O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

domingo, 17 de outubro de 2010

HERBERTO HELDER - POESIA E PROSA



Os Animais CarnívorosI
Dava pelo nome muito estrangeiro de Amor, era preciso chamá-losem voz - difundia uma colorida multiplicação de mãos, e apareciadepois todo nu escutando-se a si mesmo, e fazia de estátua durante umparque inteiro, de repente voltava-se e acontecera um crime, os jornaisdiziam, ele vinha em estado completo de fotografia embriagada,
descobria-se sangue, a vítima caminhava com uma pêra na mão, a boca estavaimpressa na doçura intransponível da pêra, e depois já se não sabia oque fazer, ele era muito belo, daquela espécie de beleza repentina eurgente, inspirava a mais terrível acção do louvor, mas vinha comer àsnossas mãos, e bastava que tivéssemos muito silêncio para isso, e entãoos dias cruzavam-se uns pelos outros e no meio habitava uma montanhaintensa, e mais tarde às noites trocavam-se e no meio o que existia agoraera uma plantação de espelhos, o Amor aparecia e desaparecia em todoseles, e tínhamos de ficar imóveis e sem compreender, porque ele erauma criança assassina e andava pela terra com as suas camisas brancasabertas, as suas camisas negras e vermelhas todas desabotoadas.


Herberto Helder
Poesia Toda
1979
Assírio & Alvim

sábado, 16 de outubro de 2010

POEMAS DE CESARINY



Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
Mário Cesariny
estação
Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça
Mário Cesariny

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

VIANA DA MOTTA (1868-1948)

José Vianna da Motta, nasceu em S. Tomé, filho de pais portugueses. Com dois anos veio para Portugal. Iniciou os seus estudos com sete anos, no Conservatório Nacional, tendo recebido também lições de piano de Joaquim de Azevedo Madeira.

Com treze anos deu o seu primeiro concerto público. O rei-titular de Portugal, D. Fernando II de Saxe-Coburg-Gotha e a condessa alemã, d’Edla, ficaram impressionados com o seu talento precoce e concederam-lhe uma bolsa de estudo para ir estudar para Berlim. José Viana da Mota partiu em 1882 e esteve integrado no meio cultural alemão durante 32 anos, tendo depressa marcado posição como pianista de vulto.

Em Berlim, frequentou o Conservatório Scharwenka, depois teve aulas com Karl Schäffer. Em 1885 recebeu aulas de Liszt em Weimar e dois anos mais tarde foi aluno de Hans von Bülow, que o influenciou no âmbito da filosofia, assim como no estudo aprofundado da obra de Beethoven.

Viana da Mota tornou-se um pianista virtuoso e fez digressões pela Europa, América do Norte e do Sul. Relacionou-se com figuras eminentes, como Ferruccio Busoni, que lhe dedicou uma cadenza de um concerto de Mozart e transcrições e prelúdios sobre corais de Bach (Viana da Mota fez a estreia da transcrição da Tocata, Adágio e Fuga em Dó maior de Bach) e Albéniz dedicou-lhe a sua obra para piano La Veja. Também foram seus amigos Eugen d’Albert, Peter Cornelius, Earl Klindworth, entre outros. As críticas internacionais consideravam o pianista possuidor de uma técnica de grande domínio e brilhantismo, uma sensibilidade invulgar aliada a uma grande inteligência autocrítica e uma profunda ciência musical.
Foi solicitado para colaborar em duos por célebres intérpretes, como Isaye, Sarasate, Casals, Nachez e pela cantora de Lied, Amalie Joachim.

Bastante cedo ganhou reputação como pedagogo, crítico e musicólogo. Escreveu artigos para revistas alemãs de música e foi um dos primeiros na Alemanha a fazer conferências sobre as tão discutidas obras de Wagner. Pelo seu grande conhecimento da obra de Beethoven, foi considerado uma autoridade na interpretação beethoveniana e foi convidado por Guido Adler a participar em Viena, na comemoração do centenário da morte de Beethoven, assim como na Alemanha.

Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914 teve que deixar Berlim e foi para Genebra assumindo o cargo de regência da classe superior de piano do Conservatório, devido à morte do seu titular, Bernhard Stavenhagen, um discípulo de Liszt.

Em 1917, Viana da Mota regressou definitivamente a Portugal tornando-se Maestro Director da Orquestra Sinfónica de Lisboa. Em 1919 aceitou desempenhar a importante tarefa de reformar o Conservatório Nacional, do qual foi director até 1938. Reformou os currículos, tomou uma postura de oposição à cultura da ópera italiana, que tinha sido dominante em Portugal, durante os séculos XVIII e XIX e introduziu o reportório instrumental. Em sequência desta orientação fundou a Sociedade de Concertos de Lisboa, para criar um novo gosto pela música em Portugal e onde ele próprio deu concertos, apresentando inúmeras obras importantes da literatura musical europeia. Este empenho, foi gradualmente restringido a sua carreira de pianista no estrangeiro, mas o seu trabalho de intérprete e de pedagogo, foi bastante importante para as gerações seguintes.

Através das suas composições, pode observar-se o fenómeno de fusão de mentalidades e de características culturais completamente opostas, embora na sua sensibilidade artística, nunca tenha deixado de ser português. Foi um estudioso profundo e meticuloso e no ambiente germânico encontrou um ambiente intelectual propício à sua criatividade. Integrou-se nas novas correntes filosóficas alemãs e foi adepto da «Nova Escola Alemã» e dos novos rumos musicais marcados por Liszt e Wagner. Identificou-se também com os temas literários do final do romantismo, interpretando-os dentro dos moldes alemães, mas incutindo-lhes algo de pessoal e por isso também português.


Nas suas composições de Lied, revelou-se um mestre em criar ambientes singulares, tanto na harmonia como no ritmo, tratando de forma exemplar a parte do cantor, tinha uma característica, era uma pessoa sóbria e a linguagem do piano é por consequência delicada.


Viana da Mota teve ainda o mérito, de ter sido o primeiro compositor português, que procurou conscientemente criar no país música culta de carácter nacional, a sua obra mais importante neste sentido é a sua sinfonia A Pátria (1895), que foi apresentada no Porto, cada um dos seus movimentos é um reflexo de poemas de Luís de Camões. Compôs ainda inúmeras peças para piano e música de câmara.

SINFONIA «A PÁTRIA» 1º.ANDAMENTO



Manteve praticamente a sua actividade até ao fim da vida, a sua morte ocorreu em 1948, tinha o compositor 80 anos.
OBRAS ESSENCIAIS DE VIANA DA MOTTA
MÚSICA ORQUESTRAL:
-Sinfonia A Pátria em Lá Maior, Inês de Castro (Abertura) e Marcha Portuguesa.MÚSICA CORAL SINFÓNICA:
-Invocação dos Lusíadas.MÚSICA CONCERTANTE:

-
Concerto em Lá Maior para piano e orquestra e Fantasia dramática para piano e orquestra.
MÚSICA DE CÂMARA:
-2 Quartetos de cordas, Cenas nas Montanhas, Variações para quarteto de cordas, Andante para quarteto de cordas, Trio para violino, violoncelo e piano, Sonata para violino e piano, Sonata para violino e piano a quatro mãos.MÚSICA DE PIANO:
-2 Barcarolas, Balada, Serenata, Capricio, Sonata em Ré Maior, Meditação, Valsa, 5 Rapsódias Portuguesas e Cenas Portuguesas.
MÚSICA CORAL:
-Várias obras sobre poemas de Cornelius (para vozes femininas com ou sem acompanhamento), Ave Maria (para coro feminino com acompanhamento de cordas).

[C&H]

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

JOSHUA BENOLIEL (1873-1932) - HÁ 100 ANOS ERA ASSIM!..

Joshua Benoliel, fotógrafo e jornalista português, considerado por muitos, o maior fotógrafo português do século XX.

Judeu, descendente de uma família hebraica que se instalara em Gibraltar. Considerado o criador em Portugal da reportagem fotográfica. Fez a cobertura jornalística dos grandes acontecimentos da sua época, acompanhando os reis D. Carlos e D. Manuel II nas suas viagens ao estrangeiro, assim como a Revolução de 1910, as revoltas monárquicas durante a Primeira República, assim como o exército português que combateu na Flandres durante a Primeira Guerra Mundial. As suas fotografias caracterizam-se pelo intimismo e humanismo com que abordava os temas.

Trabalhou para o jornal O Século e para a revista do mesmo jornal, a Ilustração Portugueza bem como para as revistas, Ocidente e Panorama,.

Publicou Arquivo Gráfico da Vida Portuguesa, obra em fascículos ilustrada com fotografias de 1903 a 1918.














quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Morreu a soprano australiana Joan Sutherland «LA STUPENDA»

Joan Sutherland, considerada uma das grandes vozes do bel canto do século XX, retirou-se dos palcos em 1990. Estreou-se em Itália com a ópera «Alcina» de Haëndel. Devido a ter uma grande amplitude vocal foi fundamental na redescoberta de óperas que tinham sido escritas para grandes divas.
Em 1991, a rainha Isabel II atribui-lhe a ordem de mérito «DAME».

BIOGRAFIA AQUI

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

ALFRED HITCHCOCK– O MESTRE DO SUSPENSE (1899-1980)

Hitchocock é considerado o grande mestre do suspense, motivando ao espectador uma ansiedade, que vai aumentando pouco a pouco, acentuada por música forte e efeitos de luz. Isto acontece porque nos seus filmes o realizador vai dando pistas ao espectador do que vai acontecer, enquanto a personagem nada sabe dos perigos que o esperam. O espectador é um voyeur interactivo, uma outra personagem.
Nos seus filmes, ele preferiu as louras, que se tornam heroínas amáveis, mas quando se apaixonam são perigosas Grace Kelly, é uma referência, porque trabalhou com o realizador em vários dos seus filmes, mas outras podem ser referidas: Eva Marie Saint, Tippi Hedren, Janet Leigh, Kim Novak…


Relativamente aos actores masculinos, sem dúvida que o seu preferido foi Cary Grant, mas também James Stewart, Rod Taylor e outros. A característica das suas personagens masculinas é a relação conflituosa com a mãe.
Hitchcock também usou nos seus filmes o conceito original, MacGuffin, que é a introdução de um objecto como pretexto para avançar na história sem qualquer importância para a mesma.
Temas recorrentes nos seus filmes são a confusão da identidade, o brandy e o número 7. Há também objectos nos seus filmes que são a chave do mistério.


Sir Alfred Joseph Hitchcock, KBE (Londres, 13 de Agosto de 1899 — Los Angeles, 29 de Abril de 1980). De família humilde, estudou numa escola, onde teve uma rígida educação católica. Com 14 anos, devido à morte do pai, começou a trabalhar. O seu percurso profissional foi sempre ascendente. De fabricante de cabos eléctricos, passou ao design gráfico e à publicidade. Em 1920 começou a trabalhar na Famous Players-Lasky, da Paramount Pictures, fez telas de texto para filmes mudos, roteiros, cenografia e foi assistente de direcção. Em 1922 fez o seu primeiro filme, chamado Number Thirteen, mas o projecto foi abandonado. Entre 1923 e 1925, Hitchcock trabalhou em Berlim, na UFA (Universum Film AG).
A sua criatividade surpreendeu os dirigentes do estúdio, que decidiram promovê-lo a director e, em 1925, fez o filme The Pleasure Garden, na Alemanha. Em 1926 estreou-se no suspense, género que o consagraria em todo o mundo, com o filme The Lodger: A Story of the London Fog. Este filme seria o seu primeiro sucesso, baseado nos assassinatos de Jack, o Estripador. A partir daí, Hitchcock fez pelo menos uma aparição em cada uma das suas produções, o que se tornaria uma das suas marcas.
Nesta altura o director casou com Alma Reville, uma assistente de direcção, que trabalhava com ele.
Em 1929, Hitchcock filmou Blackmail, o primeiro filme sonoro britânico. Em 1933, Hitchcock foi trabalhar na Gaumont-British Picture Corporation, e o seu primeiro filme foi The Man Who Knew Too Much, que teve nova versão em 1956 com outros actores.
O seu segundo filme foi
The 39 Steps, de 1935, considerado o melhor filme deste período e a seguir The Lady Vanishes.
Estes filmes chamaram a atenção de Hollywood e o produtor David O. Selznick chamou-o para trabalhar nos EUA, para onde se mudou em 1939, nacionalizando-se americano em 1955.
O seu primeiro filme americano foi
Rebecca, que rendeu ao cineasta a sua primeira indicação ao Óscar. Rebecca, passava-se em Inglaterra e foi baseado no romance de Daphne du Maurier, com actores como Laurence Olivier e Joan Fontaine. Rebecca ganhou o Oscar de melhor filme, mas Hitchcock perdeu o Óscar como melhor director.


O seu segundo filme foi Foreign Correspondent, filmado durante o primeiro ano da Segunda Guerra Mundial, e que também foi nomeado para o Óscar de melhor filme, mas não ganhou o prémio.
Na década de 1940, os filmes de Hitchcock tornaram-se mais diversificados, passando pelo género comédia,
Mr. & Mrs. Smith, filme noir, Shadow of a Doubt, ficção sobre leis,
The Paradine Case.
Saboteur,
foi o primeiro de dois filmes feitos pela Universal e A Sombra de Uma Dúvida foi o segundo, e era um dos filmes preferidos de Hitchcock.
Spellbound, com Ingrid Bergman e Gregory Peck, recebeu nomeação para o Óscar de melhor filme, melhor director e melhor actor secundário (Michael Chekhov), entre outros. O produtor David O. Selznick utilizou as suas experiências na psicanálise, e até levou aos estúdios uma terapeuta, para servir de consultora. Hitchcock fez algumas cenas, imaginadas pelo pintor surrealista Salvador Dalí para ilustrar certas cenas de confusão mental.


Notorious, onde participam Cary Grant e Ingrid Bergman, foi o primeiro filme que Hitchcock dirigiu e produziu. O filme recebeu a indicação para o Óscar de actor secundário, mas não venceu.
Rope,
foi baseado na peça teatral de Patrick Hamilton, foi o primeiro de uma série de filmes de sucesso com o actor James Stewart. Baseado na história do caso de Leopold e Loeb, é tido como tendo um conteúdo homossexual.
Em 1949, Hitchcock lançou o filme
Under Capricorn, com Ingrid Bergman. O filme fracassou, em parte pela publicidade negativa sobre o relacionamento extraconjugal, que Ingrid Bergman tinha com o director italiano Roberto Rossellini.
O filme Strangers on a Train,
foi baseado no romance de Patricia Highsmith. No começo dos anos 1950, a MCA e o agente Lew Wasserman, que tinha como clientes James Stewart e Janet Leigh, tiveram grande importância nos filmes de Hitchcock. Com a ajuda de Wasseraman, Hitchcock teve grande liberdade criativa para trabalhar.
Em 1954, o filme Dial M for Murder teve Ray Milland e Grace Kelly nos papéis principais. Foi o primeiro filme em que Hitchcock trabalhou com Grace Kelly, baseado na peça escrita por Frederick Knotte, pela primeira vez, o director usou a técnica 3D.
No mesmo ano, Hitchcock lançou o filme Rear Window, com James Stewart e Grace Kelly nos papéis principais. O filme é considerado um dos maiores sucessos do director.


No ano seguinte foi a vez de To Catch a Thief com Gary Grant e Grace Kelly, seguindo-se nova versão do filme, The Man Who Knew Too Much, agora com James Stewart e Doris Day nos papéis principais. O director considerou a versão superior ao original feito por em 1934.
Em 1957, o director lançou o filme
The Wrong Man, com Henry Fonda e Vera Miles, com roteiro baseado no livro The True Story of Christopher Emmanuel Balestrero, de Maxwell Anderson, um caso real de confusão de identidade.
Vertigo, com James Stewart e Kim Novak, é visto como uma das obras-primas do director, embora na época tenha sido um fracasso comercial. O filme foi eleito entre os cem melhores filmes de todos os tempos pelo Instituto de Cinema Americano, em 1998.


North by Northwest foi protagonizado por Cary Grant, Eva Marie Saint e Martin Landau, entre outros. Conta a história de um homem inocente perseguido por agentes de uma misteriosa organização. É considerado como um grande trabalho de Hitchcock.
Psycho, que teve como protagonistas Janet Leigh, Anthony Perkins e Vera Miles, venceu o Globo de Ouro na categoria de melhor actriz (Janet Leigh). O filme trouxe uma das cenas mais conhecidas da história do cinema, a famosa cena do chuveiro, quando a personagem de Janet Leigh é assassinada à facada. Este filme ficou na décima oitava posição entre os 100 melhores filmes do Instituto de Cinema Americano.


The Birds, é baseado num conto de mesmo nome da escritora britânica Daphne Du Maurier e é protagonizado por Rod Taylor, Jessica Tandy e Tippi Hedren, uma actriz que foi descoberta por Hitchcock. O filme inovou na banda sonora e nos efeitos especiais, e foi nomeado para o Óscar. Tippi Hedren, mãe da futura actriz Melanie Griffith, ganhou o Globo de Ouro.


Marnie, de 1964, foi estrelado por Tippi Hedren e Sean Connery, e é um dos filmes clássicos de Hitchcock. Em 1966, lançou Torn Curtain, um thriller político com Paul Newman e Julie Andrews nos papéis principais.
Topaz, filmado entre 1968 e 1969, aborda a Guerra Fria, e conta a história de um espião, baseando-se no livro de mesmo nome escrito por Leon Uris. Em 1972, Hitchcok lançou Frenzy , um thriller que trouxe pela primeira vez cenas de nudez e palavras de baixo calão aos seus filmes.
O seu último filme foi
Family Plot, com Karen Black e Bruce Dern.
Em 1980, Alfred Hitchcock recebeu a KBE da Ordem do Império Britânico, das mãos da Rainha Elizabeth II, morreu quatro meses depois, de insuficiência renal, na sua casa em Los Angeles.

Este texto segue mais on menos o publicado AQUI , com alguma correção ortográfica e o acréscimo de trailers dos meus filmes preferidos, que visiono muitas vezes.

domingo, 10 de outubro de 2010

SERRALVES. MARLENE DUMAS/GRAZIA TODERI

MARLENE DUMAS: CONTRA O MURO

“As minhas raízes”
.
Cor não sei grande coisa sobre as cores,
a sério uso-as intuitivamente
.
e as tuas raízes
.
não sei grande coisa sobre o racismo,
a sério o meu conhecimento é epidérmico
.
que queres dizer com isso, disse ele
oh, disse ela, não sabias que todas as cicatrizes
têm uma cor rosa que se nota
.
Marlene Dumas Maio 2010 ..
in Marlene Dumas: Contra o Muro, Catálogo da exposição, Museu de Serralves, 2010, p. 59.

A primeira imagem que me evocava o nome de Marlene Dumas (1953, Cidade do Cabo) era uma série de rostos povoados por cores a gouache. Algo inquietante sobressaía desses retratos, cujas fisionomias eram acentuadas pelas cores utilizadas. A cor da pele deixava de ser natural mas na sua irrealidade de azul, laranja ou rosa fucsia tornava visível a identidade de cada um dos personagens de forma emocional.
Marlene Dumas colecciona imagens da realidade, reportagens fotográficas, recortes que transforma nas suas pinturas com a força de várias camadas de ficções e cultura, que absorve da pintura italiana de Caravaggio, do cinema de Bergman ou dos livros de Céline. Na série “Contra o Muro”, que é o núcleo principal desta exposição, faz referência ao “muro”, chamado de segurança, que divide Palestianos de Israelitas na Cisjordânia.

Os muros são a forma arquitectónica mais básica que o homem utiliza, desde a pré-história, para separar algo, da terra aos caminhos. Numa cidade, os muros que dividem uma zona de outra, separam olhares, e a propriedade que temos de nos ver uns aos outros como grupo de indivíduos. Colocar alguém contra o muro é a forma mais básica de submissão do outro. Um destes dias voltando a casa, vejo uma dezena de jovens adolescentes negros e de origem árabe, com as mãos no ar, voltados contra o muro de um edifício que fica ao lado de minha casa, em Paris. Os polícias mantêm-nos nesta posição, numa espécie de rusga. Com que impunidade colocamos, mesmo dentro duma velha democracia como a francesa, no centro da sua capital, jovens indivíduos contra o muro? Berlim teve um muro, a China uma muralha. Na ala direita do Museu de Serralves, ao lado do contra-ponto do macrocosmos expositivo de Grazia Toderi que ocupa o resto do Museu, encontramos de novo os rostos que tornaram conhecida a pintora. Mais além deste muro real, com pessoas a serem revistadas pelo exército, encontramos figuras que fazem eco aos símbolos da humanidade: uma criança que acena (“Child Waving”, 2010), um homem ajoelhado (“Living on your knees”, 2010), uma mãe que chora um filho no cemitério (“The Mother”, 2009). O nosso olhar retorna, após cada perspectiva individual, aos muros presentes no muro do Museu: homens contra o Muro altifalante desta série (“Wall Weeping”, 2009) ou grandes blocos de pedra (“Mindblocks”, 2009)

que nos trazem o presente da história, que se é intemporal na arte, é igualmente contemporânea nesta série de trabalhos que nos mostram um hoje e um agora no estado de guerra latente entre os homens.


A exposição comissariada por Ulrich Loock exibe as pinturas mostradas pela primeira vez em Março-Abril de 2010, em Nova Iorque, na Galeria de David Zwirner. Acrescentando outros trabalhos da artista, a exposição é apresentada num justo equilíbrio. As grandes paredes do Museu de Siza permitem um confronto com a arquitectura presente nas telas, que quase se prolonga na brancura dos muros do museu. São telas de grande formato acompanhadas de algumas naturezas-mortas, azeitonas da oliveira bíblica (“Olives”, 2009), pratos com um cacho de uvas já comido (“The Graphes of Wrath”),

autores desaparecidos (“The Death of the Author”, 2003), retrato baseado numa fotografia do autor de Voyage au bout de la nuit, Céline, no seu leito de morte; e mães desaparecidas, como a mãe da pintora (“Hiroshima, mon amour”, 2008).

Uma vitrine com recortes de jornais encerra a exposição que urge ver, sobretudo num momento em que o único museu de arte contemporânea português reconhecido na Europa se encontra posto contra o muro por razões económicas.
.
A condição humana
(ou uma saudação a quem me inspirou)
.
(...)
.
Uma saudação à cultura popular dos fornecedores de imagens,
correspondentes de guerra, gestores de media,
guerreiros de hotel e artistas de aeroporto.
.
À arte de retratar, mais ou menos utilizada
por políticos, mártires, assassinos,
militares... que sei eu.
.
(…) Aos cartazes que Ad van Denderen
fotografou na Cisjordânia.
Aos soldados israelitas que se recusam a lutar
nos territórios ocupados.
.
A Amos Oz que se pronunciou
sobre o facto de judeus e árabes
terem sido vítimas do mesmo opressor.
Isto torna o seu conflito mais difícil, não mais fácil.
Ambos foram humilhados,
discriminados e perseguidos
pela Civilização Europeia.
.
(...)
.
À diferença entre esquecer e perdoar.
Á distinção entre liberdade, sina e destino.
Ao nosso ponto de partida e ao nosso ponto de chegada.
Ao facto de a vida ser circular,
e de o que anda por aí permanecer por aí,
de, para o melhor e para o pior,
partilharmos todos a mesma condição.”
Marlene Dumas Amesterdão, Setembro de 2006 in Marlene Dumas: Contra o Muro, Catálogo da exposição, Museu de Serralves, 2010, p. 72.