O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

sábado, 25 de setembro de 2010

MY BLOG IS CARBON NEUTRAL


"O site alemão Mach's Grün (Make it green - Faça verde) criou um programa chamado "Meu blog é carbono neutro" e planta uma árvore na Califórnia para cada blog que divulgar o programa. Se quer ajudar o meio ambiente colabore. ".Para maiores informações, acesse o site:

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

CRISTOVAM PAVIA (1933-1968)



Nome: Francisco António Lahmeyer Flores Bugalho
Pseudónimo: Cristovam Pavia
Nascimento: 7-10-1933, Lisboa
Morte: 13-10-1968, Lisboa



Cristovam Pavia, foi reeditado, motivo que me levou aos meus livros, para reler a sua poesia.



«A poesia de Cristovam Pavia é a de revelação de si próprio, duma personalidade em conflito com o mundo em que vive e que procura uma fuga pela recuperação da infância morta, pela aceitação do seu conhecer-se diferente e despojado do que lhe é mais caro (a infância, o amor, o espaço e o tempo em que ambos se situavam), a transformação do seu próprio ser pelo sofrimento, num movimento de ascese e de autodestruição, quando o poeta atinge a consciência de si próprio e da sua voz».
José BentoCírculo de Poesia, Moraes Editores, Lisboa, 1982





POEMA VESPERAL
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Dizem que não tenho idade para estar cansado.
Digo que não tenho idade para estar cansado.
Mas eu estou irremediavelmente cansado…
Não sei se conheço ou não a vida
Toda gente diz que não, que é impossível…)
Contudo, estou cansado.
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Representei
E cansei-me; e desatei a gritar tudo…toda a verdade.
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Febrilmente gritei; rasguei máscaras, cuspi más caras…
Agora até disso estou cansado
E nem leio o meu Baudelaire…o Príncipe de todos.
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Experimentei «tomar alegria»,
Ouvir danças bárbaras,
Ver danças bárbaras,
Grandes contorsões modernas,
Sabiam falso…
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Mais tarde descobri morto aquele-menino-que-fui.
Chorei…tive saudades…ali, puro menino saudável…
_Cansei saudades e lágrimas também…

Estou muito cansado.
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Só interessa ir para a cama
E dormir…
.
Dormir bem…
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MELANCOLIA.
Quando eu estiver convalescente
Daquela doença tão sonhada,
E tão magoada e tão minha;
_virás na luz violeta da tarde…
E em silêncio,
Naquela hora indecisa,
Pousarás como uma brisa
Sobre meus olhos cerrados…

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

RACISMO NA ORDEM DO DIA!...

VOLTANDO AO PLANETA DAS PEÚGAS RÔTAS DE MIA COUTO

EXCERTO

Nos dias de hoje, estamos assistindo a um dramático exemplo da fabricação de fantasmas: diariamente no Iraque matam-se civis inocentes em nome de Deus, em nome da luta contra um demónio que são os outros. José Saramago disse: "Matar em nome de Deus faz desse Deus um assassino."Vivemos ainda sentimentos de profunda intolerância religiosa, étnica e racial. É muito mais fácil a explicação mentirosa de que os culpados são os outros, os da outra raça, os da outra religião, do que aceitar que precisamos de mudar tanto como os outros.Ao longo da História, as operações de agressão aos outros começam por curiosamente por despessoalizar esses mesmos outros. Por assim dizer esses - os inimigos - não são pessoas humanas como nós. A primeira operação na guerra dos EUA contra o Vietname não foi de ordem militar. Foi de ordem psicológica e consistiu em desumanizar os vietnamitas. Eles já não eram humanos: eram amarelos, eram seres de outra natureza sobre os quais não haveria problema de ética em lançar bombas e napalm.O genocídio no Ruanda foi aqui perto e não muito distante no tempo. Comunidades que conviviam em harmonia foram manipuladas por elites criminosas ao ponto de se ter cometido o maior massacre da história contemporânea. Se antes de 1994 perguntássemos a um tutsi ou a um hutu se acreditava que aquilo poderia acontecer no seu país eles declarariam que isso era inimaginável. Mas sucedeu. E sucedeu porque a capacidade de produzir demónios é ainda muito grande nos nossos países. Quanto mais pobre é um país maior é a capacidade de se destruir a si mesmo.A partir de Abril de 1994 e durante 100 dias consecutivos mais de 800.000 tutsis foram assassinados pelos seus compatriotas Hutus. Machados e catanas foram usados para chacinar 10.000 pessoas por dia, o que dá uma média de 10 pessoas por minuto. Nunca na História humana se matou tanto em tão pouco tempo. Toda esta violência foi possível porque se tinha trabalhado para provar, uma vez mais, que os outros, não eram pessoas humanas. O tempo escolhido pela propaganda Hutu para falar dos Tutsis era de cockroaches, baratas. A matança estava assim isenta de qualquer objecção moral, estava-se matando insectos e não pessoas humanas, compatriotas falando a mesma língua e vivendo a mesma cultura.No vizinho Zimbabwe, o discurso da unidade que marcou o início de uma sociedade multirracial foi, subitamente alterado para uma agressão marcadamente racista. O Vice-Presidente do Zimbabwe, Jospeh Msica, num comício na cidade de Bulawayo disse textualmente: "Os brancos não são seres humanos". Ele apenas estava repetindo o que Robert Mugabe já havia proclamado. E eu cito as palavras de Mugabe: "O que odiamos nos brancos não é a sua pele mas o demónio que emana deles". Os dirigentes da ZANU tinham-se distinguido, poucos anos antes, como defensores de uma nação multi-racial. O que tinha mudado? Mudou o jogo de forças. A ambição pelo poder provoca mudanças surpreendentes nas pessoas e nos partidos.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

EROTISMO, PORNOGRAFIA… CULTURA E ARTE!...

Sou confrontada constantemente com definições, de uma coisa ou outra, sobre determinados assuntos, onde é dominante a moral das religiões, sendo mais acutilante deste lado, a católica. Parece que nasci com o pecado colado a mim, eu que até considero nem ter pecados! Tratando-se de matéria sexual isso é por demais evidente. O sexo é algo cheio de tabus, quando afinal o sexo é tão natural, como comer ou beber. O erotismo, é considerada coisa perigosa, mas ainda assim tolerada, ela entra todos os dias pela nossa casa através do spot publicitário e a pornografia, é considerada licenciosa, perversa e promíscua, mas mantém um mercado comercial, economicamente muito rentável, pela grande procura.
Ah sociedade hipócrita e cheia de moralismos ressabiados!..


Esta pintura de Courbet, aparecia, como capa de uma revista de arte e foi aprendida, não há muito tempo, numa cidade de província, pela polícia, considerada como pornográfica, quando apenas representa o corpo de uma mulher nua e com um título muito adequado. E que dizer então do objecto artístico de actividade sexual explícita, que a que chamam pornografia? A sexualidade explícita e sugestiva é uma forma de arte tão antiga quanto todas outras, em suportes diversos: frescos, pinturas, gravuras, desenhos, esculturas, fotos, filmes…
O retrato da nudez e da sexualidade humana tiveram início na era paleolítica (ex. as figuras de Vénus). Existem inúmeras pinturas eróticas nas paredes de Pompeia, na Itália. Na Alemanha arqueólogos encontraram, em 2005, uma figura pornográfica de cerca de 7200 anos, de um homem sobre uma mulher, sugerindo um acto sexual.
Não vejo diferenças entre erotismo e pornografia, na arte. Eu aprecio da mesma maneira uma imagem onde é sugerido um acto sexual e aquela que efectivamente o mostra. Eu penso mesmo que a pornografia está nos olhos de quem vê, segundo a sua própria mentalidade.




Recentemente chegou-me às mãos o livro de Pietro Aretino (1492-1556), os Sonetos Luxuriosos, obra realmente audaz na linguagem que usa, alguns dos seus sonetos, podem ser lidos em:

No entanto Aretino, foi protegido e respeitado pelos nobres, que temiam a sua grande influência pessoal e a mordacidade dos seus escritos. Era admirado por personalidades, como o Papa Leão X, o que lhe garantia uma vida de rei, como ele mesmo gostava de dizer: "Figlio di cortigiana con anima di re"
Viveu num estado de liberdade jamais conferido a outro homem da sua época. De forma ousada e pouco convencional para os padrões literários desse período, atacou nobres e clérigos, de tal maneira, que ficou conhecido na história pela alcunha, "Flagelo dos Príncipes".
A ilação é sempre a mesma, a sociedade é de uma grande hipocrisia!
Aretino, levou-me a Agostino Carracci (ou Caracci) (Bolonha, 1557 — Parma, 1602), pintor e gravador italiano, da famosa família dos Carracci, que também fez gravuras pornográficas para o livro de Aretino, como se pode ver neste vídeo:
AQUI

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

MEDITAÇÃO SOBRE OS PODERES


Rubricavam os decretos,
as folhas tristes sobre a mesa
dos seus poderes efémeros.
Queriam ser reis, czares, tantas coisas,
e rodeavam-se de pequenos corvos,
palradores e reverentes,
dos que repetem:
és grande, ninguém te iguala, ninguém.
Repartiam entre si os tesouros e as dádivas,
murmurando forjadas confidências,
não amando ninguém, nada respeitando.
Encantavam-se com o eco liquefeito
das suas vozes comandando, decretando.
Banqueteavam-se com a pequenez de tudo
quanto julgavam ser grande,
com os quadros, com o fulgor novo-rico
das vénias e dos protocolos.
Vinha a morte e mostrava-lhes
como tudo é fugaz quando,
humanamente, se está de passagem,
corpo em trânsito para lado nenhum.
Acabaram sempre a chorar
sobre a miséria dos seus títulos
afundados na terra lamacenta.
José Jorge Letria, in "Quem com Ferro Ama"

domingo, 19 de setembro de 2010

MOZART...MOZART...MOZART...

UMA NOITE QUENTE DE VERÃO COM MOZART…
Concerto nº.21, Concerto nº. 24
Sinfonia n.º40
Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música e o pianista António Rosado

Teatro Constantino Nery - Matosinhos

1º ANDAMENTO (ANDANTE) DO CONCERTO PARA PIANO Nº. 21


sábado, 18 de setembro de 2010

EXCERTO DO PLANETA DAS PEÚGAS RÔTAS DE MIA COUTO



Em 1998, cerca de 100 pessoas morreram no Monte Tumbine, na Zambéziana, por causa de um abatimento de terras. As terras desabaram porque se retirou a cobertura florestal das encostas e as chuvas arrastaram os solos. Foram feitos relatórios com recomendações muito claras. Os relatórios desapareceram. A floresta voltou a ser cortada e as pessoas voltaram a povoar as regiões perigosas. O que resta de Tumbine são as vozes que têm uma outra explicação. Essas vozes insistem na seguinte versão: há um dragão que mora no Monte de Tumbine em Milange e que desperta de 5 em 5 anos para ir deitar os ovos no alto mar. Para não ser visto, o dragão cria o caos e a escuridão enquanto atravessa os céus desapercebido.Existe uma poderosa força poética nesta interpretação dos fenómenos geológicos. Mas a poesia e as cerimónias dos espíritos não bastam para assegurar que uma nova tragédia não se venha a repetir.A minha pergunta é: estamos nós aqui assim tão longe dessas crenças? O facto de vivermos em cidades, com arranha-céus, no meio de computadores e da internet de banda larga, será que tudo isso nos isenta de termos um pé na explicação mágica do mundo? Basta olhar para os nossos jornais para termos a resposta. Junto da tabela da taxa de câmbio encontra-se o anúncio do chamado médico tradicional, esse generoso personagem que se propõe resolver problemas básicos da nossa vida. Se percorrerem a lista dos serviços oferecidos por esses médicos tradicionais verificarão que figuram os seguintes produtos: (vou citar os feitos propagados, saltando os milagres conseguidos na saúde) faz subir na Vida; ajuda a promoção no emprego; faz passar no exame; ajuda a recuperar o esposo ou esposa. Parodiando a linguagem moderna dos relatórios, eu referi, um por um, os outputs do job description do nosso glorioso médico tradicional. Numa palavra, o atirador de sortes faz surgir por magia tudo aquilo que só pode resultar do esforço, do trabalho e do suor. De novo, interroguemos as palavras que nós próprios criamos e usamos. Na realidade, "médicos tradicionais" é um nome duplamente falso. Primeiro, eles não são médicos. A medicina é um domínio muito particular do conhecimento científico. Não há médicos tradicionais como não há engenheiros tradicionais nem pilotos de avião tradicionais. Não se trata aqui de negar as sabedorias locais, nem de desvalorizar a importância das lógicas rurais. Mas os anunciantes não são médicos e também não são tão "tradicionais" assim. As práticas de feitiçaria são profundamente modernas, estão nascendo e sendo refeitas na actualidade dos nossos centros urbanos.(Um bom exemplo dessa habilidade de incorporação do moderno é o de anúncio que eu recortei da nossa imprensa em que um destes curandeiros anunciava textualmente: curamos asma, diabetes e borbulhas; tratamos doenças sexuais e dores de cabeça; afastamos má sorte e... tiramos fotocópias.) Durante muito tempo, era interdito aos verdadeiros médicos fazerem publicidade nos órgãos de informação. E, no entanto, esses outros chamados de tradicionais tinham permissão de se anunciarem.Porquê esta complacência? Porque, no fundo, nós estamos disponíveis para acreditar. Nós pertencemos a esse universo, mesmo que, em simultâneo, já pertençamos a outros imaginários. Não são apenas os pobres, os menos educados que partilham esses dois mundos. São quadros de formação superior, são dirigentes políticos que procuram a bênção para serem promovidos e para terem sucesso nas suas carreiras.