O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE
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sábado, 30 de junho de 2012

A MÃE - ALMADA NEGREIROS
A invenção do dia claro (EXCERTO)

Imaginava eu que havía tratados da vida das pessoas, como ha tratados da vida das plantas, com tudo tão bem explicado, assim parecidos com o tratamento que ha para os animaes domesticos, não é? Como os cavalos tão bem feitos que ha!
Imaginava eu que havia um livro para as pessoas, como ha hostias para cuidar da febre. Um livro com tanta certeza como uma hostia. Um livro pequenino, com duas paginas, como uma hostia. Um livro que dissesse tudo, claro e depressa, como um cartaz, com a morada e o dia.
* * * * *
Não achas, Mãe? Por exemplo. Ha um cão vadio, sujo e com fome, cuida-se deste cão e ele deixa de ser vadio, deixa de estar sujo e deixa de ter fome. Até as crianças já lhe fazem festas.
Cuidaram do cão porque o cão não sabe cuidar de si–não saber cuidar de si é ser cão.
Ora eu não queria que cuidassem de mim, mas gostava que me ajudassem, para eu não estar assim, para que fosse eu o dono de mim, para que os que me vissem dissessem: Que bem que aquele soube cuidar de si!
Eu queria que os outros dissessem de mim: Olha um homem! Como se diz: Olha um cão! quando passa um cão; como se diz: olha uma arvore! quando ha uma arvore. Assim, inteiro, sem adjectivos, só de uma peça: Um homem!
* * * * *
Mas eu andei a procurar por todas as vidas uma para copiar e nenhuma era para copiar.
Como o livro, as pessoas tinham principio, meio e fim. A principio o livro chamava-me, no meio o livro deu-me a mão, no fim fiquei com a mão suada do livro de me ter estendido a mão.
Talvez que nos outros livros… mas os titulos dos livros são como os nomes das pessoas–não quere dizer nada, é só para não se confundir…
* * * * *


Sonhei com um paíz onde todos chegavam a Mestres. Começava cada qual por fazer a caneta e o aparo com que se punha á escuta do universo; em seguida, fabricava desde a materia prima o papel onde ia assentando as confidencias que recebia directamente do universo; depois, descia até ao fundo dos rochedos por causa da tinta negra dos chócos; gravava letra por letra o tipo com que compunha as suas palavras; e arrancava da arvore a prensa onde apertava com segurança as descobertas para irem ter com os outros. Era assim que neste país todos chegavam a Mestres. Era assim que os Mestres iam escrevendo as frases que hão-de salvar a humanidade.
* * * * *
Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa–salvar a humanidade.


segunda-feira, 25 de junho de 2012

quinta-feira, 14 de junho de 2012

ESCUTA ZÉ NINGUÉM!

Escrito em 1945, Escuta, Zé Ninguém! foi o resultado de tumultos e conflitos íntimos de um cientista e pensador profundamente inconformista. Lido por milhares de leitores ao longo de várias gerações Escuta, Zé Ninguém!, é ainda hoje um livro de reflexão importante. 

«Terás de entender que és tu quem transforma homens medíocres em opressores e tornas mártires os verdadeiramente grandes; que os crucificas, os assassinas e os deixas morrer de fome; que não te ralas absolutamente nada com os seus esforços e as lutas que travam em teu nome; que não fazes a menor ideia de quanto lhes deves do pouco de satisfação e plenitude de que gozas na vida.»

quarta-feira, 25 de maio de 2011

PRAZER PARA OS OLHOS...


O livro de arte, tem ganho clientes e investidores e as próprias galerias também estão a apostar na publicação de livros de arte.
Em tempos de crise, comprar um quadro não é nada acessível, por isso muitos contentam-se com a aquisição e colecção de livros de arte. O livro como objecto de arte está a impor-se com editoras especializadas, que consideram existir clientes interessados, assim como os próprios artistas estão interessados.
Há livros que nem são nada baratos, podendo atingir mil euros, (ex: 4 livros dedicados ao surrealismo, com obras de Cesariny, Cruzeiro Seixas, Mário Botas, Alfredo Luz) porque são trabalhos elaborados dentro do conceito do objecto, são serigrafados, com tiragem reduzida e assinados pelo autor, o que faz da peça, uma peça valiosa e de colecção.
Aprecio bastante estes livros e é através dos mesmos que aprecio melhor a obra de um artista, porque posso estar a observar ilimitadamente os quadros em todos os sues pormenores e ver a evolução criativa. Tenho vários, tenho inclusive uma colecção que comprei ainda bastante nova e que se intitula «Génios da Pintura», com muito boas reproduções mas a partir daí fui comprando mais. O que considero imprescindível, não pela reprodução das pinturas, mas para situar-nos no tempo, para quem se interesse pela História da Pintura é:
GUIA DA HISTÓRIA DE ARTE, Direcção de Sandro Sproccati, da Editorial Presença.






Grande fenómeno neste género de livro é mesmo a colecção TASCHEN. Editora alemã, que edita bons livros, esteticamente agradáveis e com preços muito razoáveis.
Benedikt Taschen criou o império Taschen. Desde miúdo gostava de livros, começou a vender livros antes de acabar o liceu, juntou dinheiro e com 18 anos alugou a sua primeira livraria e começou a editar comics. Aos 21, devido a uma monografia de Magritte, lançou-se na edição de livros de arte e depois de outras vicissitudes chegou ao que é hoje! É considerado um vendedor tenaz. Os seus livros são traduzidos em várias línguas, tem escritórios em várias cidades e publica mais de 100 livros novos por ano. Visão pessoal e bom gosto, são as suas regras. Faz o que quer e quando quer. Depois da publicação de pintura e fotografia, as temáticas diversificaram-se bastante, arquitectura, estilismo, bailado, cinema, música…inesgotável…tudo transformando em objectos de prazer…

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O VELHO E O MAR - HEMINGWAY


Ernest Hemingway, escreveu grandes obras, como ADEUS ÀS ARMAS, POR QUEM OS SINOS DOBRAM, FIESTA…que fazem parte da lista dos melhores livros de sempre, mas escreveu um romance, que foi a sua última obra de ficção, de que gosto especialmente, refiro-me a, O VELHO E O MAR, escrita em Cuba em 1951 e publicada no ano seguinte. Este livro recebeu o Prémio Pulitzer e em 1954 Hemingway obteve o Prémio Nobel. Numa prosa poética, Hemingway retrata, uma vez mais, a capacidade do homem de fazer face e superar com sucesso os dramas e as dificuldades da vida real, é uma suas obras mais comoventes.

(...) este pequeno romance, é um breve poema em prosa, uma epopeia de simples trama, singelamente narrada. Mas é, por outro lado, muito mais do que isso: um breviário nobilíssimo da dignidade humana, escrito com a mais requintada das artes. Poucas vezes, no nosso tempo, terá sido concebida e realizada uma obra tão pura, em que a natureza e a humanidade sejam, frente a frente, tão verdadeiras.
Jorge de Sena, Prólogo da Edição de 1956.



O VELHO E O MAR

Narra a aventura de um pobre e velho pescador, Santiago, que anseia por pescar «um dos grandes». Vai para o mar e no 85º dia, acaba por pescar um grande espadarte e esse facto vai proporcionar uma longa e empolgante história, cheia de perigos e imprevistos. O pescador tem de usar de toda a sua astúcia e grande persistência. O peixe com a sua imensa força acaba por rebocar o barco, para o alto mar. O velho sofre com o intenso sol e com as feridas nas mãos e faz muitas reflexões, sobre a dignidade dos homens e dos animais. Depois de alguns dias consegue matar o peixe. O «clímax» desta obra é a sua luta contra os tubarões, defendendo o peixe que pescou, mas quando consegue chegar à praia, do peixe só resta o esqueleto, toda a sua carne foi comida pelos tubarões. Uma obra que provoca muita reflexão sobre a condição do homem, as suas dificuldades de subsistência, a necessidade de persistência, a força que o homem pode ter, para vencer as dificuldades, como Hemingway diz no livro: «Um homem pode ser destruído, mas não derrotado».

sábado, 13 de novembro de 2010

UM SORRISO AOS PÉS DA ESCADA


Henry Valentine Miller (Manhattan, New York, 26 de Dezembro de 1891– Los Angeles, 7 de Junho de 1980)
Este escritor ficou conhecido por desafiar a sua época com a sua escrita contestatária e libidinosa. "Trópico de Câncer" (1934) e "Trópico de Capricórnio" (1938) são alguns dos seus livros que mais chocaram a sociedade, chegando mesmo a ser acusado de pornografia.
Foi só na década de 1960, com as suas reivindicações de liberdade sexual, que a juventude norte-americana reconheceu Miller como um grande autor e até mesmo um guia.
A maioria dos meus leitores, dividem-se em dois grupos distintos: um dos grupos são aqueles que dizem que o sexo os repele e enoja, o outro são os que compartilham que se fale de sexo como uma coisa normal.
( O Mundo do Sexo, 1965).
Miller não gostava da conotação que lhe era dada como escritor sexual, quase um marginal a outros escritores e tentou desmontar essa ideia, sem sucesso. A sua obra por parte do público e da crítica, era considerada literatura erótica, esquecidas as partes filosóficas, que também compõem os seus livros e os livros que escreveu sem qualquer conotação erótica.
Como exemplo lembro, o seu extraordinário livro: «O Sorriso aos pés da Escada». Escrito a pedido do pintor Fernand Léger, a história do palhaço Augusto é de um humanismo próximo da poesia. Miller diz: «O palhaço é um poeta em acção.» E acrescenta: «Ele é a história que desempenha.»Miller considera «O Sorriso aos pés da Escada» a sua obra mais «verdadeira». Talvez porque, tal como revela no epílogo, «quando Augusto se torna ele próprio, a vida começa - e não só para Augusto: para toda a humanidade».
«Morremos a lutar para nascer. Nunca fomos, nunca somos. Estamos sempre na contingência de vir a ser, separados, desligados sempre. Sempre do lado de fora. (...) Um dia destes, falando com um pintor meu conhecido acerca das figuras que Seurat nos deixou, afirmei-lhe que elas se encontravam enraizadas ali mesmo onde ele lhes deu vida - na eternidade. Como me sinto grato por ter vivido com estas figuras de Seurat - na « Grande Jatte», no «Médrano» e fosse onde fosse, em espírito! Não há absolutamente nada de ilusório à volta destas suas criações, cuja realidade é imperecível. Vivem na luz do sol, na harmonia da forma e do ritmo que é melodia pura. E também, de facto, com os palhaços de Rouault, os anjos de Chagall, a escada e a lua de Miró, e todo o seu «zoo» ambulante. Assim também com Max Jacob, que nunca deixou de ser um palhaço - mesmo depois de ter encontrado Deus. Pelo verbo, pela imagem, pelo acto, todas estas abençoadas almas que me fizeram companhia testemunharam e eterna realidade da sua visão. Será nosso, um dia, o seu mundo quotidiano. De facto já é nosso - simplesmente, estamos demasiado empobrecidos para lhe reivindicar a propriedade.»

sexta-feira, 23 de julho de 2010

GOETHE

Há livros, lidos há anos, dos quais eu nunca me esqueci, WERTHER, é um deles, eu senti intensamente esse livro, numa idade em que o romantismo, estava mais enraizado em mim. A história daquele amor impossível e funesto, emocionou-me e comoveu-me.

WERTHER (1774) de Johann Wolfgang von Goethe. Marco inicial do Movimento Romântico, Goethe foi uma das mais importantes figuras da literatura alemã e do Romantismo europeu, nos finais do século XVIII e inícios do século XIX. Juntamente com Friedrich Schiller foi um dos líderes do movimento literário romântico alemão STURM UND DRANG (TEMPESTADE E PAIXÃO).

Werther, é considerado por muitos como uma obra-prima da literatura mundial. É uma das primeiras obras do autor, de tom autobiográfico - ainda que Goethe tenha o cuidado de trocar nomes e lugares e, naturalmente, acrescentar algumas partes fictícias, como o final. Este livro, é construído através de cartas, que o suposto Werther, envia por um longo período ao narrador - um diário epistolográfico.
J. W. Goethe põe um pouco da sua vida na obra, pois ele também vivera um amor não correspondido, apesar de, evidentemente, não ter cometido suicídio. Ao escrever Werther, produziu uma obra de arte a que deu, como conteúdo, os seus tormentos, os seus próprios estados de alma, procedendo como todo o poeta lírico que, ao procurar aliviar o coração, exprime aquilo de que é afectado. Em tais situações líricas, pode reflectir-se, por um lado, um estado objectivo, uma actividade referenciada ao mundo exterior, e, por outro lado, um estado da alma que, desligando-se de tudo o que é exterior, regressa a si mesma e torna-se o ponto de partida de estados internos e de sentimentos profundos.


A primeira obra romântica conta o dilema do jovem Werther e a sua paixão pela fascinante Charlotte, comprometida e posteriormente casada com Alberto. Werther, culpando-se do amor que sente pela jovem Charlotte, muda-se para outra região, mas não consegue esquecer a amada. Charlotte casa-se com Alberto, que passa a ter ciúmes de Werther, este percebe-se do embaraço que causa ao casal, mas continua nutrindo um amor platónico por Charlotte. Werther promete não mais a visitar e no último encontro, lê em voz alta, os Cantos de Ossain. Ambos se comovem, choram, abraçam-se e beijam-se ; mas de seguida Charlotte repele-o, dizendo que nunca mais quer vê-lo. O jovem Werther parte, acreditando que é amado, mas ciente de que é um amor impossível. Resolve então suicidar-se, mandando pedir as pistolas de Alberto. Charlotte com o coração despedaçado, envia-lhe as armas. Werther dispara um tiro na cabeça e morre. A sua morte é a prova da intensidade de um amor romântico e doentio. A história de Werther retrata a paixão exacerbada e infeliz que culmina com o suicídio, o escapismo do romântico.

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FAUSTO, é o livro mais importante de Goethe.
Dr. Fausto é uma personagem que tem uma vida entediante, que lamenta a sua condição, pois apesar de ter estudado todas as ciências: filosofia, jurisprudência, medicina e teologia, tem a alma inquieta e faz um pacto com o Diabo, vendendo-lhe a alma, pelo rejuvenescimento e o prazer. Fausto é um poema de proporções épicas, escrito e reescrito ao longo de quase sessenta anos. A obra é baseada numa popular lenda alemã do médico, mágico e alquimista alemão, Dr. Johannes Georg Faust (1480-1540).
Sendo um arquétipo da alma humana, o mito de Fausto jamais se esgotou, diversos artistas o retomaram: Puchkin, Christian Dietrich Grabbe, Paul Valéry, Fernando Pessoa, Thomas Mann,.
Fausto também foi tema para vários compositores clássicos como Wagner (Faust), Berlioz (La Damnation de Faust), Schumann (Szenen aus Goethes Faust), Liszt (Faust-Symphonie) e Gounod (Faust).

De referenciar também a sua presença no cinema, teatro, pintura e outros.
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Outro dos seus livros muito referenciado, é: AFINIDADES ELECTIVAS.

E assim descansam os dois amantes um ao lado do outro. A quietude paira sobre a sua morada; anjos serenos, seus afins, olham-nos do espaço. E que momento feliz aquele em que, um dia, despertarão juntos!"
(Epílogo de "Afinidades Electivas")

De todos os livros de Goethe, Afinidades Electivas, é o mais rico em matizes e meios-tons. O esquema de construção do romance está centrado na distribuição dos personagens aos pares. Não são casais no sentido matrimonial do termo, mas sim pares ligados por atracções inevitáveis. O interesse romanesco nasce do jogo de polaridades, encantamentos e repulsas que se estabelece entre os casais.
Mas o relacionamento Homem-Mulher é considerado aqui não apenas na componente sexual, ele é principalmente objecto de análise moral e psicológica.
Embora já muito tivesse lido sobre FAUSTO e AFINIDADES ELECTIVAS, nunca li os livros.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

OS DEZ DIAS QUE ABALARAM O MUNDO (OUTROS TEMPOS MUITO VIVIDOS)

O seu autor foi John "Jack" Silas Reed (1887 —1920) - jornalista e activista norte-americano.

John Reed, como jornalista viajou pelo mundo e cedo se interessou pela política. Em Massachusetts, juntou-se a uma manifestação de operários, que lutavam pela jornada de oito horas diárias. A polícia interveio e Reed foi preso.
No México, em 1914, Pancho Villa liderava uma rebelião de camponeses quando Reed foi enviado como correspondente. Em pouco tempo, tornou-se próximo do líder revolucionário. Os relatos apaixonados de Reed, espalharam a notícia da revolução.

Reed também esteve presente no Massacre de Ludlow, onde mineiros em greve foram abatidos pela Guarda Nacional a mando da família Rockefeller. Esses acontecimentos foram registados no livro, A Guerra do Colorado.
Quando a Primeira Guerra Mundial eclodiu na Europa, John Reed escreveu:
And here are the nations, flying at each other's throats like dogs… and art, industry, commerce, individual liberty, life itself taxed to maintain monstrous machines of death. (Aqui estão as nações, a se lançar aos pescoços umas das outras como cães… e a arte, a indústria, o comércio, a liberdade individual, a própria vida são taxadas para sustentar monstruosas máquinas de morte.)
Uma grande influência para Reed, foi Emma Goldman. Ela era uma fonte de inspiração da geração do feminismo e anarquismo.
Reed foi cobrir a Primeira Guerra, esteve em Inglaterra, nos Países Baixos, na Alemanha e depois na França, andando pelos campos lamacentos das frentes da guerra. Também esteve em 1915 na Rússia, onde viu a miséria e a violência dos soldados do Czar sobre os russos. Quando voltou aos E.U.A, escreveu no The Masses: o inimigo do trabalhador americano são os 2% da população que recebem 60% da riqueza nacional. "Nós defendemos que o trabalhador se prepare para se defender do inimigo."
Nessa altura (1916), Reed conheceu, Louise Bryant, uma escritora, anarquista e comunista inconsequente. Emma Goldman disse,
Louise nunca foi um comunista, ela só dormia com um comunista.No ano seguinte quando os Estados Unidos declaram guerra à Alemanha, Reed, como outros americanos fizeram boicote a essa decisão. Reed revoltou-se pelo modo como as classes trabalhadoras na Europa e EUA, eram exploradas, para sustentar a guerra.
John Reed era uma figura importante no Partido Socialista nos EUA, sendo determinante para a fundação do Partido Comunista dos Trabalhadores. Esse partido era ilegal e era apenas um de dos partidos que disputavam o apoio do recentemente fundado Communist International (Comintern).
Com as notícias que chegavam, da deposição do Czar e da Revolução, Reed e Louise Bryant, partiram para a Rússia. Reed acompanhou tudo tomando as suas notas e em 1918 voltou aos Estados Unidos para escrever, OS DEZ DIAS QUE ABALARAM O MUNDO, mas as suas anotações foram confiscadas e só as recuperou tempos depois. Foi a julgamento, pelas suas crenças e pela sua oposição à guerra, o júri não pode chegar a uma decisão e as acusações foram retiradas.
Reed a partir daí foi convidado por várias Universidades para fazer conferências sobre tudo aquilo que viveu, mas continuou a intervir politicamente e a ter problemas com as autoridades.
Em 1919, a guerra acabou, mas as mudanças na agora URSS, preocupavam os Estados Unidos. Reed envolveu-se na formação do Partido Comunista dos Trabalhadores, foi à Rússia como delegado aos encontros da International Communista. Aí contraiu o tifo e em 1920, morreu num hospital de Moscovo. O corpo de John Reed foi sepultado perto do Kremlin na Praça Vermelha, com honras de herói.
Os Dez Dias que Abalaram o Mundo, é um livro que recorda, com uma intensidade e um vigor extraordinários, os primeiros dias da Revolução de Outubro. O contacto com o movimento acabou por extrapolar o campo das informações jornalísticas, Reed tornou-se um ardoroso defensor da Revolução.O livro, não é uma simples enumeração de factos ou uma colecção de documentos, mas de cenas vivas, cheias de realidade. Todo o material recolhido ao vivo traduz, da melhor forma possível, o modo de sentir das massas, e permite apanhar o verdadeiro sentido dos diferentes actos da revolução.Parece estranho, à primeira vista, que esse livro tenha sido escrito por um americano, que não conhece a língua nem os costumes do país. Ele deveria - é o que se admite - cometer erros, omitir factores essenciais, mas é um grande testemunho pessoal de tudo que aconteceu.O livro de Reed oferece um quadro autêntico da revolta, e é por isso que terá sempre uma importância especial, para gerações futuras, porque a Revolução de Outubro, foi um acontecimento ímpar da história. No seu género, o livro de Reed é uma epopeia.

Reds(1981) filme baseado na vida de John Reed. O filme foi realizado por WARREN BEATTY e teve como intérpretes: Diane Keaton como Louise Bryant, Warren Beatty como John Reed e Jack Nicholson, interpretando o dramaturgo Eugene O'Neill, que havia sido amante de Bryant.

C&H

terça-feira, 22 de junho de 2010

ALEXANDERPLATZ – ALFRED DÖBLIN

ALFRED (BRUNO) DÖBLIN (1878—1957), judeu, neurologista e escritor expressionista alemão.

Participou na PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL, mas teve que fugir ao NACIONAL-SOCIALISMO, pela perseguição desenfreada aos judeus. Emigrou para França, Estados Unidos e em 1945 regressou à Alemanha. Döblin envolveu-se totalmente no renascimento cultural alemão do pós-guerra e foi um dos co-fundadores da Academia de Ciências e Literatura Alemã em Mainz. Desapontado com a evolução política, regressou a França em 1953 e passados 4 anos morreu em Emmendingen/Baden.

A sua obra BERLIN ALEXANDERPLATZ, é considerada uma obra-prima e está dentro dos melhores livros de sempre, marcando o início do romance alemão "moderno", apesar da imprecisão deste conceito. Partilha esta honra com Franz Kafka.

''Berlim Alexanderplatz'' é uma obra capital do expressionismo literário alemão. Este clássico narra a história da Alemanha - entre as duas grandes guerras - e de Franz Biberkopf, antigo operário da construção civil que acaba de sair da prisão, após cumprir uma pena de quatro anos, por matar a companheira, num acesso de raiva. Ele jura nunca mais se meter em situações escusas, tenta reconstruir desesperadamente uma vida respeitável. Mas ao defrontar-se logo na saída com uma Berlim irreconhecível, afundada na corrupção, no fanatismo político e na recessão, o seu primeiro impulso é voltar para a sua cela. Hitler já mostrava as suas garras. Biberkopf passa pela provação de vender nas ruas o principal órgão de propaganda nazista (o jornal Völkischer Beobacher). Entre, os inúmeros trabalhos que arranja, nenhum lhe oferece hipóteses de sobrevivência. Com o bolso arruinado, entrega-se à bebida, retoma o contacto com amigos marginais, perde um braço durante um roubo e vira gigolô. O resto da história é uma descida aos infernos. Dá entrada num manicómio, onde morre e depois é "ressuscitado" e guiado por dois anjos, reencontrando no (sub)mundo dos espíritos os infelizes com quem andou em vida. No capítulo final, o autor dá-lhe uma segunda hipótese…
APRECIAÇÃO DO LIVRO POR WALTER BENJAMIM:

A origem deste épico pode ter sido uma simples notícia policial perdida nos jornais populares citados no livro, ao lado de textos publicitários, canções e versos bíblicos, fielmente transcritos nessa "montagem". Nela, o personagem principal não é Franz Biberkopf, mas a cidade que o destrói - e, mais exactamente, Alexanderplatz, praça central e local de confluência de todos os deserdados alemães, na época do advento do nazismo. Döblin, assim, opta por dar voz aos seus personagens, abdicando do papel de narrador. Trata-se de um exercício polifónico que não dispensa o recurso joyciano do monólogo interior - embora Döblin sempre tenha afirmado que conhecia mal a literatura de James Joyce, quando começou a escrever Berlin Alexanderplatz. O facto é que o seu livro, escrito no auge do expressionismo alemão, cruza referências eruditas e linguagem coloquial, para narrar a história de um homem em busca da sobrevivência, amalgamando sua tragédia com a de um país que perde o pudor para pagar suas dívidas de guerra, resgatar a autoconfiança e fugir do colapso económico. O homem comum de Döblin, desejou ser maior que o destino e foi punido por isso. Se acontece nas melhores tragédias gregas, por que não em épicos modernos?
Romance adaptado a uma mini-série de televisão por Rainer Werner Fassbinder
[C&H]

segunda-feira, 21 de junho de 2010

O QUARTETO DE ALEXANDRIA

Há livros, que lidos em determinadas alturas da vida, são marcantes, nunca mais se esquecem. Esta obra de Lawrence Durrell, envolveu-me de tal maneira, que quase se tornou uma vivência real.

O QUARTETO DE ALEXANDRIA. No seu tratamento de paixões extremadas, Durrell tem afinidades com o americano Henry Miller, embora seja menos directo do que Miller em matéria de sexo. Justine (tb. inspirou um filme), foi o primeiro romance da tetralogia, publicado em 1957. Seguiram-se Balthazar (1958), Mountolive (1959) e Clea (1960). O Quarteto conjuga numerosas influências, da filosofia budista – com a qual Durrell se familiarizou na Índia – às ideias de Freud e Einstein. Mas a obra é sobretudo, nas palavras do próprio autor, uma "investigação do amor moderno". A acção transcorre durante a II Guerra Mundial e nos anos que a precedem. Alexandria é mais que um cenário: a cosmopolita cidade funciona quase como personagem, um lugar de beleza, mistério – e também de miséria. Do ponto de vista estilístico, a grande inovação de Durrell é o jogo narrativo. Os três primeiros livros narram basicamente a mesma história, remontada e revista a partir de diferentes pontos de vista. No primeiro livro, o protagonista e narrador é Darley, jovem candidato a escritor que tem um duplo caso: com a bela e fogosa Justine, uma judia casada com o rico negociante copta Nessim, e com Melissa, dançarina de cabaré. A ligação entre Justine e o seu amante é um jogo narcísico, uma paixão perigosa que só pode acabar mal. Nos dois livros seguintes, a história é iluminada com a perspectiva de outros personagens – o médico e cabalista Balthazar e David Mountolive, o influente embaixador britânico no Egipto. Clea funciona como uma espécie de síntese, na qual os aspectos obscuros dos romances anteriores são esclarecidos quando Darley retorna a Alexandria depois de anos isolado numa ilha. (...) com uma exímia técnica narrativa, Lawrence Durrell retratou as paixões mais violentas de uma forma que ainda hoje conserva uma provocante originalidade.

LAWRENCE GEORGE DURRELL (1912-1990)

terça-feira, 8 de junho de 2010

PASSEANDO PELOS CLÁSSICOS

Há livros, que embora lidos, há alguns anos, nunca mais se esquecem! Li vários livros sobre Thoman Mann, (Lübeck, 6 de Junho de 1875 — Zurique, 12 de Agosto de 1955). Nobel de Literatura de 1929.
Mais sobre Thomas Mann AQUI
DESTACO:
OS BUDDENBROOKS, um romance que conta a história de uma família protestante de comerciantes de cereais de Lübeck ao longo de três gerações. Fortemente inspirado na história da sua própria família, o romance foi lido com especial interesse pelos leitores de Lübeck que descobriram muitos traços de personalidades conhecidas. Thomas Mann é também um romancista analítico, que descreve como poucos a tensão entre o carácter nórdico, protestante, frio e ascético e as personagens mais rústicas, simples, bonacheironas, das regiões católicas, de onde se destaca o senhor "Permaneder", o paradigma do bávaro de Munique, em "Os Buddenbrook". Thomas Mann viveu entre estes dois mundos. Por um lado a origem familiar e o ambiente da ética protestante de Lübeck, por outro lado a voz interior e a influência da sua mãe brasileira, que o faziam interessar-se menos pelos negócios e mais pela literatura. A influência da mãe acabou por levar a melhor. Thomas Mann via nos Buddenbrook um exemplo de uma família em decadência, em que os descendentes não saberiam levar avante os negócios, que herdaram.
MORTE EM VENEZA, publicado em 1912, conta a história do escritor alemão Gustav von Aschenbach, que vai passar férias a Veneza. Lá, apaixona-se platonicamente pelo jovem polonês Tadzio, de 14 anos, e passa os dias a admirá-lo. O livro faz considerações de Aschenbach sobre as dicotomias, beleza natural do jovem e a arte da escrita tão arduamente trabalhada por ele, ou juventude e velhice, sabedoria e ignorância, saúde e doença."Não estava escrito que o sol desvia nossa atenção do intelectual para o sensível? Que ele entorpece e enfeitiça a razão e a memória de tal modo que a alma, entregue ao prazer, esquece inteiramente sua verdadeira condição e se apega surpresa e maravilhada ao mais belo dos objectos iluminados por ele?"Há citações da literatura clássica, como o relacionamento entre Sócrates e Fedro, tentando justificar os sentimentos amorosos expressos pelo autor. Contudo, o que torna a obra digna de leitura não é a história em si, mas a habilidade de Thomas Mann no manuseio das palavras para mostrar aspectos psicológicos.
Ao chegar a Veneza, o escritor descreve a passagem através de um Portal, sendo conduzido por um estranho gondoleiro até ao seu destino, mas ele desaparece deixando apenas a frase: "O senhor pagará". O Portal é identificado como o do Inferno, e gondoleiro Caronte, barqueiro do rio que leva as almas no rio Estiges. Predição funesta, contudo muito pertinente. Também interpreta a necessidade dos moradores de Veneza em esconder a doença que assola a cidade dos turistas: revelando um falso clima de paz que precedeu a Primeira Guerra Mundial (1914) e mostrando a falsa sensação de que "está tudo bem". O livro leva-nos a descobrir Aschenbach/Mann, os seus traumas, anseios, dúvidas, desejos e contradições. Aschenbach critica justamente aquilo em que depois se vai transformar, o êxtase que será a causa do seu infortúnio.
Teve uma adaptação cinematográfica excelente de Luchino Viscontti.
A MONTANHA MÁGICA ("Der Zauberberg"), publicado pela primeira vez em 1924. Thomas Mann faz um retrato de uma Europa em ebulição, no eclodir da Primeira Guerra Mundial. Imagem simbólica da corrosão da sociedade europeia antes da Primeira Guerra. Ao visitar o primo num sanatório, Hans Castorp acaba por contrair tuberculose. Permanece internado por sete anos, vivendo num ambiente de requinte intelectual. Ler “A Montanha Mágica” é aprender a morrer. Quem vive está morrendo um pouco, e nessa montanha vive-se muito devagar. Narra-se a história de Hans Castorp, um jovem sem muitas qualidades, que o autor apenas não quer chamar de medíocre. Estava um pouco esgotado, ao término de seu curso de engenharia. Antes de assumir um alto cargo na firma dos parentes, vai para um sanatório na montanha para repousar por quinze dias, com o pretexto de visitar o primo tuberculoso. Os médicos descobrem que ele trazia a doença embutida, e fica internado. Então opera-se uma transformação nele, paulatinamente, à medida que vai vivendo nesse lugar, em que parece que o tempo não existe. Na retrospectiva da sua vida, é interessante notar o paralelo com a de Thomas Mann, que também ficou sem pai e, embora tivesse a mãe, ficou entregue à indiferença dos parentes. Falando no paralelo biográfico, vamos notar já o inacreditável capítulo sobre o passeio na praia – isto na montanha, num lugar coberto de neve, mesmo no verão – como se a mãe do autor, brasileira, de Paraty, deixasse nele esse sentimento atávico do mar. Vai conhecendo os hóspedes da clínica, que parece não terem nada de extraordinário. São de facto pessoas comuns que têm uma doença incurável, na época, e convivem com ela da melhor maneira possível. Quanto melhor é essa convivência, quanto mais parecem normais, mais ganham profundidade psicológica, mais vamos conhecendo quanto de humano pessoas comuns carregam dentro de si. Como não poderia deixar de ser, há a discussão religiosa – na pessoa de duas das personagens mais interessantes, mais complexas, um escritor e um jesuíta, dois pândegos a princípio, que vão crescendo e dominando a cena. É a Cidade de Deus e a cidade dos homens em luta, ambas carregadas de erros, tentando justificar-se e impor-se. O desenlace dessa disputa será o clímax do romance. Sem vencedores, mas com perda e desengano. No entanto, a vida continua. Hans Castorp conhece ou pensa conhecer o amor. Não percebe que quem vive nas suas condições não tem direito a amar. É nas vésperas da 1ª Guerra Mundial, quando o mundo vai transformar-se, que Hans Castorp amadurece de repente.Livro, em que não acontece nada, e que nos deixa presos àquele mundo cheio de humanidade, que sangra sem que se perceba, que morre – e olha-se com galhardia a morte –, enquanto nos vamos enriquecendo interiormente. Não é apenas Hans Castorp que cresce ao longo do romance. Não são apenas as personagens – sem grandeza como nós – que crescem ao longo do romance. Nós também.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER




Revi o filme, A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER. Já o tinha visto no cinema, assim como também li o livro de MILAN KUNDERA. O romance passa-se nas cidades de Praga e Zurique, em 1968. Narra amores e desamores e também está presente a invasão russa à Checoslováquia e o clima de tensão política que pairava em Praga, a «Primavera de Praga». O livro aborda alguns relatos históricos, inserindo a narração num contexto real, pode ser lido parte como realidade, parte como romance, mas o amor está sempre presente, com conflitos do amor ideal e do «amor real».
As personagens principais são: Tomas, um médico jovem, com uma vida livre de compromissos afectivos. Tem uma relação informal com Sabina, uma artista e uma versão de Tomas no feminino. Tudo muda na sua vida quando conheceu Teresa, numas termas, sentindo por ela uma atracção. Deixou-lhe um cartão para o visitar se fosse a Praga. Teresa foi e entregou a sua vida a Tomas, alojando-se na sua casa e fugindo de uma vida decrépita e sem sentido. Tomas não tem coragem de a mandar embora. Teresa vai lidar com as infidelidades de Tomas.

Revi o filme, porque depois de ter lido referências sobre o romance, que eu desconhecia, me interessou novamente revê-lo.
O que li aqui pela net: A riqueza do romance está essencialmente em aspectos psicológicos e filosóficos. As inspirações em filósofos, como Parménides, Sartre e Nietzsche, são óbvias.
Segundo teorias do filósofo Parménides Eléia (cerca de 530 a.C. – 460 a.C., a problemática da leveza e do peso, advém das dualidades ontológicas do Ser. A dualidade, porém, por força de uma perspectiva unitária do Ser, surge da presença e da ausência. Neste sentido, o frio é apenas a ausência de calor, o não calor. As trevas são a ausência de luz, a não luz. Para Parménides, contrariamente ao pensamento lógico-formal, a problemática da dualidade leveza/peso revela o peso como ausência, como não-leveza.
Kundera desloca esse pressuposto para o campo existencial, mesclando-a ao problema da liberdade humana, numa perspectiva próxima à problemática do existencialismo. A leveza decorre de uma vida liberta de compromissos aproximando-se, das ideias de Jean-Paul Sartre sobre a condição humana. Tomas vive a leveza, mas quando fica vinculado a Teresa, experimenta o peso opressivo do comprometimento. A leveza, despe a vida do seu sentido, o peso do comprometimento é uma razão de ser, sob a perspectiva existencialista.
Sob a perspectiva filosófica nietzscheana, Tomas levava uma vida autêntica, construindo os próprios valores. Teresa ilustra a problemática da escravidão: incapaz de realizar um empreendimento como o de Tomas, amarra-o pela força da sua impotência, chegando depois a admitir ter «destruído a sua vida». Tomás, encarnando metaforicamente a noção nietzscheana, revela que não se arrepende de nada, remetendo à doutrina do Eterno Retorno, da filosofia nietzscheana, um escape para o arrependimento que pode decorrer da escolha entre a leveza e o peso, o comprometimento e a liberdade pura.
Eterno Retorno, a possibilidade das situações existenciais se repetirem indefinidamente, por força de uma finitude das possibilidades frente à infinitude do tempo. O que parece um fundamento cosmológico vazio ganha implicações éticas imensas na perspectiva de Kundera: uma vida que desaparece não tem o menor sentido. Uma mentalidade educada sob a perspectiva de uma história cíclica, repetindo-se indefinidamente, dificilmente deixaria escoar-se, no vazio a própria vida. O argumento do Eterno Retorno assume então uma face de «convite à vida», com suas alegrias e tristezas. A ideia do Eterno Retorno convida o homem a fazer a vida valer a pena de ser vivida.
Kundera também se refere à questão da atitude humana da compaixão. Sob uma perspectiva filológica, compara o sentido da expressão nas línguas latinas e nas línguas germânicas, e as implicações dessa nuance na vida psicológica e sentimental dos indivíduos. Na língua latina a palavra compaixão significa simplesmente piedade, um sentimento que se impõe quando um indivíduo está em posição de superioridade frente a um outro que sofre a relação do poder dominador, tem compaixão, sem compartilhar do sentimento que leva o próximo a sofrer.
Na língua germânica, compaixão assume um sentido de "co-sentimento": o indivíduo que sente compaixão sofre junto com o seu próximo. Para Kundera, a compaixão é muito mais terrível do que a piedade porque a incapacidade humana de transpor os limites da subjectividade faz com que o sentimento careça de um certo esforço imaginativo que quase sempre multiplica a dor do próximo, fazendo-a mesmo maior do que a do próximo. Tomas sente compaixão por Teresa e, é através da mesma, que ela consegue prender-se a ele em definitivo desde o primeiro momento.
MILAN KUNDERA (1929)

Nasceu no seio de uma família erudita, o pai foi um importante musicólogo e pianista. Kundera aprendeu a tocar piano e estudou musicologia, Literatura e Estética, desistindo de tudo, para estudar cinema. Em 1950, foi temporariamente forçado a interromper os seus estudos por razões políticas. Neste ano, ele e outro escritor checo - Jan Trefulka - foram expulsos do Partido Comunista checo por «actividades anti-partidárias». Em 1956, Kundera foi readmitido no Partido Comunista, mas em 1970, foi novamente expulso. Kundera, assim como Václav Havel e outros intelectuais checos, envolveu-se na Primavera de Praga, que terminou com a invasão soviética à Checoslováquia. Kundera e Havel tentaram acalmar a população e organizar um levantamento reformista, frente ao totalitarismo comunista, desistiu definitivamente em 1975.
Kundera foi viver para França, onde se tornou um escritor de sucesso, recebendo, pelo conjunto da sua obra, o "Common Wealth Award" de Literatura (1981) e o "Prémio Jerusalém" (1985).

segunda-feira, 19 de abril de 2010

À ESPERA DE GODOT - SAMUEL BECKETT

O que mais aprecio na obra de BECKETT, é a sua riqueza metafórica, privilegiando uma visão pessimista e absurda, sobre o fenómeno humano.

À ESPERA DE GODOT, é uma das obras mais conhecidas de Samuel Beckett. Faz parte do Teatro do Absurdo, classificação feita por alguns críticos de teatro.
O seu enredo, baseia-se na falta de comunicação entre as personagens e na espera de algo que não se resolve. A expressão "Á Espera DE Godot" era bastante utilizada em tempos passados, para indicar algo impossível, ou uma espera infrutífera.
Esta peça tem dois actos. Os personagens da peça são: Vladimir, Estragon, Pozzo, Lucky e um garoto.
Num lugar indefinido, encontram-se dois amigos, Estragon e Vladimir, à espera de Godot, que não se sabe quem é, nem o que eles querem dele. Os dois iniciam um diálogo trivial, que depois é interrompido pela entrada de Pozzo e Lucky. O aparecimento destes assusta os amigos, ainda mais pelo modo como os dois vêm: Pozzo puxa uma corda que na outra ponta está amarrada ao pescoço de Lucky. Lucky por sua vez carrega uma pesada mala, que não larga um só instante. Entende-se pela situação que Pozzo é o patrão e Lucky o seu criado. Os quatro trocam palavras, cada um com seu drama pessoal, até que Pozzo e Lucky saem. Em seguida, entra um garoto para anunciar, que quem eles estão esperando - Godot - não viria, talvez amanhã.
O segundo acto é uma cópia do primeiro. O cenário é o mesmo. Estragon e Vladimir voltam para esperar Godot, que talvez apareça nesse dia. Iniciam outro diálogo trivial, interrompido outra vez pela chegada de Pozzo e Lucky. Só que, inexplicavelmente, Pozzo está cego e Lucky está surdo. Dialogam. Após a partida destes, aparece um garoto (diferente do garoto do primeiro acto) anunciando que Godot não viria hoje, talvez amanhã. Pensam em se enforcar na árvore, mas desistem, ante a impossibilidade do acto ser simultâneo.



SAMUEL BECKETT (Dublin, 1906 — Paris, 1989), oriundo de uma família burguesa e protestante, estudou no Trinity College de Dublin, onde se formou em Literatura Moderna, especializando-se em francês e italiano. Em 1928, meses após sua mudança para Paris, conheceu James Joyce e tornou-se grande admirador do escritor, a sua obra posterior é fortemente influenciada por ele.
Andou entre Dublin onde leccionou e Paris. Publicou a sua primeira novela e foi viver definitivamente para Paris, onde casou com Suzanne Deschevaux-Dusmenoil. Um misterioso acidente ocorreu nessa altura, ficou gravemente ferido ao ser agredido por um estranho, que lhe desferiu uma facada no peito.
Durante a Segunda Guerra, fez parte com a mulher da resistência francesa, na ocasião da invasão de Paris pelo exército nazista, em 1941. Afastou-se da resistência em 1942, quando ambos foram obrigados a fugir da França. Em 1969 recebeu o Nobel da Literatura. Morreu em 1989.
Tem uma obra vasta, de teatro, romance, ensaio, novela e poesia.

FONTE - INTERNET

quarta-feira, 14 de abril de 2010

FRUSTRAÇÃO - EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO




EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO ("À la recherche du temps perdu") obra de Marcel Proust escrita entre 1908-1909 e 1922, publicada entre 1913 e 1927 em sete volumes, os três últimos postumamente.
(APENAS LI O 1º. VOLUME. TENHO TODOS, O MEU PROPÓSITO É LER ESTA OBRA COMPLETA)Du côté de chez Swann (No caminho de Swann 1913)
À l'ombre des jeunes filles en fleurs (À sombra das raparigas em flor, 1919, recebeu o prémio Goncourt desse ano)
Le Côté de Guermantes (O caminho de Guermantes, publicado em 2 volumes de 1920 e 1921)
Sodome et Gomorrhe (Sodoma e Gomorra, publicado em 2 volumes em 1921-1922)
La Prisonnière (A prisioneira, publicado postumamente em 1923)
Albertine disparue (A Fugitiva - Albertine desaparecida, publicado postumamente em 1927) (título original: La Fugitive)
Le Temps retrouvé (O tempo reencontrado, publicado postumamente em 1927)
Pelas suas ambições (alcançar a substância do tempo para poder se subtrair à sua lei, a fim de tentar apreender, pela escrita, a essência de uma realidade escondida no inconsciente “recriada pelo nosso pensamento”). Em busca do tempo perdido, faz parte das maiores obras da literatura universal.

Proust abordou a Primeira Grande Guerra, incluindo o bombardeamento aéreo de Paris; os pesadelos de juventude do narrador transformaram-se num campo de batalha, com 600.000 alemães mortos na luta por Méséglise, e com Combray dividida entre os dois exércitos.
O papel da memória é central no romance. Quando a avó do narrador morre, a sua agonia é retratada como um lento desfazer, as suas memórias parecem ir-se evaporando dela, até já nada restar. No último volume, O Tempo Reencontrado, o autor utiliza uma analepse, e faz com que o narrador recue no tempo das suas memórias, em episódios desencadeados por recordações de cheiros, sons, paisagens ou mesmo sensações tácteis.
Uma grande parte do romance debruça-se sobre a natureza da arte. Proust avança com uma teoria da arte em que todos somos potenciais artistas, se por arte entendemos transformar as experiências de vida do dia a dia em algo revelador de maturidade e entendimento. A música é também abordada extensamente. Morel, o violinista, é apresentado para exemplificar um certo tipo de carácter artístico, e o valor da música de Wagner é também debatido.
A homossexualidade é um dos temas principais do romance, especialmente em Sodoma e Gomorra e nos volumes seguintes. Em Busca do Tempo Perdido é o primeiro dos grandes romances em que a homossexualidade é tema central, tanto como conceito para discussão como pela descrição do comportamento dos seus personagens. Embora o narrador se descreva como heterossexual, suspeita constantemente das relações da sua apaixonada com outras mulheres. Também Charles Swann, a figura central de grande parte do primeiro volume, tem ciúmes da sua amante Odette (com quem mais tarde casará), que acabará por admitir ter realmente mantido relações sexuais com outras mulheres. Alguns personagens secundários, como o Barão de Charlus (inspirado no à época famoso Robert de Montesquiou), são abertamente homossexuais, enquanto outros, como o grande amigo do narrador, Robert de Saint-Loup, são mais tarde apresentados como homossexuais não assumidos. A monumental confrontação do tema da homossexualidade em Em Busca do Tempo Perdido revelou aos leitores, que a homossexualidade poderia ser mais que apenas actos lascivos de sodomitas ou os maneirismos afectados de homens obcecados em negar a sua masculinidade. Em vez disso, o romance de Proust apresentou a homossexualidade como um assunto complexo e multifacetado, que, se examinado de perto, derrota todos os estereótipos.
Em 1949, o crítico literário Justin O'Brien, publicou um artigo denominado, Albertine the Ambiguous: Notes on Proust's Transposition of Sexes ("A ambiguidade de Albertina; notas sobre a transposição de géneros sexuais em Proust"), que afirmava que alguns dos personagens femininos, nomeadamente a amante do narrador, Albertina, seriam melhor entendidos se lhes mudasse o género sexual para o masculino: os nomes das amantes do narrador são todos possíveis no masculino: Albertine (Albert), Gilberte (Gilbert), Andrée (André). Esta teoria ficaria conhecida como a "teoria da transposição dos sexos" na análise crítica da obra literária de Proust, que seria mais tarde retomada por Eve Kosofsky Sedgwick em, Epistemology of the Closet (A Epistemologia do Armário). Outros temas importantes nesta obra são a doença física e a crueldade.
FONTE-INTERNET

quarta-feira, 31 de março de 2010

FRUSTRAÇÃO - OUTONO EM PEQUIM - BORIS VIAN

Boris Vian é considerado um indomável escritor e também foi músico, letrista e compositor, matemático, inventor…
Inicialmente com o pseudónimo de Vermon Sullivan, escreveu policiais negros.
OUTONO EM PEQUIM, é um romance desarmante: nada faz aparente sentido nesta trama desconexa, desigual e caótica. E, no entanto (ou por causa disso mesmo…), tudo se encaixa, como se a desordem fosse o caminho mais indicado para chegarmos a algum lado. DIZEM, EU SÓ CHEGUEI A MEIO!...A construção de uma linha férrea em pleno deserto, num local tão inóspito quanto imaginário chamado Exopotâmia, vai reunir um conjunto de insólitas personagens. Embora a acção não esteja isenta da narrativa (há fugas, amores não correspondidos e intensos jogos de sedução), o que estes seres procuram ou para onde vão acaba por ser secundário, quando comparado com aquilo que representam, muito superior a eles; sem o saberem, todos pertencem a um microcosmos que representa a sociedade em toda a sua decadência e esplendor, uma realidade que Vian tanto gostava de desmontar para melhor expor as suas contradições e hipocrisias.Mais do que pela trama narrativa (in)xistente, é pela espirituosidade dos diálogos, absurdo das situações e feroz crítica social do autor-satirizando figuras (sa)gradas da sociedade francesa da época.

quarta-feira, 24 de março de 2010

FRUSTRAÇÃO - ULISSES - JAMES JOYCE

Nunca consegui ler este livro, já fiz várias tentativas, mas...acaba por ser posto de lado, no entanto ainda não desisti de o ler.
Até tive que ler a Ilíada de Homero, na qual se baseia o livro...mas a linguagem de James Joyce é que me tem desmotivado.


Vi uma peça de teatro, interpretada por Graça Lobo, há uns anos, que tinha por título «MOLLY» e suscitou um certo escândalo!...



RESUMO DE ULISSES - A 16 de Junho de 1904, Leopold Bloom, um judeu irlandês, sai de casa para comprar os rins que a mulher adora comer ao pequeno-almoço, ir à Posta Restante buscar as cartas de amor da amante, cumprir as suas obrigações de angariador de publicidade e assistir ao enterro de um velho conhecido no cemitério.
O Sr. Bloom, como Ulisses através dos mares, vai ser arrastado através de Dublin numa odisseia trivial e aventureira. A ilha dos Lotófagos, a gruta de Polifemo e a caverna de Circe, tomam aqui nomes de praças de Dublin, de bares e de bordéis irlandeses. Nausicaa, Penélope, Telémaco e os pretendentes são pessoas que vai encontrando, uma cantora, um jovem professor de História falador e boémio, um velho empresário corrupto ou ébrios eloquentes. Será apenas na madrugada seguinte, bem comido e melhor bebido, que Leopold Bloom regressará a casa (Ítaca), após ter sido expulso de um bar por um sujeito intratável, depois também de ter apanhado no bordel uma bebedeira memorável que termina num pandemónio fabuloso. História da vida de um pobre diabo judeu irlandês, enganado pela mulher e que corre atrás de qualquer saia que lhe passa perto.
Terá pelo caminho refeito todo o percurso da História, paródica e sublime, a história de tudo o que a Humanidade inventou para atravessar a terra: línguas, culturas, metafísicas, filosofias, teologias, erotismos, ritos, brincadeiras, preces, magias, sem esquecer o whisky, o vinho tinto e os rins fritos em manteiga, sem esquecer também os prodígios da palavra humana, única alavanca de Arquimedes que poderia, sem ponto de apoio, levantar o mundo.
'Ulisses' foi escrito pelo irlandês James Joyce quando vivia modestamente em Paris. Joyce passou alguns anos escrevendo a sua obra-prima, hoje considerada um divisor de águas da literatura mundial. Existe um antes e um depois de 'Ulisses'. O livro que criou formas inusitadas de expressão, que inaugurou uma nova linguagem, que inventou voz e estilo, e que por muito tempo, também por suas transgressões, permaneceu censurado.
SOBRE JAMES JOYCE EM:
http://pt.wikipedia.org/wiki/James_Joyce

sábado, 13 de fevereiro de 2010

OFÍCIO DE VIVER - CESARE PAVESE (1908-1950)


Não há dúvida de que é inútil e prejudicial lamentarmos-nos perante o mundo. Resta saber se não é igualmente inútil e prejudicial lamentarmos-nos perante nós próprios. Evidentemente. De facto, ninguém se lamentará perante si próprio, a fim de se incitar à piedade, o que nada significaria, dado que a piedade é, por definição, o voluptuoso encontro de dois espíritos. Para quê, então? Não para obter favores, porque o único favor que um espírito pode fazer a si próprio é conceder-se indulgência, e toda a gente percebe quanto é prejudicial que a vontade seja indulgente para com a sua própria e lamentável fraqueza. Resta a hipótese de o fazermos para extrair verdades do nosso coração amolecido pela ternura. Mas a experiência ensina que as verdades surgem apenas em virtude de uma pacata e severa busca, que surpreende a consciência numa atitude inesperada e a vê, como de um filme que parasse de repente, estupefacta, mas não emocionada. Basta, portanto.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Os Cadernos de Malte Laurids Brigge", Rainer Maria Rilke

Único romance do poeta Rainer Maria Rilke, um dos grandes nomes da literatura alemã do século XX. Escrito no período em que o autor se mudou para Paris, a fim de redigir um trabalho sobre o amigo e escultor Auguste Rodin, Os cadernos de Malte Laurids Brigge, reflectem algumas das experiências de Rilke na capital francesa e o contacto que travou com os artistas modernistas da época.
Ao deixar para trás a família e as lembranças da infância vivida num castelo no campo, o jovem dinamarquês Malte Laurids Brigge, depara-se com uma Paris ao mesmo tempo fascinante e inóspita. Os cadernos fazem anotações das dificuldades sentidas pelo personagem, as mesmas do autor.
Influenciado por Nietzsche e Kierkegaard, o livro, publicado em 1910, expõe o processo de desenvolvimento de Malte Laurids Brigge, tanto psicológico quanto físico, fazendo vários questionamentos, sobre a busca da individualidade, a tentativa de entender o significado da morte e o questionamento da religião são algumas das angústias do personagem e do próprio autor.


“Há muitas pessoas, mas há ainda muitas mais caras, pois cada uma tem várias. Há pessoas que usam uma cara anos seguidos; gasta-se naturalmente, suja-se, quebra nas rugas, alarga como as luvas que se usaram em viagem. São as pessoas simples, poupadas; não mudam de cara, nem a mandam lavar. Serve muito bem, afirmam elas; e quem é que lhes pode provar o contrário? (…) Outras pessoas põem as suas caras com uma rapidez medonha, uma após outra, e gastam-nas. Parece-lhes a princípio que lhes chegam para sempre, mas, mal chegam a quarenta – eis a última. Isto tem naturalmente o seu trágico. Não estão habituadas a poupar caras; a última gastou-se ao cabo de oito dias, tem buracos, está em vários sítios delida e fina como papel, e, a pouco e pouco, vai aparecendo a pasta de baixo, a não-cara, e é com essa que andam”.


“Antigamente sabia-se (ou talvez se pressentisse) que se trazia a morte dentro de si, como o fruto o caroço. As crianças tinham dentro uma pequena e os adultos uma grande. As mulheres tinham-na no seio e os homens no peito. Tinha-se, a morte, e isto dava às pessoas uma dignidade particular e um calmo orgulho”.

“O destino gosta de inventar desenhos e figuras. A dificuldade dele reside no complicado. A vida mesma, porém, é difícil pela simplicidade. Tem apenas algumas coisas de um tamanho que nos não é adequado. O santo, rejeitando o destino, escolhe estas coisas, em face de Deus. Mas que a mulher, conforme à sua natureza, tenha de fazer a mesma escolha em relação ao homem, é o que evoca a fatalidade de todas as relações de amor: resoluta e sem destino como uma eterna, ergue-se ela ao lado dele, dele que se transforma. Sempre a amante ultrapassa o amado, porque a vida é maior do que o destino. O dom de si mesma quer ser desmedido: é esta a sua ventura. A dor inominada do seu amor, porém, foi sempre esta: que se exija dela que limite este dom de si mesma”.

(Rilke, “Os Cadernos de Malte Laurids Brigge”, tradução de Paulo Quintela, edição de “O Oiro do Dia”, Porto, 1983)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

SE ISTO É UM HOMEM - PRIMO LEVI


Num sábado, dia 11 de Abril de 1987, por volta das 10 horas da manhã, a porteira de um sólido edifício cinzento do século XIX situado no Corso Rei Umberto de Turim tocou à porta do 3º andar para, como todos os dias, entregar o correio. Primo Levi abriu-lhe a porta, sorriu, recebeu o correio, agradeceu e reentrou. Poucos minutos depois o seu corpo estatelava-se no fundo da escada, ao lado do elevador. Morreu instantaneamente, como revelou a autópsia, que não detectou no seu corpo qualquer sinal de violência, biografias mais recentes afirmam ter-se tratado de um acidente, provocado pela medicação que Levi tomava na altura.Podia ter sido suicídio, na realidade, depois da sobrevivência a Auschwitz, a memória tornara-se-lhe insuportável.

Em 1962, Levi tinha escrito: Há um sonho pleno de horror que não deixa de me visitar (...). É um sonho dentro de um sonho. Varia nos detalhes mas não na substância. Posso estar sentado à volta de uma mesa com a minha família ou com amigos, ou no trabalho, ou num campo verde. Em suma, num ambiente pacífico e descontraído, sem qualquer tensão ou aflição aparente; e, no entanto, sinto uma profunda e subtil angústia, a sensação definitiva de uma ameaça pendente. E, de facto, à medida que o sonho continua, devagar ou brutalmente, de cada vez de uma forma diferente, tudo se desintegra à minha volta, o cenário, as paredes, as pessoas, enquanto a angústia se torna cada vez mais intensa e mais definida. Agora, tudo se transforma em caos. Estou sozinho no centro de um nada cinzento e perturbador e agora sei o que significam as coisas e também sei que sempre o soube. Estou no Laager e nada é verdadeiro fora do Laager. Tudo o resto era uma breve pausa, uma ilusão dos sentidos, um sonho (...). Este sonho dentro do sonho terminou e o outro sonho continua, gélido. Uma voz bem conhecida pronuncia uma única palavra, que não é imperiosa, apenas breve. É a voz de comando do amanhecer de Auschwitz, uma palavra estrangeira, temida, esperada: "Wstawách!. Levanta-te.

SE ISTO É UM HOMEM - A obra imortal de Primo Levi, um judeu italiano que sobreviveu a Auschwitz, para escrever o mais humano e comovente testemunho do Holocausto.