O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE
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domingo, 4 de dezembro de 2011

"A sinfonia é o mundo, deve abraçar tudo". Gustav Mahler ( 1860 — 1911)

Já fiz referência aqui à Sinfonia nº. 4 de Malher, mas como voltei a «ouver» e as sinfonias de Mahler nunca me cansam, aqui deixo o 4º. andamento

O quarto movimento, apresenta uma visão ingénua do paraíso, pelos olhos de uma criança, cantada por uma soprano.

A morte está sempre presente na obra de Mahler. Passagens alegres dão lugar a outras trágicas e de desespero, que reflectem a sua vida atribulada.

Mahler não teve uma infância fácil, o pai batia na mãe, um irmão querido morreu, os seus pais morreram mais ou menos logo, e ele viu-se na condição de chefe da família e responsável pelo sustento dos outros irmãos mais novos. Mesmo após tornar-se adulto e ser independente, a vida não foi fácil. O espectro da morte pairava sobre Mahler, pois ele, da mesma forma como a mãe, sofria de problemas cardíacos, a sua filha morreu em 1907 e era apaixonado pela mulher, Alma, contudo esta o traía.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

domingo, 12 de junho de 2011

MAHLER

Mahler apenas compôs um andamento da Sinfonia nº 10, um belíssimo adágio. A profecia cumpriu-se, o compositor morreu com 50 anos, devido a problemas cardíacos e respiratórios.

As sinfonias de Mahler, permaneceram uns anos num hiato, até que em 1960, Leonard Bernestein as regeu. Hoje Mahler é um dos compositores mais tocados e mais apreciados.

«Eu creio que há na música de Mahler um apelo à aventura dos sentidos que surpreende, deslumbra, comove e vicia.

Quando se começa a amar esta música, a sua sumptuosa riqueza sonora e orquestral, é praticamente impossível sair do sistema que ela cria, único e reconhecível. A composição mahleriana alterna de forma tão inesperada a intensidade dramática com a contenção lírica e meditativa, o trivial com o sublime, o rasgo com a citação, o fúnebre com o lúdico, o sofrimento com a jubilação que não há praticamente um único momento previsível no seu discurso. Ela é percurso mais que destino. Na sua indomável liberdade, as sinfonias de Mahler abordam territórios sonoros até então inexplorados; mas fazem-no com tal variedade de motivos e efeitos, uma tão arriscada exploração das potencialidades dos instrumentos da orquestra e dos outros que ele inventa ou convoca».

António Mega Ferreira

No coração da música de Mahler existe um desafio sem limites que é uma forma de exprimir a sua total imersão no mundo e de afirmar uma esperança que rompe entre as pungentes expressões da dor e da angústia.

sábado, 4 de junho de 2011

A CANÇÃO DA TERRA - GUSTAV MAHLER

O Lied "Despedida", da Canção da Terra, de Mahler, finaliza esta extraordinária obra. Mahler evitou o título de Sinfonia por temer o destino de Beethoven, Schubert e Bruckner, que morreram depois de alcançarem as suas nonas sinfonias, mas esta foi mesmo a sua última obra completa, porque a que seria a 10ª. Sinfonia apenas compôs um dos andamentos.
Gustave Mahler quando compôs, A Canção da Terra, obra de absoluta resignação perante o destino, três desgraças tinham acontecido na sua vida: a morte da filha, a campanha anti-semita que o obrigou a demitir-se de director da Ópera Imperial de Viena e a descoberta pelos médicos da sua malformação cardíaca incurável. Neste período de incerteza e sofrimento Mahler começou a ler alguns poemas da Flauta Chinesa, ancestral poesia da dinastia Tang e escolheu os poemas mais tristes para musicar. A mensagem de A Canção da Terra é de resignação, de solidão absoluta, de impossibilidade de realização pessoal, de certeza da morte e da incapacidade de mudar o mundo. Acabou esta obra em 1909 e morreu dois anos depois.

6. Der Abschied ( A Despedida)


O sol põe-se por detrás das montanhas, a noite cai sobre o vale, a lua navega, tal como uma barca, no escuro mar celeste. Uma ligeira brisa acaricia os pinheiros sombrios, o rouxinol canta harmoniosamente, as flores empalidecem: a terra respira com calma. Homens cansados refrescam a casa: o sono vai restituir-lhes a alegria esquecida, a juventude perdida. Dois amigos despedem-se: «Para onde vais, e porquê esta viagem? pergunta o que fica. «Oh! Amigo, nesta terra a felicidade não quis nada comigo. Errante, vagabundeando pelas montanhas, vou à procura de repouso para o meu coração solitário.»

quinta-feira, 24 de março de 2011

TOTENFEIER - POEMA SINFÓNICO DE MAHLER

Este poema sinfónico, depois deu origem à Primeira Sinfonia de Mahler. O compositor desvalorizava o uso de textos de intenção programática, mas acabou por escrever estas palavras:
«Estamos diante de uma pessoa que nos é querida.
A sua vida, esforços, amarguras, e desejos passam-nos uma vez mais, pela última vez, diante dos olhos da nossa alma…
E agora? È tudo isto apenas um sonho desolador, ou esta vida e esta morte têm um significado?
-Temos que ser capazes de responder a estas questões se queremos prosseguir a nossa vida.»

Na altura da composição deste poema, Mahler teria uma paixão por Marion Weber, mulher do neto de Carl Maria von Weber, um amor impossível. Adam Mickiewicz escreveu um texto dramático, sobre um triângulo amoroso, no qual as personagens principais se chamam, Marie e Gustav. Este acaba por se suicidar transformando-se num espírito condenado a vaguear em torno da sua amada.
Não há certezas, mas Mahler e Mickiewicz eram amigos e partilhavam uma visão trágica da arte e do seu poder redentor, com referências muito óbvias da filosofia de Schopenhauer, Wagner e Nietzsche, comportamento desafiador caracterizado pela figura de Prometeu e do ideal que leva o homem a enfrentar com orgulho o seu próprio destino.



MAHLER - TOTENFEIER (CERIMÓNIA FÚNEBRE)

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

QUARTA SINFONIA DE MAHLER - 3º. ANDAMENTO

GUSTAV MAHLER - QUARTA SINFONIA

A Quarta Sinfonia de Mahler concluiu o ciclo em que o compositor utilizou textos de A Trompa Mágica do Rapaz, colectânea de poesia popular alemã de autores anónimos, um livro que Goethe dizia «ser obrigatório ter em casa».
Mahler compôs vinte e quatro canções que deram forma a andamentos inteiros da segunda, terceira e quarta sinfonia.

Na Primeira encontramos a Natureza primordial, habitada por um herói que acabará por morrer, na Segunda acompanhamos o processo de resgate desse herói do mundo dos mortos para uma ressurreição poderosa, na Terceira, há uma imersão radical na paisagem e fauna dos lagos e bosques do Tirol, seguindo a arquitectura do mundo de Schopenhauer, passamos pela Natureza inorgâmica, pela Flora, pela Fauna, pelo Homem e pelos Anjos até alcançar o Amor, na Quarta é a passagem da vida terrena para a vida celestial.
O quarto andamento consiste no Lied Das himmlische Leben ( A Vida Celestial), canção popular da Baviera, tem um carácter infantil, como se uma criança viesse explicar, no fim, tudo o que se passou.
É uma imagem idealizada, de um mundo pacífico, longínquo, ingénuo, inocente, visão inalcançável! Para Mahler o Paraíso deve mais que ser inalcançável, ser um mistério!
No fim, quando depois de o homem se questionar sobre tudo, uma criança diz-lhe: a vida é celestial! Com a sinfonia celestial acaba também o último sonho de ingénua inocência pueril de todo o reportório sinfónico romântico.



segunda-feira, 31 de maio de 2010

EXCERTO DA SINFONIA Nº.3 DE MAHLER

TERCEIRA SINFONIA DE MAHLER

Excelentíssimo Senhor Director: Para lhe transmitir a inaudita impressão que a sua sinfonia me deixou tenho de lhe falar não de músico para músico, mas sim de Homem para Homem. É que eu vi a sua alma, nua, despojada. Ela surgiu à minha frente como uma paisagem, bravia, misteriosa, cheia de assustadores baixios e poços ao lado de alegres e límpidos prados ensolarados, idílicos locais de repouso. Eu vi-a como um fenómeno da Natureza, cheia de sobressaltos e desgraças, mas também com luminosos e tranquilizantes arco-íris. Senti uma luta com as ilusões; senti a dor de um desiludido. Vi o combate de forças más e boas, vi um homem cansado da extenuante luta por harmonia interior. Senti um Homem, um «drama», «verdade», «verdade» sem nenhuma concessão!

ARNOLD SCHÖNBERG (12.12.1904)


Inicialmente intitulada A GAIA CIÊNCIA e, depois, SONHO DE UMA MANHÃ DE VERÃO, a Terceira Sinfonia de Mahler, divide-se em seis andamentos, cujos subtítulos o compositor deu a conhecer: I «Pan desperta. O Verão anuncia-se»; II «O que as flores do campo me contam»; III «O que os animais do bosque me contam»; IV «O que o Homem me conta»; V «O que os anjos contam»; VI «o que o Amor me conta» e VI « O que a criança me conta».
A presença da natureza e a relação do homem com a transcendência através de uma submersão radical na natureza são elementos centrais de todas as quatro primeiras sinfonias de Mahler: na Primeira encontramos a natureza primordial, habitada por um herói que acabará por morrer; na Segunda acompanhamos o processo de resgate desse herói do mundo dos mortos para uma ressurreição poderosa; na Quarta assistimos à passagem da vida terrena para a vida celestial, cheia de anjos, santos e crianças.
A Terceira sinfonia desempenha um importante papel, definindo uma concepção estética-filosófica em patamares sucessivos do Ser, concepção fortemente influenciada pelos escritos de Schopenhauer e de Nietzche. Esta sinfonia desenha um percurso que corresponde à «arquitectura do mundo» de Schopenhauer. Por outro lado, o título provisório A Gaia Ciência, bem como o canto da Meia-Noite [Oh Homem, escuta!»] de Assim falou Zaratustra musicado no quarto andamento, apontam explicitamente para a obra de Nietzsche.
Mahler tinha uma vida muito sobrecarregada em Hamburgo, como director da Ópera, não tinha tempo para compor, para se distanciar da música lia e, Nietzsche era na altura o autor em que mergulhava. Só nas férias, passadas na pequena aldeia de Steinbach, no Tirol, Mahler compunha. Tinha mandado construir uma pequena barraca, onde tinha um pequeno piano, uma mesa e um sofá, território íntimo e inviolável. Levantava-se às cinco e meia da manhã ia para a cabana, trabalhando sete horas por dia, regressava para almoçar e depois fazia os seus passeios a pé. Esta era a rotina de férias, com duas imersões: uma no mundo da natureza, outra na interioridade criativa.


PRIMEIRO ANDAMENTO – PODEROSO-DECIDIDO
Neste andamento o compositor, pretende afirmar o poder do movimento, da marcha, da força construtiva que se opõe à rigidez da matéria «sem alma», à natureza primordial, «as forças elementares da natureza inanimadas e rígidas».


SEGUNDO ANDAMENTO – TEMPO DI MINUETTO- MUITO MODERADO

Mahler oferece uma visão serena e inocente da natureza campestre. Este andamento sugere um universo sonoro rococó, um idílio pastoril do séc. XVIII (Minuetto) visto pelos binóculos histoiricistas do Romantismo do século XIX. Como se as flores e pastores da montanha entrassem nos salões espelhados da cultura burguesa da Viena fin de siècle.
Mahler disse: Claro que não me fico pela serenidade das plantas; repentinamente tudo se põe mais sério e grave, Como se um vento tempestuoso varresse os prados e abanasse as folhas e flores das plantas, dobrando-as e quebrando-as, forçando-as a entrarem num reino mais alto.


TERCEIRO ANDAMENTO – COMODO, SCHERZANDO

Descreve a morte da Primavera e o surgimento do Verão. Aqui Mahler aproxima-se de idiomas populares, numa concepção de humor influenciado por Jean Paul: descendo aos níveis mais baixos da representação revela-se a máscara trágica da existência. O humor negro ou carnavalesco de Mahler é sempre porta de acesso aos abismos mais radicais da sua alma.

QUARTO ANDAMENTO – MUITO LENTO. MISTERIOSO

O andamento nietzscheano «Oh Homem, escuta!»

Oh Homem! Presta atenção
O que diz a profunda meia-noite?
«Eu dormia, eu dormia,
E despertei de um sonho profundo:
O mundo é profundo,
E mais profundo que o dia julga,
Profunda é a sua dor,
E a alegria…mais profunda que o sofrimento.
A dor diz: Passa!
Mas toda a alegria deseja a eternidade,
A profunda, profunda eternidade!»

Trata-se do Canto da Meia-Noite, o apelo de Zaratustra ao despertar do homem, ao abandono do «sono profundo», em que se encontra. Sobre uma sonoridade de fundo sombria, entregue às cordas graves, surge a voz desolada (O Mensch!). Ouvem-se depois trombones agudos e terceiras trompas (Gib Acht!) até que o oboé se impõe «como uma sombra da natureza».

QUINTO ANDAMENTO – NUM TEMPO DIVERTIDO E COM UMA EXPRESSÃO JOVIAL

«Bim! Bam!» Exalta a alegria e o sonho de um universo ingénuo e inocente

SEXTO ANDAMENTO – ADAGIO – LENTO-CALMO-SENTIDO

Um andamento lento de grande intensidade sonora e força expressiva. Mahler neste andamento pretende atingir as mais altas esferas do Ser – o «Amor», o amor que se confunde com a ideia de Deus. «Deus só pode ser pensado como «o amor». Neste andamento são inseridos episódios de vida, momentos mais ou menos burlescos da existência, etapas necessárias ao Ser para passar de um estado inorgânico ao mundo das esferas.

[Elementos colhidos do programa, escrito por: Paulo Pereira de Assis.]




CASA DA MÚSICA – 29.05.2010
SINFONIA Nº.3 DE MAHLER
ONP
DIRECÇÃO MUSICAL – CHRISTOPH KÖNIG
MEIO-SOPRANO – ANKE VONDUNG
CORO CASA DA MÚSICA
CORO INFANTIL DO CPO

sábado, 1 de maio de 2010

SEXTA DE MAHLER (GRANDES EMOÇÕES)



Esta sinfonia vai suscitar muitos enigmas que só uma geração que tenha compreendido e digerido as minhas primeiras cinco sinfonias pode vir a entenderGUSTAV MAHLER

A SEXTA SINFONIA de Mahler expressa a luta do Homem contra a matéria, a tentativa de afirmar a capacidade individual da vontade humana, contra a violenta inevitabilidade do destino. No fim vence a resignação, a força do destino e a solidão fundamental do indivíduo singular – mas trata-se de uma vitória de Pirro para a matéria: através da derrota, o Homem supera-se a si mesmo, alcançando esferas existenciais mais elevadas. A solidão, a ânsia por um inalcançável Olimpo e a pesada derrota corporal são representadas simbolicamente por três instrumentos de percussão, cujo uso dentro de uma obra sinfónica é pioneiro: os chocalhos de vaca (cowbells) simbolizando a solidão humana radical, a celesta sugerindo um Olimpo almejado, e o martelo (como um golpe seco de machado) representando a derrota física e psíquica completa.
Esta obra é dramática, existencialmente negativista e essencialmente trágica. As luminosas caminhadas solitárias, na alta montanha dos Alpes austríacos (com a companhia apenas de chocalhos de vacas), conduzem Mahler à profundidade tenebrosa da sua psique (onde os violentos golpes de martelo repercutiam intensamente).
A SEXTA revela uma mente ao mesmo tempo perturbada e visionária, confiante e aterrada, desejosa de viver mais, contemplando a morte olhos nos olhos.


PRIMEIRO ANDAMENTO – allegro, enérgico, ma non troppo

É como uma marcha imparável e impiedosa, de fôlego ininterrupto e carácter vincado. O segundo tema do primeiro andamento é conhecido como o «Tema de Alma», dedicado à mulher, como também lhe foi dedicada parte da QUINTA. Acaba com uma fanfarra de júbilo: o Homem está ainda firme no mundo, mesmo se já teve uma visão da sua radical solidão.


SEGUNDO ANDAMENTO – Scherzo, Wuchig/Trio, Alväterisch, grazioso

Mahler dedica-se a uma das suas especialidades, criar distâncias incómodas entre o que a música «promete» e aquilo que de facto oferece. Este andamento consiste num jogo alternado de danças, compassos e métricas: uma sequência de caricaturas de Ländlers e Minuetos, ou simplesmente uma brincadeira de crianças endiabradas, intercaladas por dois trios serenos e tranquilos.

TERCEIRO ANDAMENTO: Andante Moderato

Oscila entre um lirismo exacerbado de cariz «pós-schubertiano», passagens quase Berceuse, erupções apaixonadas e subtis confidências poéticas. Parece sugerir uma reflexão sobre o universo feminino que rodeava Mahler (a mulher, Alma, duas filhas e a irmã do compositor).

QUARTO ANDAMENTO: Finalle: Allegro moderato/ allegro enérgico

Chegamos à catarsis, um dos movimentos mais dramáticos de toda a música Ocidental, que vai desenvolver um sentido de catástrofe contínua, irreversível e conclusiva.
Na luminosa observação de Erwin Ratz, o «fim», a «morte», a derrota sem apelo do herói, adquire aqui um novo sentido: o Homem cumpriu a sua missão. Mesmo que tenha aparentemente perdido, que tenha sido lançado no mais fundo dos abismos, a sua individualidade alcançou esferas mais elevadas. Deste modo a morte não é um fim, os golpes violentos do martelo aniquilam o elemento físico e psicológico, mas é através dessa destruição que se alcançam novos, infinitos e impalpáveis universos.


[Informações colhidas: programa da Casa da Música (Paulo Pereira de Assis)]


ORQUESTRA NACIONAL DO PORTO regida por TAKUO YUASA.
CASA DA MÚSICA - 30.04.2010