ombros estreitos, fazerem, sem uma única excepção, actos
estúpidos e numerosos, embrutecerem os seus semelhantes e perverterem as almas
por todos os meios. Aos motivos das suas acções chamam glória. Ao ver estes
espectáculos, quis rir como os outros; mas isso, estranha imitação, era
impossível. Peguei num canivete, cuja lâmina tinha um afiado gume, e rasguei a
carne nos sítios onde os lábios se reúnem. Por um momento julguei ter atingido
o objectivo. Contemplei num espelho esta boca ferida por minha própria vontade!
Era um erro! O sangue que abundantemente corria dos dois ferimentos não deixava
aliás distinguir bem se era realmente aquele o riso dos outros. Mas, após
alguns instantes de comparação, vi claramente que o meu riso não se assemelhava
ao dos humanos, que eu não ria. Vi os homens, de cabeça feia e terríveis olhos
enterrados na órbita escura, ultrapassarem a dureza do rochedo, a rigidez do
aço fundido, a crueldade do tubarão, a insolência da juventude, a fúria insane
dos criminosos, as traições do hipócrita, os comediantes mais extraordinários,
a força de carácter dos padres, e os seres mais escondidos por fora, os mais
frios dos mundos e do céu; vi-os cansar os moralistas para descobrirem o seu
coração e fazerem recair do alto sobre eles a cólera implacável. Vi-os todos ao
mesmo tempo: ora, com o mais robusto punho erguido para o céu, como o de uma
criança, já perversa, contra a mãe, provavelmente incitados por algum espírito
do inferno, com os olhos carregados de um remorso agudo mas cheio de ódio, num
silêncio glacial, sem ousarem emitir as meditações vastas e ingratas que
abrigavam no peito, tão plenas de injustiça e de horror elas eram, e
entristecerem de compaixão o Deus de misericórdia; ora, em cada momento do dia,
desde o começo da infância até ao fim da velhice, espalhando inacreditáveis
anátemas sem senso comum contra tudo o que respira, contra si próprios e contra
a Providência, prostituírem as mulheres e as crianças e desonrarem assim as
partes do corpo consagradas ao pudor. Então, os mares erguem as suas águas,
engolem as tábuas nos seus abismos; os furacões e os tremores de terra derrubam
as casas; a peste e as diversas doenças dizimam as famílias em oração. Mas os
homens não dão por isso. Também os vi a corarem e empalidecerem de vergonha
pelo seu comportamento sobre a terra; raramente. Tempestades, irmãs dos
furacões; firmamento azulado, cuja beleza não admito; mar hipócrita, imagem do
meu coração; terra, de misterioso seio; habitantes das esferas; universo
inteiro; Deus, que com magnificência o criaste, é a ti que eu invoco: mostra-me
um homem que seja bom!... Mas que a tua graça multiplique por dez as minhas
forças naturais; pois, perante o espectáculo desse monstro, posso morrer de
espanto; morre-se por menos.
isidore ducasse
conde de lautréamont
cantos de maldoror
poesias
cantos de maldoror
poesias
.
sexta-feira, 7 de junho de 2013
BILLIE HOLIDAY: SOLO - AMADEU BAPTISTA
Não tenho mais visões, não tenho obsessões,
sigo a trompete apenas, a ternura
é esse outro lado das coisas em que me perco
porque nada mais me chama e nada mais
revejo no lentíssimo torpor que pelas veias
senti outrora num azul imenso
que mais do que tocar-me me esvaía
no inferno do mundo e em seus ramais
de pura nostalgia, tristeza e desencanto.
Só ergo agora a voz para esquecer
e ter o olhar toldado para as coisas
que como grito lancinante escuto no silêncio
enquanto outras vozes me chamam,
outros indícios me vêm perturbar
quando pressinto a noite antíquissima
em que se esconde o sobressalto da serenidade do meu tempo. Nem já a sombra aguardo
ou o sentido destes brilhos espessos,
estas chamas que consomem o meu corpo
e a minha alma no mistério de tudo
e no liminar enigma que adensa nos outros
os sentidos, certa atenção venal, um desespero
que em fumos e rastros me pergunta
por esta vida que já não é minha
e no coração recebo como salvação e ruína.
Sigo a trompete, o subtil sinal da despedida.
Só ergo agora a voz para esquecer.
Amadeu Baptista
quinta-feira, 6 de junho de 2013
AMADEU BAPTISTA - XXIX PRÉMIO POESIA CIDADE DE OURENSE
A NOITE DE PAVESE
Raras vezes me franquearam a porta
e deixaram entrar. A febre
sitia-me a alma e quem me vê
assusta-se do aspecto do meu rosto,
esta barba por fazer onde um rouxinol
se esconde. E mais ainda assusta
a minha altura, este lugar de vertigem
e palavras poderosas, a presença
de ilimitados segredos que ninguém quer
conhecer, o estremecimento que corre
nos meus ombros. Embora nada peça, sabem que
sou um pedinte. E quando entro nas casas os meus gestos afeiçoam-se a alguma
coisa enigmática que contorna o pavor e o entrega
por não se saber que espécie de vida
ou de morte vem comigo. Obviamente, eu
abençoo quem me deixa entrar, dou a entender
que alguma coisa brilha nas minhas mãos
e posso matar a fome com uma ou outra palavra
próxima do amor, um dedo nos cabelos
de quem me recebe. Subi as escadas que vão
dar a esta casa em silêncio e em silêncio aceitei
que me aguardassem com as inefáveis sombras
que vejo nos outros e tento decifrar para meu contentamento. Mandaram-me sentar
e deram-me de beber. Esse álcool
reconfortou-me a alma. E a minha gratidão
expressa-se deste modo, limpo e nítido, observando a mulher nesse sem fim das
coisas, onde todos os mistérios avançam
para uma explicação que a qualquer momento
pode irromper do espírito como uma explosão.
Olho-te nos olhos e recebo as duas moedas
que me ofereces, o teu rosto é-me familiar
se recuar à infância e subitamente perceber
que também pertenci ao exercício desta árvore
que nesta sala se levanta. Em frente,
na fotografia que o meu olhar alcança
porque me alcança o olhar que dela
se desprende, inscreve-se o enigma que me fez
aqui chegar, mais que um rumor ou um fio ténue com o nome de todas as coisas
inesperadas que me aconteceram na vida, sempre que me franquearam a porta e
deixaram entrar. Agora, com a memória de ter estado
em tua casa e ter recebido a graça de alguma
atenção, eu, que sou pedinte embora nada peça,
entrego-te este sulco da desordem
sobre a página em branco e agradeço-te
com o conhecimento de um outro mundo
ainda mais inexplicável. Não tendo havido
despedida, sabe que permaneço
e na encruzilhada das dores que me couberam
viver não esquecerei o teu nome no dia
em que também tiver partido
e mais nenhuma luz houver além daquela
que ilumina o teu rosto na solidão da noite.
Os anjos esperam-me. Não me é possível
demorar. Que me seja a alba a tua tolerância.
AMADEU BAPTISTA
sexta-feira, 31 de maio de 2013
NÃO ACREDITE EM TUDO QUE PENSA. MITOS DO SENSO COMUM NA ERA DA AUSTERIDADE.
Temos vivido sob um discurso ideológico de direita, que
prega o neoliberalismo e a austeridade que preponderam como «mitos do senso
comum». Não há nada fazer? Há muito a fazer!
Hoje em dia debates, seguem-se a debates, muito se fala, mas
sempre se foge às abordagens essenciais! Porque não se questiona se não seria
melhor Portugal sair da União Europeia? E analisar quais os impactos desta
saída e se os vaticínios mais catastrofistas serão mesmo inevitáveis? Porque
não perguntar aos portugueses se lhes é relevante, esta situação de estar na
EU, com a ilusão de estar no centro? Portugal é um país semi-periférico com
limitada importância nas instâncias internacionais. Os portugueses estão a
viver mitos, mas qual é a sua situação real neste xadrez? O que querem os
portugueses? Há alternativas e pessoas capazes de lhes dar viabilidade? Com
certeza que há e com a nobre postura de servir o país.
O caso da dívida tem uma carga ideológica forte da direita,
mas a História mostra-nos, muitos exemplos, que não pagar a dívida, foi muitas
vezes um imperativo nacional. A direita considera o seu pagamento uma
inevitabilidade, essa é a sua convicção.
Tudo começou ou muito passou por aí, do argumento de estarmos
a gastar mais que as nossas possibilidades, mas isso resulta de uma política
europeia de liberalização dos mercados monetários e financeiros, com vista à
criação de uma união monetária entre países muito diferentes, da qual Portugal
fez parte, o que tornou o crédito mais acessível. Fomos incentivados para
consumir. Neste contexto, não só os países do sul da Europa estão endividados,
segundo dados da Eurostat, também estão os do centro e do norte: Dinamarca,
Holanda, Irlanda, Noruega, Suécia e Reino Unido.
Viver fixado no consumo, foi uma perspectiva de aliciamento
e no entanto segundo dados do Banco de Portugal e do Instituo Nacional de
Estatística, os empréstimos para a habitação foram maioritários, por um sistema
de crédito bonificado e de um conjunto de incentivos fiscais favoráveis.
A Comunicação Social, na sua grande maioria faz um discurso
de pensamento único, segue-o e pouco o questiona. Obviamente que os mais
importantes veículos de informação estão nas mãos de grandes grupos económicos.
É de reconhecer no entanto, que alguns jornalistas apostam na diferença, embora
depois sofram as consequências.
Miguel Cardina
Acabou de sair um livro, com a participação de várias
pessoas, para as quais investigação e política andam de mãos dadas, o livro
intitula-se: NÃO ACREDITE EM TUDO QUE PENSA. MITOS DO SENSO COMUM NA ERA DA
AUSTERIDADE.
Alguns mitos são: Temos
vivido acima das nossas possibilidades, Temos de pagar a Dívida, O desemprego é
uma oportunidade, Há professores a mais e Alunos a menos, A Cultura pode Viver
do Mercado, Isto não vai lá com Manifestações….são vários os temas.
O título deste livro é uma
provocação. É bem sabido que temos uma certa tendência para nos sintonizarmos
mais facilmente com o que já confirma os nossos juízos. O desafio no sentido
inverso: não acreditar em tudo o que se pensa. Ou seja, estar disponível para
pôr em causa o que eventualmente tenha como óbvio sobre as grandes questões
políticas dos nossos dias.
Uma das maiores dificuldades para compreendermos o que nos está a acontecer reside no simplismo das explicações que circulam sobre a origem dos nossos males e que impede, em grande medida, a sua superação. Expressões como «andámos a viver acima das nossas possibilidades», «a culpa é dos políticos», «temos de ser empreendedores», «é preciso fazer sacrifícios para pagar a dívida», entre tantas outras, instalaram-se no nosso quotidiano. São repetidas incessantemente nos mais variados lugares e a repetição cristaliza essas ideias como naturais. Os debates mais urgentes que temos pela frente são aqueles que tomam estas expressões como o objeto de discussão. Precisamente porque a força insidiosa destas ideias consiste em se insinuarem como autoevidentes.
Uma das maiores dificuldades para compreendermos o que nos está a acontecer reside no simplismo das explicações que circulam sobre a origem dos nossos males e que impede, em grande medida, a sua superação. Expressões como «andámos a viver acima das nossas possibilidades», «a culpa é dos políticos», «temos de ser empreendedores», «é preciso fazer sacrifícios para pagar a dívida», entre tantas outras, instalaram-se no nosso quotidiano. São repetidas incessantemente nos mais variados lugares e a repetição cristaliza essas ideias como naturais. Os debates mais urgentes que temos pela frente são aqueles que tomam estas expressões como o objeto de discussão. Precisamente porque a força insidiosa destas ideias consiste em se insinuarem como autoevidentes.
Inclui textos de Ana Cordeiro Santos | Ricardo Sequeiros Coelho |
José Castro Caldas | Mariana Mortágua | Elísio Estanque | Francisco Louçã |
José Soeiro | Luís Fernandes | Nuno Serra | António Rodrigues | Sílvia Ferreira
| Paulo Pedroso | Catarina Martins | Manuel Jacinto Sarmento | Fernando Rosas |
Mª José Casa-Nova | Manuel Loff | Miguel Cardina
Coordenação de: Nuno Serra, Miguel Cardina,
José Soeiro
Tinta da China (abril de 2013)
Tinta da China (abril de 2013)
PARA QUE A MEMÓRIA NÃO SE APAGUE ... FAZ 60 ANOS!
ACORDO DE LONDRES SOBRE AS DÍVIDAS ALEMÃS
Entre os países que perdoaram 50% da dívida alemã estão a Espanha, Grécia e Irlanda.
O Acordo de Londres de 1953 sobre a divida alemã foi assinado em 27 de Fevereiro, depois de duras negociações com representantes de 26 países, com especial relevância para os EUA, Holanda, Reino Unido e Suíça, onde estava concentrada a parte essencial da dívida.
A dívida total foi avaliada em 32 biliões de marcos, repartindo-se em partes iguais em dívida originada antes e após a II Guerra. Os EUA começaram por propor o perdão da dívida contraída após a II Guerra. Mas, perante a recusa dos outros credores, chegou-se a um compromisso. Foi perdoada cerca de 50% (Entre os países que perdoaram a dívida estão a Espanha, Grécia e Irlanda) da dívida e feito o reescalonamento da dívida restante para um período de 30 anos. Para uma parte da dívida este período foi ainda mais alongado. E só em Outubro de 1990, dois dias depois da reunificação, o Governo emitiu obrigações para pagar a dívida contraída nos anos 1920.
O acordo de pagamento visou, não o curto prazo, mas antes procurou assegurar o crescimento económico do devedor e a sua capacidade efectiva de pagamento.
O acordo adoptou três princípios fundamentais:
1. Perdão/redução substancial da dívida;
2. Reescalonamento do prazo da divida para um prazo longo;
3. Condicionamento das prestações à capacidade de pagamento do devedor.
O pagamento devido em cada ano não pode exceder a capacidade da economia. Em caso de dificuldades, foi prevista a possibilidade de suspensão e de renegociação dos pagamentos. O valor dos montantes afectos ao serviço da dívida não poderia ser superior a 5% do valor das exportações. As taxas de juro foram moderadas, variando entre 0 e 5 %.
A grande preocupação foi gerar excedentes para possibilitar os pagamentos sem reduzir o consumo. Como ponto de partida, foi considerado inaceitável reduzir o consumo para pagar a dívida.
O pagamento foi escalonado entre 1953 e 1983. Entre 1953 e 1958 foi concedida a situação de carência durante a qual só se pagaram juros.
Outra característica especial do acordo de Londres de 1953, que não encontramos nos acordos de hoje, é que no acordo de Londres eram impostas também condições aos credores - e não só aos paises endividados. Os países credores, obrigavam-se, na época, a garantir de forma duradoura, a capacidade negociadora e a fluidez económica da Alemanha.
Uma parte fundamental deste acordo foi que o pagamento da dívida deveria ser feito somente com o superavit da balança comercial. 0 que, "trocando por miúdos", significava que a RFA só era obrigada a pagar o serviço da dívida quando conseguisse um saldo de dívisas através de um excedente na exportação, pelo que o Governo alemão não precisava de utilizar as suas reservas cambiais.
EM CONTRA PARTIDA, os credores obrigavam-se também a permitir um superavit na balança comercial com a RFA - concedendo à Alemanha o direito de, segundo as suas necessidades, levantar barreiras unilaterais às importações que a prejudicassem.
segunda-feira, 27 de maio de 2013
POEMAS DE GOLGONA ANGHEL
Aos
Sábados repousava:
instalava-me no lugar mais
cómodo
da minha cultura ocidental,
de cachimbo num quadro de
época,
e levantava com o olhar
as rolas passeabundas da
marquise.
Nos
intervalos,
cultivava em pequenos
parágrafos,
ao lado de couves-flor à
sombra dum ginjal,
a história universal
do jeito como andas pela
sala,
Adélia, Rosa-Maria, Lulú,
toda feita de rendas, toda
gazes e veludos,
toda cheia de recantos
africanos,
penas e cheiros, paisagens
com garrafas,
pretos e pelicanos,
savanas e leopardos, minas
gerais,
anéis e diamantes,
casas de campo em Vigo,
Barcelona, Abrantes,
toda feita contas em dólares
nos bancos da Suíça,
vistos para Estados Unidos,
minha fufa, minha farofa com
linguiça,
toda Armani,
toda Gucci,
toda despida nos filmes de
Mizoguchi.
À mesma hora,
na sala de microfilmes da
Torre do Tombo,
uma turma de dez alunos
curiosos
desfia o pergaminho do meu
cancioneiro pessoal
num aparato crítico
fundamental:
Filho de mãe incógnita,
fruto de um amor irregular,
(toma nota e vê lá se
aprendes):
Carlos Fradique Mendes.
***
Não me
interessa o que
dizem os dissidentes da
ditadura.
Mas confesso que gostava dos
chocolates Toblerone
que a minha tia me trazia no
Natal.
Não
acredito nos detidos políticos,
nem me impressionam os miúdos descalços
que mostram os dentes para as máquinas Minolta
dos turistas italianos.
Não vou
pedir asilo.
Desconheço os avanços
ou retrocessos económicos do meu país.
Já falei de Drácula que chegue.
Já apanhei morangos na Andaluzia.
Já fui cigana, já fui puta.
Escusam de mo perguntar outra vez.
O que
me preocupa – e isso, sim, pode ser relevante
para o fim da história – é
saber
quando é que me transformei,
eu que era uma loba
solitária,
neste caniche de apartamento
que vos fala agora?
***
Abro a
porta.
Olho constantemente para o
mapa
mas já não me lembro para
onde queria ir.
Podia ficar aqui,
enquanto a noite respira nas
janelas embaciadas.
Os móveis apagam-me os
passos
em ângulos cegos
e, nessas sombras do
incerto,
deixo que o cansaço me tire
a peruca da paciência
assim como a noite nos tira
a roupa
antes de dormir.
Isolado
num cantinho da boca entreaberta,
o teu sorriso
vai contribuindo para o genocídio dos camarões
que o vinho branco torna sempre menos sangrento.
Poderia, de facto, ficar aqui
enquanto desapareces, por fim, num sono sem importância.
Vou
esvaziando os copos
e começo a compilar beijos,
como quem junta, à pressa,
moedas caídas pelo chão:
somos todas putas, rapaz,
com ou sem vodka.
***
Vim
porque me pagavam,
e eu queria comprar o futuro
a prestações.
Vim
porque me falaram de apanhar cerejas
ou de armas de destruição em massa.
Mas só encontrei cucos e mexericos de feira,
metralhadoras de plástico, coelhinhos da Páscoa e pulseiras
de lata.
A
bordo, alguém falou de justiça
(não, não era o Marx).
A bordo, falavam também de liberdade.
Quantos mais morríamos,
mais liberdade tínhamos para matar.
Matava porque estavas perto,
porque os outros ficaram na esquina do supermercado
a falar, a debater o assunto.
Com
estas mãos levantei a poeira
com que agora cubro os nossos corpos.
Com
estas pernas subi dez andares
para assim te poder olhar de frente.
Alguém
se atreve ainda a falar de posteridade?
Eu só penso em como
regressar a casa;
e que bonito me fica a
esperança
enquanto apresento em
directo
a autópsia da minha glória.
[in Vim
porque me pagavam, Mariposa Azual, 2011]
Assinar:
Postagens (Atom)






