O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE
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domingo, 31 de agosto de 2014

"Na declaração dos direitos do homem esqueceram-se de incluir o direito a contradizer-se."

Charles-Pierre Baudelaire (Paris9 de abril de 1821 — Paris, 31 de agosto de 1867) foi um poeta boémio e teórico daarte francesa. É considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como o fundador da tradição moderna em poesia,2 juntamente com Walt Whitman, embora tenha se relacionado com diversas escolas artísticas. Sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

CÉLINE



Louis-Ferdinand Céline, pseudónimo de Louis-Ferdinand Destouches, conhecido simplesmente por Céline (Coubervoie, 27 de Maio de 1894 - 1 de Julho de 1961), escritor e médico francês.
Nasceu no seio de uma família da classe média baixa, fez a instrução escolar básica, foi incorporado no exército francês em 1912 e por ter levado a cabo uma missão de reconhecimento arriscada, no curso da qual foi ferido com gravidade, foi condecorado com a Medalha militar, e posteriormente com a Cruz de guerra.
Casou e descasou em Londres, esteve nos Camarões a trabalhar numa empresa Francesa de madeiras e depois na Bretanha a trabalhar na Fundação Rockefeller completou os seus estudos secundários, Casou com Edith Follet, filha do director da escola de medicina de Rennes. Céline recebeu a licenciatura em Medicina e abandonou definitivamente a sua família e sob a égide da Liga das Nações foi viajar.
Em 1928 instalou um consultório privado em Montmartre especializando-se em obstetrícia, mas abandonou a clínica privada, por um cargo público de dispensário e em 1932, completou Voyage au bout de la nuit (Viagem ao fundo da noite) e por pouco não recebeu o prémio Goncourt, tendo recebido posteriormente o Prémio Renaudot.
A sua obra mais aclamada é Viagem ao fim da noite, que estabelece uma rotura com a literatura da época, pela utilização do calão e linguagem vulgar de um modo mais consistente, do que outros escritores haviam tentado, nomeadamente Zola. Escreveu depois, vários livros. Céline defendeu abertamente o anti-semitismo, Sartre acusou-o de ter colaborado com os Nazis, o que não corresponde à verdade.
Após a queda do regime de Vichy, escapou para a Alemanha na companhia de Pétain e Pierre Laval. Após a queda do regime nazi fujiu para a Dinamarca, tendo sido julgado à revelia em França e condenado a um ano de prisão, considerado uma "vergonha pública". Amnistiado, retornou a França em 1951.
Só em 1957 recuperou a notoriedade, com a trilogia relativa à sua estadia na Alemanha. Nessa altura tornou-se um ídolo da chamada «beat generation» .

O seu pensamento niilista é marcado por acentos heróico-cómicos e épicos e por uma grande força e vivacidade. Céline revolucionou o romance tradicional, brincando com os ritmos e sons, no que se chamou de "pequena música". Com o seu vocabulário ao mesmo tempo vulgar e científico, é também dotado de uma terrível lucidez, oscilante entre desespero e humor, violência e ternura, revolução estilística e real revolta.
O seu primeiro romance, Viagem ao fim da noite, foi construído em torno de dois eixos. O primeiro refere-se à descoberta pelo narrador-personagem de um mundo onde a paz e o amor entre os povos parecem impossíveis, devido às guerras, à colonização, à exploração industrial, por toda a parte. O segundo eixo, é um prolongamento do primeiro. Confirma o essencial: "o amor é impossível hoje". Céline interpreta assim o pensamento de Arthur Schopenhauer.

sábado, 24 de maio de 2014

MIKHAIL SHOLOKHOV



Escritor soviético, Mikhail Aleksandrovich Sholokhov nasceu a 24 de Maio de 1905 na pequena localidade de Kruzhlinin, no território cossaco de Kamenskaya, e faleceu a 21 de Janeiro de 1984 em Veshenskaya.
Filho de camponeses - o pai era russo e a mãe ucraniana - pôde no entanto receber alguns estudos.
A chegada da Revolução Russa incendiou os ânimos do país a partir de 1917 e, no ano seguinte, a Guerra Civil alastrou até aos territórios do Rio Don. Sholokhov prontamente se enfileirou no contingente bolchevique.
Em 1922 mudou-se para Moscovo, onde passou a trabalhar em ofícios tão variados como o de pedreiro e o de guarda-livros. Não obstante, ocupava os seus tempos livres frequentando seminários para escritores e publicando artigos e contos na imprensa.
O seu primeiro conto, Yunosheskaya Pravda, apareceu em 1924, ano em que regressou a Veshenskaya com o firme intuito de se tornar escritor a tempo inteiro.
Em 1925 publicou o seu primeiro livro, Donskie Rasskazy, uma colectânea de contos que se concentravam sobretudo na vida dos cossacos e na sua dimensão humana face às realidades da política e da guerra.
Aderiu ao Partido Comunista em 1932 e, embora discordando da política de Estaline, sobretudo acerca dos abusos cometidos contra os agricultores em 1933, foi eleito membro do Parlamento Soviético em 1937.
Em 1941 recebeu o Prémio Estaline em reconhecimento pela sua obra Tichii Don (O Dom Tranquilo).
O seu segundo romance, Podnyataya Tselina (Campos Lavrados), descreve os acontecimentos dramáticos que sucedem numa exploração agrícola colectivizada. Em 1959, Mikhail Sholokhov fez parte da comitiva do dirigente Nikita Kruchev em visita aos Estados Unidos da América e à Europa e, dois anos depois, tornou-se membro do Comité Central.
Foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura no ano de 1965.

Mikhail Sholokhov. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

«Um verdadeiro espírito de rebeldia é aquele que busca a felicidade nesta vida.»

Henrik Johan Ibsen (Skien, 20 de Março de 1828 — Cristiânia, 23 de Maio de 1906) dramaturgo norueguês, considerado um dos criadores do teatro realista moderno. Foi o maior dramaturgo norueguês do Século XIX. Foi também poeta e director teatral, sendo considerado um dos fundadores do modernismo no teatro . Entre os seus maiores trabalhos destacam-se Brand, Peer Gynt, Um Inimigo do Povo, Imperador e Galileu, Casa de Bonecas, Hedda Gabler, Espectros, O Pato Selvagem e Rosmersholm.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Jack London (São Francisco, 12 de Janeiro de 1876 - Califórnia, 22 de Novembro de 1916)


Autor, jornalista e activista social, pioneiro no que era, então, o novo mundo das revistas comerciais de ficção, tendo sido um dos primeiros romancistas a obter celebridade mundial somente com as suas histórias, além de uma grande fortuna. Dentro das suas obras mais conhecidas, estão The Call of the Wild, Before Adam, White Fang e The Sea Wolf ("O lobo do mar").

A verdadeira função do homem é viver, não existir. Eu não gastarei meus dias tentando prolongá-los. Eu usarei meu tempo."

"A vida é como um fermento, uma levedura que se move por um minuto, uma hora, um ano, um século, um milénio, mas que por fim terá paralisado os movimentos. Para manter-se em movimento, o grande come o pequeno. Para manter-se forte, o forte come o fraco. O que tem sorte prolonga o seu movimento por mais tempo - eis tudo."

- O Lobo-do-Mar (The Sea-Wolf), livro de 1904

André Paul Guillaume Gide (Paris, 22 de Novembro de 1869 — Paris, 19 de Fevereiro de 1951)

André Gide - Recebeu o Nobel de Literatura de 1947. Oriundo de uma família da alta burguesia, foi o fundador da Editora Gallimard e da revista Nouvelle Revue Française. Gide não somente era homossexual assumido, como também falava abertamente em favor dos direitos dos homossexuais, tendo escrito e publicado, entre 1910 e 1924, um livro destinado a combater os preconceitos homofóbicos da sociedade de seu tempo, Corydon.



«Na frente de certos ricos, como não se sentir uma alma de comunista?"

"Nada impede mais a felicidade do que a lembrança da felicidade."

"Todas as coisas já foram ditas, mas como ninguém escuta é preciso sempre dizer de novo."

"Crê nos que buscam a verdade, duvida dos que a encontram."
"As mentiras mais detestáveis são as que mais se aproximam da verdade."

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

sábado, 17 de agosto de 2013

Millôr Fernandes

Milton Viola Fernandes (Rio de Janeiro, 16 de Agosto de 19231 — 27 de Março de 2012), mais conhecido como Millôr Fernandes, desenhista,humorista, dramaturgo, escritor, tradutor e jornalista brasileiro.

Terrível é o pensar./ Eu penso tanto / E me canso tanto com meu pensamento / Que às vezes penso em não pensar jamais./ Mas isto requer ser bem pensado / Pois se penso demais / Acabo despensando tudo que pensava antes / E se não penso / Fico pensando nisso o tempo todo./

Anatomia é uma coisa que os homens também têm, mas que, nas mulheres, fica muito melhor."
"Chato, é aquele que explica tudo tim-tim por tim-tim... e depois ainda entra em detalhes."

"Esta semana, mais um recorde da Loteria Esportiva: vinte e seis milhões, quatrocentos e vinte mil, trezentos e oito perdedores".

"O bom da gente ser pobre, triste, feio, doente e velho é que nada pior nos pode acontecer".

"Diz que o grande erro de Noé foi que ele botou na Arca apenas dois animais de cada espécie, mas quando chegou a vez dos burros deixou entrar todos".

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

William Blake (Londres, 28 de Novembro de 1757 — Londres, 12 de Agosto de 1827) poeta, tipógrafo e pintor inglês, sendo a sua pintura definida como pintura fantástica.

Blake viveu num período significativo da história, marcado pelo Iluminismo e pela Revolução Industrial na Inglaterra. A literatura estava no auge, uma espécie de paraíso para os conformados às convenções sociais, mas não para Blake que, nesse sentido era romântico, "enxergava o que muitos se negavam a ver: a pobreza, a injustiça social, a negatividade do poder da Igreja Anglicana e do estado." 
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  « Aquele que se deixa prender por uma Alegria / Rasga as asas da vida; / Aquele que beija a Alegria enquanto ela voa / Vive no amanhecer da Eternidade."

"O amor não busca agradar a si mesmo / Nem destina qualquer cuidado a si próprio / Mas se dá facilmente ao outro, / E constrói um Paraíso no desespero do Inferno.

"A gratidão é o próprio paraíso."

"Se as portas da percepção fossem limpas, tudo apareceria ao homem como realmente é: infinito".

"Ver um mundo em um grão de areia/ e um céu numa flor selvagem/ é ter o infinito na palma da mão/ e a eternidade em uma hora".




quarta-feira, 31 de julho de 2013

Denis Diderot (Langres, 5 de Outubro de 1713 — Paris, 31 de Julho de 1784)



Denis Diderot (Langres, 5 de Outubro de 1713 — Paris, 31 de Julho de 1784), filósofo e escritor francês.
A sua obra prima é a edição da Encyclopédie (1750-1772) ou Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers, onde reportou todo o conhecimento que a humanidade havia produzido até à sua época.

"Dizem que o desejo é produto da vontade, mas dá-se o oposto: a vontade é produto do desejo."

"Engolimos de uma vez a mentira que nos adula e bebemos gota a gota a verdade que nos amarga."

"Apenas há um dever: o de sermos felizes."

"Nem que seja para fazer alfinetes, o entusiasmo é indispensável para sermos bons no nosso ofício."

"Se, quando somos ricos, temos tudo, qual o interesse em termos mérito e virtude?"

"Perguntaram um dia a alguém se havia ateus verdadeiros. Você acredita, respondeu ele, que haja cristãos verdadeiros?"

"Não se retém quase nada sem o auxílio das palavras, e as palavras quase nunca bastam para transmitir precisamente o que se sente."

"A ignorância não fica tão distante da verdade quanto o preconceito."

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Rolando Teixo, Pedro Bidarra



Será que o silêncio, como o som, é passível de ter um volume que aumenta? Será possível aumentar o volume do silêncio e ter, hoje, um silêncio mais volumoso que o silêncio de ontem, quando, contra toda a evidência objectiva, o silêncio de hoje é igual ao silêncio de ontem? A ausência de diálogo, de assunto, de conversa é a mesmíssima de ontem; as notícias que saem pela televisão são as mesmas e os talheres que batem no parto, pontuam o mesmo silêncio da mesma maneira. Mas hoje sente-se um silêncio mais volumoso do que o de ontem. Não mais pesado, como é comum dizer-se, não é assim que ele se sente. Sente-se apenas mais volumoso. Rolando Teixo, Pedro Bidarra

sábado, 22 de junho de 2013

«TODAS AS CARTAS DE AMOR SÃO RIDÍCULAS» - FERNANDO PESSOA

Fernando e Ofélia
O encontro/desencontro destes dois seres predestinados para nunca se encontrarem e, uma vez encontrados, cada um deles viver, um na plena e redentora ilusão de se saber amado – miticamente «para sempre» -, e outro num mundo alheio, insuspeitado e ingénuo, votada à desilusão.

Se Ofélia, tivesse lido o menor dos poemas do seu efémero e improvável «namorado» onde nada se glosa senão a evidência de que a vida é pura Ficção e a chamada Ficção a única e impenetrável «verdade» dela, não teria embarcado nessa travessia do coração para um porto que nunca existiu para o companheiro/fantasma dessa viagem sem viajante dentro. Ofélia tinha razão quando Fernando vinha com o seu duplo infernal Álvaro de Campos, que a afastava dela. Fernando Pessoa teve como única musa o desamor.
No combate venceu a Literatura, monstro sublime da imaginação, única paixão que assolou Pessoa.(Eduardo Lourenço)

ALGUMAS CARTAS DE FERNANDO A OFÉLIA, UMA DELAS ESCRITA PELO SEU HETERÓNIMO ÁLVARO DE CAMPOS:

 Meu Be«be»zinho lindo:
     
Não imaginas a graça que te achei hoje á janella da casa de tua irmã! Ainda bem que estavas alegre e que mostraste prazer em me ver (Álvaro de Campos).
     
Tenho estado muito triste, e além d'isso muito cansado - triste não só por te não poder ver, como também pelas complicações que outras pessoas teem interposto no nosso caminho. Chego a crer que a influência constante, insistente, hábil d'essas pessoas; não ralhando contigo, não se oppondo de modo evidente, mas trabalhando lentamente sobre o teu espírito, venha a levar-te finalmente a não gostar de mim. Sinto-me já differente; já não és a mesma que eras no escriptorio. Não digo que tu própria tenhas dado por isso; mas dei eu, ou, pelo menos, julguei dar por isso. Oxalá me tenha enganado...
     
Olha, filhinha: não vejo nada claro no futuro. Quero dizer: não vejo o que vãe haver, ou o que vãe ser de nós, dado, de mais a mais, o teu feitio de cederes a todas as influencias de familia, e de em tudo seres de uma opinião contraria á minha. No escriptorio eras mais dócil, mais meiga, mais amorável.
     
Enfim...
     
Amanhã passo  á mesma hora no Largo de Camões. Poderás tu apparecer à janella?
     
Sempre e muito teu
     
CARTA A OFÉLIA QUEIRÓS - 31 DE MAIO DE 1920
     
     
Bebezinho do Nininho-ninho:
     
Oh!
     
Venho só quevê pâ dizê ó Bebezinho que gotei muito da catinha dela. Oh!
     
E também tive munta pena de não tá ó pé do Bebé pâ le dá jinhos.
     
Oh! O Nininho é pequenininho!
     
Hoje o Nininho não vai a Belém porque, como não sabia se havia carros, combinei tá aqui às seis ho'as.
     
Amanhã, a não sê qu'o Nininho não possa é que sai daqui pelas cinco e meia. [desenho de uma meia] (isto é a meia das cinco e meia).
     
Amanhã o Bebé espera pelo Nininho, sim? Em Belém, sim? Sim?
     
Jinhos, jinhos e mais jinhos.
     
CARTA A OPHÉLIA QUEIROZ – 25 DE SETEMBRO DE 1929
   
   
Exma. Senhora D. Ophélia Queiroz:
    
Um abjecto e miserável indivíduo chamado Fernando Pessoa, meu particular e querido amigo, encarregou-me de comunicar a V. Ex.ª — considerando que o estado mental dele o impede de comunicar qualquer coisa, mesmo a uma ervilha seca (exemplo da obediência e da disciplina) — que V. Ex. ª está proibida de:
(1) pesar menos gramas,
(2) comer pouco,
(3) não dormir nada,
(4) ter febre,
(5) pensar no indivíduo em questão.
   
Pela minha parte, e como íntimo e sincero amigo que sou do meliante de cuja comunicação (com sacrifício) me encarrego, aconselho V. Ex.ª a pegar na imagem mental, que acaso tenha formado do indivíduo cuja citação está estragando este papel razoavelmente branco, e deitar essa imagem mental na pia, por ser materialmente impossível dar esse justo Destino à entidade fingidamente humana a quem ele competiria, se houvesse justiça no mundo.
   
Cumprimenta V. Ex. ª
   
Álvaro de Campos
eng. Naval
CARTA A OFÉLIA QUEIRÓS - 9 DE OUTUBRO DE 1929
   
   
     Terrivel Bébé
   
      Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é  sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que a havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao princípio, e parece-me que ainda lhe telephono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na bocca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a bocca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu hombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e porque é que a Ophelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gás e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fôsse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece ser impossível ser escripto por um ente humano, mas é escripto por mim .
 


 
Cartas de Amor, Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa, Ática, 1978 (3ª ed. 1994)