O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE
Mostrando postagens com marcador MULHERES. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador MULHERES. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

FREYA STARK – A ÚLTIMA ROMÂNTICA


Quando morreu em 1993, acabava de fazer 100 anos. Freya foi uma das mulheres mais singulares e extraordinárias do século passado. Os jornais de todo o mundo elogiaram a sua pessoa. «A Rainha Nómada», «uma viajante lendária», «uma senhora audaz», foram alguns dos títulos dedicados à sua memória, mas foi o jornal londrino «The Times» quem melhor a descreveu. «Freya, a última viajante romântica».
Dame Freya Stark percorreu sozinha o Médio Oriente, da Pérsia até ao Iémen, explorou e descobriu cidades perdidas, atreveu-se a visitar os rebeldes drusos no Líbano, trabalhou como espia e chegou a organizar uma rede de espionagem anti-nazi. Foi, sobretudo, uma magnífica escritora, publicou 30 livros sobre as suas aventuras e quatro volumes auto- biográficos que transportaram o leitor a um mundo de dunas, caravanas, valentes cavaleiros e haréns, um mundo hoje, quase em extinção.
Lawrence Durrell definiu-a como «uma poeta das viagens», embora tivesse sido também: exploradora, filósofa, desportista e artista. Falava nove idiomas, conseguiu que a machista Real Sociedade Geográfica de Londres lhe concedesse uma distinção pelos seus estudos cartográficos e, entre muitas outras honrarias que recebeu, foi-lhe concedido o título de dama pela rainha de Inglaterra. Quando já era muito popular numa carta à mãe em 1930, escreveu: «Um dia destes tenho que fazer uma lista, dos que me consideraram louca».
A sua vida é o guião de um filme onde não faltam paisagens exóticas, viagens audaciosas, extravagâncias, amores impossíveis, penúria económica, uma infância infeliz e uma longa lista de doenças que sempre a acompanharam. Freya era no entanto uma mulher valente, onde se escondia uma menina solitária e adoentada, nascida em Paris, em 1893, que cresceu na Itália e começou a viajar para escapar a uma vida desinteressante e uma mãe possessiva.
Nos seus relatos autobiográficos recorda como muito cedo começou a viajar. O pai levava-a dentro de uma cesta nas suas excursões pelas Dolomitas, na Itália. Os pais foram sofisticados artistas, cultos e boémios, que levaram uma vida bastante nómada até se separarem. Freya instalou-se então com a mãe no norte de Itália. Ali cresceu e passou a sua juventude, mas sempre se sentiu inglesa e admiradora do Império Britânico.
A sua primeira viagem ao Médio Oriente, ocorreu em 1927, tinha 34 anos e chegou a Beirute, após uma penosa viagem num cargueiro, para estudar e aperfeiçoar o árabe, numa aldeia montanhosa. Ao contrário de Gertrude Bell, que explorou durante anos estas mesmas religiões, viajava com um equipamento ligeiro, sem cartas de recomendação, sem amigos e sem dinheiro. Sentiu um forte chamamento do Oriente e sonhava com os intermináveis desertos da Arábia salpicados de ruínas e antigas fortalezas. Os apaixonantes relatos dos exploradores e orientalistas do século XIX, que se haviam aventurado por essas terras disfarçados de ascetas ou peregrinos, tinham incendiado o seu espírito aventureiro.
Depois de ter estado durante uns tempos na aldeia de Brummana, planeou a sua viagem. Atraída pela história e os costumes dos drusos, povo sírio que sentia grande hostilidade em relação aos estrangeiros, propôs-se visitá-los e percorrer as suas aldeias.
Em 1928 dirigiu-se a Damasco, para organizar a sua viagem até ao território de Yebel ed- Druz, ou Montanha dos Drusos para falar com o líder espiritual desta comunidade libanesa. A ideia era então despropositada porque esta região se encontrava sob a lei marcial francesa. Na companhia de uma amiga viajaram 100 kilómetros montadas em burros, com destino às montanhas, mas foram detidas por tropas francesas, que não acreditaram naquelas excêntricas mulheres. O facto esteve quase para criar um incidente internacional, mas serviu para a popularizar.
No ano seguinte chegou a Bagdade, capital do Iraque, com a ideia de estudar uma seita religiosa que durante anos tinha aterrorizado o Oriente. Alugou um pequeno quarto num popular bairro de prostitutas, provocando um escândalo entre as damas britânicas. Alheia a críticas, dedicou-se a estudar a fundo o Corão, a preparar novas viagens e a escrever, para livros que mais tarde foram publicados e que inspiraram toda uma nova geração de viajantes. Foi uma experiente exploradora, preenchendo os espaços vazios nos mapas do governo britânico e corrigindo numerosos erros cartográficos.
Freya viajou até uma idade bem avançada. Durante uma década dedicou-se a explorar a Turquia, que se converteu num dos seus países preferidos. Com mais de 70 anos visitou a China pela primeira vez, conduziu um jipe através do Afeganistão e participou num trekking no Nepal. Com quase 90 anos atravessou montada numa mula algumas zonas do Himalaia, a mais de 5 000 de altitude. Foi a última grande viajante e uma mulher revolucionária para o seu tempo.
FONTE: Moratò, Cristina, «Viajeras Intrepidas y Aventureras» (ed. Plaza y Janés)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

MAY SHELDON – RAINHA DO KILIMANJARO

Num retrato de 1891, May Sheldon, tem um ar de imperatriz. Veste um magnifico vestido comprido de seda branca, exageradamente espartilhado, coberto de pedrarias, e um cinto também de pedras preciosas junto ao qual leva uma espada ornamentada. O mais interessante na sua indumentária é a sua longa cabeleira loira.
Este era o uniforme de gala que a exploradora May Sheldon utilizava na sua expedição ao Quénia para impressionar os chefes masais. Aos guerreiros africanos anunciava a sua visita com foguetes e música. Os carregadores chamavam-lhe Bebé Bwana, mulher chefe, embora ela preferisse o título mais pomposo de Rainha Branca do Kilimanjaro. Excentricidades à parte, foi uma mulher que viveu à frente do seu tempo, feminina e magnífica comunicadora.
No século XIX, época de grandes explorações africanas, demonstrou que uma mulher também podia organizar uma expedição ao nível de Livingstone ou Stanley. A sua foi das mais originais e menos sangrentas do seu tempo.
O célebre explorador Stanley nunca imaginou que aquela jovem, filha do seu amigo, o coronel French, um dia seguiria os seus passos. A norte-americana, que nasceu em 1858 no seio de uma família sulista abastada e liberal, dedicou a sua juventude ao estudo dos idiomas e das ciências, atraída pelo mundo das explorações. Os seus pais eram cultos e cosmopolitas, além de serem grandes viajantes e com 16 anos acompanhou-os numa viagem à volta do mundo, como era moda entre a aristocracia.
May além de caçar e montar a cavalo, devorava livros de viagens e mapas de remotos países. Com 33 anos casou, mas sentia que tinha de fazer algo na vida de transcendente, que nenhuma mulher tivesse feito. Decidiu viajar sozinha até África, ao país dos masais e organizar a sua própria expedição. Preparou a sua viagem como uma operação militar e como mulher rica queria viajar com o maior conforto.
No seu livro, «De sultão a sultão, aventuras entre os masais e outras tribos da África Oriental, publicado em 1892, enumera a lista interminável da sua bagagem, tendas, espingardas, farmácia ambulante, mas também uma banheira de zinco, um serviço de porcelana, talheres de prata e todo um arsenal de roupa pessoal. Para moeda de troca com os nativos, leva guarda-chuvas, caixas de música, relógios e panos. Para não ser esquecida leva anéis de cobre com o seu nome gravado para oferecer aos africanos. O mais espectacular é um enorme palanquim de vimes entrançado com cortinas e almofadas, para seu transporte.
Em 1891, May Sheldon, despede-se do marido e parte de Nápoles, para Port Said, no Canal do Suez. Continua a viagem até Aden (Iémen) e meses mais tarde chega ao porto de Mombasa, na costa oriental africana. Começam os problemas para May, porque não há carregadores que queiram acompanhar uma mulher ao interior do continente. May não desiste e pede ajuda ao sultão de Zanzibar. Ao fim de várias cartas de recomendação consegue reunir 100 homens, apesar dos mesmos terem medo dos masais e não acreditarem que uma mulher os possa defender. Bebé Bwana, vai ganhando a confiança dos mesmos, preocupando-se e tratando-os das suas doenças e usando mesmo pistolas quando algum perigo os ameaça.
A viagem tornou-se muito penosa, nas páginas do seu livro cita os perigos encontrados: cobras, formigas venenosas, pragas de mosquitos, carraças e pulgas. May Sheldon todos os dias tem que passar revista aos homens e tratar das suas feridas. Ao fim do dia retira-se para a sua tenda, toma um banho de banheira, janta à luz das velas, come na sua louça de porcelana e anota no diário todos os incidentes. Após seis meses de uma esgotante caminhada, a exploradora encontrará os lendários masais ao norte de Kilimanjaro. Sobre eles escreve no seu diário: Estes esplêndidos selvagens lutam em silêncio e têm uma táctica, uma energia, uma audácia e uma intrepidez superior. São originais com os seus adornos, seu corpo tem harmonia e beleza». A arrogância daqueles homens cativaram-na da mesma forma como aconteceu a outras escritoras, entre elas Karen Blixen.
A tribo mais temida pela ferocidade dos seus guerreiros sofreu grandes mudanças depois de May Sheldon, foram convertidos à força em pastores nómadas e atracções turísticas. Não há dúvida que a sua imagem atravessando solitários a imensa savana africana é de uma beleza deslumbrante.
A expedição de May Sheldon durou pouco mais de um ano. Quando regressou a Inglaterra publicou o seu livro, já citado, que alcançou um enorme êxito. May tornou-se uma personagem popular da sociedade britânica e americana. Ela transmitia a sua viagem ao grande público com emoção e romantismo, uma experiência pela qual valia a pena morrer.

FONTE: Moratò, Cristina, «Viajeras Intrepidas y Aventureras» (ed. Plaza y Janés)

domingo, 29 de janeiro de 2012

GERTRUDE BELL – VITORIANA NO DESERTO


A lista dos seus feitos é interminável. Foi a primeira mulher que se licenciou em História Moderna em Oxford, especialista no Médio Oriente, agente política durante a Primeira Guerra Mundial, Medalha de Ouro da Sociedade Real de Geografia, condecorada com a ordem do Império Britânico, publicou sete livros altamente reconhecidos. A tudo isto ainda há a acrescentar: aventureira, arqueóloga reconhecida, viajante incansável que percorreu de camelo as zonas mais perigosas do deserto da Arábia, assessora de reis e xeques árabes.
Gertrude era uma jovem vitoriana da alta burguesia que herdou, entre outras qualidades, a inteligência e a vitalidade do seu avô, o metalúrgico mais notável da sua época, com uma das maiores fortunas do país. Gertrude Bell sempre viveu rodeada de homens, partilhou café e cigarros, entre outros, com Churchill, o rei Faisal e Lawrence da Arábia. Chegou a ser uma das mulheres mais poderosas do Império Britânico, embora o reitor da Universidade de Oxford não soubesse disso quando, em 1886, falou assim às poucas alunas que ali estudavam – entre elas Gertrude -: «Deus fez-vos inferiores a nós a permanecerão inferiores até ao fim dos tempos».
Gertrude Bell nasceu em Inglaterra em 1868 e recebeu a educação típica de uma jovem da sua classe. Claro que tinha outros planos; não perdeu tempo a procurar marido, preferiu viajar e cultivar-se. Atraída pelo Oriente, elegeu a Pérsia. Tinha 23 anos quando chegou a Teerão e ali descobriu o paraíso das Mil e Uma Noites que a sua mãe lhe lia quando era menina. Aproveitou ao máximo o tempo. Dedicou-se a estudar persa, cavalgou pelo deserto, ouviu poetas persas recitar, aprendeu a arte da falcoaria e subiu à Torre do Silêncio, de onde os seguidores de Zoroastro lançavam os seus mortos. No seu regresso, enamorada pelo Oriente, concentrou-se em escrever as suas experiências e em traduzir os belos poemas de Hafiz.
A partir de então Gertrude apenas se dedicou a viajar e a escrever. Correu boa parte do mundo. Em 1899 mudou-se para Jerusalém, começando uma nova vida longe da asfixiante e aborrecida sociedade vitoriana, onde era apenas uma solteirona excêntrica de 33 anos que não tinha sido capaz de encontrar marido. Desde Jerusalém planeou as suas primeiras explorações do deserto. Viajava a cavalo com um cozinheiro e dois muleteiros pelos caminhos poeirentos rumo a Jericó ou ao vale do Jordão. Gertrude fotografava e tirava as medidas a todas as ruínas e palácios persas inacabados que encontrava no seu caminho.
Chegou a Petra, a antiga capital dos nabateus esculpida em pedra rosa e acampou de noite debaixo das suas colunas coríntias e escreveu no seu diário: «Quando alguém entra tão fundo no Oriente, não pode viver longe dele». Antes de regressar, visitou as pequenas aldeias da Palestina, a região dos temidos drusos e extensos territórios jamais explorados por uma europeia.
Em 1909 preparou a sua grande viagem, desde a Síria à Mesopotâmia para estudar seriamente as igrejas romanas e bizantinas e fazer moldes de pedra para os seus estudos arqueológicos. Viajou desde Alepo, para chegar ao Iraque através do deserto sírio, percorreu depois uns 650 qui lómetros até ao sudeste seguindo o leito do rio Eufrates até Bagdad, ali marchou para o norte, até à Turquia, ao largo do rio Tigre. Gertrude preparou a sua viagem e a sua pesada bagagem. Precisou de sete animais de carga, uma dezena de cavalos, três muleteiros, dois criados e dois soldados. Nos seus volumosos baús não faltava nada, nunca deixou de ser uma elegante dama britânica.
Nos sete meses de viagem falou com beduínos, percorreu zonas inexploradas e fez importantes achados arqueológicos, tudo anotando para o seu novo livro. Nos seus relatos confessa: «Voltei a entrar no deserto, como se voltasse ao meu sítio; o silêncio e a solidão envolvem-me como um véu impenetrável; não há mais realidade que as longas horas de cavalgada, pela manhã tiritando e pela tarde dormitando…»
Gertrude já era uma respeitada arqueóloga e estudioso do Oriente, quando decidiu atravessar o deserto da Arábia em 1913. Foi um grande desafio numa região isolada e cheia de perigos. Partiu de Damasco, como uma autêntica rainha, com uma caravana de vinte camelos e todo o pessoal necessário. No vasto deserto do Nejd, teve que enfrentar temperaturas extremas, sede, falta de víveres, pragas de pulgas, cobras, escorpiões, salteadores e tribos hostis. Nada a faria desistir o deserto era a sua razão de viver.
Nos seus últimos anos instalou-se em Bagdad e em 1926, esta mulher vital e poderosa, que sempre ocultou as suas frequentes depressões, acabou por se matar. Durante muito tempo os beduínos recordaram esta dama, que os recebia elegantemente vestida na sua tenda coberta de tapetes e lhes oferecia uma chávena de chá, numa bandeja de prata.

FONTE: Moratò, Cristina, «Viajeras Intrepidas y Aventureras» (ed. Plaza y Janés)

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

FLORENCE BAKER – NAS NASCENTES DO NILO

Há uns anos, num sótão em Inglaterra, foi encontrado um velho diário que descrevia uma incrível e temerária viagem ao coração de África por volta de 1870. O autor era uma mulher, Florence von Sass, a amante e depois mulher de um dos mais famosos exploradores britânicos da época vitoriana, Samuel Baker. Enquanto ele recebeu todas as honras, a figura da companheira ficou no mais absoluto anonimato.
A sua história de amor, foi a mais romântica e escandalosa daquele tempo, Baker um extravagante milionário «bon vivant» escocês, tinha enviuvado quatro anos antes de aceitar, um convite para caçar javalis no Danúbio. Numa cidade otomana da actual Bulgária encontrou uma jovem húngara que ia ser vendida num mercado de escravos. Ficou cativado pela sua beleza e comprou-a. Florence tinha 17 anos e um passado misterioso, salvou-se de um destino terrível, ir parar a um harém turco. Desde aquele momento nunca mais se separaram, organizaram juntos, várias expedições pelo continente africano e potenciaram a imagem que Hollywood pôs mais tarde na moda: um explorador galante acompanhado por uma corajosa rapariga loura.
Em 1862, quando a Royal Geographical Society pediu a Samuel que se casasse, eles estavam de viagem em Cartum, a capital do Sudão, com os exploradores Speke e Grant, que procuravam desde há meses as míticas nascentes do Nilo. Para isso, tinham de viajar até Gondokoro, uma cidade perigosa, centro de tráfico de escravos. Sabiam que ia ser uma viagem muito dura, que teriam de enfrentar selvas pantanosas, feras, tribos hostis e as temidas febres.
Florence e Samuel chegaram a Gondokoro em 1863 e ali esperaram pelos dois exploradores, que chegaram doentes e esgotados, mas felizes por terem descoberto o enigma do nascimento do Nilo Branco no Lago Vitória. Enquanto recuperavam forças contaram aos Baker que existia outro lago que poderia ser uma segunda fonte do Nilo.
Speke e Grant sabiam que seria outra viagem muito difícil e aconselharam Florence a ficar, mas o intrépido casal não se separou.
Foi um ano em buscas do inexplorado lago, uma das viagens mais dura e penosa daquela época de explorações. Um ano de dificuldades, de doenças, temperaturas insuportáveis, ataques de feras e da hostilidade constante das tribos locais.
Florence esteve a altura deste desafio, com uma coragem e sangue frio surpreendentes. Esta mulher loura, magra, de aspecto delicado, revelou ser uma magnífica exploradora. Aprendeu depressa a caçar e a defender-se das feras, usando calças cómodas e botas grossas, deixando de lado a roupa vitoriana. Samuel elogiou sempre a coragem da companheira, que se tornou numa heroína nos seus livros.
Poucos dias antes de chegar ao seu destino, Florence sofreu uma insolação e ficou dez dias de coma e a delirar. Samuel temeu a sua morte, mas ela sobreviveu a essa e a outras doenças.
Em 1864 divisaram o lago, que Baker baptizou com o nome de Alberto, em honra do falecido marido da rainha Vitória.
Poucos viajantes se atrevem hoje a visitar este extenso espelho de água, partilhado pelo Uganda e pela República Democrática do Congo. As guerrilhas e os bandidos transformaram esta mítica região dos grandes lagos num perigo sério para os visitantes estrangeiros. Lá continuam como então as cubatas de palha e lama, os enormes crocodilos jazendo ao sol e as espectaculares cataratas Murchinson formadas pelo Nilo Vitória no seu caminho para o Lago Alberto. Comprimidas numa garganta rochosa de sete metros de largura, as suas águas caem no vazio, no meio de um ruído ensurdecedor.
Depois da esgotante expedição africana, os Baker decidiram regressar a Londres. Embora tivessem casado, a rainha Vitória, que nomeou Samuel cavaleiro, negou-se a receber a mulher no palácio. A sociedade vitoriana, não lhes perdoou, que tivessem passeado o seu romance tórrido por África, antes de se terem casado.
Florence encaixou o vexame com a diplomacia habitual, para ela eram suficientes os elogios do marido, que escreveu num dos seus relatos: «Cheguei realmente às nascentes do Nilo? Não foi um sonho. Tinha a meu lado um rosto ainda jovem, bronzeado, mas macilenta e consumida pelas doenças; a leal companheira da minha peregrinação, a quem devo o meu êxito: a minha mulher».

FONTE: Moratò, Cristina, «Viajeras Intrepidas y Aventureras» (ed. Plaza y Janés)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

ISABELLE EBERHARDT – ESPÍRITO NÓMADA

Em Outubro de 1904 um rio transbordante arrasa as casas do bairro de Ain Sefra em Argel. Entre os escombros de uma casa humilde encontram o cadáver de uma mulher europeia. Pouco tempo depois descobre-se a sua identidade, é a escritora suíça Isabelle Eberhardt, que encontrou no Sara argelino a sua verdadeira casa e se integrou plenamente na vida dos nómadas. Da lama foram ainda resgatados os seus manuscritos e diários íntimos, que relatam os sete anos intensos vividos desde a sua chegada à Argélia, em 1897, com a idade de 20 anos.
É preciso ler os seus relatos, de um estilo directo e vigoroso, para compreender a complexa e fascinante personalidade desta mulher rodeada de uma aura de lenda. Ninguém como ela retratou as paisagens e as gentes do Norte de África e esses desertos infinitos com os quais sonhava desde menina.
Nestes mares de areia podia ser livre, viver longe do asfixiante ambiente familiar onde cresceu e foi educada. «Serei nómada toda a minha vida, amante dos horizontes que mudam, das paragens distantes ainda inexploradas, pois toda a viagem, ainda que às regiões mais frequentadas e conhecidas, é uma exploração», anotou no seu diário. A viagem iniciática ao Sul de Isabelle não teve nada de exótico; precisava de encontrar o sossego na solidão das dunas.
Isabelle nasceu em Genebra em 1877. Filha de pais russos exilados, foi educada como se fosse um rapaz pelo tutor, um filósofo extravagante e erudito chamado Vava. Foi ele quem lhe ensinou, entre outras coisas, grego, latim, turco, árabe, alemão, italiano e, principalmente russo. Desde muito jovem que despreza as peças de roupa femininas e prefere vestir-se como um rapaz. Os que a conheceram falam da sua ausência de feminilidade e das suas maneiras varonis. Nos escassos relatos que dela se conservam parece uma adolescente, mas é denunciada pela beleza excessiva dos seus traços.
Já nessa altura se sente fascinada pela cultura do Islão, lê o Corão, no original, e escreve árabe sem a menor dificuldade. Nas cartas que escreve refere-se a si mesma no masculino e utiliza nomes diferentes, entre eles Mahmoud Saadi ou Nicolas Podolinski. Durante a sua curta mas intensa vida, Isabelle jogará sempre com a sua identidade. A chegada à Argélia veste como um árabe, tem o cabelo cortado à escovinha e ninguém percebe que sob a túnica branca se esconde uma bonita europeia, muçulmana de coração.
O seu comportamento escandalizará a sociedade colonial, que não pode compreender que esta jovem vestida como um rapaz muçulmano, que só se relaciona com os nativos, chegue a ser membro de uma das confrarias muçulmanas mais influentes e viva um amor apaixonado com um muçulmano.
Depois da repentina morte da mãe e, mais tarde, do tutor, ela decidiu viajar até Tunes. Viveu ali, numa casa velha do bairro mais antigo. «Ali, na fresca penumbra, no silêncio apenas perturbado pelo canto melancólico das chamadas à oração, passavam os dias, deliciosamente lânguidos e de uma doce monotonia sem tédio…» Nas estreitas ruelas, que ainda hoje cheiram a jasmim, Isabelle perdeu-se dias a fio, aspirando os aromas e admirando os belos palácios e mesquitas. Não é difícil imaginá-la misturada entre a gente dos bazares, sentada nos cafés a discutir o Corão com muçulmanos ilustrados, ou talvez a contemplar o entardecer numa açoteia.
O deserto e a vida nómada dos seus habitantes iam ser outra das suas grandes descobertas. Depois do seu descanso em Tunes, Isabelle viajou até o Sara, percorreu o deserto de Biskra até Tuggourt e renasceu nela a paixão da viagem. Fez-se passar por um jovem tunisino em viagem de instrução espiritual. Quando finalmente chega a El Oued, descobre o grande oásis do Suf e a alma do País da Areia revela-se-lhe. Nunca esquecerá esta primeira visão. «Jamais, em região alguma da terra, tinha visto um entardecer ornamentar-se de cores tão mágicas…»
Um ano depois daquele encontro, regressou a El Oued com a ideia de ficar a viver ali. Era feliz a cavalgar pelo deserto, acompanhando as tribos de pastores nómadas nas suas longas deslocações e adormecendo nas suas tendas, debaixo das estrelas. «Grandes e belos são os nómadas…aqui estão em sua casa, na grandeza vazia do seu horizonte ilimitado onde vive e reina a esplêndida luz soberana», escreveu nos seus diários.
Com frequência caía vítima de malária, mas recusou-se a abandonar a vida de vagabunda que a tinha agarrado e além disso iniciou-se noutra vida marcada pelo misticismo. Poucos dias da chegada conheceu aquele que se tornaria seu companheiro inseparável, Sliméne, um jovem oficial árabe com o qual viverá um apaixonado amor. Durante a sua estada foi iniciada pelos importantes membros da importante confraria dos Quadirya e aprendeu as técnicas sufitas de êxtase místico. Tendo em conta o carácter fechado destas irmandades, é surpreendente que tenho sido aceite, sendo além de tudo o mais mulher e europeia.
Isabelle começou uma nova vida de retiro e pobreza, afastada da civilização, e estava cada vez mais segura de ter por fim encontrado o seu lugar no mundo: «Sim, eu amo o meu Sara com um amor obscuro, misterioso, profundo e inexplicável, mas real e indestrutível. Agora parece-me que já não podia voltar a viver longe destes países do Sul».
No entanto teve de abandonar à força a Argélia quando as autoridades francesas ordenaram a sua expulsão. A jovem rebelde, crítica do colonialismo francês, à qual não era perdoado o passado anarquista, era uma figura incómoda. Mudou-se para Marselha, onde a melancolia a invadiu. Sonhava apenas com o reencontro com Silmène, com quem se tinha unido num casamento muçulmano. Ao adquirir nacionalidade francesa regressou do exílio, estabeleceu-se em Argel, e continuou a escrever artigos, relatos e os seus diários.
A sua última viagem foi a Uchda, em Marrocos, e depois de percorrer o sul oranês, e sentindo-se já muito doente, regressou a Ain Sefra. Antes de morrer, e segura da sua recuperação, anotou nos seus cadernos: «Sei que voltarei a contrair a febre da vida errante, que voltarei a partir. Sim, sei que ainda estou muito longe da sabedoria dos faquires e dos anacoretas muçulmanos».
A lama acabou com a sua vida, mas salvaram-se as suas palavras carregadas de poesia que ainda fazem sonhar e estremecer os viajantes que se adentram na magia do Magreb e seguem as suas pegadas nas dunas do Suf.

FONTE: Moratò, Cristina – Viajeros Intrepidas y Aventureras (ed. Plaza y Janés)

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

MARY KINGSLEY – A RAINHA AFRICANA

Enfrentou a desconhecida África Ocidental, foi a responsável pelos mais importantes estudos de campo realizados na área, e tudo sem nunca renunciar à sua indumentária vitoriana.
Será que o escritor Cecil Scott Forester, autor de «A Rainha Africana» conheceu Mary Kingsley, quando criou a personagem de Rose Sayer, interpretada no cinema por Katharine Hepburn? A rígida e puritana solteirona que viveu com o irmão numa missão perdida na selva, tem muito em comum com Mary Kingsley, a exploradora inglesa, nascida em 1862, também solteirona e disposta a enfrentar todas as adversidades.
No século XIX, o interior de África era ainda uma terra incógnita e, eram poucos os europeus, que se aventuravam a viajar, por aquelas regiões remotas povoadas de «animais ferozes, canibais e uma natureza indomável».
Mary, ao contrário das suas contemporâneas, viaja com pouca bagagem, recusa ser transportada, só contrata bagageiros quando é imprescindível, cruza pântanos a nado, aprende a manobrar sozinha uma piroga, dorme ao «ar livre» e come a comida dos selvagens, os seus únicos luxos são uma almofada e o chá.
Kingsley realizou os estudos de campo mais completos até então na África Ocidental, além de ter criticado alguns colonialistas e missionários acusando-os de forçar os nativos a aceitar uma cultura branca «asquerosa e em segunda mão». Mas antes teve de enfrentar aqueles que não aceitavam que uma mulher pudesse ir além dos limites do lar e que rotulavam o seu comportamento como «pecaminoso e antinatural».
Ninguém podia imaginar que um inquieto espírito aventureiro se escondesse por detrás de uma tranquila mulher solteirona dedicada às tarefas domésticas e a cuidar de uma mãe doente e de um irmão mais novo. Mary, filha de um médico e de uma «criada», não conheceu até aos 30 anos mais mundo do que o das quatro paredes de sua casa. Educou-se de maneira autodidacta, devorando os livros da biblioteca paterna e consultando mapas de países remotos.
Quando ficou sem encargos familiares, depois da morte dos pais e do irmão ter partido para o Oriente, partiu para a África Ocidental. «Parti para África para morrer, a África divertiu-me, foi amável comigo e não quis matar-me imediatamente». Mary dirigiu-se rumo ao golfo de Benim, conhecido então como «o túmulo do homem branco».
Mary viajou a bordo de cargueiros que faziam intermináveis escalas em todos os portos, alojou-se em missões remotas e dormiu ao ar livre em canoas. Teve de se haver com leopardos, crocodilos e gorilas enquanto atravessava sozinha territórios por cartografar. A interminável lista de mortíferas e exóticas doenças as quais se expôs teriam feito empalidecer o viajante mais experiente.
A primeira viagem foi a bordo do cargueiro Lagos, em 1893, e visitou, entre outras terras, a Serra Leoa, a Libéria, a Costa do Ouro, o Benim, os Camarões e Angola. Quando os europeus que encontrava, lhe perguntavam que fazia uma mulher sozinha naquelas latitudes ela respondia que procurava o marido desaparecido na selva.
Ao fim de seis meses regressou viva e com uma boa colecção de peixes e escaravelhos que recolheu para o Museu Britânico. Decidida a conseguir novas espécies de peixes de água doce procedentes dos rios Congo e Niger, partiu outra vez, rumo a Calabar. Desta vez visitou a ilha de Fernando Pó e realizou um minucioso estudo sobre a etnia bubi. Durante esta longa viagem, como não tinha financiamento algum, dedicou-se ao comércio com os nativos, trocando panos, rum e anzóis por víveres, alojamento e peixes para a colecção.
Quando chegou ao Congo, subiu o imponente rio Oguooué na companhia de carregadores e instalou o seu centro de operações na missão de Lambarené. A partir de lá visitou os temidos canibais, que devem ter ficado boquiabertos ante a presença de uma mulher vestida daquela maneira e que se arriscava a pescar nos pântanos, rodeada de insectos e crocodilos.
Antes de chegar a Inglaterra chegou ao topo do Monte Camarões por uma via até então desconhecida, sem qualquer experiência em montanhismo.
Nessa altura já era uma celebridade em Londres e o seu livro mais famoso «Travels in West Africa», transformou-se rapidamente num êxito de vendas. Todos queriam conhecê-la e tinha inúmeros convites para conferências. E ela gostava de contar as suas histórias, como a daquela vez em que saiu de um rio com uma colecção espantosa de sanguessugas à volta do seu pescoço ou quando afugentou um hipopótamo que tentava voltar-lhe o barco e lhe acariciou a orelha com a ponta da sobrinha. Era difícil conter o riso perante aquela mulher pequena e apertada num corpete que contava, muito séria, as suas viagens.
Mary Kingsley não morreu na sua amada costa da África Ocidental, como teria gostado, mas na África do Sul, onde trabalhou como enfermeira a cuidar dos prisioneiros boers. Morreu com 39 anos, vítima de uma doença tropical, e o seu único desejo foi que atirassem o seu corpo ao mar. Nunca pensou ter feito nada de outro mundo, embora tenha tido a admiração, entre outros, de Rudyard Kipling, o autor de «O Livro da Selva», que a apontava como a mulher mais corajosa que alguma vez tinha conhecido

Fonte: MORATÓ, Cristina, Viajeras Intrepidas y Aventureras (ed. Plaza y Janés)

sábado, 7 de janeiro de 2012

HIJAB – AS MULHERES POR TRÁS DA CORTINA

A introdução do «véu» islâmico em 627 não foi pacífica. Maomé, quando casou com Zeinab, mulher do seu filho adoptivo, escandalizou parte da comunidade dos crentes e mudou para sempre as regras de vida de todos eles.

Ó vos que credes! Não entrei na casa do Profeta se não se vos dá permissão para comer! Não entreis sem antes esperardes a hora! Mas, quando se vos convidou, entrai. Depois de comer, retirai-vos sem vos entregardes familiarmente à conversa. Isto ofende o Profeta, envergonha-se de vo-lo dizer, mas Deus não se envergonha da Verdade. Quando pedirdes um objecto às suas mulheres, pedi-o por detrás de uma cortina. Isto é mais puro para os vossos corações e para os seus corações.»

( Corão, Versículo 53, Capítulo 33)

Momé proferiu estas palavras – uma revolução divina, segundo os devotos muçulmanos – no ano 5 da Hégira ou 627 d.C. Foi na noite de núpcias com Zenaib Blint Jahsh, a jovem de quem seu filho adoptivo, Zaid, se divorciou quando se apercebeu que o Mensageiro de Alá se apaixonara por ela.

O casamento com Zeinab escandalizou a «umma» ou comunidade dos crentes, porque fez ruir muitos princípios estabelecidos. O divórcio não era permitido. Um pai não podia unir-se à esposa do seu filho. E os fiéis tinham apenas autorização para ter quatro mulheres.

Maomé terá procurado resistir às tentações, mas Deus ofereceu-lhe, segundo os que acreditam, um salvo-conduto para seguir o coração. Assim, o que poderia parecer uma relação incestuosa passou a ter legitimidade. A adopção de Zaid, antigo escravo, tornou-se uma ligação filial meramente simbólica. Com a bênção dos céus e apesar do choque terreno, Zeinab, que era prima do Profeta, tornou-se a sua quinta mulher.

Para apaziguar os críticos, Maomé deu uma festa no dia em que se casou. Três convidados perderam a noção do tempo e delongaram a sua presença, por mais tempo que o anfitrião desejava. Este, foi incapaz de os mandar embora. O relato foi feito por Anas Ibn Malik, um dos chamados, Companheiros do Profeta».

«Eu tinha sido encarregado de convidar as pessoas para o jantar do casamento. Eles chegavam em grupos, comiam e partiam. O Profeta depois disse: «acaba com a festa» e saiu contrariado. Voltou quando todos se tinham ido embora e deixou cair uma «sitr», entre ele e eu, e o versículo do «hijab» desceu nesse momento». O «hijab» desceu, não para separar um homem de uma mulher, mas para apartar dois homens: Maomé e Anas Ibn Malik.

«Hijab» deriva da palavra árabe «hajaba» que significa, «ocultar com um «sitr» ou cortina. «Satara» e «Hajaba» querem dizer ambas esconder. Um incidente menor, que Maomé podia ter resolvido pedindo às pessoas para sair, provocou uma resposta fundamental.

A socióloga marroquina, Fatima Mernissi, analisou tudo que aconteceu e supõe pelo relato, que as pessoas costumavam visitar o Profeta sem grandes formalidades e que a mesquita onde vivia era um lugar de oração e de reunião da comunidade.

Segundo Mernissi, num período decisivo para a consolidação do islão como religião monoteísta, numa Arábia viciada em múltiplas divindades, Maomé pronunciou um versículo «determinante e excepcional» para a fé que propagava. Ao pretender separar o público do privado, o profano do sagrado, acabou por conduzir à segregação dos sexos. «O véu que desceu dos céus haveria de cobrir as mulheres, separá-las dos homens, do Profeta e de Deus».

A jornalista americana Geraldine Brooks observa, por seu turno, que um dos aspectos mais intrigantes do «versículo do hijab» é o fato das instruções que apenas diziam respeito às esposas de Maomé, se terem tornado regra para todas as muçulmanas.

O impacte sobre as mulheres do Profeta foi imenso. As mulheres deixaram de poder misturar-se com os homens na mesquita.


Com a Revolução Islâmica no Irão em 1979, o «hijab» tornou-se verdadeiramente um símbolo religioso e político. Foi a resposta do «ayatollah» Ruhollah Khomeini à repressão imposta pelo defunto Reza Xá (pai do último imperador da Pérsia) que em 1935 proibiu o «chador». O fundador da dinastia Pahlavi queria modernizar o país à força e mandava os seus guardas para a rua armados de tesouras para cortar as túnicas negras.

A professora iraniana, Sattareth Farman Farmaian, conta que a mãe quando foi impedida de usar o véu da sua modéstia, se isolou. «Ela e outras pessoas conservadoras olhavam para a ordem de Reza como a pior coisa que lhe podiam fazer, pior que os ataques que ele desferia aos líderes religioso, pior do que as suas expropriações e assassínios». Mais tarde usar o «chador» funcionou como forma de oposição ao Xá.

Nas mesquitas, pregadores alegam que se todas usassem o véu, as mulheres podiam ficar mais tranquilas que os seus maridos, quando ausentes de casa, jamais seriam atraídos por sedutoras. Shabbir Akhtar, especialista em estudos islâmicos é de opinião contrária: «O objetivo do véu é criar uma verdadeira cultura erótica que dispensa a necessidade de excitação artificial, que a pornografia fornece».

Em ambos os caos, as mulheres são obrigadas a sacrificar o seu conforto e liberdade para servir os requisitos da sexualidade masculina: seja para reprimir ou estimular os ímpetos sexuais dos homens.

Naheed Mustafa, canadiana e formada pela Universidade de Toronto, em História, usa o «hijab» e diz: «Eu uso o «hijab» porque sou uma muçulmana para quem o seu corpo só a ela diz respeito. Usar o «hijab» liberta-me da constante atenção sobre o meu físico. A minha aparência deixa de estar sujeita ao escrutínio público, a minha beleza ou falta dela deixa de estar no limiar do que pode ser discutido».

Há razões diversas que não se entendem, dai a controvérsia gerada sobre o uso do véu. No Ocidente a ostentação de símbolos religiosos é uma afronta a uma intocável laicidade.

FONTES:

ALCORÃO, Parte II

«Brooks, Geraldine, «Nine Parts of Desire, The Hidden World of Islamic Women»

Farmaain, Sattareh Farman, «Daughter of Persis, A Woman’s Journey from her Father’s Harem through the Islamic Revolution

Mernissi, Fatima, «The Veiland the Male Elite, A Feminist Interpretation of women’s Rights in Islam

(Para:C&H)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

WARIS DIRIE


Outro caso conhecido sobre mutilação genital feminina, é o da modelo somali, Waris Dirie, que escreveu o livro «Flor do Deserto» sobre a sua experiência pessoal.

Assumiu ter sido mutilada e abandonou as «passarelles», para se dedicar ao combate dessa prática, como embaixadora das Nações Unidas e criou a Desert Dawn Foundation, para fazer a campanha contra a prática e recolher fundos para a construção de um centro médico na Somália.

Foi mutilada no deserto da Somália com 5 anos. Aos 13 anos, Dirie andou quase 500 Kilómetros a pé pelo deserto, em direcção a Mogadíscio, a capital somali, para fugir a um casamento com um homem mais velho. Acabou por ir para Londres, onde trabalhou como empregada de limpeza num McDonald’s. Aí foi descoberta pelo fotógrafo, Terence Donovan e catapultada para o mundo da moda.

NAWAL AL SAADAWI – A EGÍPCIA QUE MEXEU NOS TABUS


Com seis anos cortaram-lhe o clítoris. O combate da sua vida foi travado contra a mutilação genital. Tornou-se uma referência dos direitos das mulheres árabes. Sadat meteu-a na prisão. Os fundamentalistas condenaram-na à morte. Infelizmente esta prática ainda continua, mesmo às ocultas nos países ocidentais, para onde apologistas desta barbaridade emigraram.

No livro «The Hidden Face of Eve (1977), edição inglesa da Zed Books, Nawal descreve toda a saga que passou.

Foi naquele momento antes do sono que já tem algo de sonho. Sentiu qualquer coisa a mexer-lhe debaixo dos cobertores. Uma mão agarrou-a outra tapou-lhe a boca. «Levaram-me para a casa de banho. Não sabia quantos eram, nem me lembro das caras, mulheres ou homens. O mundo parecia envolto num nevoeiro negro que me impedia de ver. Ou talvez me tenham posto uma espécie de venda sobre os olhos».

Lembra-se do «toque gelado dos mosaicos da casa de banho» quando a deitaram no chão, de «vozes desconhecidas e de murmúrios interrompidos aqui e ali por um som de metal a raspar que parecia o do carniceiro quando afia a faca antes de degolar um carneiro».

Pensou que uns ladrões tinham entrado em casa. «Preparavam-se para me cortar a garganta. Que era o que sempre acontecia às raparigas desobedientes como eu nas histórias que a minha avó da aldeia gostava de me contar».

Então o som de metal a raspar parou e ela sentiu que se aproximava, mas não da garganta. «Algures abaixo da barriga, como se estivesse à procura de qualquer coisa escondida entre as minhas coxas». Abriram-lhe as pernas o mais possível e mantiveram-nas seguras.

«Subitamente, a lâmina afiada pareceu cair entre as minhas coxas e cortou um pedaço de carne do meu corpo. Gritei de dor apesar da mão firme na minha boca, porque a dor não era apenas uma dor, era com um ferro em brasa que percorria o meu corpo todo. Ao fim de alguns momentos, vi uma poça de sangue à volta das minhas ancas. Não sabia o que tinham cortado do meu corpo, nem tentei descobrir. Apenas chorei e gritei pela minha mãe. O choque mais brutal foi quando olhei em volta e a vi em pé, a meu lado.»

É assim que a egípcia Nawal Al Saadawi conta, como aos seis anos lhe cortaram o clítoris. Depois foi a sua irmã mais nova do que ela dois anos, a sofrer essa mutilação.

A mutilação genital feminina (que geralmente se faz na infância, antes da idade menstrual) não é uma tradição dos países árabes nem do universo islâmico – o Corão não a advoga. A sua prevalência, com origens no Egipto dos faraós, é sobretudo conhecida no Norte e Oriente de África e em partes da Ásia muçulmana, Egipto, Sudão, Iémen, alguns estados do golfo, Etiópia, Quénia, Tanzânia, Gana, Guiné, Nigéria, Sri Lanka, Indonésia e mesmo partes da América Latina, são as zonas em que Nawal Saadawi situa a prática da excisão feminina.

Foi por abordar um conjunto vasto de problemas – não apenas este – que o livro «The Hidden Face of Eve», se tornou um marco nos estudos sobre o mundo árabe.

Nawal Saadawi depois de se formar em medicina em 1956, foi trabalhar para a zona da aldeia onde nasceu, Kafr Tahla, no delta do Nilo: «Aí, com muita frequência, tive que tratar jovens que chegavam ao hospital a sangrar profusamente depois de uma excisão. Muitas perdiam a vida por causa da forma inumana e primitiva como a operação, já suficientemente selvagem em si, era feita. Outras foram afectadas por infecções agudas das quais por vezes vinham a sofrer toda a vida.»

Entre estas jovens, havia também as que vinham do Sudão, o grande vizinho do sul. «Fiquei horrorizada ao perceber que as sudanesas são sujeitas a uma circuncisão, muito mais cruel que as egípcias. No Egito só o clítoris é amputado, e, geralmente, não por completo. No Sudão, a operação consiste na remoção integral de todos os órgãos genitais externos. Cortam o clítoris, os grandes lábios e os pequenos lábios da vagina. Depois a ferida é cozida.» Fica apenas uma pequena abertura para a saída de urina e fluxo menstrual. «O resultado é que na noite do casamento é necessário alargar a abertura cortando um ou ambos os extremos com uma lâmina para que o órgão masculino se possa introduzir». Quando uma mulher sudanesa fica divorciada, a abertura é de novo reduzida.

Tudo isto tem sido exposto regularmente, no entanto vai acontecendo, não só as famílias iletradas insistem em manter o costume, como mesmo as mais cultas. É visto como forma boa para a saúde, que beneficia a limpeza e a «pureza». Na linguagem comum do povo, esta operação é chamada de «limpeza ou purificação».

Saadawi , opõe-se a que seja destacada a sua história pessoal sem o contexto social e político. Faz a denúncia da mutilação genital feminina à luz de um quadro mais amplo, o de uma sociedade patriarcal altamente repressiva, em que, por exemplo, a obsessão com a virgindade feminina é uma forma de domínio. Numa família árabe, o hímen é considerado muito mais valioso do que um olho, um braço ou uma perna. Aliás, «se uma rapariga perde a vida, isso é uma catástrofe menor do que se perdesse o hímen».

Especialmente no Sul do Egito, escreve Saddawi, «os rituais de casamento exigem que a defloração seja praticada pelo marido, com o dedo, e que o sangue manche o lençol branco». Como muito poucas pessoas entendem que o hímen varia de textura, tamanho e consistência de uma jovem para outra, a ausência de sangue pode levar ao repúdio ou mesmo à morte da jovem.

Em determinadas zonas, esta penetração é feita não pelo marido mas por uma «daya» (parteira), que junta ao seu ganha pão os cortes de clítoris e as deflorações. «Durante os meus anos no Egito rural, inúmeras foram as noites que passei ao lado de jovens, numa pequena casa de aldeia ou de lama, a tratar hemorragias causadas pela longa unha suja de uma «daya» que cortara os tecidos durante o processo de defloração». Tem de haver sangue para mostrar. «O pai da noiva levanta então o pano branco manchado de sangue e agita-o orgulhosamente acima da cabeça para os parentes reunidos serem testemunhas de que a honra da sua filha e da família está intacta.» Para a «daya» se conseguisse um abundante fluxo, assegurava-lhe popularidade e um rendimento firme.

A mera suspeita da perda da virgindade justifica os chamados «crimes de honra» - um pai, um irmão, um primo limpam a honra familiar matando a jovem (por vezes o suposto parceiro) , que muitas vezes têm penas suspensas ou nem sequer vão a tribunal.

Há esquemas a que as famílias por vezes recorrem, famílias ricas vão a um ginecologista para que o hímen seja reconstituído, se as famílias são pobres, podem comprar os subterfúgios da «daya», que pode marcar o casamento para a altura da menstruação ou colocar um pequeno saco com sangue de galinha na entrada da vagina.

A mutilação genital feminina foi proibida em 1997, com bastante polémica, mas a operação continua a ser feita, é difícil lutar contra uma prática muito enraizada, Não só a lei, é preciso educação, infelizmente o sistema não educa em relação a algo que considera um tabu. Muita gente paga a médicos para fazer a excisão clandestinamente.

Saadawi contesta a mutilação genital, mas também a circuncisão do pénis. Contesta o fundamentalismo religioso e não excluiu religiões: islâmica, cristã, judaica, hindu, budista… Cita uma frase do pai: «Se o preço que pagamos pela liberdade é alto, mais alto é o preço que pagamos se aceitarmos ser escravos».

Nawal Al Saadawi, nasceu numa família da classe média. O pai era funcionário do Ministério da Educação. Passou a infância entre a aldeia e a cidade. Ela e os seus oito irmãos tiveram acesso à universidade.

Casou três vezes e nos seus divórcios teve a família ao seu lado. Do primeiro marido teve uma filha, Mona Helmy, escritora e do último com Sherif Hetata, médico e escritor, que passou 14 anos na prisão, acusado de ser comunista, um filho, Atef Hetata, realizador de cinema.

Saadawi, depois de trabalhou na sua aldeia, chegou a directora-geral de Saúde e fez um mestrado em Saúde Pública na Universidade da Columbia (EUA). Foi demitida depois de publicar o ensaio «Women and Sex», a partir das suas experiências médicas na zona rural.

Estudou depois psiquiatria e investigou a neurose em 20 mulheres presas ou hospitalizadas, escrevendo o ensaio «Women at Point Zero» e depois «The Hidden Face of Eve».

Pelas críticas feitas ao governo de Sadat, foi presa em 1981, mas passado um mês Sadat foi assassinado por fundamentalistas islâmicos e foi libertada.

No ano seguinte criou a AWSA (Arab Women’s Solidarity Association), que esteve banida entre 1991 e 1996, por ter contestado o envolvimento americano na Guerra do Golfo. Hoje em dia esta organização tem delegações em vários países e milhares de ativistas, uma das suas lutas é contra os «crimes de honra».

Em 1992 o nome de Nawal apareceu numa lista de alvos a abater pelos fundamentalistas islâmicos e decidiu ir para os EUA dar aulas, durante cinco anos. Defende as pessoas americanas, considerando que o pior são os governos.

Regressou ao Egito em 1997, quando o governo diminuiu o poder militar dos fundamentalistas, também era no seu país que queria estar, porque a sua luta só fazia sentido aí.

Em 2001, um advogado fundamentalista, tentou que Nawal se divorciasse do seu marido, seu inseparável companheiro de 40 anos, alegando que ela ofendera o Islão ao dizer numa entrevista, que a peregrinação a Meca, um dos cinco pilares islâmicos, tinha vestígios pagãos e ao pôr em causa a desigualdade das heranças para as mulheres. O advogado baseava-se na «hisba», uma cláusula da lei islâmica que admite separar à força o «ofensor» do seu conjugue muçulmano. O processo foi notícia em todo o mundo, com Emma Bobino a encabeçar movimentos de defesa de Nawal e seu marido, o advogado não conseguiu levar a dele avante.

Nawal, dizia que a peregrinação não era obrigatória e que os pobres deviam alimentar e educar os seus filhos, mas a situação era ao contrário, porque mais importante era ir a Meca, beijar a pedra preta. Foi a primeira pessoa a criticar a peregrinação, foi um choque e o que diziam é que devia ser decapitada.

Nawal traçou na altura um retrato duro do país: «Vemos as pessoas pela rua, e estão exaustas. Trabalham até ao limite só para alimentar as crianças, só para viver e vivem como animais, em casas muito más, com comida muito má. Há muitos desempregados e os pobres são tratados como escravos pelo Governo. As pessoas têm medo de falar. Dizem «com a vontade de Alá», «pela vontade de Alá», falam de Deus o tempo todo. Deus é o único refúgio. Não confiam nem em ninguém, nem no governo. Toda a gente engana toda a gente. As mulheres são maltratadas, porque são vulneráveis, quando há crise são as primeiras a pagar o preço, as primeiras a serem despedidas. Os jovens e os homens juntam-se aos grupos fundamentalistas porque pensam que eles os vão salvar, que Deus os vai salvar.»

Nawal Al Saadawi, recebeu um prémio internacional do governo da Catalunha de 80 mil euros por «contribuição para o desenvolvimento dos valores culturais, científicos e humanos no mundo».