O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

SONHOS (REFLEXÕES)


Sonhos Prometedores

Tenho mais pena dos que sonham o provável, o legítimo e o próximo, do que dos que devaneiam sobre o longínquo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possível tem a possibilidade real da verdadeira desilusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer falado à costureira que, cerca das nove horas, volta sempre a esquina da direita. O sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva dele, mas o sonho que nos promete o possível intromete-se com a própria vida e delega nela a sua solução. Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingências do que acontece.
Fernando Pessoa/ Bernardo Soares, in 'O Livro do Desassossego'

Sonhos sem Ilusões

Saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos. Atingirás assim o ponto supremo da abstenção sonhadora, onde os sentimentos se mesclam, os sentimentos se extravasam, as ideias se interpenetram. Assim como as cores e os sons sabem uns a outros, os ódios sabem a amores, e as coisas concretas a abstractas, e as abstractas a concretas. Quebram-se os laços que, ao mesmo tempo que ligavam tudo, separavam tudo, isolando cada elemento. Tudo se funde e confunde.
Fernando Pessoa/ Bernardo Soares, in 'O Livro do Desassossego'



RACHMANINOV - CONCERTO DE PIANO Nº.2 - I. Moderato (part1)



CONTINUAÇÃO:

http://www.youtube.com/watch?v=42aMCKX0k9Y&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=jWRb90BRB5w&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=EWF10gP9LQQ&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=r_6niD3DvW0&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=3rIflzamYLo&feature=related

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Alexander von Zemlinsky - Die Seejungfrau

CASA DA MÚSICA
ORQUESTRA SINFÓNICA DO PORTO
DIRECÇÃO PETER RUNDEL


Integralmente pela primeira vez no país, A PEQUENA SEREIA (DIE SEEJUNGFRAU), (segundo conto de H.C. Andersen) do compositor ALEXANDER VON ZEMLINSKY
Sonoridades aquáticas, deslizantes e misteriosas, dão início a uma das mais comoventes partituras de Zemlinski que retrata a história da pequena sereia que sacrificou a sua própria vida em nome do amor, transformando-se em espuma do mar. Poema sinfónico complementado com sugestões visuais.



CONTINUAÇÃO:
http://www.youtube.com/watch?v=O0snAu0HWLo&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=-K-34IvkpoI&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=jZze_2uawNk&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=jZze_2uawNk&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=tpjNMn7cTgc&feature=related






Alexander von Zemlinsky (Viena, 1871 — Larchmont, 1942) foi compositor, maestro e professor.
O trabalho mais conhecido de Zemlinsky é a Sinfonia Lírica (1923), uma peça em sete movimentos para orquestra, soprano e barítono. Outros trabalhos orquestrais incluem o poema sinfônico, Die Seejungfrau, que estreou em 1905.
Biografia:
AQUI

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

DIA 152 - POEMA DE JOAQUIM PESSOA


Dia 152
Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho
e a oportunidadede vivermos felizes e em paz.
Obrigado pelo exemplo que se esforçam em nos dar
de como é possível viver sem vergonha,
sem respeito e semdignidade.
Obrigado por nos roubarem.
Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar
as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono.
E a tranquilidade.
E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade.
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.
Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,
o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são.
Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente
quem temos de rejeitar.
Joaquim Pessoa (Do livro a publicar, ANO COMUM)

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

GUILHERMINA SUGGIA (Porto,1885 — Porto,1950)

Em 1923 o pintor galês Augustus John, pintou Guilhermina Suggia, tocando o seu instrumento de eleição, num fantástico vestido vermelho.

Guilhermina Suggia era uma mulher muito culta, uma mulher de muitas experiências, uma conquistadora nata, tinha uma lógica própria e relacionava-se com o mundo a partir dessa lógica. Falar do seu temperamento implica falar de música, porque a vida de Suggia é acompanhada sempre de música e do violoncelo. Apesar do seu talento para o violoncelo, estudava muitíssimo, motivada por um ideal de perfeição estilística e musical.

Para Suggia, o violoncelo era o mais extraordinário de todos os instrumentos, considerando-o o único que tem a possibilidade de suster um baixo por um longo período e a possibilidade de cantar uma melodia praticamente em qualquer registo. Porém, para que se revele a substância musical do violoncelo, é preciso que a técnica não seja estudada apenas como destreza, mas que tenda sempre para a música. "A técnica é necessária como veículo de expressão e quanto mais perfeita a técnica, mais livre fica a mente para interpretar as ideias que animaram o compositor".


Guilhermina Suggia, "The Violoncello" in Music and Letters, nº 2, vol. I, Londres, Abril de 1920, 106].

Guilhermina revolucionou o instrumento em técnica, posição e sonoridade. Abriu as portas profissionais do violoncelo às mulheres, até então quase fechadas. De facto, o considerável gasto de energia exigido para manejar a envergadura do violoncelo, acrescido do facto de as boas maneiras da época obrigarem a colocar o instrumento de um ou outro lado do corpo obrigando a uma significativa contorção do dorso, tornavam o instrumento ainda mais inacessível às executantes femininas. ( Note-se que ainda em 1930 o violoncelo era tido como um instrumento indecoroso para as mulheres, sendo então proibida a contratação de violoncelistas mulheres pela própria orquestra da BBC).
Suggia tocou todos os importantes concertos da época para violoncelo e orquestra – os concertos de Haydn, Elgar, Saint-Saëns, Schumann, Eugen d'Albert, Dvořák.


BIOGRAFIA AQUI

terça-feira, 7 de setembro de 2010

RUY DUARTE DE CARVALHO (1941-2010)


Ruy Duarte de Carvalho (Santarém, Portugal, 1941 – Swakopmund, Namíbia, 12 de Agosto de 2010), foi um escritor, cineasta, escultor e antropólogo angolano.
O poeta que presentemente estou a ler.
BIOGRAFIA: AQUI
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Chagas de salitre
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Olha-me este país a esboroar-se
em chagas de salitre
e os muros, negros, dos fortes
roídos pelo vegetar
da urina e do suor
a carne virgem mandada
cavar glórias e grandeza
do outro lado do mar.

Olha-me a história de um país perdido:
marés vazantes de gente amordaçada,
a ingénua tolerância aproveitada
em carne. Pergunta ao mar,
que é manso e afaga ainda
a mesma velha costa erosionada.

Olha-me as brutas construções quadradas:
embarcadouros, depósitos de gente.
Olha-me os rios renovados de cadáveres,
os rios turvos de espesso deslizar
dos braços e das mãos do meu país.

Olha-me as igrejas restauradas
sobre ruínas de propalada fé:
paredes brancas de um urgente brio
escondendo ferros de educar gentio.

Olha-me a noite herdada, nestes olhos
de um povo condenado a amassar-te o pão.
Olha-me amor, atenta podes ver
uma história de pedra a construir-se
sobre uma história morta a esboroar-se
em chagas de salitre.

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A gravação do rosto
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Na superfície branca do deserto
na atmosfera ocre das distâncias
no verde breve da chuva de Novembro
deixei gravado meu rosto
minha mão
minha vontade e meu esperma;
prendi aos montes os gestos da entrega
cumpri as trajectórias do encontro
gravei nas águas a fúria da conquista
da devolução do amor.

Os calcários e os granitos desta terra
foram por mim pesados.
Dei-lhes afagos
leves olhares
insónias longas
impacientes esperas.

O zinco dos telhados cobriu-me solidões
e esperanças que tu sabes.

Esperei por ti
Bordei-te flores nos canteiros do céu
abri-te valas, semeei-te milhos
pari colheitas de searas vãs
abri os dedos, semeei calhaus.

Espremi a terra e fiz-lhe água nascente
povoei prados de criaturas doces
ergui torres, girassóis gigantes
dei vida e morte, vi nascer, morrer.

Aqui reinei, julguei, plantei videiras
caminhos, grutas de vestígios
colhi olhares de animais bravios
deixei aos dedos aladas liberdades.

Empilhei madrugadas de atenção
disparei molas, carabinas frias
de traição ao vento.
Combati silêncios, instalei trincheiras
de perdão. Recebi recados de mongólias vastas
acendi fogueiras
para sufocar o medo.

Aqui sonhei Europas, verdes Ásias
cidades de cristais, Antárctidas caiadas
daqui refiz a lua de astronautas;
contei estrelas colhi algumas
para dormir com elas.

Aqui ejaculei delírios verdes
que a madrugada insinua e vence.
Aqui colhi primícias de virgens escandinavas
e coroei outeiros e o meu sexo
com as suas tranças de ouro.

Saltei de monte em monte
e naveguei o ventre do deserto
assinalei o umbigo do mundo e plantei setas
apontando o sexo fundo da terra.
Beijei a carne universal e húmida de uma fêmea em cio,
menstruada.

Aqui me dei, aqui me fiz
desfiz, refiz amores.
Aqui me embebedei e vomitei o espanto.

Daqui abalo hoje, parido para o nada
apalpo a água
afago um bicho
ordeno qualquer coisa
e vou.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

FRAGMENTOS DE UM DISCURSO AMOROSO - (1977) de Roland Barthes



Este ensaio causou muita polémica e levanta várias questões sobre o amor, escrito numa época em que a sexualidade ou até mesmo a pornografia ditavam a lei, muito de acordo com o presente, apesar de terem passado 33 anos.
Barthes, foi ao século XIX, onde a paixão era algo importante na psicologia e referiu o Werther de Goethe. O romance que desencadeou uma famosa vaga de suicídios. Hoje este tipo de amor está fora de moda, nos meios intelectuais é pouco abordado, a não ser com algum gracejo e troça, depreciando o sujeito apaixonado, que é considerado um lunático e um louco. A nível mais popular, fala-se de amor à boca-cheia, aparece em todas as canções e novelas, há uma certa apetência para isso, mas no fundo é sempre assim algo exagerado e piegas.
O amor-paixão é considerado como uma doença, que há que curar, não é mais um enriquecimento, como acontecia no século XIX, em que se notava bem as poses de um apaixonado. Hoje já não são reconhecíveis, podemos encontrar-nos com alguns na rua, mas nada têm de característico. O objecto amado, é uma pessoa, que o apaixonado despersonaliza, uma imagem criada de uma forma muito pessoal, um objecto único. A atracção súbita, o «enlevo», é provocada por uma imagem, uma imagem viva, uma imagem em acção.
A paixão, para muitas pessoas actualmente, equivale ao «grande amor», que dura toda a vida. O apaixonado de Barthes concordaria com o «grande amor», mas para ele «toda a vida» não tem sentido, porque ele encontra-se num absoluto do tempo. Este apaixonado está sempre a caminho de um sofrimento ao qual nunca escapa. O sofrimento é uma espécie de valor, algo que é puro e isento de qualquer falta. O desgosto de amor está implícito. O bom senso diz que há um momento em que se tem que largar o «estar apaixonado» e «amar». Põe-se de parte os logros, ilusões, dominações, cenas, dificuldades…Para aceder a um sentimento mais pacificado, mais dialéctico, menos ciumento, menos possessivo. O sofrimento do apaixonado implicitamente está ligado ao «grande ciúme». Presentemente o ciúme pode existir, mas não é tão acentuado, podemos até ficar surpreendidos, com uma espécie de partilha entre vários ou de cada um tem a sua vida.
Barthes considera que é possível amar várias pessoas ao mesmo tempo, considera que é até algo «delicioso», estar mergulhado num clima de amores múltiplos, de flirt generalizado, mas essa situação não pode durar muito, em determinada altura há uma cristalização, quando o apaixonado mergulha na paixão. Acabam os devaneios, o apaixonado foi agarrado por uma força tirânica, só que ele também é uma força tirânica para o alvo da sua paixão. Não é agradável amar e ser amado desta forma. O apaixonado quer combater isto e não consegue, tem consciência que é uma humilhação e ao mesmo tempo pode sofrer por submeter a outra pessoa. Na realidade está demasiado «agarrado» pela sublimação.
Um apaixonado pode ser considerado um «pateta», porque vive numa des-realidade, a realidade para ele é uma ilusão. Tudo que diverte os outros, as suas conversas, as suas indignações, não lhe dizem nada. O seu real é a sua relação com o objecto amado e fica alienado de tudo o mais ou não lhe dá grande importância. Facilmente nesta inversão sente-se um inadaptado social, pode ter reacções estranhas e as outras pessoas consideram-no um idiota. «O amor é cego», de uma certa maneira sim, o apaixonado conjuga aspectos de neurose e de psicose: é um atormentado e um louco. Fica cego!
Roland Barthes numa entrevista, foi inquirido sobre a sua experiência. Para escrever este ensaio, baseou-se em casos da sua vida, em experiências de outras pessoas, em livros, mas depois confessou que teve também uma cristalização e que escreveu o livro para não se perder, não cair no desespero, porque a escrita tem o maravilhoso poder da pacificação. Desculpou-se de certo modo dizendo que não era uma unidade em si e a moral que quis passar era de afirmação: Não nos devemos deixar impressionar pelas depreciações de que o sentimento amoroso é objecto. É preciso afirmar. É preciso ousar. Ousar amar…
Barthes acabou por dizer que mesmo em épocas de paixão mais moderada, ninguém está imune de ser agarrado, mas o melhor é mesmo «amar».