O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE
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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A solidão desola-me, a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa descaminha-me os pensamentos. Bernardo Soares -Livro do Desassossego

Eu sou uma antologia.
Escrevo tão diversamente
Que, pouca ou muita a valia
Dos poemas, ninguém diria
Que o poeta é um somente.

Pessoa foi uma pluralidade singular e esteve acompanhado por várias personagens que ele criou, todos eles tinham uma assinatura e alguns se corresponderam mutuamente.
Ocorria-lhe um pensamento que logo ligava a determinada pessoa irreal, como sendo um amigo, inventando um nome, acrescentando história e figura – cara, estatura, traje, gestos – ele estava ali à sua frente.
 Assim teve vários amigos e conhecidos que nunca existiram, mas que ouvia, vi-a e senti-a. Desde criança que inventou os seus amigos imaginários.



António Mora, figura literária, que navega no mar de Pessoa, com contornos mal definidos. Personalidade pouca conhecida, mas surpreendente. Escreveu O Regresso dos Deuses» 300 páginas de prosa e um poema.
Álvaro de Campos disse sobre Mora: era uma soma de veleidades especulativas. Passava a vida a mastigar Kant e a tentar ver com o pensamento se a vida tinha sentido.
Um discípulo de Alberto Caeiro: indeciso, como todos os fortes, não tinha encontrado a verdade, ou o que para ele fosse a verdade. Encontrou Caeiro e encontrou a verdade. Caeiro deu-lhe a alma que ele não tinha.
A lista de obras pensadas para António Mora é muito vasta. Autor de vários textos sociológicos e filosóficos, um louco que revive a Grécia Antiga, mas depois perde-se no turbilhão pessoano.

Seu único poema:

Uma coisa queremos
Outra fazemos.
Quem quer somos nós sós
Quem faz não somos nós.
Quem somos tem o intuito
Quem não somos o fruto
Alheio à intenção.
Todos não são quem são.

 Nem génio único, nem louco múltiplo ou esquizofrénico, é possível ser genial sendo muitos, é possível ser muitos sem estar doido, embora a criação comporte um quantum de loucura. Pessoa foi múltiplo, mas senhor da sua multiplicidade, numa «ruidosa solidão».


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

FERNANDO PESSOA O «JANOTA»

As fotografias de Fernando Pessoa, podem revelar uma pessoa sem grandes preocupações na forma como se vestia. É verdade que Pessoa, passou por dificuldades económicas e teve dívidas, mas nunca sucumbiu à miséria.
Fernando Pessoa gostava de vestir bem. Por vezes teve que recorrer à venda de livros já lidos, para ter dinheiro, muito dele para comprar roupas e acessórios nas casas mais requintadas de Lisboa, como a Camisaria Pitta. Os familiares sempre disseram que Pessoa andava sempre bem arranjado, de colarinhos bem engomados e gostava de vestir com um certo rigor. Seria o que se dizia então um «janota», mas ser «janota» ficava caro, até teve uma alta conta num dos alfaiates mais conceituados de Lisboa, Lourenço & Santos, Lda. O próprio Fernando Pessoa faz referência no seu diário, entrada em 30 de Novembro de 1915: «Há noite fiquei satisfeito de ouvir duas referências diferentes (do Cortês-Rodrigues e do Perdigão), ao facto de eu estar bem vestido (Oh, eu!)».
No fim da sua vida Fernando Pessoa recebeu o Prémio Antero de Quental, quantia de 5000$00, pelo seu livro «Mensagem». Oito meses depois de receber este dinheiro morreu no Hospital São Luís dos Franceses, é de pensar que o poeta viveu esses meses num justíssimo desafogo, mas o facto de ter morrido sem deixar dívidas, revela que também as saldou todas.
Escritor David Soares

Retrato exposto na Casa Fernando Pessoa, feito pelo pintor Adolfo Rodriguez Castañe, um dos seus amigos.

domingo, 13 de outubro de 2013

ALEISTER CROWLEY E FERNANDO PESSOA: O MISTÉRIO

Aleister Crowley, (Royal Leamington Spa, 12 de Outubro de 1875  Hastings, 1 de Dezembro de 1947), foi um membro da Ordem Hermética da Aurora Dourada e influente ocultista britânico, responsável pela fundação da doutrina ou filosofia Thelema. Foi o co-fundador da AA e eventualmente um líder da O.T.O.. É conhecido hoje em dia por seus escritos sobre magia, especialmente o Livro da Lei, o texto sagrado e central da Thelema, apesar de ter escrito sobre outros assuntos esotéricos como magia cerimonial e a cabala.
Crowley também era mago, hedonista, usuário recreacional de drogas, e crítico social. Em muita de suas façanhas ele "iria contra os valores morais e religiosos do seu tempo", era um libertário e a regra era, "Faz o que tu queres". Por causa disso, ele ganhou larga notoriedade na sua vida, e foi declarado pela imprensa do tempo como "O homem mais perverso do mundo."  Além de suas atividades esotéricas, era também um premiado jogador de xadrez, um alpinista, poeta e dramaturgo.
Em 2001, a BBC descrevia Crowley como sendo o septuagésimo terceiro maior britânico de todos os tempos, por influenciar e ser referenciado por numerosos escritores, músicos e cineastas, incluindo Jimmy Page, Alan Moore, Bruce Dickinson, Ozzy Osbourne, Raul Seixas, Marilyn Manson, Kenneth Angere Celso Junior


Fernando Pessoa interessava-se pelo ocultismo e pelo misticismo, com destaque para a Maçonaria e a Rosa-Cruz (embora não se lhe conheça qualquer filiação concreta em Loja ou Fraternidade dessas escolas de pensamento), havendo inclusive defendido publicamente as organizações iniciáticas no Diário de Lisboa (4 de Fevereiro de 1935), contra ataques por parte da ditadura do Estado Novo. O seu poema hermético mais conhecido e apreciado entre os estudantes de esoterismo intitula-se "No Túmulo de Christian Rosenkreutz". Tinha o hábito de fazer consultas astrológicas para si mesmo.
Apreciava também muito o trabalho de Helena Blavatsky tendo inclusive traduzido, em 1916, A Voz do Silêncio, assim como lhe suscitava muita curiosidade o famoso ocultista Aleister Crowley, tendo-lhe traduzido o poema Hino a Pã. Certa vez, lendo uma publicação inglesa de Crowley, encontrou erros no horóscopo e escreveu-lhe para o corrigir. Os seus conhecimentos de astrologia impressionaram Crowley e, como este gostava de viagens, veio  a Portugal conhecer o poeta. Acompanhou-o a maga alemã Hanni Larissa Jaeger . O encontro entre Pessoa e Crowley ocorreu com algum sensacionalismo, dado o Poeta Inglês ter simulado o seu suicídio na Boca do Inferno, o que atraiu várias polícias Europeias e a atenção dos média da época. Pessoa estaria dentro da encenação, tendo combinado com Crowley a notificação dos jornais e a redacção de um "romance policial" cujos direitos reverteriam a favor dos dois poetas. Apesar de ter escrito várias dezenas de páginas, essa obra de ficção nunca foi concretizada.
(Wikipédia)

Segundo João Gaspar Simões, biógrafo de Fernando Pessoa, esse viria a conhecer “um estranho homem, cuja complexidade e desenvoltura se acusam os traços típicos desse misto de charlatão e inspirador que o nosso tímido mistificador debalde procurou ser”.
João Gaspar Simões escreveu ainda que Fernando Pessoa ficou muito preocupado com a não esperada visita “daquele feiticeiro – cuja espantosa biografia lhe fora dado a conhecer lendo a história das suas estranhas aventuras”.
Crowley chegou a Lisboa no dia 2 de Setembro de 1930 acompanhado pela Mulher Escarlate (Miss Hanni Larissa Jaeger, sua assistente), a bordo do “Alcântara”, depois de ter ficado retido em Vigo durante um dia, devido a um intensíssimo nevoeiro. “Em terra”, Fernando Pessoa, transido e tímido, vê avançar para ele um homem alto, espadaúdo, envolto numa capa negra, cujos olhos, ao mesmo tempo maliciosos e satânicos, o fitam repreensivamente, enquanto exclama: “Então que ideia foi essa de me mandar um nevoeiro lá para cima”?  - João Gaspar Simões, in Vida e Obra de Fernando Pessoa – História duma Geração.

Por fim foram para o Hotel l’Europe, e só depois para o Hotel Paris, no Estoril.
Depois da chegada, Fernando Pessoa só esteve com eles por duas vezes, tendo uma sido no Estoril, e a outra em Lisboa.
Porém, no dia 18 de Setembro, Fernando Pessoa recebeu uma carta de Crowley, contando-lhe que Miss Jaeger havia tido, duas noites atrás, um “formidável” ataque de histerismo, deixando o Hotel Miramar de pantanas, e que de manhã, não havia sinal nenhum dela, havia simplesmente desaparecido.
Ainda no dia 18, Crowley foi para Lisboa e encontrou-se com Fernando Pessoa, mostrando-se preocupadíssimo com Miss Jaeger, dizia que estava perturbada e tinha o desejo de se suicidar, pois se achava perseguida por um mago negro chamado Yorke.
Acabou por nunca encontrar Miss Jaeger, nem a detectaram em parte alguma da fronteira, a sair do país em que momento fosse.
Crowley ficou em Lisboa até dia 23 de setembro, seguindo depois para Sintra, onde ficou por alguns dias no Casal de Santa Margarida, casa do dono do negócio da Shell em Portugal.
No entanto… Fernando Pessoa afirma ter visto Crowley por duas vezes no dia 24, sendo que uma dessas vezes foi no Rossio, e outra no Cais do Sodré, a entrar na Tabacaria Inglesa. Em ambas não estava a uma distância que Crowley pudesse entrar em contacto.
A Polícia Internacional viria a dizer tempos depois, no fim do mistério e para o mais adensar, que Crowley havia passado a fronteira no dia 23.
Entretanto, no dia 25, Augusto Ferreira Gomes, um amigo ocultista de Fernando Pessoa, jornalista de Notícias Ilustre encontra acidentalmente junto à Boca do Inferno em Cascais, uma cigarreira (de Aleister Crowley) com uma mensagem debaixo dela.

Segundo os fatos que todos possuíam, Aleister Crowley tinha ido para Sintra no dia 23, saído do país no dia 23, sido visto em Lisboa no dia 24, e no dia 25 a (sua suposta) mensagem era encontrada à beira da Boca do Inferno.
A mensagem era a seguinte:

L.G.P.
                        Ano 14, Sol em Balança
Não posso viver sem ti. A outra “Boca do Infierno” (sic) apanhar-me-á — não será tão
quente como a tua.
        Hisos
                                Tu LiYu.


O grande mistério é: Aleister Crowley foi fotografado em Londres jogando Xadrez com Fernando Pessoa anos após seu suposto suicídio.



O suicídio de Crowley teria sido apenas uma mistificação em que Fernando Pessoa colaborou?
Se sim, qual foi o motivo para que elaborassem tal plano? E o que aconteceu com Miss Jaeger?
Se não foi Crowley, quem cruzou a fronteira do país no dia 23 de setembro?

UM MISTÉRIO!!!



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O Jogo de Forças

William-Adolphe Bouguereau
A beleza começou por ser uma explicação que a sexualidade deu a si-própria de preferências provavelmente  de origem magnética. Tudo é um jogo de forças, e na obra de arte não temos que procurar «beleza» ou coisa que possa andar no gozo desse nome. Em toda a obra humana, ou não humana, procuramos só duas coisas, força e equilíbrio de força - energia e harmonia. 
Perante qualquer obra de qualquer arte - desde a de guardar porcos à de construir sinfonias - pergunto só: quanta força? quanta mais força? quanta violência de tendência? quanta violência reflexa de tendência, violência de tendência sobre si própria, força da força em não se desviar da sua direcção, que é um elemento da sua força? 

Fernando Pessoa, in 'Correspondência'

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Na Véspera de não Partir Nunca

Júlio Pomar
Na Véspera de não Partir Nunca

Na véspera de não partir nunca 
Ao menos não há que arrumar malas 
Nem que fazer planos em papel, 
Com acompanhamento involuntário de esquecimentos, 
Para o partir ainda livre do dia seguinte. 
Não há que fazer nada 
Na véspera de não partir nunca. 
Grande sossego de já não haver sequer de que ter sossego! 
Grande tranqüilidade a que nem sabe encolher ombros 
Por isto tudo, ter pensado o tudo 
É o ter chegado deliberadamente a nada. 
Grande alegria de não ter precisão de ser alegre, 
Como uma oportunidade virada do avesso. 
Há quantas vezes vivo 
A vida vegetativa do pensamento! 
Todos os dias sine linea 
Sossego, sim, sossego... 
Grande tranqüilidade... 
Que repouso, depois de tantas viagens, físicas e psíquicas! 
Que prazer olhar para as malas fítando como para nada! 
Dormita, alma, dormita! 
Aproveita, dormita! 
Dormita! 
É pouco o tempo que tens! Dormita! 
É a véspera de não partir nunca! 

Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Há doenças piores que as doenças,

DESENHO DE ABEL MANTA

Há doenças piores que as doenças, 
Há dores que não doem, nem na alma 
Mas que são dolorosas mais que as outras. 
Há angústias sonhadas mais reais 
Que as que a vida nos traz, há sensações 
Sentidas só com imaginá-las 
Que são mais nossas do que a própria vida. 
Há tanta coisa que, sem existir, 
Existe, existe demoradamente, 
E demoradamente é nossa e nós... 
Por sobre o verde turvo do amplo rio 
Os circunflexos brancos das gaivotas... 
Por sobre a alma o adejar inútil 
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.


Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.


FERNANDO PESSOA

domingo, 11 de dezembro de 2011


Dorme, que a Vida é Nada!

Dorme, que a vida é nada!
Dorme, que tudo é vão!
Se alguém achou a estrada,
Achou-a em confusão,
Com a alma enganada.

Não há lugar nem dia
Para quem quer achar,
Nem paz nem alegria
Para quem, por amar,
Em quem ama confia.

Melhor entre onde os ramos
Tecem docéis sem ser
Ficar como ficamos,
Sem pensar nem querer,
Dando o que nunca damos.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

terça-feira, 23 de agosto de 2011

FERNANDO PESSOA UM GRANDE INSPIRADOR...

«Fernando Pessoa tornou-se um autêntico símbolo da cultura portuguesa. Mas o fundamental é dizer que hoje em cada fragmento da multifacetada obra pessoana encontramos um pouco de nós mesmos». Guilherme d' Oliveira Martins

Fernando Pessoa «foi uma espécie de aparição fulgurante descida das brumas culturais alheias ao nosso desterro azul, para nele inscrever em portuguesa língua o mais insubornável poema jamais erguido à condição exilada dos homens na sua própria pátria, o universo inteiro».
Pessoa Revisitado - Eduardo Lourenço.












sexta-feira, 1 de julho de 2011

ILUSÃO


Tudo é ilusão (1).
A ilusão do pensamento, a do sentimento, a da vontade. Tudo é criação, e toda a criação é ilusão.
Criar é mentir.
Para pensar o não‑ser criamo‑lo, passa a ser uma coisa. Todos os que pensam ocultistamente criam em absoluto todo um sistema do Universo, que fica sendo real. Ainda que se contradigam: há vários sistemas do universo, todos eles reais.
Nós próprios, porque existimos, somos criações também, portanto ilusões. Mas somos criações de quem? Do Deus que nós‑próprios criámos? Como se o criámos nós, e lhe somos portanto anteriores? Isso é supondo real o tempo, que é outra criação nossa. Tudo é um amontoado de ilusões.
Aquilo a que chamamos verdade é aquilo a que também chamamos o ser. Verdadeiro é o que é. Mas o que é, é ilusão. Por isso a verdade é a ilusão, é uma ilusão.
A que abismo vamos ter?
Quanto mais forte o pensamento, o sentimento, a vontade, maior o poder criador.
O que a ocultistas é verificável é falso. Há imortalidade, mesmo eternidade da alma, mas isto é falso. Há um Deus eterno, criador do céu e da terra, e isto é falso. Ser é não‑ser.
Nunca podemos deixar de criar, por isso nunca podemos deixar de mentir.
A própria ilusão é uma ilusão.
O que nós não sentimos não existe. O que nós sentimos (...)
Só há uma coisa que não pode ser ilusão, porque ela não é criada: é a consciência. Uma só coisa escapa a toda a crítica — a consciência. A consciência não cria, nem é um conceito nosso, porque a não podemos pensar nem como sendo, nem como não‑sendo. Pensar, sentir, querer, são ilusões; mas ter consciência não é uma ilusão.
A verdade é da consciência para lá. «Deus» é a consciência da consciência, coisa que não podemos pensar.
A consciência não é concreta nem abstracta, não é um ser nem não‑ser.
Na proporção em que a consciência é uma ideia falsa.
Existem realmente Deus, céu, anjos, almas imortais e eternas. E contudo nada disso é verdade. Existe e dura eternamente, mas é falso.
O niilismo transcendental ...
Temos todos a noção de que há qualquer coisa: isso é falso. Não há; não há nem não há. A própria consciência não existe, mas é a única verdade.
Não haverá graus na ilusão? Quanto mais criadora uma coisa é mais ilusória. Partindo do nosso espírito, vemos quais as maiores ilusões ...
(1) Tudo se reduz a criar.
Tudo se reduz a iludir-se.
Portanto criar é mentir.
1915?
Textos Filosóficos. Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993).

quinta-feira, 12 de maio de 2011

ESTÉTICA E ESCRITOS ÍNTIMOS - FERNANDO PESSOA




O fim da arte inferior é agradar, o fim da arte média é elevar, o fim da arte superior é libertar. (...) Há as artes cujo fim é influenciar, que são a música, a literatura e a filosofia. Só a arte é útil. Crenças, exércitos, impérios, atitudes - tudo isso passa. Só a arte fica, por isso só a arte se vê, porque dura.O homem de génio é um mero repositório do seu génio. Todo o seu esforço deve ser utilizá-lo, preparando-se para utilizá-lo. Se não o fizer, graves contas prestará - não sei se a Deus - com certeza a si próprio no futuro.

Tenho pensamentos que, se conseguisse realizá-los e torná-los vivos, acrescentariam uma nova luz ás estrelas, uma nova beleza ao mundo e um maior amor ao coração dos homens. Uma das minhas complicações mentais - horrível para além das palavras - é o medo da loucura, que em si próprio já é loucura. Cada vez estou mais só, mais abandonado. Pouco a pouco, quebram-se-me todos os laços. Em breve estarei sozinho. Procurei sempre ser espectador da vida, sem me misturar nela. Assim, a isto que se passa comigo, eu assisto como um estranho.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

FERNANDO PESSOA ((Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935)



A Casa Fernando Pessoa distinguiu ontem, dia em que se cumpriram 75 anos após a morte de Pessoa, com a Ordem do Desassossego a investigadora pessoana Maria Aliete Galhoz e o filósofo Eduardo Lourenço.
Trata-se de uma medalha de prata que retrata a figura icónica de Fernando Pessoa, "um Pessoa voador, um Pessoa flutuante, um Pessoa nas nuvens", descreveu Inês Pedrosa - um desenho feito em 1985 pelo designer Jorge Colombo para o Jornal de Letras, no âmbito das comemorações dos 50 anos da morte do poeta, adoptado pela CFP como imagem do Congresso Internacional - e que tem também inscrito um verso do poeta, "É o que me sonhei que eterno dura", da
Mensagem. Quando Inês Pedrosa, entregou a Ordem do Desassossego a Eduardo Lourenço, classificou-o como "um poeta e romancista que se sonhou ser e que diz que não foi", destacando da sua obra um título, Fernando, Rei da Nossa Baviera, que "é um poema em prosa, ele próprio".


O filósofo, de 87 anos, falou da importância da obra do poeta dos heterónimos, que definiu como "o grande poeta da incondição humana", e recordou que foi em 1942/43 que o encontrou, comentando: "Encontrarmos alguém que já nos viveu é qualquer coisa de paradoxal".



ALGUNS EXCERTOS DE LIVROS ESCRITOS POR EDUARDO LOURENÇO, SOBRE FERNANDO PESSOA
(…) Tudo é humilde nestes textos, por outro lado, vertiginosos. A bem dizer, as nobres referências literárias pertencem demasiadamente ao mundo da teoria para podermos, sem outra forma de procedimento, dar-lhes por companhia, ou eco, este «livro de pobre», este evangelho sem mensagem, esta espécie de estertor ontológico de uma voz que experimenta dizer-se, de uma existência que experimenta, também, existir. Claro que sabemos que por detrás deste grito abafado, desta repetida e interminável afirmação de uma impotência de ser, a da existência cinzenta incarnada por Bernardo Soares, existe o olhar frio, de uma neutralidade e de uma lucidez quase perversa que são património de Fernando Pessoa. Mas aqui, o jogador de xadrez indiferente, como se assumiu sob a máscara de Ricardo Reis, não joga outra coisa senão o seu xeque-mate existencial absoluto, a sua realidade humana sem nexo e sem verdadeira ligação aos outros, vida puramente sonhada, voluntariamente distanciada por essa espécie de sorriso vindo de dentro do desespero que faz com que certas páginas do Livro do Desassossego sejam, ao mesmo tempo, insuportáveis e estranhamente libertadoras. (…)

[Eduardo Lourenço, O Lugar do Anjo, Ensaios Pessoanos, Gradiva 2004, O “Livro do Desassossego” ou o Memorial do Limbo, pág. 96]

(…) Depois do herói de Homero, viajar deixou de ser, apenas, ir de um porto ao outro através de um espaço-obstáculo que faz com que aquele que se desloca adquira valor, positivo ou negativo. Viajar é, também, entrar em diálogo com esse espaço, ou ser «dito» por ele, situação que converte o viajante em sujeito de uma ficção ou de uma encenação mais ou menos conseguidas, de que ele e o mundo são cúmplices. Neste sentido, houve sempre em Pessoa algo que se opôs à encenação do mundo através de uma qualquer deslocação. «Viajar, perder países» é um dos versos em que revela uma atitude completamente oposta à de Cesário Verde, para quem viajar significava ganhar países. Talvez que no imaginário de Pessoa o desinteresse pelo acto de viajar e pela viagem fosse o resultado das múltiplas formas da inapetência vital que lhe caracterizou a infância. Todo e qualquer esforço sério no sentido de se tornar outro ou diferente através de uma mera alteração de cenário se lhe afigura uma perda do ser, aquilo que mais tarde exprimirá na imagem célebre do cansaço invencível que o impede de apanhar o eléctrico. (…)

[Eduardo Lourenço, O Lugar do Anjo, Ensaios Pessoanos, Gradiva 2004, Pessoa ou as três viagens, pág. 149]

(…) Nenhuma vivência humana contém, por isso, uma carga de irrealidade mais profunda do que aquela que chamamos amor, objecto quase exclusivo da lírica ocidental. A poesia de Pessoa, enquanto poética confessa e obsessiva da consciência como solidão ontológica, tinha de ser, fatalmente, uma poesia do não-amor. O que ela é de facto, mas em termos tão inabitualmente atrozes que de si mesma se assinala como o lugar de um sofrimento sem nome, de alguma maneira, como puro vazio afectivo, análogo na sua inversão ao que denominamos classicamente sofrimento de amor. Na verdade, esse vazio afectivo é essa espécie de ferida, e toda a poesia de Fernando Pessoa o seu eco inutilmente multiplicado. (…)
[Eduardo Lourenço, Fernando – Rei da Nossa Baviera, INCM, 1993, Fernando Pessoa Ou o Não-Amor, pág. 62]

(…) No seu ar de imitar a Antiguidade na sua perfeição ideal de mármore inscrito, dialogando com ela e na verdade digna dela, o que sobressai é um fundo de angústia moderna, como moderna sob cor antiga é a resposta para a não-resposta de onde nasce e extravasa. Nós somos tempo e nada mais, nós somos como depois de Schopenhauer tantas vezes se repetiu, uma breve luz irrompendo sem razão no seio de uma vida desprovida dela e de novo reenviada à pura noite? Pois se assim é, seja assim. Aceitemos o jogo e joguemo-lo que só nessa aceitação voluntária «o bem consiste». (…)
[Eduardo Lourenço, Pessoa Revisitado, Gradiva, 2003, Ricardo Reis ou o inacessível paganismo, págs. 53/54

Consulta: site da Casa Fernando Pessoa


sábado, 30 de outubro de 2010

SOLIDÃO - FERNANDO PESSOA



Quando estou só reconheço
Se por momentos me esqueço
Que existo entre outros que são
Como eu sós, salvo que estão
Alheados desde o começo.
E se sinto quanto estou
Verdadeiramente só,
Sinto-me livre mas triste.
Vou livre para onde vou,
Mas onde vou nada existe.
Creio contudo que a vida
Devidamente entendida
É toda assim, toda assim.
Por isso passo por mim
Como por coisa esquecida.
9-8-1931
Novas Poesias Inéditas.
Fernando Pessoa. ( Lisboa: Ática, 1973 (4ª ed. 1993).

sábado, 23 de outubro de 2010

BIBLIOTECA DE PESSOA DISPONÍVEL ONLINE


Até agora só uma visita à Casa de Fernando Pessoa permitia uma consulta à biblioteca pessoal do poeta. A partir de agora, todo esse acervo, constituído por 1140 volumes e pela colecção de manuscritos (ensaios e poemas) deixados pelo próprio poeta nas páginas desses livros passa a estar disponível online, em:
htpp://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt.
Esta é a primeira biblioteca pessoal completamente digitalizada e facultada a todos os leitores, de qualquer parte do mundo.
No âmbito deste projecto todas as páginas de cada volume foram digitalizadas e disponibilizadas para consulta página a página ou após o download de uma obra completa.
Para além da possibilidade de consulta de cada livro por autor, por ano ou por ordem alfabética, faculta-se ainda a classificação por categorias temáticas.
Para facilitar a compreensão da biblioteca como um todo, foram destacadas as páginas que incluem manuscritos do próprio Fernando Pessoa e foram adicionadas interpretações para a aquisição de determinadas obras.
A digitalização da biblioteca de FP, aconteceu por uma combinação de esforços da Casa Fernando Pessoa, uma equipe internacional de investigadores e a Fundação Vodafone Portugal.

(JN)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A FERNANDO PESSOA, como a outros autores, são atribuídos poemas e frases erradas.

São muitos! Vou reproduzir apenas fragmentos de textos que não são de Fernando Pessoa e correm pela Internet como se fossem.

“A Concha”
.
A minha casa é concha.

Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés,
a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência... (Vitorino Nemésio)
-
"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo e esquecer os caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia; e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." (Autor: Fernando Teixeira de Andrade - 1946-2008 - foi um professor de Literatura
-
"Um dia a maioria de nós irá separar-se. Sentiremos saudades de todas as conversas atiradas fora, das descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos,dos tantos risos e momentos que partilhámos... (Autoria desconhecida)
-
"Deus costuma usar a solidão para nos ensinar sobre a convivência. Às vezes, usa a raiva, para que possamos compreender o infinito valor da paz. ... (Autor: Paulo Coelho)
-
"Existe no silêncio tão profunda sabedoria que às vezes ele se transforma na mais perfeita resposta. (carece de fontes)
-
"É fácil trocar as palavras, Difícil é interpretar os silêncios!É fácil caminhar lado a lado, Difícil é saber como se encontrar!.." (Autor Desconhecido)
-
" Navegue, descubra tesouros, mas não os tire do fundo do mar,o lugar deles é lá. Admire a lua, sonhe com ela, mas não queira trazê-la para a terra..." (Silvana Duboc) provavelmente um repassador anónimo, acrescentou ao texto um fragmento de Ricardo Reis ... "Circunda-te de rosas, ama , bebe E cala. O mais é nada."
-
"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis." Augusto Cury
-
"Os ventos, que as vezes tiram algo que amamos... Não é de Fernando Pessoa, nem de Bob Marley.


"Paro às vezes à beira de mim próprio e pergunto-me se sou um doido ou um mistério muito misterioso." (sem referências bibliográficas)
-
"Ser Feliz e/ou Palco da Vida (Autor: Augusto Cury, no livro: Dez Leis para Ser Feliz) O final apresenta a seguinte frase, que também não é de Fernando Pessoa: "Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."
-
No poema "Recomeçar/ou Faxina na Alma "Não importa onde você parou em que momento da vida você cansou...o que importa é que sempre é possível e necessário "Recomeçar"...de Paulo Roberto Gaefke, um repassador adicionou ao final a frase "Porque sou do tamanho daquilo que vejo, e não do tamanho da minha altura" da poesia "A minha Aldeia", de Fernando Pessoa, heterónimo Alberto Caeiro.

-
O maior escândalo em Portugal surgiu com a publicação do texto “A Coragem de Pessoa”, que não passou despercebido e suscitou veementes indignações.
Escreve Laurinda Alves: «Deixo aqui o texto inspirador de Fernando Pessoa que foi lido em voz alta neste fim de tarde inesquecível».


[Laurinda Alves, jornalista, autora e apresentadora de programas de televisão, criou a revista XIS.Repórter na RTP, foi distinguida com o Prémio do Clube dos Jornalistas pelo seu trabalho de investigação sobre a morte do general Humberto Delgado. Directora da revista Pais &Filhos, colaboradora da TSF e, depois, da Rádio Renascença foi, também, colunista no Independente e, mais tarde, no jornal Público, onde actualmente assina uma página semanal.
Publicou os livros XIS Ideias Para Pensar, Um Dia Atrás do Outro e Ideias XIS. Atitude XIS recolhe os editoriais escritos na revista nos últimos dois anos.Em 2000 Laurinda Alves foi distinguida com o grau de Comendador da Ordem do Mérito pelo debate e defesa das questões educativas.]

Posso ter defeitos, viver ansioso
e ficar irritado algumas vezes mas
não esqueço de que minha vida é a
maior empresa do mundo, e posso
evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale
a pena viver apesar de todos os
desafios, incompreensões e períodos
de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos
problemas e se tornar um autor
da própria história. É atravessar
desertos fora de si, mas ser capaz de
encontrar um oásis no recôndito da
sua alma.É agradecer a Deus a cada manhã
pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios
sentimentos.É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um “não”.
É ter segurança para receber uma
crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construirum castelo…”

A Casa Fernando Pessoa, foi contactada e deu a seguinte resposta:
“O poema em questão não é de Fernando Pessoa, coisa que poderia ser garantida à primeira leitura (pelo tema, pela escrita, pela ortografia). Na Internet como em papel impresso, circulam vários «poemas apócrifos» assinados por Fernando Pessoa; muitas vezes, os seus autores pretendem garantir algum reconhecimento anónimo através da utilização do nome do poeta – são, geralmente, textos de má qualidade e que, infelizmente, se multiplicam todos os dias. Qualquer «leitor mediano» da obra de Pessoa ou dos seus heterónimos se dá conta da mistificação e da falsificação. Fernando Pessoa não diz semelhantes patetices”, esclareceu Francisco José Viegas, escritor e director da Casa Fernando Pessoa.

ERRARE HUMANUN EST, mas o aconselhável é consultar as fontes de carácter mais fidedigno, como por exemplo:


Casa Fernando Pessoa
Multipessoa - Instituto de Estudos de Modernismo
Arquivo Pessoa - Instituto de Estudos de Modernismo
Instituto de Estudos de Modernismo - FCSH - UNL
Um Fernando Pessoa - Um site sobre a vida e obra de Fernando Pessoa
Fernando Pessoa - Vidas Lusófonas
Pessoa revisitado
Poesia falada de Fernando Pessoa (Ode a pessoa)
Obra de Fernando Pessoa disponível para acesso gratuito em www.dominiopublico.com
Obra de Pessoa disponível na internet
Obra Completa em ordem alfabétcia - Jornal de Poesia

terça-feira, 28 de setembro de 2010

HORA ABSURDA - FERNANDO PESSOA


O TEU SILÊNCIO é uma nau com todas as velas pandas...
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso...
E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso...
-
Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte...
O teu silêncio recolhe-o e guarda-o, partido, a um canto... Minha ideia de ti é um cadáver que o mar traz à praia...,
e entanto
Tu és a tela irreal em que erro em cor a minha arte...
-
Abre todas as portas e que o vento varra a ideia
Que temos de que um fumo perfuma de ócio os salões...
Minha alma é uma caverna enchida p'la maré cheia,
E a minha ideia de te sonhar uma caravana de histriões...
-
Chove ouro baço, mas não no lá-fora...É em mim...Sou a Hora,
E a Hora é de assombros e toda ela escombros dela...
Na minha atenção há uma viúva pobre que nunca chora...
No meu céu interior nunca houve uma única estrela...
-
Hoje o céu é pesado como a ideia de nunca chegar a um porto...
A chuva miúda é vazia...A Hora sabe a ter sido...
Não haver qualquer coisa como leitos para as naus!...Absorto
Em se alhear de si, teu olhar é uma praga sem sentido...
-
Todas as minhas horas são feitas de jaspe negro,
Minhas ânsias todas talhadas num mármore que não há,
Não é alegria nem dor esta dor com que me alegro,
E a minha bondade inversa não é nem boa nem má...
-
Os feixes dos lictores abriram-se à beira dos caminhos...
Os pendões das vitórias medievais nem chegaram às cruzadas...
Puseram in-fólios úteis entre as pedras das barricadas...
E a erva cresceu nas vias férreas com viços daninhos...
-
Ah, como esta hora é velha!... E todas as naus partiram!
Na praia só um cabo morto e uns restos de vela falam
De longe, das horas do Sul, de onde os nossos sonhos tiram
Aquela angústia de sonhar mais que até para si calam...
-
O palácio está em ruínas... Dói ver no parque o abandono
Da fonte sem repuxo... Ninguém ergue o olhar da estrada
E sente saudade de si ante aquele lugar-outono...
Esta paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada...
-
A doida partiu todos os candelabros glabros,
Sujou de humano o lago com cartas rasgadas, muitas...
E a minha alma é aquela luz que não mais haverá nos
candelabros...
E que querem ao lago aziago minhas ânsias, brisas fortuitas?...
-
Por que me aflijo e me enfermo?...Deitam-se nuas ao luar
Todas as ninfas... Veio o sol e já tinham partido...
O teu silêncio que me embala é a ideia de naufragar,
E a ideia de a tua voz soar a lira dum Apolo fingido...
-
Já não há caudas de pavões todas olhos nos jardins de outrora...
As próprias sombras estão mais tristes...Ainda
Há rastros de vestes de aias (parece) no chão, e ainda chora
Um como que eco de passos pela alameda que eis finda...
-
Todos os ocasos fundiram-se na minha alma...
As relvas de todos os prados foram frescas sob meus pés frios...
Secou em teu olhar a ideia de te julgares calma,
E eu ver isso em ti é um porto sem navios...
-
Ergueram-se a um tempo todos os remos...pelo ouro das searas
Passou uma saudade de não serem o mar...Em frente
Ao meu trono de alheamento há gestos com pedras raras...
Minha alma é uma lâmpada que se apagou e ainda está quente...
-
Ah, e o teu silêncio é um perfil de píncaro ao sol!
Todas as princesas sentiram o seio oprimido...
Da última janela do castelo só um girassol
Se vê, e o sonhar que há outros põe brumas no nosso sentido...
-
Sermos, e não sermos mais!... Ó leões nascidos na jaula!...
Repique de sinos para além, no Outro Vale... Perto?...
Arde o colégio e uma criança ficou fechada na aula...
Por que não há de ser o Norte e Sul?... O que está descoberto?...
-
E eu deliro... De repente pauso no que penso...Fito-te...
E o teu silêncio é uma cegueira minha...Fito-te e sonho...
Há coisas rubras e cobras no modo como medito-te,
E a tua ideia sabe à lembrança de um sabor de medonho...
-
Para que não ter por ti desprezo? Por que não perdê-lo?...
Ah, deixa que eu te ignore...O teu silêncio é um leque ---
Um leque fechado, um leque que aberto seria tão belo, tão belo,
Mas mais belo é não o abrir, para que a Hora não peque...
-
Gelaram todas as mãos cruzadas sobre todos os peitos....
Murcharam mais flores do que as que havia no jardim...
O meu amar-te é uma catedral de silêncio eleitos,
E os meus sonhos uma escada sem princípio mas com fim...
-
Alguém vai entrar pela porta...Sente-se o ar sorrir...
Tecedeiras viúvas gozam as mortalhas de virgens que tecem...
Ah, o teu tédio é uma estátua de uma mulher que há de vir,
O perfume que os crisântemos teriam, se o tivessem...
-
É preciso destruir o propósito de todas as pontes,
Vestir de alheamento as paisagens de todas as terras,
Endireitar à força a curva dos horizontes,
E gemer por ter de viver, como um ruído brusco de serras...
-
Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem!...
Saber que continuará a haver o mesmo mundo amanhã --- como
nos desalegra!...
Que o meu ouvir o teu silêncio não seja nuvens que atristem
O teu sorriso, anjo exilado, e o teu tédio, auréola negra...
-
Suave, como ter mãe e irmãs, a tarde rica desce...
Não chove já, e o vasto céu é um grande sorriso imperfeito...
A minha consciência de ter consciência de ti é uma prece,
E o meu saber-te a sorrir é uma flor murcha a meu peito...
-
Ah, se fôssemos duas figuras num longínquo vitral!...
Ah, se fôssemos as duas cores de uma bandeira de glória!...
Estátua acéfala posta a um canto, poeirenta pia baptismal,
Pendão de vencidos tendo escrito ao centro este lema --- Vitória!
-
O que é que me tortura?... Se até a tua face calma
Só me enche de tédios e de ópios de ócios medonhos...
Não sei...Eu sou um doido que estranha a sua própria alma...
Eu fui amado em efígie num país para além dos sonhos...
-
4-7-1913

Fernando Pessoa