O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

quinta-feira, 6 de junho de 2013

AMADEU BAPTISTA - XXIX PRÉMIO POESIA CIDADE DE OURENSE


A NOITE DE PAVESE

Raras vezes me franquearam a porta
e deixaram entrar. A febre
sitia-me a alma e quem me vê
assusta-se do aspecto do meu rosto,
esta barba por fazer onde um rouxinol
se esconde. E mais ainda assusta
a minha altura, este lugar de vertigem
e palavras poderosas, a presença
de ilimitados segredos que ninguém quer conhecer, o estremecimento que corre
nos meus ombros. Embora nada peça, sabem que sou um pedinte. E quando entro nas casas os meus gestos afeiçoam-se a alguma coisa enigmática que contorna o pavor e o entrega
por não se saber que espécie de vida
ou de morte vem comigo. Obviamente, eu abençoo quem me deixa entrar, dou a entender
que alguma coisa brilha nas minhas mãos
e posso matar a fome com uma ou outra palavra próxima do amor, um dedo nos cabelos
de quem me recebe. Subi as escadas que vão dar a esta casa em silêncio e em silêncio aceitei
que me aguardassem com as inefáveis sombras que vejo nos outros e tento decifrar para meu contentamento. Mandaram-me sentar
e deram-me de beber. Esse álcool
reconfortou-me a alma. E a minha gratidão expressa-se deste modo, limpo e nítido, observando a mulher nesse sem fim das coisas, onde todos os mistérios avançam
para uma explicação que a qualquer momento pode irromper do espírito como uma explosão.
Olho-te nos olhos e recebo as duas moedas
que me ofereces, o teu rosto é-me familiar
se recuar à infância e subitamente perceber
que também pertenci ao exercício desta árvore
que nesta sala se levanta. Em frente,
na fotografia que o meu olhar alcança
porque me alcança o olhar que dela
se desprende, inscreve-se o enigma que me fez aqui chegar, mais que um rumor ou um fio ténue com o nome de todas as coisas inesperadas que me aconteceram na vida, sempre que me franquearam a porta e deixaram entrar. Agora, com a memória de ter estado
em tua casa e ter recebido a graça de alguma atenção, eu, que sou pedinte embora nada peça,
entrego-te este sulco da desordem
sobre a página em branco e agradeço-te
com o conhecimento de um outro mundo
ainda mais inexplicável. Não tendo havido despedida, sabe que permaneço
e na encruzilhada das dores que me couberam viver não esquecerei o teu nome no dia
em que também tiver partido
e mais nenhuma luz houver além daquela
que ilumina o teu rosto na solidão da noite.
Os anjos esperam-me. Não me é possível demorar. Que me seja a alba a tua tolerância.

AMADEU BAPTISTA



sexta-feira, 31 de maio de 2013

NÃO ACREDITE EM TUDO QUE PENSA. MITOS DO SENSO COMUM NA ERA DA AUSTERIDADE.

Temos vivido sob um discurso ideológico de direita, que prega o neoliberalismo e a austeridade que preponderam como «mitos do senso comum». Não há nada fazer? Há muito a fazer!
Hoje em dia debates, seguem-se a debates, muito se fala, mas sempre se foge às abordagens essenciais! Porque não se questiona se não seria melhor Portugal sair da União Europeia? E analisar quais os impactos desta saída e se os vaticínios mais catastrofistas serão mesmo inevitáveis? Porque não perguntar aos portugueses se lhes é relevante, esta situação de estar na EU, com a ilusão de estar no centro? Portugal é um país semi-periférico com limitada importância nas instâncias internacionais. Os portugueses estão a viver mitos, mas qual é a sua situação real neste xadrez? O que querem os portugueses? Há alternativas e pessoas capazes de lhes dar viabilidade? Com certeza que há e com a nobre postura de servir o país.
O caso da dívida tem uma carga ideológica forte da direita, mas a História mostra-nos, muitos exemplos, que não pagar a dívida, foi muitas vezes um imperativo nacional. A direita considera o seu pagamento uma inevitabilidade, essa é a sua convicção.
Tudo começou ou muito passou por aí, do argumento de estarmos a gastar mais que as nossas possibilidades, mas isso resulta de uma política europeia de liberalização dos mercados monetários e financeiros, com vista à criação de uma união monetária entre países muito diferentes, da qual Portugal fez parte, o que tornou o crédito mais acessível. Fomos incentivados para consumir. Neste contexto, não só os países do sul da Europa estão endividados, segundo dados da Eurostat, também estão os do centro e do norte: Dinamarca, Holanda, Irlanda, Noruega, Suécia e Reino Unido.
Viver fixado no consumo, foi uma perspectiva de aliciamento e no entanto segundo dados do Banco de Portugal e do Instituo Nacional de Estatística, os empréstimos para a habitação foram maioritários, por um sistema de crédito bonificado e de um conjunto de incentivos fiscais favoráveis.
A Comunicação Social, na sua grande maioria faz um discurso de pensamento único, segue-o e pouco o questiona. Obviamente que os mais importantes veículos de informação estão nas mãos de grandes grupos económicos. É de reconhecer no entanto, que alguns jornalistas apostam na diferença, embora depois sofram as consequências.

Miguel Cardina

Acabou de sair um livro, com a participação de várias pessoas, para as quais investigação e política andam de mãos dadas, o livro intitula-se: NÃO ACREDITE EM TUDO QUE PENSA. MITOS DO SENSO COMUM NA ERA DA AUSTERIDADE.
Alguns mitos são: Temos vivido acima das nossas possibilidades, Temos de pagar a Dívida, O desemprego é uma oportunidade, Há professores a mais e Alunos a menos, A Cultura pode Viver do Mercado, Isto não vai lá com Manifestações….são vários os temas.

O título deste livro é uma provocação. É bem sabido que temos uma certa tendência para nos sintonizarmos mais facilmente com o que já confirma os nossos juízos. O desafio no sentido inverso: não acreditar em tudo o que se pensa. Ou seja, estar disponível para pôr em causa o que eventualmente tenha como óbvio sobre as grandes questões políticas dos nossos dias.
Uma das maiores dificuldades para compreendermos o que nos está a acontecer reside no simplismo das explicações que circulam sobre a origem dos nossos males e que impede, em grande medida, a sua superação. Expressões como «andámos a viver acima das nossas possibilidades», «a culpa é dos políticos», «temos de ser empreendedores», «é preciso fazer sacrifícios para pagar a dívida», entre tantas outras, instalaram-se no nosso quotidiano. São repetidas incessantemente nos mais variados lugares e a repetição cristaliza essas ideias como naturais. Os debates mais urgentes que temos pela frente são aqueles que tomam estas expressões como o objeto de discussão. Precisamente porque a força insidiosa destas ideias consiste em se insinuarem como autoevidentes.
Inclui textos de Ana Cordeiro Santos | Ricardo Sequeiros Coelho | José Castro Caldas | Mariana Mortágua | Elísio Estanque | Francisco Louçã | José Soeiro | Luís Fernandes | Nuno Serra | António Rodrigues | Sílvia Ferreira | Paulo Pedroso | Catarina Martins | Manuel Jacinto Sarmento | Fernando Rosas | Mª José Casa-Nova | Manuel Loff | Miguel Cardina
Coordenação de: Nuno Serra, Miguel Cardina, José Soeiro 
Tinta da China (abril de 2013)

PARA QUE A MEMÓRIA NÃO SE APAGUE ... FAZ 60 ANOS!


ACORDO DE LONDRES SOBRE AS DÍVIDAS ALEMÃS

Entre os países que perdoaram 50% da dívida alemã estão a Espanha,
 Grécia e Irlanda.

O Acordo de Londres de 1953 sobre a divida alemã foi assinado em 27 de Fevereiro, depois de duras negociações com representantes de 26 países, com especial relevância para os EUA, Holanda, Reino Unido e Suíça, onde estava concentrada a parte essencial da dívida.

A dívida total foi avaliada em 32 biliões de marcos, repartindo-se em partes iguais em dívida originada antes e após a II Guerra. Os EUA começaram por propor o perdão da dívida contraída após a II Guerra. Mas, perante a recusa dos outros credores, chegou-se a um compromisso. Foi perdoada cerca de 50% (Entre os países que perdoaram a dívida estão a Espanha, Grécia e Irlanda) da dívida e feito o reescalonamento da dívida restante para um período de 30 anos. Para uma parte da dívida este período foi ainda mais alongado. E só em Outubro de 1990, dois dias depois da reunificação, o Governo emitiu obrigações para pagar a dívida contraída nos anos 1920.

O acordo de pagamento visou, não o curto prazo, mas antes procurou assegurar o crescimento económico do devedor e a sua capacidade efectiva de pagamento.

O acordo adoptou três princípios fundamentais:
1. Perdão/redução substancial da dívida;
2. Reescalonamento do prazo da divida para um prazo longo;
3. Condicionamento das prestações à capacidade de pagamento do devedor.

O pagamento devido em cada ano não pode exceder a capacidade da economia. Em caso de dificuldades, foi prevista a possibilidade de suspensão e de renegociação dos pagamentos. O valor dos montantes afectos ao serviço da dívida não poderia ser superior a 5% do valor das exportações. As taxas de juro foram moderadas, variando entre 0 e 5 %.

A grande preocupação foi gerar excedentes para possibilitar os pagamentos sem reduzir o consumo. Como ponto de partida, foi considerado inaceitável reduzir o consumo para pagar a dívida.

O pagamento foi escalonado entre 1953 e 1983. Entre 1953 e 1958 foi concedida a situação de carência durante a qual só se pagaram juros.

Outra característica especial do acordo de Londres de 1953, que não encontramos nos acordos de hoje, é que no acordo de Londres eram impostas também condições aos credores - e não só aos paises endividados. Os países credores, obrigavam-se, na época, a garantir de forma duradoura, a capacidade negociadora e a fluidez económica da Alemanha.

Uma parte fundamental deste acordo foi que o pagamento da dívida deveria ser feito somente com o superavit da balança comercial. 0 que, "trocando por miúdos", significava que a RFA só era obrigada a pagar o serviço da dívida quando conseguisse um saldo de dívisas através de um excedente na exportação, pelo que o Governo alemão não precisava de utilizar as suas reservas cambiais.

EM CONTRA PARTIDA, os credores obrigavam-se também a permitir um superavit na balança comercial com a RFA - concedendo à Alemanha o direito de, segundo as suas necessidades, levantar barreiras unilaterais às importações que a prejudicassem.


 


segunda-feira, 27 de maio de 2013

POEMAS DE GOLGONA ANGHEL



Aos Sábados repousava:
instalava-me no lugar mais cómodo
da minha cultura ocidental,
de cachimbo num quadro de época,
e levantava com o olhar
as rolas passeabundas da marquise.

Nos intervalos,
cultivava em pequenos parágrafos,
ao lado de couves-flor à sombra dum ginjal,
a história universal
do jeito como andas pela sala,
Adélia, Rosa-Maria, Lulú,
toda feita de rendas, toda gazes e veludos,
toda cheia de recantos africanos,
penas e cheiros, paisagens com garrafas,
pretos e pelicanos,
savanas e leopardos, minas gerais,
anéis e diamantes,
casas de campo em Vigo, Barcelona, Abrantes,
toda feita contas em dólares nos bancos da Suíça,
vistos para Estados Unidos,
minha fufa, minha farofa com linguiça,
toda Armani,
toda Gucci,
toda despida nos filmes de Mizoguchi.
À mesma hora,
na sala de microfilmes da Torre do Tombo,
uma turma de dez alunos curiosos
desfia o pergaminho do meu cancioneiro pessoal
num aparato crítico fundamental:
Filho de mãe incógnita,
fruto de um amor irregular,
(toma nota e vê lá se aprendes):
Carlos Fradique Mendes.

***
Não me interessa o que
dizem os dissidentes da ditadura.
Mas confesso que gostava dos chocolates Toblerone
que a minha tia me trazia no Natal.

Não acredito nos detidos políticos,
nem me impressionam os miúdos descalços
que mostram os dentes para as máquinas Minolta
dos turistas italianos.

Não vou pedir asilo.
Desconheço os avanços
ou retrocessos económicos do meu país.
Já falei de Drácula que chegue.
Já apanhei morangos na Andaluzia.
Já fui cigana, já fui puta.
Escusam de mo perguntar outra vez.

O que me preocupa – e isso, sim, pode ser relevante
para o fim da história – é saber
quando é que me transformei,
eu que era uma loba solitária,
neste caniche de apartamento que vos fala agora?

***
Abro a porta.
Olho constantemente para o mapa
mas já não me lembro para onde queria ir.
Podia ficar aqui,
enquanto a noite respira nas janelas embaciadas.
Os móveis apagam-me os passos
em ângulos cegos
e, nessas sombras do incerto,
deixo que o cansaço me tire a peruca da paciência
assim como a noite nos tira a roupa
antes de dormir.

Isolado num cantinho da boca entreaberta,
o teu sorriso
vai contribuindo para o genocídio dos camarões
que o vinho branco torna sempre menos sangrento.
Poderia, de facto, ficar aqui
enquanto desapareces, por fim, num sono sem importância.

Vou esvaziando os copos
e começo a compilar beijos,
como quem junta, à pressa, moedas caídas pelo chão:
somos todas putas, rapaz,
com ou sem vodka.

***
Vim porque me pagavam,
e eu queria comprar o futuro a prestações.

Vim porque me falaram de apanhar cerejas
ou de armas de destruição em massa.
Mas só encontrei cucos e mexericos de feira,
metralhadoras de plástico, coelhinhos da Páscoa e pulseiras
de lata.

A bordo, alguém falou de justiça
(não, não era o Marx).
A bordo, falavam também de liberdade.
Quantos mais morríamos,
mais liberdade tínhamos para matar.
Matava porque estavas perto,
porque os outros ficaram na esquina do supermercado
a falar, a debater o assunto.

Com estas mãos levantei a poeira
com que agora cubro os nossos corpos.

Com estas pernas subi dez andares
para assim te poder olhar de frente.

Alguém se atreve ainda a falar de posteridade?
Eu só penso em como regressar a casa;
e que bonito me fica a esperança
enquanto apresento em directo
a autópsia da minha glória.

[in Vim porque me pagavam, Mariposa Azual, 2011]

sábado, 25 de maio de 2013

SENA DA SILVA


António Martins Sena da Silva (24 de Janeiro de 1926 - 26 de Setembro de 2001), designer, arquitecto, artista plástico, fotógrafo, cronista, pedagogo e empresário, foi um dos principais divulgadores do design em Portugal.
Uma «matriz humanista», a que não é alheia a influência neorrealista, e a natural contaminação do desenho: Eis o enquadramento da exposição patente na CORDOARIA NACIONAL, em Lisboa.
«Há nas suas imagens uma especial atenção ao contexto histórico, aos anónimos, às pessoas da cidade e às circunstâncias difíceis em que vivia uma boa parte da população. Mas o que o distingue de outros fotógrafos da sua geração é a relação com o desenho, com o design, que se traduz num certo sentido de composição. No trabalho formal do modo de enquadrar. A sua plasticidade visual torna-o mais ecléctico».
Sérgio Mah, investigador e professor da Ciências da Comunicação e comissário desta exposição.
Sena da Silva faz parte de uma geração: Victor Palla, Costa Martins, Gerard Castelo-Lopes, Carlos Calvet , Carlos Afonso Dias, que fundaram a moderna fotografia portuguesa, sem se conhecerem bem uns aos outros.
Sena da Silva, experimentou a experiência criativa do olhar. E a exposição está para ver com trabalhos, que nunca foram expostos!



terça-feira, 14 de maio de 2013

SAINT-JOHN PERSE

Saint-John Perse, pseudónimo de Alexis Leger (Pointe-à-Pitre, 31 de maio de 1887 — Giens, 20 de setembro de 1975) poeta e diplomata francês.Recebeu o Nobel de Literatura de 1960.

Anabase

Fragmentos de Anabase

Estabelecendo-me com honra sobre três grandes estações,
auguro bem do solo onde fundei a minha lei.
As armas na manhã são belas e o mar.
Exposta a nossos cavalos, a terra sem amêndoas
traz-nos este céu incorruptível. E o sol não é sequer nomeado,
mas o seu poder está entre nós
e o mar na manhã como uma conjectura do espírito.

Poder, tu cantavas nas nossas estradas nocturnas!...
Nos idos puros da manhã que sabemos nós do sonho, nossa procedência?
Por mais um ano ainda entre vós!
Senhor do grão, senhor do sal, e a coisa pública sobre justas balanças!
Nunca chamarei por gentes doutra margem.
Não traçarei nunca grandes
bairros urbanos pelas encostas com o açúcar dos corais.
Mas tenciono viver entre vós.
No limiar das tendas inteira glória! a minha força entre vós!
e a ideia pura como um sal faz-se pública em pleno dia.

Parado o meu cavalo sob a árvore que arrulha,
lanço um assobio mais puro... E paz àqueles que, se vão morrer,
não chegaram a ver este dia.
Mas de meu irmão, o poeta, tivemos nós notícias.
Mais uma vez escreveu uma coisa muito doce.
E alguns tiveram dela conhecimento...

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estreitos são os navios

fragmentos

I

…Estreitos são os navios, como estreito o nosso tálamo.
Imensa a extensão das águas, mais vasto o nosso império
Nas câmaras cerradas do desejo.

Entra o Verão, que vem do mar. Somente ao mar diremos
Os estrangeiros que fomos nas festas da Cidade, e qual o astro subindo das festas submarinas
Que veio uma noite, sobre o nosso tálamo, farejar o leito do divino.

Em vão a terra próxima nos vai traçando a sua fronteira. Uma única vaga através do mundo, uma única vaga desde Tróia
Até nós vem rolando a sua anca. No muito grande largo, ao largo, longe de nós, outrora este sopro se imprimiu...
E uma noite nas câmaras foi imenso o rumor: a própria morte, nem ao som de búzios, de modo algum aí se faria ouvir!

Amai os navios, ó pares apaixonados; e o mar alto no interior dos quartos!
Uma tarde a terra chora os seus deuses, e o homem dá caça às feras ruivas; as cidades usam-se, as mulheres sonham... Que exista sempre à nossa porta
Esta alvorada imensa chamada mar — escol de largas asas e levantamento armado, amor e mar do mesmo leito, amor e mar no mesmo leito —

e de novo este diálogo dentro dos quartos:

saint-john perse
estreitos são os navios (fragmentos)
vozes da poesia europeia III
traduções de david mourão ferreira

sábado, 11 de maio de 2013

MARTHA GRAHAM


A 11 de Maio de 1894, nasceu uma das maiores bailarinas de todos os tempos, Martha Graham.
A sua biografia, faz referência a uma conversa que teve com o pai. Nessa conversa estava a mentir e o pai fez-lhe ver, que não estava a dizer a verdade, porque pelos gestos, maneira de olhar, tudo lhe dizia que estava a mentir. Martha guardou essa lição, como essência de verdade nos movimentos primitivos do corpo e encontrou uma forma revolucionária de dançar. Enquanto Isadora Duncan se serviu da música e da poesia, para inspirar as suas danças, longe da rigidez do ballet clássico, sendo considerada a criadora da dança moderna, Martha Graham, foi mais radical, dando toda a prioridade ao corpo e ao movimento, sendo a música criada posteriormente, em função das emoções arrancadas das entranhas e sempre na descoberta do que o corpo é capaz de fazer. Chamavam-lhe «a acrobata de Deus». O corpo tem uma linguagem extraordinária, consegue dizer aquilo, que não há palavras que digam e por vezes diz o que não queríamos que se soubesse.
«Quando estamos muito perturbados, há um brusco mergulho interior. A dançar, eu mostrava por fora o que nos acontece por dentro: todo o mau corpo caía por terra».
Não foi fácil a aceitação pelo público deste novo estilo, mas depois de várias privações, atingiu o sucesso. Fez o seu último espetáculo com 75 anos em 1996 e ressurgiu três anos depois, como diretora da companhia, assumindo depois a coreografia por quase 20 anos. Morreu em 1991.
CURIOSIDADE: Diante dos quadros de KandinskY, «quase desmaiei, porque percebi que não estava louca, outros viam o mundo e a arte da mesma maneira que eu»!



terça-feira, 7 de maio de 2013

ISADORA DUNCAN


A 27 de maio de 1877, nasceu a mítica Isadora Duncan. Para ela, mais que a educação geral que uma criança tem na escola, foram marcantes os serões, nos quais a mãe tocava Beethoven, Schumann, Schubert, Mozart, Chopin…e lia Shakespeare, Shelley, Keats…
O seu trabalho foi feito para desenvolver um método de consistência inabalável, rejeitando o ballet clássico. Estudou profundamente escultura e literatura grega, filosofia e música. Era inconformista e desafiadora, inspirando-se no poeta Walt Whitman, no culto do corpo como ligação à Natureza e ao divino.
Não foi fácil para Isadora ter êxito na América, foi preciso ir para Londres, e depois regressar com a sua áurea de bailarina excecional. Fazia espetáculos belíssimos onde aparecia descalça, roupas largas que completavam a harmonia dos seus «movimentos naturais», já que a nudez seria ousadia excessiva.
Obteve um grande êxito internacional, tornou-se um ícone do século XX.


Muitos lembrarão as várias tragédias que lhe ensombraram a vida. A sua subversão às regras do ballet têm um certo paralelismo com a sua vida boémia, com os seus vários amantes. Os seus passos, eram estudados e seguros, mas também livres e emocionados, flutuando na música e na poesia. Será sempre marcante na dança, pela sua viragem radical dos paradigmas.

sábado, 4 de maio de 2013

Vénus Negra - Saartjes Baartman (1789-1815)




Realizado pelo actor e realizador Abdellatif Kechiche, um filme biográfico sobre a trágica história de Saartjes Baartman (1789-1815), uma mulher da tribo Khoikhoi que, no início do século XIX e devido às suas características físicas específicas, deixou o sul de África para ser exibida nos salões europeus sob o nome "Venus Hotentote", com promessas vãs de uma vida dourada.  Chegada à Europa, depois de viajar por toda a Inglaterra em espectáculos de aberrações. Mediante um pagamento extra, os seus exibidores permitiam aos visitantes tocar-lhe as nádegas, cujo invulgar volume (esteatopigia) parecia estranho e perturbador ao europeu da época.
Por outro lado, Saartjie tinha sinus pudoris, também conhecido por «avental», «cortina da vergonha» ou «bandeja», em referência aos longos lábios da genitália .
Vai para Paris e é estudada por alguns dos mais conceituados naturalistas e anatomistas da época, que usaram as suas investigações para justificarem a inferioridade dos negros, num esforço claro de legitimação do racismo e escravatura. Tinha sido comprada por um francês, que a tratava bastante mal, com a derrota de Napoleão, o fim do seu governo, as exposições tornaram-se impossíveis. Saartje foi levada a prostituir-se e tornou-se alcoólica. A 29 de Dezembro de 1815, Saartjie Baartman morreu na miséria. O seu corpo foi doado ao Musée de l'Homme de Paris, onde o seu esqueleto, órgãos genitais e cérebro foram conservados em formol e exibidos até 1974. Em 2002, a pedido do então Presidente sul-africano Nelson Mandela, os seus restos mortais regressaram ao seu país, onde foi feita uma cerimónia fúnebre.

domingo, 28 de abril de 2013

ELIZABETH BISHOP




A arte de perder

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subsequente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

(tradução de Paulo Henriques Britto)

quinta-feira, 18 de abril de 2013

PRÉMIO AMADEO DE SOUZA-CARDOSO


Amadeo de Souza-Cardoso ( 1887 – 1918) foi um pintor, que morreu cedo, quando ainda tinha tanto a dar.
Amadeo de Souza-Cardoso destacou-se entre a primeira geração de pintores modernistas, pela qualidade excecional da sua obra e pelo diálogo que estabeleceu com as vanguardas históricas do início do século XX. "O artista desenvolveu, entre Paris e Manhufe, a mais séria possibilidade de arte moderna em Portugal num diálogo internacional, intenso, com os artistas do seu tempo". A sua pintura articula-se de modo aberto com movimentos como o cubismo o futurismo ou o expressionismo, atingindo em muitos momentos – e de modo sustentado na produção dos últimos anos –, um nível em tudo equiparável à produção de topo da arte internacional sua contemporânea.

[Na 9ª.Edição do Prémio Amadeo de Souza-Cardoso, vai ser atribuído o prémio consagração a Paula Rego]



segunda-feira, 15 de abril de 2013

MARCEL DUCHAMP


MARCEL DUCHAMP, artista conceptual e teórico, considerado «maître à penser», de toda uma série de escolas estéticas de vanguarda. Sucessivamente cubista, dadaísta e surrealista, deixou uma obra escassa e esotérica.
Considerava-se um anti-artista, em rutura com a escola tradicional. Era um filósofo, o sentido das ideias correspondia à expressão artística do homem – como origem da concepção da arte.
Sua obra que era vista por elitista por alguns, é democrata e popular. Duchamp demonstrou que todos somos criadores se o desejarmos e se soubermos renovar constantemente o «olhar» sobre o Mundo que nos rodeia.
A criação existe em todo o homem. O contributo da criatividade é um direito a que todo o homem deve ter acesso, mas deve ter sempre por objectivo o outro.
De Duchamp é muito conhecida a sua obra «Nu descendant l’escalier» (Uma análise cronofotográfica, mutação sucessiva e simultânea do movimento), mas principalmente os seus «ready-made» (criação ocasional em fuga do «acaso»), elevando um objecto comum à qualidade de arte e o mais conhecido é sem dúvida «La Fontaine», um urinol invertido e colocado num pedestal. É uma forma de contestar tudo que na arte é motivado por anos de formação tradicional.
Um outro interesse de Duchamp foi o erotismo, Rrose Sélavy, foi o nome que escolheu, numa pretensa mudança de sexo, para compreender a dualidade do homem e da mulher.
Duchamp com o seu sorriso quase diabólico, parecia dizer: «Atenção, as coisas sempre que apresentadas, não serão aquilo que se julga que sejam. Caberá a cada um a decisão de o determinar».
O fotógrafo Man Ray foi seu amigo de experiências!





segunda-feira, 1 de abril de 2013

RUA DE NENHURES


PEDRO TAMEN, lançou o seu 20º título «RUA DE NENHURES», Editora D. Quixote.
Um livro temático, como muitos outros que publicou.

De «RUA DE NENHURES»

Ardes-me no peito onde a custo
o meu amor perpassa, e vai até
às loucuras do corpo
e às agruras da alma.
Ardes-me no minuto, no segundo,
na hora amaciada por olhos entrevistos,
ardes-me no sangue obstruído
e na certeza muda que me diz
que o coração existe.


De cabelo crestado pela língua de fogo,
queimado segui pelo caminho
com as pústulas antigas, renovadas
na ciência que tinha agora delas.
Segui pelo caminho até ao monte crânio,
com as costas vergadas a tal peso
que a morte prometida me entregou.
E o meu único alívio, tuas mãos,
tuas mãos, meu sudário,

+++

Corro, feito merda, para os braços
teus, inexistentes, são-não-são,
pisco os olhos segados mas não cegos,
estremolhado de um sono sonegado,
abano abananado, meço-me, estremeço-me
( não é meu este fato, pesa, é do adelo),
será que ainda corro, ou morro, isto que é,
que nave me trabsporta, e a que porta?

E no baloiç’oiço a musa infusa,
acordo enfim plantado onde não estou.

Pedro Tamen. 64 poemas de um «não lugar».

quarta-feira, 27 de março de 2013

SHAKESPEARE

O Retrato de Chandos; pintura atribuída a John Taylore com autenticidade desconhecida. National Portrait Gallery, London.

O grande crítico e historiador francês Hyppolite Taine dizia que Shakespeare, tem o maior repositório de documentos que possuímos sobre a natureza humana'. Os sentimentos sublimes, os sórdidos, a perversidade, a generosidade, a melancolia, o desespero, a paixão correspondida, a paixão sem esperança, a paixão proibida, o deboche, a ironia, o humor corrosivo, o humor ingénuo, o ciúme, a inveja, a ambição pelo poder, enfim, tudo está plasmado em dezenas de peças de teatro e poemas do bardo inglês, um legado que se constitui numa das manifestações artísticas mais importantes da humanidade.
William Shakespeare criou personagens, dramas e comédias, que ganharam  as ruas, mentes e corações do mundo inteiro. Um fenómeno sem fronteiras. Frases e idéias de Shakespeare, tornaram-se ditos populares, aforismos, anedotas e expressões que se repetem através dos séculos (e muita gente nem desconfia da autoria). 'Nem tudo que reluz é ouro' foi criada por Shakespeare e faz parte do monólogo do príncipe de Marrocos no segundo ato de O mercador de Veneza; 'o que não tem remédio, remediado está' vem de Otelo; 'Meu reino por um cavalo', de Ricardo III; 'Há algo podre no reino da Dinamarca' e 'há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia' são de Hamlet. E isso é só o começo da avassaladora riqueza e inteligência da obra shakespeariana