ESPELHO
Sou de prata e exacto. Não faço pré-julgamentos.
O que vejo engulo de imediato
Tal como é, sem me embaraçar de amor ou desgosto.
Não sou cruel, simplesmente verídico —
O olho de um pequeno deus, de quatro cantos.
Reflicto todo o tempo sobre a parede em frente.
É rosa, manchada. Fitei-a tanto
Que a sinto parte do meu coração. Mas cede.
Faces e escuridão insistem em separar-nos.
Agora eu sou um lago. Uma mulher se encosta a mim,
Buscando na minha posse o que realmente é.
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o brilho e a lua.
Vejo as suas costas e reflicto-as na íntegra.
Ela paga-me em choro e em agitação de mãos.
Eu sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã a sua face alterna com a escuridão.
Em mim se afogou uma menina, e em mim uma velha
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrível.
Sylvia Plath, nasceu na Jamaica Plain, Massachusetts a 27 de Outubro de 1932. Poetisa, romancista e contista.
Reconhecida principalmente pela sua obra poética, Sylvia Plath escreveu também um romance semi-autobiográfico, "The Bell Jar", com detalhes da sua luta contra a depressão. Como Anne Sexton, Sylvia Plath é considerada por dar continuidade ao género de poesia confessional.
Suicidou-se em Primrose Hill, Londres, a 11 de Fevereiro de 1963
O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE
JEAN-PAUL SARTRE
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domingo, 27 de outubro de 2013
domingo, 26 de setembro de 2010
POEMAS DE SYLVIA PLATH

A CHEGADA DA CAIXA DE ABELHAS
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Encomendei esta caixa de madeira
Encomendei esta caixa de madeira
Clara, exacta, quase um fardo para carregar.
Eu diria que é um ataúde de um anão ou
De um bebé quadrado
Não fosse o barulho ensurdecedor que dela escapa.
Está trancada, é perigosa.
Está trancada, é perigosa.
Tenho de passar a noite com ela e
Não consigo me afastar.
Não tem janelas, não posso ver o que há dentro.
Apenas uma pequena grade e nenhuma saída.
Espio pela grade.
Espio pela grade.
Está escuro, escuro.
Enxame de mãos africanas
Mínimas, encolhidas para exportação,
Negro em negro, escalando com fúria.
Como deixá-las sair?
Como deixá-las sair?
É o barulho que mais me apavora,
As sílabas ininteligíveis.
São como uma turba romana,
Pequenas, insignificantes como indivíduos,
mas meu deus, juntas!
Escuto esse latim furioso.
Escuto esse latim furioso.
Não sou um César.
Simplesmente encomendei uma caixa de maníacos.
Podem ser devolvidos.
Podem morrer, não preciso alimentá-los, sou a dona.
Pergunto se têm fome.
Pergunto se têm fome.
Pergunto se me esqueceriam
Se eu abrisse as trancas e me afastasse e virasse árvore.
Há laburnos, colunatas louras, Anáguas de cerejas.
Poderiam imediatamente ignorar-me.
Poderiam imediatamente ignorar-me.
No meu vestido lunar e véu funerário
Não sou uma fonte de mel.
Por que então recorrer a mim?
Amanhã serei Deus, o generoso – vou libertá-los.
A caixa é apenas temporária.
(tradução de Ana Cândida Perez e Ana Cristina César )
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40 GRAUS DE FEBRE
A caixa é apenas temporária.
(tradução de Ana Cândida Perez e Ana Cristina César )
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40 GRAUS DE FEBRE
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Pura? Que vem a ser isso?
Pura? Que vem a ser isso?
As línguas do inferno
São baças, baças como as tríplices
Línguas do apático, gordo Cérbero
Línguas do apático, gordo Cérbero
Que arqueja junto à entrada.
Incapaz
De lamber limpamente
O febril tendão, o pecado, o pecado.
O febril tendão, o pecado, o pecado.
Crepita a chama.
O indelével aroma
De espevitada vela!
De espevitada vela!
Amor, amor, escassa a fumaça
Rola de mim como a echarpe de Isadora, e temo
Que uma das bandas venha a prender-se na roda.
Que uma das bandas venha a prender-se na roda.
A amarela e morosa fumaça
Faz o seu próprio elemento.
Não irá alto
Mas rolará em redor do globo
Mas rolará em redor do globo
A asfixiar o idoso e o humilde,
O frágil
E delicado bebé no seu berço,
E delicado bebé no seu berço,
A lívida orquídea
Suspensa do seu jardim suspenso no ar,
Diabólico leopardo!
Diabólico leopardo!
A radiação faz que ela embranqueça
E a extingue em uma hora.
Engordurar os corpos dos adúlteros
Engordurar os corpos dos adúlteros
Tal qual as cinzas de Hiroshima e corroê-los.
O pecado. O pecado.
Querido, a noite inteira
Querido, a noite inteira
Eu passei oscilando, morta, viva, morta, viva.
Os lençóis opressivos como beijos de um devasso.
Três dias. Três noites.
Três dias. Três noites.
Água de limão, canja
Aguada, enjoa-me.
Sou por demais pura para ti ou para alguém.
Sou por demais pura para ti ou para alguém.
Teu corpo
Magoa-me como o mundo magoa Deus.
Sou uma lanterna —
Minha cabeça uma lua
Minha cabeça uma lua
De papel japonês, minha pele de ouro laminado
Infinitamente delicada e infinitamente dispendiosa.
Não te assombra meu coração.
Não te assombra meu coração.
E minha luz.
Eu sou, toda eu, uma enorme camélia
Esbraseada e a ir e vir, em rubros jorros.
Creio que vou subir,
Creio que vou subir,
Creio que posso ir bem alto
—As contas de metal ardente voam, e eu, amor, eu
Sou uma virgem pura
Sou uma virgem pura
De acetileno
Acompanhada de rosas,
De beijos, de querubins,
De beijos, de querubins,
Do que venham a ser essas coisas rosadas.
Não tu, nem ele
Não ele, nem ele
Não ele, nem ele
(Eu toda a dissolver-me, anágua de puta velha)
—Ao Paraíso.
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(tradução de Afonso Félix de Souza)
OUTONO DE RÃ
(tradução de Afonso Félix de Souza)
OUTONO DE RÃ
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O verão envelhece, mãe impiedosa.
O verão envelhece, mãe impiedosa.
Os insectos vão escassos, esquálidos.
Em nossos lares palustres nós apenas
Coaxamos e definhamos.
As manhas se dissipam em sonolência.
As manhas se dissipam em sonolência.
O sol brilha pachorrento
Entre caniços ocos.
As moscas não chegam a nós.
O charco nos repugna.
A geada cobre até aranhas.
A geada cobre até aranhas.
Obviamente
O deus da plenitude
Está morando longe daqui.
Nosso povo rareia
Lamentavelmente.
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(tradução de Jorge Wanderley)
(tradução de Jorge Wanderley)
sábado, 25 de setembro de 2010
SYLVIA PLATH

http://www.sylviaplath.de/
PALAVRAS
.
Golpes
Golpes
De machado na madeira,
E os ecos!
Ecos que partem
A galope.
A seiva Jorra como pranto, como
A seiva Jorra como pranto, como
Água lutando
Para repor seu espelho
Sobre a rocha
Que cai e rola,
Que cai e rola,
Crânio branco
Comido pelas ervas.
Anos depois, na estrada,
Encontro
Essas palavras secas e sem rédeas,
Essas palavras secas e sem rédeas,
Bater de cascos incansável.
Enquanto do fundo do poço,
estrelas fixas
Decidem uma vida.
.(tradução de Ana Cristina César)
.
ARIEL
.
ARIEL
.
Estancamento no escuro
Estancamento no escuro
E então o fluir azul e insubstancial
De montanha e distância.
Leoa do Senhor como nos unimos
Leoa do Senhor como nos unimos
Eixo de calcanhares e joelhos!... O sulco
Afunda e passa, irmão
Afunda e passa, irmão
Do arco tenso
Do pescoço que não consigo dobrar.
Sementes
Sementes
De olhos negros lançam escuros
Anzóis...
Negro, doce sangue na boca,
Negro, doce sangue na boca,
Sombra,
Um outro voo
Me arrasta pelo ar...
Me arrasta pelo ar...
Coxas, pêlos;
Escamas e calcanhares.
Branca
Godiva, descasco
Mãos mortas, asperezas mortas.
E então
E então
Ondulo como trigo, um brilho de mares.
O grito da criança
Escorre pela parede.
Escorre pela parede.
E eu
Sou a flecha,
O orvalho que voa,
O orvalho que voa,
Suicida, unido com o impulso
Dentro do olho
Vermelho, caldeirão da manhã.
Vermelho, caldeirão da manhã.
.(tradução de Ana Cândida Perez e Ana Cristina César)
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