O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

RAZÃO POÉTICA = FILOSOFIA+POESIA - MARIA ZAMBRANO


Filosofia e Poesia têm uma origem comum: o espanto, a admiração ante a presença das coisas. A filosofia diferencia-se da poesia no momento em que rompe o êxtase admirativo, renunciando à multiplicidade das aparências de que o poeta se prende e buscando a unidade. O pasmo extático inicial é então convertido em interrogação acutilante e o entendimento em órgão do conhecimento por excelência. María Zambrano questiona o carácter sistemático e abstractizante que a filosofia tem vindo a assumir, reclamando a necessidade de voltar a esse momento originário e comum a ambas, o momento admirativo. Verifica-se que o entendimento sozinho é incapaz de atender aos territórios de sombra para onde a filosofia tem actualmente necessidade de se expandir. Assim sendo, o coração como órgão rítmico vem então em seu auxílio originando-se uma nova forma de filosofar que une filosofia e poesia que María Zambrano denominou, com precisão e beleza, razão poética.

Delirio del incrédulo

.

Bajo la flor, la rama;

sobre la flor, la estrella;

bajo la estrella, el viento.

¿Y más allá?

Más allá, ¿no recuerdas? , sólo la nada.

La nada, óyelo bien, mi alma:

duérmete, aduérmete en la nada.

[Si pudiera, pero hundirme... ]

Ceniza de aquel fuego, oquedad,

agua espesa y amarga:

el llanto hecho sudor;

la sangre que, en su huida, se lleva la palabra.

Y la carga vacía de un corazón sin marcha.

¿De verdad es que no hay nada? Hay la nada.

Y que no lo recuerdes. [Era tu gloria.]

Más allá del recuerdo, en el olvido, escucha

en el soplo de tu aliento.

Mira en tu pupila misma dentro,

en ese fuego que te abrasa, luz y agua.

Mas no puedo.Ojos y oídos son ventanas.

Perdido entre mí mismo, no puedo buscar nada;

no llego hasta la nada.

.

Roma. Enero, 1950. Hotel d'lnghilterra


El agua ensimismada

El agua ensimismada

piensa o sueña?

El árbol que se inclina buscando sus raíces,

el horizonte,

ese fuego intocado,

¿se piensan o se sueñan?

El mármol fue ave alguna vez;

el oro, llama;

el cristal, aire o lágrima.

¿Lloran su perdido aliento?

¿Acaso son memoria de sí mismos

y detenidos se contemplan ya para siempre?

Si tú te miras, ¿qué queda?

1950. Roma - Albergo d'lnghilterra.

http://amediavoz.com/zambrano.htm#EL%20AGUA%20ENSIMISMADA

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

MELO E CASTRO - «UM RETRATO DE COSTAS»

Um Retrato de Costas

Um retrato de costas. Encontro este retrato numa velha gaveta. Casa antiga. Fechada. Há quanto tempo fechada por dentro? Casa dentro da cidade. Sala dentro da casa. Armário dentro da sala. Gaveta dentro do armário. Retrato dentro da
gaveta. Retrato de costas. Costas sem peito visível. Onde estarão os olhos? E terá mesmo olhos? E o corpo terá mesmo volume? E matéria? Ou será só costas, uma superfície escura, uma mancha levemente curvada a indicar os ombros? Ou a pergunta escondida? Onde estará o peito? Virado para lá ou só costas do lado de cá? Onde aí estarão os olhos? Que profundidade contemplarão? Que espaço construirão? E, a que voltará as costa esse peito? Do lado de cá a escuridão da mancha das costas na fotografia. Mas que saberão os olhos que eu não vejo das costas que impressionaram esta velha chapa fotográfica? Que saberá esse peito do meu peito? Que verão esses olhos dos meus olhos que agora interrogativamente observam as costas negras do peito que nunca poderão ver? Será o espaço das costas tão só imaginário como parece ser o espaço do peito? Serão mesmo estas costas a fronteira, o limite entre o real e o imaginário? Ou será afinal só uma velha fotografia dentro da gaveta. Gaveta dentro do armário. Armário dentro da sala. Sala dentro da casa. Casa dentro da cidade. Cidade dentro do País. País dentro do Mundo. Mundo dentro do Universo. Universo em que as noções de costas e de peito são tão relativamente relativas que só no meu peito e nos meus olhos vejo realmente as costas negras deste retrato de uma pessoa que desconheço e que poderia talvez até ser eu próprio.

in Antologia para inici-antes de E. M. de Melo e Castro.Editora Ausência, Porto, 2003.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

E.M. DE MELO E CASTRO


E. M. de Melo e Castro, nome literário de Ernesto Manuel de Melo e Castro (Covilhã, 1932).


POESIA VISUAL
.
todos os poemas são visuais
porque são para ser lidos
com os olhos que veem
por fora as letras e os espaços
mas não há nada de novo
em tudo o que está escrito
é só o alfabeto repetido
por ordens diferentes
letras palavras formas
tão ocas como as nozes
recortadas em curvas e lóbulos
do cérebro vegetal : nozes
os olhos é que vêem nas letras
e nas suas combinações
fantásticas referências
vozes sobretudo da ausência
que é a imagem cheia
que a escrita inflama
até ao fogo dos sentidos
e que os escritos reclamam
para se chamarem o que são
ilusões fechadas para
os olhos abertos verem
e.m. de melo e castro



Na visão do autor E. M. DE MELO E CASTRO: “Aqui o poema tende, de facto, a ser um objecto que a si próprio se mostra. Estabelece-se assim uma ligação directa com a poesia visual e concreta, em que a substantivação de todos os seus elementos é total. Melhor: existe uma sintaxe espacial em que os elementos constitutivos do poema se articulam no espaço pelas suas posições relativas na página, como objectos formando um edifício. Por isso através da substantivação e coisificação se passa simultaneamente ao plano estrutural da experiência humana e ao campo visual e objectivo da informação e ainda ao pode sintético das escritas ideogramáticas. Assim num poema concreto, um reduzido número de palavras ou até uma só palavra, decomposta nos seus elementos de formação, sílabas, fonemas, letras, pode adquirir uma ressonância sugestiva de tipo sinestésico imediato, muito diferente do que a linguagem descritiva conseguiria alcançar.”
In> MELO E CASTRO, E. M. de. O Próprio PoéticoBIOGRAFIA: AQUI

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

FERNANDO PESSOA ((Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935)



A Casa Fernando Pessoa distinguiu ontem, dia em que se cumpriram 75 anos após a morte de Pessoa, com a Ordem do Desassossego a investigadora pessoana Maria Aliete Galhoz e o filósofo Eduardo Lourenço.
Trata-se de uma medalha de prata que retrata a figura icónica de Fernando Pessoa, "um Pessoa voador, um Pessoa flutuante, um Pessoa nas nuvens", descreveu Inês Pedrosa - um desenho feito em 1985 pelo designer Jorge Colombo para o Jornal de Letras, no âmbito das comemorações dos 50 anos da morte do poeta, adoptado pela CFP como imagem do Congresso Internacional - e que tem também inscrito um verso do poeta, "É o que me sonhei que eterno dura", da
Mensagem. Quando Inês Pedrosa, entregou a Ordem do Desassossego a Eduardo Lourenço, classificou-o como "um poeta e romancista que se sonhou ser e que diz que não foi", destacando da sua obra um título, Fernando, Rei da Nossa Baviera, que "é um poema em prosa, ele próprio".


O filósofo, de 87 anos, falou da importância da obra do poeta dos heterónimos, que definiu como "o grande poeta da incondição humana", e recordou que foi em 1942/43 que o encontrou, comentando: "Encontrarmos alguém que já nos viveu é qualquer coisa de paradoxal".



ALGUNS EXCERTOS DE LIVROS ESCRITOS POR EDUARDO LOURENÇO, SOBRE FERNANDO PESSOA
(…) Tudo é humilde nestes textos, por outro lado, vertiginosos. A bem dizer, as nobres referências literárias pertencem demasiadamente ao mundo da teoria para podermos, sem outra forma de procedimento, dar-lhes por companhia, ou eco, este «livro de pobre», este evangelho sem mensagem, esta espécie de estertor ontológico de uma voz que experimenta dizer-se, de uma existência que experimenta, também, existir. Claro que sabemos que por detrás deste grito abafado, desta repetida e interminável afirmação de uma impotência de ser, a da existência cinzenta incarnada por Bernardo Soares, existe o olhar frio, de uma neutralidade e de uma lucidez quase perversa que são património de Fernando Pessoa. Mas aqui, o jogador de xadrez indiferente, como se assumiu sob a máscara de Ricardo Reis, não joga outra coisa senão o seu xeque-mate existencial absoluto, a sua realidade humana sem nexo e sem verdadeira ligação aos outros, vida puramente sonhada, voluntariamente distanciada por essa espécie de sorriso vindo de dentro do desespero que faz com que certas páginas do Livro do Desassossego sejam, ao mesmo tempo, insuportáveis e estranhamente libertadoras. (…)

[Eduardo Lourenço, O Lugar do Anjo, Ensaios Pessoanos, Gradiva 2004, O “Livro do Desassossego” ou o Memorial do Limbo, pág. 96]

(…) Depois do herói de Homero, viajar deixou de ser, apenas, ir de um porto ao outro através de um espaço-obstáculo que faz com que aquele que se desloca adquira valor, positivo ou negativo. Viajar é, também, entrar em diálogo com esse espaço, ou ser «dito» por ele, situação que converte o viajante em sujeito de uma ficção ou de uma encenação mais ou menos conseguidas, de que ele e o mundo são cúmplices. Neste sentido, houve sempre em Pessoa algo que se opôs à encenação do mundo através de uma qualquer deslocação. «Viajar, perder países» é um dos versos em que revela uma atitude completamente oposta à de Cesário Verde, para quem viajar significava ganhar países. Talvez que no imaginário de Pessoa o desinteresse pelo acto de viajar e pela viagem fosse o resultado das múltiplas formas da inapetência vital que lhe caracterizou a infância. Todo e qualquer esforço sério no sentido de se tornar outro ou diferente através de uma mera alteração de cenário se lhe afigura uma perda do ser, aquilo que mais tarde exprimirá na imagem célebre do cansaço invencível que o impede de apanhar o eléctrico. (…)

[Eduardo Lourenço, O Lugar do Anjo, Ensaios Pessoanos, Gradiva 2004, Pessoa ou as três viagens, pág. 149]

(…) Nenhuma vivência humana contém, por isso, uma carga de irrealidade mais profunda do que aquela que chamamos amor, objecto quase exclusivo da lírica ocidental. A poesia de Pessoa, enquanto poética confessa e obsessiva da consciência como solidão ontológica, tinha de ser, fatalmente, uma poesia do não-amor. O que ela é de facto, mas em termos tão inabitualmente atrozes que de si mesma se assinala como o lugar de um sofrimento sem nome, de alguma maneira, como puro vazio afectivo, análogo na sua inversão ao que denominamos classicamente sofrimento de amor. Na verdade, esse vazio afectivo é essa espécie de ferida, e toda a poesia de Fernando Pessoa o seu eco inutilmente multiplicado. (…)
[Eduardo Lourenço, Fernando – Rei da Nossa Baviera, INCM, 1993, Fernando Pessoa Ou o Não-Amor, pág. 62]

(…) No seu ar de imitar a Antiguidade na sua perfeição ideal de mármore inscrito, dialogando com ela e na verdade digna dela, o que sobressai é um fundo de angústia moderna, como moderna sob cor antiga é a resposta para a não-resposta de onde nasce e extravasa. Nós somos tempo e nada mais, nós somos como depois de Schopenhauer tantas vezes se repetiu, uma breve luz irrompendo sem razão no seio de uma vida desprovida dela e de novo reenviada à pura noite? Pois se assim é, seja assim. Aceitemos o jogo e joguemo-lo que só nessa aceitação voluntária «o bem consiste». (…)
[Eduardo Lourenço, Pessoa Revisitado, Gradiva, 2003, Ricardo Reis ou o inacessível paganismo, págs. 53/54

Consulta: site da Casa Fernando Pessoa