O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE
Mostrando postagens com marcador POESIA - OCTAVIO PAZ. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador POESIA - OCTAVIO PAZ. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 8 de julho de 2010

OCTAVIO PAZ


Para Octavio Paz a poesia é a forma natural de convivência entre os homens. Sua crítica é um diálogo aberto com o mundo, sendo seu desejo "a busca de identidade da natureza humana na multiplicidade de signos". Segundo o poeta Sebastião Uchoa Leite, "a crítica de Octavio Paz é de ordem antropológica e poética. Paz é poeta e crítico das civilizações, acreditando, ao contrário de que as civilizações são mortais, na frase de Valéry, que mesmo as aparentemente mortas estão vivas: os seus signos circulam nessa ars combinatoria do universo histórico. Como tudo é linguagem, tudo significa".



Isto e isto e isto

O surrealismo tem sido a maçã de fogo na árvore da sintaxe

O surrealismo tem sido a camélia de cinza entre os peitos da adolescente possuída pelo espectro de Orestes

O surrealismo tem sido o prato de lentilhas que o olhar do filho pródigo transforma em festim fumegante de rei canibal

O surrealismo tem sido o bálsamo de Ferrabrás que apaga os sinais do pecado original e o umbigo da linguagem

O surrealismo tem sido a cusparada na hóstia e o cravo de dinamite no confessionário e o abre-te sésamo das caixas de segurança e das grades dos manicómios

O surrealismo tem sido a chama ébria que guia os passos do sonâmbulo que caminha na ponta dos pés sobre o fio de sombra que traça a folha da guilhotina no pescoço dos justiçados

O surrealismo tem sido o prego ardente na fronte do geómetra e o vento forte que à meia-noite levanta o lençol das virgens

O surrealismo tem sido o pão selvagem que paralisa o ventre da Companhia de Jesus até que a obriga a vomitar todos os seus gatos e seus diabos encarcerados

O surrealismo tem sido o punhado de sal que dissolve as velhas moedinhas do realismo socialista

O surrealismo tem sido a coroa de papelão do crítico sem cabeça e a víbora que desliza entre as pernas da mulher do crítico

O surrealismo tem sido a lepra do ocidente cristão e o açoite de nove cordas que desenha o caminho de saída para outras terras e outras línguas e outras almas sobre o lombo do nacionalismo embrutecido e embrutecedor

O surrealismo tem sido o discurso da criança soterrada em cada homem e a aspersão de sílabas de leite de leoas sobre os ossos calcinados de Giordano Bruno

O surrealismo tem sido as botas de sete léguas dos foragidos das prisões da razão dialéctica e a tocha de Pulgarcito que corta os nós da trepadeira venenosa que cobre os muros das revoluções petrificadas do século XX

O surrealismo tem sido isto e isto e isto

sábado, 3 de julho de 2010

TODOS OS DIAS TE DESCUBRO...OCTAVIO PAZ


Todos os dias te descubro...

Segundo um poema de Fernando Pessoa

Todos os dias descubro
A espantosa realidade das coisas:
Cada coisa é o que é.
Que difícil é dizer isto e dizer
Quanto me alegra e como me basta
Para ser completo existir é suficiente.
.
Tenho escrito muitos poemas.
Claro, hei-de escrever outros mais.
Cada poema meu diz o mesmo,
Cada poema meu é diferente,
Cada coisa é uma maneira distinta de dizer o mesmo.
.
Às vezes olho uma pedra.
Não penso que ela sente
Não me empenho em chamá-la irmã.
Gosto porque não sente,
Gosto porque não tem parentesco comigo.
.
Outras vezes ouço passar o vento:
Vale a pena haver nascido
Só por ouvir passar o vento.
Não sei que pensarão os outros ao lerem isto
Creio que há de ser bom porque o penso sem esforço;
.
O penso sem pensar que outros me ouvem pensar,
O penso sem pensamento,
O digo como o dizem minhas palavras.
Uma vez me chamaram poeta materialista.
E eu me surpreendi: nunca havia pensado
Que pudessem me dar este ou aquele nome.
.
Nem sequer sou poeta: vejo.
Se vale o que escrevo, não é valor meu.
O valor está aí, em meus versos.
Tudo isto é absolutamente independente de minha vontade.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)
SOBRE OCTAVIO PAZ AQUI