O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

domingo, 18 de julho de 2010

INDIFERENÇA


Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.

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A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;
O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é;
A glória concede e nega; não tem verdades a fé.

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Por isso na orla morena da praia calada e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E comecei a morrer muito antes de ter vivido.

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Dêem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,
Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;
Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei,
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.

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Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu.

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10-8-1929
Poesias. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995).

sábado, 17 de julho de 2010

FILOSOFIAS DE VIDA

A cada etapa da vida do homem corresponde uma certa Filosofia. A criança apresenta-se como um realista, já que está tão convicta da existência de pêras e das maçãs como da sua. O adolescente, perturbado por paixões interiores, tem que dar maior atenção a si mesmo, tem que se experimentar antes de experimentar as coisas, e transforma-se portanto num idealista. O homem adulto, pelo contrário, tem todos os motivos para ser um céptico, já que é sempre útil pôr em dúvida os meios que se escolhem para atingir os objectivos. Dito de outro modo, o adulto tem toda a vantagem em manter a flexibilidade do entendimento, antes da acção e no decurso da acção, para não ter que se arrepender posteriormente dos erros de escolha. Quanto ao ancião, converter-se-á necessariamente ao misticismo, porque olha à sua volta e as coisas lhe parecem depender apenas do acaso: o irracional triunfa, o racional fracassa, a felicidade e a infelicidade andam a par sem se perceber porquê. É assim e assim foi sempre, dirá ele, e esta última etapa da vida encontra a acalmia na contemplação do que existe, do que existiu e do que virá a existir.

Johann Wolfgang von Goethe, in "Máximas e Reflexões"

CONCERTO AO AR LIVRE, NUMA NOITE MUITO FRIA DE VERÃO...

COMPASSOS DE DANÇA
CASA DO MÉDICO
REGIÃO NORTE
ORQUESTRA DO NORTE - DIRECTOR JOSÉ FERREIRA LOBO

PROGRAMA
TCHAIKOVSKY - Valsa das Flores - de, O Quebra-Nozes
SIBELIUS - Valsa Triste
DVORÁK - Dança Eslava nº3
BRAHMS - Dança Híngara
STRAUSS - Polka Trtsch-Tratsch
MASCAGNI - Interlúdio da Cavalleria Rusticana



BIZET - Suite Carmen: Aragonesa e Dança Boémia
SAINT-SAËNS - Baccanale de Sansão e Dalila
FREITAS BRANCO - Suíte nº.1, Fandango

quinta-feira, 15 de julho de 2010

RODRIGO LEÃO





BOSCH E BRUEGHEL – A DIFERENÇA NA PINTURA FLAMENGA

Hieronymus Bosch (c.1450-1516)

Foi um pintor contemporâneo do flamengo, mas o seu estilo era completamente diferente. Os críticos de arte consideram que as suas influências vieram de pintores alemães como Martin Schongauer, Matthias Grünewald e Albrecht Dürer. É considerado o primeiro artista fantástico.
Também se especula que a sua obra terá sido uma das fontes do movimento surrealista do século XX, que teve mestres como Max Ernst e Salvador Dalí.
Realmente o pintor que mais o influenciou foi Pieter Brueghel o Velho, que produziu vários quadros em um estilo semelhante.
O seu nome verdadeiro era, Jeroen van Aeken, flamengo que além de pintor, também foi gravador. Por falta de documentação pouco se sabe da sua vida, mas com certeza pela temática da sua obra, poderia eventualmente ter feito parte de uma seita de ciências ocultas e ter adquirido conhecimentos sobre alquimia. Por essa razão teria sido perseguido pela Inquisição.
A sua obra é o seu maior testemunho de si e da sociedade em que viveu, pintou cenas de pecado e tentação, recorrendo à utilização de figuras simbólicas, complexas, originais, imaginativas e até caricaturais. Viveu numa época de peste e também de rumores do Apocalipse, que surgiram perto do ano 1500.
As obras de Bosch demonstram que foi um observador minucioso bem como um refinado desenhador e pintor. Utilizou estes dotes para criar uma série de composições fantásticas e diabólicas onde são apresentados, com um tom satírico e moralizante, os vícios, os pecados e os temores de ordem religiosa que afligiam o homem medieval.
O seu sucesso na época, é explicado por uma encomenda de um altar que lhe fez Filipe, o Belo da Borgonha. Se a obra foi executada está perdida, mas foi essa encomenda que motivou encomendas posteriores. Em Espanha, no Museu do Prado, é onde se encontra as suas melhores obras e a explicação é dada pelas aquisições de Filipe II de Espanha, apreciador da sua pintura. Actualmente apenas se conservam cerca de 40 originais seus, dispersos na sua maioria por museus da Europa e Estados Unidos da América..
O original tríptico As Tentações de Santo Antão esta incorporado no Museu Nacional de Arte Antiga. Desconhecem-se as circunstâncias da chegada da obra a Portugal, não sendo certo que tenha feito parte da colecção do humanista Damião de Góis, como algumas vezes é referido.


PINTURA DE BOSCH



Pieter Bruegel o Velho (c.1525/1530-1569)

Foi um pintor de multidões e de cenas populares, com tal vitalidade que transborda do quadro. Além da sua predilecção por paisagens, pintou quadros que realçavam o absurdo da vulgaridade, expondo as fraquezas e loucuras humanas, que lhe trouxeram muita fama. A mais óbvia influência sobre sua arte é de Hieronymus Bosch, em particular no início dos estudos de imagens demoníacas, como o "Triunfo da Morte" e "Dulle Griet". Foi na natureza, no entanto, que ele encontrou a sua maior inspiração, sendo identificado como um mestre de paisagens. Ele é muitas vezes referenciado como sendo o primeiro pintor ocidental a pintar paisagens pela paisagem, e não como um pano de fundo da pintura.
Retratava a vida e costumes dos camponeses, a sua terra, uma vivida descrição dos rituais da aldeia, da vida, incluindo agricultura, caça, refeições, festas, danças e jogos. As suas paisagens de Inverno (1565), são tomados como provas corroborativas da gravidade dos Invernos durante a Pequena Era Glacial.
Utilizando abundantemente o espírito cómico e satírico, criou algumas das primeiras imagens de protesto social na história da arte. Exemplos incluem pinturas como "A luta entre Carnaval e Quaresma" (uma sátira aos conflitos da Reforma).


Pieter Brueghel, foi o primeiro de uma família de pintores flamengos, considerado como um dos melhores pintores da Flandres do século XVI. Foi aprendiz de Coecke Van Aelst, escultor, arquitecto e desenhador de tapeçarias e vitrais. Com 26 anos foi admitido como mestre na guilda de São Lucas. Viajou para Itália, para aprender a forma de pintar dos renascentistas, onde pintou várias obras. Depois estabeleceu-se em Antuérpia e passados 10 anos radicou-se em Bruxelas.



[C&H
CONSULTA:
ENCICLOPÉDIA ALFA
GUIA DA HISTÓRIA DA ARTE, SPROCCATI, Sandro, Editorial Presença, Lisboa, 1999
Vários Sites]

segunda-feira, 12 de julho de 2010

SIRBA OCTET & ISABELLE GEORGES : "BEI MIR BIST DU SCHEYN" naiveclassique

INGMAR BERGMAN (1918-2007)

INGMAR BERGMAN, para mim e toda uma geração cinéfila foi um realizador de culto, todos os seus filmes eram esperados com grande expectativa. Dos variadíssimos aspectos técnicos, ao trabalho com os actores e aos temas filosófico/reflexivos que abordava, todo o seu trabalho era de grande qualidade e conteúdo. À saída das salas de cinema, sentia-se um especial peso na cabeça, uma vontade de sentir o vento na cara, mas também a certeza de um enriquecimento. Depois entre amigos dissecava-se o conteúdo dos seus filmes, que eram sempre uma motivação reflexiva e um desafio à inteligência.

Filmes, lidando com temas como a mortalidade, a solidão e a fé. As suas influências provêm do teatro: Henrik Ibsen e August Strindberg.
Sempre vi o cinema como arte e não como entretimento com o saco das pipocas na mão. Relativamente a Bergman, porque a sua linha se manteve muito personalizada, é difícil dizer os filmes que mais gostei, porque realmente gostei de todos, embora não tendo como objectivo o aspecto comercial, há filmes que se tornaram mais conhecidos do grande público.Woody Allen descreveu Ingmar Bergman como "provavelmente o maior artista do cinema, levando tudo em conta, desde a invenção da câmara de filmar". Woody Allen, fez mesmo um filme muito bergmaniano,
Intimidades.
Tarkovsky, Woody Allen e Robert Altman, reconheciam a sua influência. Bergman não gostava de Orson Welles e Godard, mas tinha admiração por Spielberg, Scorsese, Coppola e Soderbergh.
Comentário de Jean-Luc Godard, sobre Bergman no Cahiers du Cinéma:
"O cinema não é um ofício. É uma arte. Cinema não é um trabalho de equipe. O director está só diante de uma página em branco. Para Bergman estar só é questionar-se; filmar é encontrar as respostas. Nada poderia ser mais classicamente romântico".















Ernst Ingmar Bergman nasceu a 14 de Julho de 1918. Foi duramente marcado por uma educação de cruel disciplina e severa educação religiosa (detalhado por si no livro Lanterna Mágica e no filme Fanny och Alexander. O seu refúgio era o seu mundo de fantasia. Com 19 anos afastou-se definitivamente dos pais.
Iniciou-se como encenador e dramaturgo e começou a trabalhar no cinema em 1942 como assistente de argumentista, assinando em 1944 o seu primeiro original, Hets para o maior cineasta daquele tempo, Alf Sjoeberg, e que receberia o Grande Prémio do Júri no Festival de Cannes. Em 1945 realizou o seu primeiro filme, Kris, e a partir daí manteve uma média de dois filmes por ano, conjugados com produções teatrais. O cineasta despertou atenção fora das suas fronteiras com, Sommarnattens leende em 1955, mas foi Det sjunde inseglet e Smultronstället, dois anos mais tarde, que lhe deram aclamação a nível mundial junto da crítica e do público. O primeiro, é uma alegoria sobre os anos da Peste no século XIV, recebeu o Grande Prémio do Júri em Cannes e inclui uma das cenas mais famosas da história do cinema, a de um cavaleiro medieval (interpretado por Max Von Sydow, numa das 13 vezes que trabalharam juntos) a jogar xadrez com a morte.


O segundo ganharia o Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim e o Prémio da Crítica em Veneza. Criou o que se chamou de um universo bergmaniano, trabalhando repetidamente com certos actores, como: Max von Sydow, Erland Josephson, Gunnar Björnstrand, Bibi Andersson, Liv Ullmann e Ingrid Thulin, entre outros.
Os seus filmes eram esperados religiosamente e imprescindíveis de serem vistos, assim filmou: «Ansiktet/O Rosto» (1958), «Nära livet/O Direito à Vida» (1958, Prémio de Realização em Cannes), «Jungfrukällan/A Fonte da Virgem» (1959, Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, menção especial em Cannes), «Djävulens öga/O Olho do Diabo« (1960), «Såsom i en spegel/Em Busca da Verdade» (1962, segundo Oscar), «Nattvardsgästerna/Luz de Inverno» (1962), «Tystnaden/O Silêncio» (1963), «Persona/A Máscara» (1966),


«A Hora do Lobo» (1968), «Skammen/A Vergonha» (1968) e «En Passion/A Paixão» (1969). Nos anos 70, o prestígio cresceu com «Viskningar och rop/Lágrimas e Suspiros» (1972, Grande Prémio em Cannes),


«Scener ur ett äktenskap/Cenas da Vida Conjugal» (1973), «Ansikte mot ansikte/Face a Face» (1976), «Das Schlangenei/O Ovo da Serpente» (1978) e «Höstsonaten/Sonata de Outono» (1978, nomeação pelo argumento).

Em 1976 tem lugar um dos episódios mais penosos da sua vida, é detido para investigação por invasão fiscal. Bergman, que deixara a gestão de todas as finanças nas mãos de um advogado, foi interrogado durante horas. Após ser dispensado, foi proibido de deixar o país. O caso deu origem a um enorme escândalo na imprensa e o cineasta teve um esgotamento nervoso. Mais tarde, viria a ser absolvido de todas as acusações, mas a experiência -lo exilar-se na Alemanha. Regressou a Estocolmo para filmar, Fanny e Alexandre e afirmou ser a sua última película. Este filme obteve quatro Oscars, incluindo o seu terceiro na categoria de Melhor Filme Estrangeiro.


Dedicou-se depois principalmente ao teatro e televisão, e escreveu argumentos que outros adaptaram ao cinema, ainda que o cineasta admitisse que sentia sempre a necessidade de realizar, mesmo não tendo planos para um novo filme. Mas o seu último filme surgiu em 2002, Saraband, nesse filme recuperava as duas personagens principais de Cenas de Vida Conjugal.


Ingmar Bergman teve 5 casamentos tumultuosos e 9 filhos. Nos seus últimos anos de vida refugiou-se na ilha de Faaro.

O responsável por uma das grandes filmografias da história do cinema evitava ver os seus próprios filmes, porque isso o fazia sentir-se "deprimido e miserável".

[C&H]