O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

FERNANDO PESSOA versus CESÁRIO VERDE

OPINIÃO DE PESSOA, ACERCA DO POETA CESÁRIO VERDE (EXCERTOS)

Houve em Portugal, no século dezanove, três poetas, e três somente, a quem legitimamente compete a designação de mestres. São eles, por ordem de idades, Antero de Quental, Cesário Verde e Camilo Pessanha. Com excepção de Antero, todavia dubitativamente aceite e extremamente combatido, coube a todos três a sorte normal dos mestres- a incompreensão em vida, nos mesmos (como em Byron, derivando de Wordsworth e combatendo-o) sobre quem exerceram influência. A celebridade raras vezes acolhe os génios em vida, salvo se a vida é longa, e lhes chega ao fim dela. Quase nunca acolhe aqueles génios especiais, em quem o dom da criação se junta ao da novidade: que não sintetizam, como Milton, a experiência poética anterior, mas estabelecem como Shakespeare, um novo aspecto de poesia. Assim, e nos exemplos comparativamente citados, ao passo que Milton, embora sem pequenez para ser aceite pelo vulgo, foi de seu tempo tido como grande grandeza que tinha, Shakespeare não foi apreciado pelos contemporâneos senão como cómico. Com Antero de Quental se fundou entre nós a poesia metafísica, até ali não só ausente, mas organicamente ausente, da nossa literatura. Com Cesário Verde se fundou entre nós a poesia objectiva, igualmente ignorada entre nós. Com Camilo Pessanha a poesia do vago e do impressivo tomou forma portuguesa. Qualquer dos três, porque qualquer é um homem de génio, é grande não só adentro de Portugal, mas em absoluto. [...]Cesário Verde foi um dos mais radicais revolucionários que há na literatura. [...] Para medir a grandeza de Cesário é preciso lê-lo depois de por ampla leitura se estar saturado e integrado no género poético no meio do qual a sua obra surge como um relâmpago. É depois de ler essas obras que se deve ler Cesário; e é reflectindo então em que foi no meio psíquico, onde aquelas eram representativas e/ usuais/, que irrompeu a obra de Cesário Verde. Da violência enorme do contraste salta aos olhos, a par da extraordinária originalidade de Cesário, o conceito psicologicamente explicativo (...) a/ chave/ dessa individualidade sociologicamente considerada. Quanto à novidade da obra o contraste é flagrante. Em vez da retórica oca e do concomitante sentimentalismo difuso, da carência completa de tudo quanto fosse a visão artística do mundo exterior, da longa estrofe retumbante– o verso sóbrio e severo, o sentimento reprimido, a visão nítida (...) das cousas, o epíteto revelador, o uso simples e (...) da quadra, ou da quintilha, quase sempre apenas do decassílabo e do alexandrino. Isto é dito por alto; porque em toda a linha de comparação, em cada ponto da linha, o contraste é inteiro e completo. Dizer que Cesário sofreu influências várias quer dizer simplesmente que foi vivo. Todos os autores sofrem influências; a diferença começa no uso que fazem delas. Quanto maior a capacidade de compreensão de um espírito, mais facilmente influenciado é; quanto maior a sua capacidade de criação mais facilmente converte essas muitas influências na substância da sua personalidade.Uma individualidade pode ser intensa por ser estreita, ou por ser profunda. [...] Um espírito superficial tomará como pormenor curioso da obra de Cesário o cantar ele a cidade e também o campo. O mais curioso deste pormenor é que ele é falso. Cesário não canta nem as cidades nem os campos. Canta a vida humana, e canta nos campos e nas cidades, em relação à natureza livre dos campos e à/ natureza artificial/ das cidades. Poderá parecer que é um amante do minucioso da natureza. Mas uma comparação, ainda que ligeira, com o que amam e/ pintam/ minuciosamente a natureza, mostra, pela nenhuma parecença com Cesário, mesmo no modo de descrever, que Cesário não é como eles. E finalmente, quanto a sentimento, um só geralmente pode ter o esteta: o amor à vida e, correspondentemente, o horror à morte. Cesário Verde não é bem um temperamento de esteta. Tem sentimento puro demais, e/ sentimento da beleza/ a menos. Cesário é psiquismo muito mais curioso do que Théophile Gautier. Gautier é simplesmente o esteta típico; Cesário é qualquer coisa de mais individual. Não é bem um esteta português – isto é, o esteta que, por ser duma raça sentimental não pode nunca tipificar o esteta completamente. Essa apelação convém mais, por ex., a Eugénio de Castro. Cesário é outra cousa. É português, mas limitadamente esteta.*O sentimento estético não é grande em Cesário. O sentimento é forte e sincero, mas reprimido: e é nisto que Cesário é curioso. É português que reprime o sentimento. Tem-no, porque é um português, e um português sem sentimento é cousa que não se concebe.

Fernando Pessoa, no Livro do Desassossego (BERNARDO SOARES) escreveu:

“Vivo numa época anterior àquela em que vivo; gozo de sentir-me coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele.”

ALBERTO CAEIRO fez o poema:

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena eu tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas coisas,
É o de quem olha para as àrvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos…

Por isso ele yinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros…


E ÁLVARO DE CAMPOS

Ah o crepúsculo, o cair da noite,o acender de luzes nas grandes cidades

E a mão de mistério que abafa o bulício,
E o cansaço de tudo em nós que nos corrompe
Para uma sensação exacta e precisa e activa da vida!
Cada rua é um canal de uma Veneza de tédios
E que misterioso o fundo unânime das ruas,
Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre
Ó do «Sentimento de um Ocidental»!
[…]

(Álvaro de Campos é, como Cesário Verde, um poeta urbano: como ele, embora de forma mais chocantemente futurista, focou a cidade e a sua multidão anónima e também o cansaço e o tédio de si mesmo. Campos evoluciona, nos poemas, de uma euforia desmedida para uma imensa angústia que muitas vezes se exprime por meio de amargas ironias. Veja-se, por exemplo, a grande ironia que transparece do poema Tabacaria. Toda a desordem de ritmos, toda a violência de metáforas e expressões, provêm do desespero de não poder meter nas palavras o tamanho das sensações. E o próprio Campos afirma: "A emoção intensa não cabe na palavra: tem que baixar ao grito ou subir ao canto".)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

SOU UMA UTÓPICA DE ESQUERDA...

Não estou, nem nunca estive presa a nenhum partido político, isto permite-me criticar e elogiar um ou outro, mas sempre me considerei de esquerda, ie nunca votei no que se pode convencionar por direita. Há muitas esquerdas e pouca esquerda!...Posso ser mais radical ou mais tolerante, tudo depende da análise que faço, caso a caso.
A esquerda para mim, está implicada com a luta por uma mudança social com o intuito de criar uma sociedade mais igualitária. Este termo surgiu durante a Revolução Francesa. Esta é a esquerda que defendo, uma esquerda imbuída de humanismo, firmando-se na trilogia revolucionária – FRATERNIDADE, SOLIDARIEDADE E LIBERDADE. Penso que esta esquerda é progressiva e que sempre esteve ao lado das lutas sociais, das melhorias no trabalho, na jornada das 8 horas, nas férias, na semana inglesa, no combate à miséria, no apoio às crianças, aos idosos, etc…
Um conceito distinto de esquerda política foi originado com a Revolta de 1848 em França. Os organizadores da Primeira Internacional consideravam-se os sucessores da ala esquerda da Revolução Francesa (a jacobina). O termo esquerdista passou a definir vários movimentos revolucionários na Europa, especialmente socialistas, anarquistas e comunistas. O termo também é utilizado para descrever a social-democracia e o liberalismo social (diferente do liberalismo económico, considerado de direita).

Li os ENSAIOS POLÍTICOS, de Pessoa, sou «pessoana», mas não a 100%, no entanto considero que ele foi um génio e poderia usar muita adjectivação, mas sempre senti um grande cansaço pelos adjectivos! Pessoa viveu num tempo muito diverso, mas ao dizer: hoje liberalismo implique também um «capitalismo selvagem sem freios».
Pessoa defendia, a liberdade individual como um objectivo central e que a falta de oportunidades económicas, educação, saúde, etc., podem ser tão prejudiciais para a liberdade como um Estado opressor. Derivado disto, os liberais sociais estão entre os mais fortes defensores dos direitos humanos e das liberdades civis, combinando esta vertente com o apoio a uma economia em que o Estado desempenha essencialmente um papel de regulador e de garantidor, para que todos tenham acesso, independentemente da sua capacidade económica, aos serviços públicos que asseguram os direitos sociais fundamentais.
Tudo isto, está de acordo com os meus anseios!...
Será que a definição do Liberalismo Social, é cumprida?
Hoje em dia os conceitos estão muito adulterados, mas regimes ditatoriais de esquerda ou direita nem pensar! Há o «centrão», com um partido social-democrata e um partido socialista que me parecem descaracterizados, mas são os únicos com possibilidades de governar e depois há realmente a esquerda e a direita, que chegando ao poder por muito que gritem, acomodam-se e fazem simbiose com o «status-quo», apesar de tudo a esquerda, tem como objectivo denunciar os problemas sociais, enquanto a direita a sua vocação é o populismo.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

RIMBAUD - (DECADENTISTA/SIMBOLISTA)

~ MA BOHÈME (Fantasie) ~
E lá me ia, as mãos nos bolsos furados,
E meu casaco era também o ideal.
Eu ia sob o céu, Musa! e te era leal;
Oh! lá! lá! que esplêndidos amores sonhados!

Minha única calça estava em frangalhos
— Pequeno Polegar sonhador, em minha fuga eu ia
Desfiando rimas e sob a Ursa Maior adormecia,
Ouvindo no céu o doce rumor das estrelas.

Sentado à beira das estradas eu as ouvia,
Belas noites de Setembro em que eu sentia
O orvalho em meu rosto como um vinho forte;

Quando compondo em meio a sombras fantásticas,
Como uma lira eu puxava os elásticos
De meus sapatos gastos, um pé junto ao meu peito!
~
“Sensation”.
Pas les beaux soirs d’été, j’irai dans les sentiers
Picoté par les blés, fouler l’herbe menue:
Rêveur, j’en sentirai la fraîcheur à mes pieds:
Je laisserai le vent baigner ma tête nue.

Je ne parlerai pas, je ne penserai rien…
Mais un amour immense entrera dans mon âme,
Et, j’irai loin, bien loin; comme un bohémien
Par la Nature, — heureux comme avec une femme!
(1870)

Nas belas tardes de verão, pelas estradas irei,
Roçando os trigais, pisando a relva miúda:
Sonhador, a meus pés seu frescor sentirei:
E o vento banhando-me a cabeça desnuda.
Nada falarei, não pensarei em nada:
Mas um amor imenso me irá envolver,
E irei longe, bem longe, a alma despreocupada,
Pela Natureza — feliz como com uma mulher.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

VERLAINE (DECADENTISTA/SIMBOLISTA)

LASSIDÃO

Ah, por favor, doçura, doçura, doçura!
Acalma esses arroubos febris, minha bela.
Mesmo em grandes folguedos, a amante só deve
Mostrar o abandono calmo da irmã pura.

Sê lânguida, adormece-me com os teus afagos,
Iguais aos teus suspiros e ao olhar que embala.
O abraço do ciúme, o espasmo impaciente
Não valem um só beijo, mesmo quando mente!

Mas dizes-me, criança, em teu coração de ouro
A paixão mais selvagem toca o seu clarim!...
Deixa-a trombetear à vontade, a impostora!

Chega essa testa à minha, a mão também, assim,
E faz-me juramentos pra amanhã quebrares,
Chorando até ser dia, impetuosa amada!

Paul Verlaine, in "Melancolia" Tradução de Fernando Pinto do Amaral

CHANSON D'AUTOMNE

Les sanglots longs
Des violons
De l'automne
Blessent mon coeur
D'une langueur
Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l'heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure.
Et je m'en vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.

CANÇÃO DO OUTONO

Tradução: Alphonsus de Guimaraens
Os soluços graves
Dos violinos suaves
Do outono
Ferem a minh'alma
Num langor de calma
E sono.

Sufocado, em ânsia,
Ai! quando à distância
Soa a hora,
Meu peito magoado
Relembra o passado
E chora.
Daqui, dali, pelo
Vento em atropelo
Seguido,
Vou de porta em porta,
Como a folha morta
Batido...

VERSOS PARA SER CALUNIADO A Charles Vignier

Debrucei me esta noite sobre o teu sono.
Dormia o corpo casto sobre o lençol
E vi, como alguém que lesse, estudioso,
Ah! vi que tudo é vão sob a luz do sol!

Estarmos vivos, ó que rara maravilha,
Como o nosso organismo é flor que se dobra!
Ó pensamento que levas ao delírio!Dorme, vá!
Quanto a mim, este assombro acorda me,

Ah, desgraça de te amar, frágil amante;
Respiras como se respira um instante!
Ó olhar fechado que à morte é igual!

Ó boca a rir em sonhos na minha boca,
À espera de outra gargalhada mais louca!
Depressa, acorda. Ouve, a alma é imortal!

(Dantes e Outrora)(tradução de Fernando Pinto do Amaral)

sábado, 13 de fevereiro de 2010

OFÍCIO DE VIVER - CESARE PAVESE (1908-1950)


Não há dúvida de que é inútil e prejudicial lamentarmos-nos perante o mundo. Resta saber se não é igualmente inútil e prejudicial lamentarmos-nos perante nós próprios. Evidentemente. De facto, ninguém se lamentará perante si próprio, a fim de se incitar à piedade, o que nada significaria, dado que a piedade é, por definição, o voluptuoso encontro de dois espíritos. Para quê, então? Não para obter favores, porque o único favor que um espírito pode fazer a si próprio é conceder-se indulgência, e toda a gente percebe quanto é prejudicial que a vontade seja indulgente para com a sua própria e lamentável fraqueza. Resta a hipótese de o fazermos para extrair verdades do nosso coração amolecido pela ternura. Mas a experiência ensina que as verdades surgem apenas em virtude de uma pacata e severa busca, que surpreende a consciência numa atitude inesperada e a vê, como de um filme que parasse de repente, estupefacta, mas não emocionada. Basta, portanto.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

AMOR (LIVRO DO DESASSOSSEGO-BERNARDO SOARES)


Estou-te esperando, em devaneio, no nosso quarto com duas portas, e sonho-te vindo e no meu sonho entras até mim pela porta da direita; se, quando entras, entras pela porta da esquerda, há já uma diferença entre ti e o meu sonho. Toda a tragédia humana está neste pequeno exemplo de como aqueles com quem pensamos nunca são aqueles em quem pensamos.
O amor perde identidade na diferença, o que é impossível já na lógica, quanto mais no mundo. O amor quer possuir, quer tornar seu o que tem de ficar fora para ele saber que só torna seu se não é. Amar é entregar-se. Quanto maior a entrega, maior o amor. Mas a entrega total entrega também a consciência do outro. O amor maior é por isso a morte, ou o esquecimento, ou a renúncia — os amores todos que são os absurdiandos do amor.
No terraço antigo do palácio, alçado sobre o mar, meditaremos em silêncio a diferença entre nós. Eu era príncipe e tu princesa, no terraço à beira do mar. O nosso amor nascera do nosso encontro, como a beleza se criou do encontro da Lua com as águas.
O amor quer a posse, mas não sabe o que é a posse. Se eu não sou meu, como serei teu, ou tu minha? Se não possuo o meu próprio ser, como possuirei um ser alheio? Se sou já diferente daquele de quem sou idêntico, como serei idêntico daquele de quem sou diferente.
O amor é um misticismo que quer praticar-se, uma impossibilidade que só é sonhada como devendo ser realizada.
Metafísico. Mas toda a vida é uma metafísica às escuras, com um rumor de deuses e o desconhecimento da rota como única via.




(excerto do LIVRO DO DESASSOSSEGO - BERNARDO SOARES)