O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

JORGE LUÍS BORGES - POESIA

SOU
Sou o que sabe não ser menos vão
Que o vão observador
que frente ao mudo
Vidro do espelho segue o mais agudo
Reflexo ou o corpo do irmão.
Sou, tácitos amigos, o que sabe
Que a única vingança ou o perdão
É o esquecimento.
Um deus quis dar então
Ao ódio humano essa curiosa chave.
Sou o que, apesar de tão ilustres modos
De errar, não decifrou o labirinto
Singular e plural, árduo e distinto,
Do tempo, que é de um só e é de todos.
Sou o que é ninguém, o que não foi a espada
Na guerra.
Um esquecimento, um eco, um nada.

Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"




O APAIXONADO

Luas, marfins, instrumentos e rosas,
Traços de Durer, lampiões austeros,
Nove algarismos e o cambiante zero,
Devo fingir que existem essas coisas.
Fingir que no passado aconteceram
Persépolis e Roma e que uma areia
Subtil mediu a sorte dessa ameia
Que os séculos de ferro desfizeram.
Devo fingir as armas e a pira
Da epopeia e os pesados mares
Que corroem da terra os vãos pilares.
Devo fingir que há outros.
É mentira. Só tu existes.
Minha desventura,
Minha ventura, inesgotável, pura.
.
Jorge Luis Borges, in "História da Noite"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

À VOLTA DO BARROCO - CASA DA MÚSICA

Na Casa da Música decorre o ciclo À VOLTA DO BARROCO, de 31 OUT a 14 NOV. Abriu com Concertos para Órgão de ANTONIO SOLER, por Filipe Veríssimo e Tiago Ferreira, seguiu-se o cravista Ton Koopman ( Buxtehude, Frescobaldi, Bach, Seixas, Scarlatti e outros).
Hoje a OSPCM, dirigida por Yves Abel, com a participação da cravista Maggie Cole, apresentou o seguinte programa:
Gabriel Fauré (Pavana), Francis Poulenc (Concerto Campestre) e Maurice Ravel (Pavana Para um Infanta Defunta, Suite de Ma Mére l’Oye e o Túmulo De Couperin)
Porque estão incluídos estes compositores do séc. XIX/XX, neste ciclo? Estes compositores viveram numa época de revivalismos. A França, depois de longos anos de uma vida musical de segundo plano, devido ao sinfonismo germânico, firmou o seu renascimento a um estilo enraizado nos compositores do Barroco. Esta procura de uma expressão própria, resultou numa linguagem realmente única, marcada por uma clareza de recorte, sensualidade rítmica e melódica, bem como uma riqueza de colorido.

Próximo concerto, a não perder com HESPÈRION XXI, com Jordi Savall, cujo programa será: ISTAMBUL 1710 - «O LIVRO DA CIÊNCIA DA MÚSICA» DE DIMITRIE CANTEMIR E AS TRADIÇÕES MUSICAIS SEFARDITAS E ARMÉNIAS.

VARÈSE E JOHN CAGE



quinta-feira, 4 de novembro de 2010

KATE MILLETT (1934-)

Sexual Politics, é uma das importantes obras sobre a libertação da mulher e um livro essencial da história política do século XX. O livro, sistematiza a subjugação e exploração das mulheres, identifica o patriarcado, as crenças condicionadas pela natureza, tendo como vectores, a literatura, a filosofia, a psicologia e a política. A sua obra incendiária, causou grande polémica social e lançou as bases, para posteriores estudos feministas. Com este livro, que foi tese de doutoramento, Millet deu voz à raiva de uma geração. Explorando a História fez História, focando a condição da mulher, dentro do postulado «de onde viemos e para onde devemos ir».Critica o sexismo dos romancistas modernos DH Lawrence , Henry Miller e Norman Mailer .

O livro tornou-se um best-seller, inovador e provocador, uma obra incendiária, mas também detentora de uma análise profunda e essencial, que foi mesmo considerada uma obra-prima, no aspecto documental e intelectual.

QUEM FOI KATE MILLET?

Katherine Murray Millett, escultora, feminista, escritora e activista, nasceu em 14 de Setembro de 1934, em St. Paul, Minnesota.
A sua infância e adolescência não foram fáceis, ela mesmo revelou, que viveu num ambiente católico muito conservador. A família tinha problemas financeiros, o pai espancava os filhos, Katie lembra-o como alucinado e assustador, a mãe apesar de ter um curso, teve dificuldades em ganhar a vida.
Kate Millett estudou na Universidade de Minnesota, onde era um membro da Kappa Alpha Theta e no Hilda's College St, Oxford, onde foi uma aluna brilhante em literatura inglesa, especializando-se nos vitorianos.Teve depois dificuldade em arranjar emprego e voltou a Nova Iorque onde trabalhou e estudou escultura.
Millett mudou para o Japão em 1961. Aí conseguiu expor alguns dos seus trabalhos e conheceu o escultor, Fumio Yoshimura. Dois anos depois, retornou aos Estados Unidos, com Yoshimura, com quem esteve casada de 1959 a 1985. Não tiveram filhos e isso quase motivou a expatriação do escultor. Millett deu aulas e simultaneamente inscreveu-se na Universidade de Columbia. Destacou-se como grande activista feminista, nos anos de 1960 e 1970. Em 1966, tornou-se um membro da comissão da Organização Nacional para Mulheres. Millett fez muitas conferências, embora fosse vista como neurótica.
Sexual Politics, foi a sua tese de dissertação, premiada pela Universidade de Columbia em 1970 e foi publicado em livro, tornando-se uma bomba.
Kate entregou-se completamente a esta causa, os seus discursos eram muito inflamados e acabou por ser impedida de dar aulas. O seu livro tornou-se bastante polémico e foi perseguida por entrevistadores e bombardeada com telefonemas. A sua vida familiar foi muito afectada. De qualquer forma Kate não desistiu, para ela a libertação da Mulher era a sua vida, mesmo sendo considerada por muitos como uma louca.

Em 1971, Millett começou a comprar e a restaurar áreas e edifícios próximos a Poughkeepsie, Nova York . O projecto tornou-se na colónia da Mulher Arte / Tree Farm, uma comunidade de artistas e escritores do sexo feminino, que é suportada pelas vendas dos residentes.
Millet, produziu o filme «Três Vidas» (1971), um documentário de 16 milímetros, feitos por uma equipe de mulheres, sob o nome de Mulheres de Libertação do Cinema. O seu livro Flying (1974) aborda o seu casamento com o Yoshimura e os seus casos amorosos com mulheres. Sita (1977) é uma meditação sobre o amor, com um administrador do colégio feminino, que era dez anos mais velho que ela.

Em 1979, Millett foi para o Irão trabalhar nos direitos das mulheres, foi logo deportada, mas escreveu sobre essa experiência. Em A-Loony Bin Trip (1990) descreve a sua experiência quando foi presa num estabelecimento psiquiátrico, diagnosticada como "bipolar", e da sua decisão de suspender a terapia do lítio. Foi a tribunal defender a sua sanidade mental.
Millett continuou a derrubar os mitos da psiquiatria. Como representante da MindFreedom Internacional, falou contra a tortura psiquiátrica nas Nações Unidas e negociou o texto da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (2006).

http://www.katemillett.com/
http://www.answers.com/topic/kate-millett

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

terça-feira, 2 de novembro de 2010

MISTÉRIOS DE LISBOA - RAOUL RUIZ



"Os Mistérios de Lisboa", baseia-se numa obra literária prolixa de Camilo Castelo Branco, com uma dimensão épica que revisita o século XIX. O filme oscila entre o romance histórico e as considerações filosóficas, que transmutam as fragilidades de folhetim em meditações profundas sobre a comédia humana. Neste contexto, duelos, recepções, bailes, assassinatos e emboscadas reúnem-se num imenso fresco histórico, unificando as narrativas em mosaico numa falsa epopeia que percorre os espaços (Portugal, França, Brasil) com a fluidez que só o grande cinema pode atingir.

Ao ver este filme pode-se pensar em Manuel de Oliveira, mas as formas de abordagem são muito diferentes, há ritmo, não há planos fixos, nem narrações fastidiosas. Tem também um naipe de actores que entraram bem nos seus papeis e preciosismo e riqueza na reconstituição de cenários e guarda-roupa. O que avulta nesta aventura romanesca é a demanda das formas, a procura de tempo perdido nas malhas de um presente complexo, sempre consciente das armadilhas que vai tecendo, jogando na multiplicidade e na irregularidade, Raoul Ruiz constrói a sua obra-prima, feita de fragmentos e de ruínas, fiel ao romantismo de Camilo.
Inconveniente a grande duração do filme, quatro horas e vinte, com um intervalo demasiado curto, que não deu para todos os espectadores tomarem café, eu não tomei. A primeira parte tem uma narração linear, a segunda é mais complexa, exige mais concentração e eu já me sentia cansada, gostava de voltar a ver a segunda parte, mas como será um dia apresentada numa série de seis episódias na RTP, será de rever com todo o prazer, para além tudo gosto bastante de filmes de época.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

JOLY BRAGA SANTOS (1924-1988)

José Manuel Joly Braga Santos, nasceu em Lisboa, a 14 de Maio de 1924. Desde criança revelou vocação para a música, gostava de ir à ópera e que lhe dessem instrumentos musicais para brincar, mostrando um especial interesse pelo violino. Aos seis anos, iniciou o estudo de violino e aos 10 anos de composição, com Luís de Freitas Branco, com quem estudou todas as matérias teóricas e em cuja doutrina estética se integrou, foi um convívio constante que só terminou com a morte do seu mestre em 1955.

Joly Braga Santos também passou pelo Conservatório de Lisboa, mas saiu incompatibilizado com o director da instituição, era um adolescente irreverente e bastante «aluado». O abandono do ensino oficial, criou uma grande relação com Freitas Branco, que foi de facto o seu «pai artístico» tendo a sua influência sido marcante nas suas primeiras composições, embora as mesmas também revelem influência da escola anglo-saxónica, de Vaughan Williams a Wiliam Walton, assim como de Sibelius. Pedro de Freitas Branco também contribuiu bastante para a carreira de Joly Braga Santos, porque deu a conhecer a sua obra em todo o mundo.

O músico compôs algumas peças de câmara e também canções sobre poemas de Fernando Pessoa, Camões e Antero de Quental, mas depois virou-se para a linguagem sinfónica e escreveu, mantendo-se fiel ao universo de pendor neo-clássico, quatro sinfonias no espaço de cinco anos, de 1945 a 1950, três delas foram logo apresentadas com a direcção de Pedro de Freitas Branco, pela Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional. Obras desta época também são: Elegia a Viana da Motta, Variações Sinfónicas sobre um tema alentejano, Divertimento para orquestra, Concerto para cordas e as óperas Mérope, com texto de Garrett e Viver ou Morrer com texto de João de Freitas Branco. A 4ª. Sinfonia não é uma obra folclórica, mas muitas das suas páginas estão impregnadas de um sabor popular, a construção cíclica obedece aos 4 andamentos e termina com o «Hino à Juventude», que na versão inicial, se destinava só à orquestra, a Sinfonia nº.3 tem as mesmas características, as duas foram escritas no Monte dos Perdigões, perto de Reguengos de Monsaraz e perpassa pelas mesmas, o ambiente alentejano.

Em 1948, passada a Segunda Guerra, foram-lhe concedidas, três bolsas de estudo, pelo Instituto de Alta Cultura. A guerra tinha-o impedido do contacto com a cultura musical europeia. Esta também foi uma das razões, porque procurou inspiração na tradição portuguesa e especialmente na obra de Freitas Branco, características que marcam o seu primeiro período criativo, onde está bem presente o antigo folclore português e o polifonismo renascentista.

A primeira foi para estudar direcção de orquestra com Hermann Scherchen, a segunda em 1957 durou dois anos e destinava-se a frequentar o atelier experimental de Gravesano e a terceira em 1959, teve por destino Roma, onde esteve um ano a estudar com Virgílio Martari e Gioachino Pasqualini.

Joly Braga Santos travou contacto com a vanguarda atonal e sem aderir ao serialismo dodecafónico, principiou a dar uma viragem na sua escrita, que está patente na 5ª. Sinfonia (1965), (escrita 15 anos depois da 4ª), nos Três Esboços Sinfónicos, no Concerto para violino, violoncelo, harpa e cordas, na Sinfonieta, no Réquiem à Memória de Pedro de Freitas Branco, no Duplo Concerto para violino e violoncelo, nas Variações Concertantes e na ópera Trilogia das Barcas, baseada em Gil Vicente e que foi levada à cena no Auditório da Gulbenkian e no Teatro São Carlos, com assinalável êxito. Dissonâncias e cromatismo, invadem a linguagem do compositor. A 6ª. Sinfonia a mais híbrida, escrita na fase atonal reflecte uma nostalgia pelo universo tonal do início, segundo o maestro Álvaro Cassuto, que dirigiu essa sinfonia em 1972, Joly Braga Santos tentou construir uma ponte, entre o que a época o obrigava a escrever e o que realmente lhe apetecia escrever, talvez esse dilema o tivesse impedido de escrever a sétima!

A sua música pode ser vista como uma fusão dos vários estilos europeus, particularmente da Europa Ocidental, ele próprio dizia: Desde sempre entendi que tinha de criar o meu próprio estilo e a minha música devia ser o resultado dessa criação. A melodia era para ele a razão de ser da música.

Foi eleito pela UNESCO em 1969,como um dos 10 melhores compositores da música contemporânea, pela sua Sinfonia nº.5. Joly Braga Santos disse de si próprio, parafraseando Stravinsky: Não me considero compositor, mas sim inventor de música. Os Esboços Sinfónicos foram distinguidos pela fundação holandesa Donemus, que se dedica a arquivar e a divulgar música de todas as nações.

Joly Braga Santos além de ser um compositor profícuo, também teve uma grande actividade social ligada à música: foi um dos fundadores da Juventude Musical Portuguesa (o hino deriva do último andamento da 4ª. Sinfonia); leccionou no Conservatório de Lisboa; foi membro do antigo Gabinete de Estudos Musicais da Emissora Nacional; chefiou como adjunto a Orquestra do Conservatório do Porto de 1955 a 1959 e a Orquestra Nacional em 1960 e foi conferencista, articulista e crítico musical, em vários jornais e revistas.

O músico morreu subitamente aos 64 anos, em 18 de Julho de 1988, em plena actividade e na plena posse das suas faculdades. Seis décadas de vida e mais de seis dezenas de obras, que vão da canção à ópera, passando pela sinfonia, campo este onde foi o maior criador nacional de todos os tempos da nossa história da música. O estudo biográfico, o estudo estético-musicológico da sua obra, a catalogação das usas composições e a divulgação das mesmas, torna-se urgente ser feito, um mal de que padecem todos os compositores portugueses.


OBRAS ESSENCIAIS:
OBRAS TEATRAIS:
-Viver ou Morrer, ópera em 1 acto; Mérope, ópera em três actos; Trilogia das Barcas, ópera em três actos e a Cantata Cénica D. Garcia.
MÚSICA INSTRUMENTAL:
- 6 Sinfonias (a 6ª. Incluiu coro e soprano); 3 Aberturas; Elegia a Viana da Motta; Variações sobre um tema Alentejano; Divertimento nº.1; Três Esboços Sinfónicos; Variações para orquestra 1976 e Staccato brilhante.
MÚSICA PARA ORQUESTRA DE ARCOS:
- Nocturno; Concerto; Sinfonietta; Divertimento nº.2 e Variações Concertantes (orquestra de arcos, harpa e quarteto de cordas solista).

MÚSICA CORAL SINFÓNICA:
-Tríptico; a Cantata A Conquista de Lisboa; Réquiem à memória de Pedro Freitas Branco; Ode à Música e a Cantata As Sombras.MÚSICA CONCERTANTE:
-Concerto para violeta e orquestra; Concerto duplo para violino e violoncelo com orquestra de arcos e harpa; Concerto para piano e orquestra e Concerto para violoncelo e orquestra.MÚSICA DE CÂMARA:
-2 Quartetos de cordas; Trio para piano, violino e violoncelo; Ária a Tre com variazioni para violeta, clarinete e piano; Suite de Danças para piano, violeta, oboé e contrabaixo; Sexteto para 2 violinos, 2 violetas e 2 violoncelos e Improviso, para clarinete e piano.MÚSICA CORAL:
-Três Madrigais (Garcilaso de la Vega); Cuatro Canciones; Cantarcillo (Calderon de la Barca) e Dois Motetes.
EXCERTO DA SINFONIA Nº.2



Symphony No5 (VIRTUS LUSITANIAE)


STACCATO BRILHANTE