O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE
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terça-feira, 24 de abril de 2012

LIVROS





Nas estantes os livros ficam 
(até se dispersarem ou desfazerem) 
enquanto tudo 
passa. O pó acumula-se 
e depois de limpo 
torna a acumular-se 
no cimo das lombadas. 
Quando a cidade está suja 
(obras, carros, poeiras) 
o pó é mais negro e por vezes 
espesso. Os livros ficam, 
valem mais que tudo, 
mas apesar do amor 
(amor das coisas mudas 
que sussurram) 
e do cuidado doméstico 
fica sempre, em baixo, 
do lado oposto à lombada, 
uma pequena marca negra 
do pó nas páginas. 
A marca faz parte dos livros. 
Estão marcados. Nós também. 

Pedro Mexia, in "Duplo Império"

segunda-feira, 2 de maio de 2011

MÃE

Mãe - Almada Negreiros

MÃE


Poema de Almada Negreiros(1893-1970)




Mãe! Vem ouvir a minha cabeça


a contar histórias ricas que ainda não viajei!


Traz tinta encarnada para escrever estas coisas!


Tinta cor de sangue verdadeiro, encarnado!


Eu ainda não fiz viagens


E a minha cabeça não se lembra senão de viagens!


Eu vou viajar. Tenho sede!


Eu prometo saber viajar.


Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um.


Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa.


Depois venho sentar-me a teu lado.


Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens,


aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei,


escritas ambas com as mesmas palavras.


Mãe!


Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado!


Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa.


Eu também quero ter um feitio,


um feitio que sirva exatamente para a nossa casa, como a mesa.


Como a mesa.


Mãe!


Passa a tua mão pela minha cabeça!


Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!