O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE
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segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

BAUDELAIRE


Charles Baudelaire (1821-1867), perdeu o pai ainda criança e pouco tempo depois a mãe voltou a casar. Nunca concluiu os seus estudos de Direito. Baudelaire levava uma vida boémia, convivendo com vários intelectuais. Para o afastar dessa vida, o padastro decidiu enviá-lo para Calcutá. Baudelaire não foi além da ilha Reunião, regressando a França. Aos 21 anos recebeu a herança paterna e levava uma vida entre drogas e álcool, na companhia da mulata Jeanne Duval, com quem tem uma relação intensa. A mãe recorreu à justiça e a sua fortuna passou a ser controlada por um notário.

Relativamente à sua escrita, Baudelaire, foi um admirador incondicional de Edgar Allan Poe e traduziu vários dos seus contos. Em 1857, publicou As Flores do Mal, mas nesta obra 6 poemas, que versavam o lesbianismo, são considerados imorais, Baudelaire foi a tribunal, teve que retirar esses poemas e pagou uma multa. Só em 1949 foi decretada a reabilitação completa de Baudelaire pelo Supremo Tribunal da Justiça de Paris, anulando a sentença de 1857.
Baudelaire é considerado um dos poetas do Simbolismo, embora se tenha relacionado com diversas escolas artísticas. A sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Baudelaire

domingo, 3 de janeiro de 2010

EMBRIAGUEM-SE - BAUDELAIRE

(Fotografia: FÉLIX NADAR)
É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: "É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso". Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

sábado, 2 de janeiro de 2010

CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)


O BRINQUEDO DO POBRE


Quero dar a ideia de uma distracção inocente. Há tão

poucos divertimentos que não sejam criminosos!

Quando saírdes, de manhã, com a firme intenção

de vagabundear pelas estradas, enchei os bolsos de

pequeninas invenções de um soldo e, pelas

tavernas, ao pé das árvores, presenteai os meninos

desconhecidos e pobres que fordes encontrando.

Então vereis os seus olhos crescerem, crescerem...

A princípio, não ousarão tocar no presente:

duvidarão da própria felicidade.

Depois, suas mãos agarrarão vivamente o brinquedo

e eles fugirão, como fazem os gatos, que, tendo

aprendido a desconfiar do homem,

vão comer longe de nós o bocado que lhes damos.

Numa estrada, por trás das grades de um vasto jardim,

ao fundo do qual surgia a brancura de um lindo castelo

batido de sol, via-se uma criança fresca e bela,

vestida de uma dessas roupas de campo, tão garridas.

O luxo, a ociosidade e o espectáculo habitual da

riqueza tornam esses meninos tão belos que nos parece

terem sido feitos de outra massa que não

a dos filhos da mediania ou da pobreza.

Ao lado dela, jazia sobre a relva um brinquedo

esplêndido, tão novo quanto o seu dono, envernizado,

dourado, com um traje cor de púrpura, e coberto com

plumas e vidrinhos. O pequeno, porém, não se

ocupava com o seu brinquedo favorito, e eis o que

ele observava:

Do outro lado da grade, na estrada, entre os cardos

e as urtigas, havia outro menino, sujo, raquítico,

tisnado, um desses garotos-párias

em quem um olho imparcial descobriria a beleza,

se o limpasse da repugnante pátine da miséria.

Através daquelas vergas simbólicas,

que separavam dois mundos, a estrada real e o

castelo, o menino pobre mostrava o seu brinquedo

ao menino rico, e este que o pequeno porcalhão

atraía com afagos, agitava e sacudia, numa espécie

de gaiola, era um rato vivo! Os pais, decerto por

economia, haviam tirado o brinquedo da própria Vida.

E as duas crianças riam uma para a outra,

fraternalmente, com dentes de uma brancura igual.


http://poetas.mortos.sites.uol.com.br/baudela.htm