O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

segunda-feira, 21 de março de 2011

DIA DA POESIA

Sobre um Poema


Um poema cresce inseguramente

na confusão da carne,

sobe ainda sem palavras,

só ferocidade e gosto,

talvez como sangue

ou sombra de sangue

pelos canais do ser.

.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência

ou os bagos de uva de onde nascem

as raízes minúsculas do sol.

Fora, os corpos genuínos e inalteráveis

do nosso amor,

os rios, a grande paz exterior das coisas,

as folhas dormindo o silêncio,

as sementes à beira do vento,

- a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

.

E já nenhum poder destrói o poema.

Insustentável, único, invade as órbitas,

a face amorfa das paredes,

a miséria dos minutos,

a força sustida das coisas,

a redonda e livre harmonia do mundo.

.

- Em baixo o instrumento perplexo

ignora a espinha do mistério.

- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Helder


domingo, 20 de março de 2011

PAUL HINDEMITH - TRAERMUSIK - para viola e orquestra de cordas



Peça escrita por Paul Hindemith, para a cerimónia fúnebre do rei Jorge V

FRANK TICHELI

sexta-feira, 18 de março de 2011

DESCOBERTA: O CÉREBRO HUMANO ENCOLHEU

De acordo com a France Press, que cita trabalhos científicos recentes, o volume médio do cérebro do homem moderno (homo sapiens) diminuiu cerca de 10%, de 1500 para 1359 centímetros cúbicos, o equivalente a uma bola de ténis.
Este fenómeno tem intrigado antropólogos, apostando a maioria na hipótese de se tratar de um efeito da evolução face a sociedades mais complexas, do que de um sinal de embrutecimento.
A tese defendida por David Geary, professor da Universidade de Missouri é que: Na emergência de sociedades mais complexas, o cérebro humano tornou-se mais pequeno porque os indivíduos não têm a necessidade de tanta inteligência para sobreviverem, são ajudados pelos outros

sexta-feira, 4 de março de 2011

quinta-feira, 3 de março de 2011

LEMBRANDO EMORY DOUGLAS

Emory Douglas dedicou a sua vida à luta pela justiça social, sendo talvez o mais prolífico agitador gráfico do movimento negro de libertação. A eficácia das suas imagens e a mobilização colectiva que inspiraram, faz com que a sua obra constitua um exemplo de como a arte pode ser catalisadora da mudança social. Na qualidade de Ministro da Cultura dos Panteras Negras, Emory Douglas traduz o compromisso da organização relativamente ao activismo e à luta pelos direitos humanos, traduzindo-se numa poderosa e reconhecível estética, com um papel significativo na mobilização comunitária. Os ideais e aspirações dos Panteras Negras eram comunicados a um público global através de um jornal, do qual Douglas foi director artístico até ao seu encerramento no início da década de 1980. Com formação em arte pelo City College de São Francisco, Douglas foi autor de centenas de desenhos que deram vida ao espírito radical do partido.






(EXPOSIÇÃO NO MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA DE SERRALVES)

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

«A vida está cheia de uma infinidade de absurdos que nem sequer precisam de parecer verosímeis porque são verdadeiros». PIRANDELLO

Nos tempos que correm confronto-me com o absurdo, não é dos tempos de hoje, noutras épocas o absurdo dominou, mas pensa-se que a partir de certo acontecimento o absurdo pode atenuar, mas o absurdo vai-se vestindo com outras vestes e vai aparecendo sempre!...
Pensando nisso, resolvi revisitar o TEATRO DO ABSURDO, saber mais concretamente como apareceu e como evoluiu e lembrei algumas peças que vi.
Evoluiu neste esquema:
TEATRO DA CRUELDADE, TEATRO DO ABSURDO, TEATRO PÂNICO…
Tudo começou com:


ANTONIN ARTAUD (1896-1948)

SOBRE ANTONIN ARTAUD:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Antonin_Artaud

Foi considerado um louco visionário do teatro surrealista, apesar de ter morrido sem ver muitas das suas teorias postas em prática, influenciou vários teatrólogos. Até ao surgimento do mito Artaud, eram considerados pilares de sustentação teatral, o russo Stanislavski e o alemão Brecht, que propuseram formas teatrais diferenciadas. Artaud junto com Roger Aron, foi um dos primeiros directores surrealistas, com a proposta de contestar o teatro naturalista, principalmente o francês, que se mostrava muito retórico e paradigmático. Artaud pregava o uso de elementos surreais que hipnotizassem o espectador, sem quase a utilização de diálogos, mas outros elementos actuantes: muita música, danças, gritos, sombras, iluminação, forte expressão corporal, para comunicar ao público a mensagem: os sonhos e os mistérios da alma humana. Artaud era incisivo ao abordar as suas concepções teatrais: O teatro é igual á peste, como ela, é a manifestação, a exteriorização de uma crueldade submersa latente, no homem e na sociedade. Assim, surgiu o nome de, TEATRO DA CRUELDADE, que sofreu grande influência do teatro oriental. No seu livro, O Teatro e o Seu Duplo, o teatrólogo denuncia a perda do carácter primitivo do teatro como cerimónia, avaliando o teatro oriental como original, ressaltando que esse manteve o seu aspecto cultural milenar, sem interferência, propondo principalmente saudar o desconhecido e dar uma perspectiva pessoal a respeito do mundo, sem moralismos. O que incomodava fortemente o teatrólogo eram as formas utilizadas com objectivos comerciais, repetitivas e ocas. Hoje considerado como um profeta do teatro, Artaud só veio a ser reconhecido após a sua morte. Durante a sua vida, era considerado um louco e as suas teorias, eram vistas como pretensiosas e muito paradoxais. Como um dos precursores do Surrealismo, abriu a porta à inovação, não só no teatro, mas também na pintura, na arquitectura, na dança, na música, etc.

TEATRO DO ABSURDO foi um termo criado pelo
crítico austríaco Martin Esslin, quando escreveu um livro sobre o tema, em 1961. Depois teve outras edições, a última saiu em 2004. Colocou sob o mesmo conceito obras de dramaturgos completamente diferentes, mas que tinham como centro da sua obra o tratamento inusitado da realidade. Teatro que utiliza, para a criação do enredo, das personagens e do diálogo, elementos chocantes e ilógicos, com o objectivo de reproduzir o desatino e a falta de soluções em que estão imersos o homem e a sociedade.
O inaugurador desta tendência teria sido
Alfred Jarry (Ubu Rei 1896). Esslin relacionou o trabalho desses dramaturgos com o absurdo. As peças passariam a "filosofia" de que é intrínseco à vida o não ter qualquer significado, como por exemplo Camus referenciou em "O Mito de Sísifo". O termo foi aplicado a uma ampla série de peças de vários géneros, mas com características coincidentes. Esslin referenciou preferencialmente, quatro dramaturgos do absurdo: Samuel Beckett, Arthur Adamov, Eugène Ionesco, e Jean Genet, e depois em posteriores edições, acrescentou um quinto dramaturgo, Harold Pinter, embora cada um desses escritores tivesse preocupações e técnicas específicas.
Outros escritores que Esslin também associava a esse grupo: Tom Stoppard,
Friedrich Dürrenmatt, Fernando Arrabal, Edward Albee, Jean Tardieu, G. Schahadé, Antonin Artaud, J. Audiberti, Günther Grass e Hildersheimer.
O TEATRO DO ABSURDO nasceu sob forte influência do Surrealismo e do movimento existencialista. Na segunda metade do século XX, a humanidade vivia uma crise social, os paradigmas e os valores morais da sociedade, eram os factores principais dessa crise, o teatro era um veículo de denúncia e reflexão, explorando os sentimentos humanos, tecendo críticas e difundindo uma ideia subjectiva a respeito do obscuro. Como o próprio nome diz, o TEATRO DO ABSURDO propõe revelar o inusitado. Extremamente existencialista, critica a falta de criatividade do homem, que condiciona toda a sua vida naquilo que julga ser o mais fácil e menos perigoso, negando-se a ousar, utilizando desculpas para justificar uma vida medíocre. O objectivo maior é promover a reflexão ao público, procurando expor o paradoxo, a incoerência e a ignorância, num contexto bastante expressivo, trágico e psicológico. Ionesco, autor de um dos primeiros espectáculos absurdos, A Cantora Careca (1950), foi um renovador da linguagem, da concepção e da visão do mundo. No TEATRO DO ABSURDO, o cenário, o figurino e as nuances nas interpretações tornam-se ainda mais importantes do que o próprio texto. O texto em si pode promover diversas leituras, dando liberdade de acção ao encenador. Samuel Beckett autor do clássico Esperando Godot, conta a história de dois personagens que esperam ansiosos por ajuda numa terra onde nada acontece de inovador, onde tudo se repete sem cessar, obrigando os angustiados personagens a tentar iludir a tristeza e a frustração, esperando Godot, algo hipotético, resultado da sua ansiedade. Esse texto traduz perfeitamente a essência do absurdo. Beckett era uma pessoa que, desde jovem manifestava rebeldia, contrário á religiosidade e grande adepto da revolução dos costumes. Harold Pinter, autor de Velhos Tempos, O Zelador, A Colecção e o autor americano Edward Albee, autor de, Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, buscaram a orientação absurda, para tecer também as suas críticas, com identidades próprias, que lhes deram lugar de destaque na história da arte dramática e com o mesmo brilhantismo de Ionesco e Beckett.
O TEATRO DO ABSURDO, como vertente teatral, propunha de forma agressiva expor os seus personagens a uma crítica mordaz contra a sociedade, onde homens e mulheres vivem suas vidas num limite extremo, sempre numa virtual solidão.

Com os paradigmas clássicos do teatro ocidental, surgiu o TEATRO PÂNICO, uma forma de TEATRO DO ABSURDO, também uma forma dramática de revolta perante o mundo. Apesar de possuir algumas ideias artaudianas, o TEATRO PÂNICO mantém elementos básicos do teatro ocidental, como o diálogo dos seus personagens. A concepção do TEATRO PÂNICO nasceu em 1962, em Paris, e misturava terror com humor. Passava a filosofia que a memória é fundamental para o homem, pois o mesmo não passa de um conjunto de saberes que, com o passar dos anos, compõe um quadro estético, ético e moral. Na visão de um dos principais directores do TEATRO PÂNICO, o espanhol Fernando Arrabal, autor de A Guerra dos Mil Anos, o pânico mistura a vida privada com a vida artística, o lirismo e a psicologia, é uma espécie de jogo ou de uma festa. Muitos associaram o TEATRO PÂNICO com o Dadaismo, movimento que contesta a razão em prol do subjectivo. Dessa forma, os espectáculos pânicos propunham, uma linguagem extremamente transcendental em relação aos temas abordados. Nada disso poderia ser possível sem o TEATRO DO ABSURDO, que possibilitou no homem uma evolução no que diz respeito aos seus dogmas.