O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

sexta-feira, 8 de abril de 2011

IDADE MADURA - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

As lições da infância

desaprendidas na idade madura.

Já não quero palavras, nem delas careço.

Tenho todos os elementos

Ao alcance do braço.

Todas as frutas

e consentimentos.

Nenhum desejo débil.

Nem mesmo sinto falta do que me completa e é quase sempre melancólico.

Estou solto no mundo largo.

Lúcido cavalo

com substância de anjo

circula através de mim.

Sou varado pela noite, atravesso os lagos frios,

Absorvo epopeia e carne,

bebo tudo,

desfaço tudo,

torno a criar,

a esquecer-me:

Durmo agora, recomeço ontem.

.

De longe, vieram chamar-me.

Havia fogo na mata.

Nada pude fazer, nem tinha vontade.

Toda a água que possuía irrigava jardins particulares

De atletas retirados, freiras surdas, funcionários demitidos.

.

Nisso, vieram os pássaros,

rubros sufocados,

sem canto,

e pousaram a esmo.

Todos se transformaram em pedra.

Já não sinto piedade.

.

Antes de mim outros poetas,

depois de mim outros e outros

estão cantando a morte e a prisão.

Moças fatigadas se entregam,

soldados se matam

No centro da cidade vencida.

Resisto e penso

numa terra enfim despojada de plantas inúteis,

num país extraordinariamente,

nu e terno,

qualquer coisa de melodioso,

não obstante mudo,

além dos desertos onde passam tropas,

dos morros

onde alguém colocou bandeiras com enigmas,

e resolvo embriagar-me.

.

Já não dirão que estou resignado

e perdi os melhores dias.

Dentro de mim, bem no fundo,

Há reservas colossais de tempo,

Futuro, pós-futuro, pretérito,

Há domingos, regatas, procissões,

Há mitos proletários, condutos subterrâneos,

Janelas em febre, massas da água salgada, meditação e sarcasmo.

.

Ninguém me fará calar, gritarei sempre

que se abafe um prazer,

apontarei os desanimados,

negociarei em voz baixa com os conspiradores,

transmitirei recados que não se ousa dar nem receber,

serei, no circo, o palhaço,

serei,

médico,

faca de pão,

remédio, toalha,

serei bonde, barco, loja de calçados, igreja, enxovia,

serei as coisas mais ordinárias e humanas,

e também as excepcionais:

tudo depende da hora

e de certa inclinação feérica,

viva em mim qual um insecto.

.

Idade madura em olhos, receitas e pés,

ela me invade

com sua maré de ciências afinal superadas.

Posso desprezar ou querer os institutos, as lendas,

descobri na pele certos sinais que aos vinte anos não via.

.

Eles dizem o caminho,

embora também se acovardem

em face a tanta claridade roubada ao tempo.

Mas eu sigo, cada vez menos solitário,

em ruas extremamente dispersas,

transito no canto homem ou da máquina que roda,

aborreço-me de tanta riqueza,

jogo-a toda por um número de casa,

e ganho.



ASAS SOBRE O MUNDO

terça-feira, 5 de abril de 2011

SER OU NÃO SER...

Viajante sobre um mar de névoa (CASPAR DAVID FRIEDRICH) . William Shakespeare - To be, or not to be (from Hamlet 3/1) . “To be or not to be, that is the question; Whether ’tis nobler in the mind to suffer The slings and arrows of outrageous fortune, Or to take arms against a sea of troubles, And by opposing, end them. To die, to sleep; No more; and by a sleep to say we end The heart-ache and the thousand natural shocks That flesh is heir to — ’tis a consummation Devoutly to be wish’d. To die, to sleep; To sleep, perchance to dream. Ay, there’s the rub, For in that sleep of death what dreams may come, When we have shuffled off this mortal coil, Must give us pause. There’s the respect That makes calamity of so long life, For who would bear the whips and scorns of time, Th’oppressor’s wrong, the proud man’s contumely, The pangs of despised love, the law’s delay, The insolence of office, and the spurns That patient merit of th’unworthy takes, When he himself might his quietus make With a bare bodkin? who would fardels bear, To grunt and sweat under a weary life, But that the dread of something after death, The undiscovered country from whose bourn No traveller returns, puzzles the will, And makes us rather bear those ills we have Than fly to others that we know not of? Thus conscience does make cowards of us all, And thus the native hue of resolutionIs sicklied o’er with the pale cast of thought, And enterprises of great pitch and moment With this regard their currents turn awry, And lose the name of action.” Mulher diante da aurora - CASPAR DAVID FRIEDRICH . “Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre Em nosso espírito sofrer pedras e setas Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja, Ou insurgir-nos contra um mar de provocações E em luta pôr-lhes fim? Morrer.. dormir: não mais. Dizer que rematamos com um sono a angústia E as mil pelejas naturais-herança do homem: Morrer para dormir… é uma consumação Que bem merece e desejamos com fervor. Dormir… Talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo: Pois quando livres do tumulto da existência, No repouso da morte o sonho que tenhamos Devem fazer-nos hesitar: eis a suspeita Que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios. Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo, O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso, Toda a lancinação do mal-prezado amor, A insolência oficial, as dilações da lei, Os doestos que dos nulos têm de suportar O mérito paciente, quem o sofreria, Quando alcançasse a mais perfeita quitação Com a ponta de um punhal? Quem levaria fardos, Gemendo e suando sob a vida fatigante, Se o receio de alguma coisa após a morte, –Essa região desconhecida cujas raias Jamais viajante algum atravessou de volta –Não nos pusesse a voar para outros, não sabidos? O pensamento assim nos acovarda, e assim É que se cobre a tez normal da decisão Com o tom pálido e enfermo da melancolia; E desde que nos prendam tais cogitações, Empresas de alto escopo e que bem alto planam Desviam-se de rumo e cessam até mesmo De se chamar ação.(…)” . Tradução de SILVA RAMOS, Péricles Eugênio da”. Hamlet Editora Abril, 1976. ISBN.

quinta-feira, 31 de março de 2011

quarta-feira, 30 de março de 2011

OS OLHOS DO POETA...


O poeta tem olhos de água para reflectirem todas as cores do mundo,

e as formas e as proporções exactas,

mesmo das coisas que os sábios desconhecem.

Em seu olhar estão as distâncias sem mistério que há entre as estrelas,

e estão as estrelas luzindo na penumbra dos bairros da miséria,

com as silhuetas escuras dos meninos vadios esguedelhados ao vento.

Em seu olhar estão as neves eternas dos Himalaias vencidos

e as rugas maceradas das mães que perderam os filhos

na luta entre as pátrias e o movimento ululante das cidades marítimas

onde se falam todas as línguas da terra

e o gesto desolado dos homens que voltam ao lar

com as mãos vazias e calejadas

e a luz do deserto incandescente e trémula,

e os gestos dos pólos, brancos, brancos,

e a sombra das pálpebras sobre o rosto das noivas

que não noivaram

e os tesouros dos oceanos desvendados

maravilhando com contos-de-fada à hora da infância

e os trapos negros das mulheres dos pescadores

esvoaçando como bandeiras aflitas

e correndo pela costa de mãos jogadas

pró mar amaldiçoando a tempestade:


- todas as cores, todas as formas do mundo se agitam e gritam nos olhos do poeta. Do seu olhar, que é um farol erguido no alto de um promontório,

sai uma estrela voando nas trevas tocando de esperança o coração dos homens de todas as latitudes.

E os dias claros, inundados de vida, perdem o brilho nos olhos do poeta

que escreve poemas de revolta com tinta de sol

na noite de angústia que pesa no mundo.



Manuel da Fonseca, Poemas completos

segunda-feira, 28 de março de 2011

sábado, 26 de março de 2011

INSTANTE - SAMUEL BECKETT


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Que faria eu sem este mundo sem rosto sem questões
Quando o ser só dura um instante onde cada instante
Se deita sobre o vazio dentro do esquecimento de ter sido
Sem esta onda onde por fim
Corpo e sombra juntos se dissipam
Que faria eu sem este silêncio abismo de murmúrios
Arquejando furiosos em direcção ao socorro em direcção ao amor
Sem este céu que se eleva
Sobre o pó dos seus lastros
Que faria eu… eu faria como ontem como hoje
Olhando para a minha janela vendo se não serei o único
A errar e a mudar distante de toda a vida
preso num espaço marionete
Sem voz entre as vozes
Que se fecham comigo.

{Samuel Beckett}

Cada vez mais a escrita de Samuel Beckett é visto como o ponto culminante da grande literatura do século XX - sucedendo a obra de Proust, Joyce e Kafka. John Calder analisou a obra de Beckett, sobre principalmente o que escreveu sobre o nosso tempo em termos de filosofia, teologia e ética e considera que o seu contributo tem sido ignorado. Mente aguda Samuel Beckett aborda com humor e muita coragem as premissas básicas e as crenças, através da qual a maioria das pessoas vive. A sua sátira pode ser mordaz e a sua sagacidade devastadora, não encontrou como escapar da tragédia, mesmo com o conforto que nós construímos para nos proteger da realidade. A arte, para a maioria dos intelectuais tem substituído a religião, no entanto, Beckett desenvolveu uma mensagem moral - que está em contradição directa com os valores da ambição, do sucesso de aquisição e ele olha para a ganância, a adoração a Deus e a crueldade para com os outros. A honestidade, a integridade e a profundidade do pensamento de Beckett expressa através dos seus romances, peças teatrais e poesia, outros escritos e correspondência é chocante, ao pensamento convencional, mas o que ele tem a dizer também é reconfortante. Beckett oferece uma ética diferente para se viver - uma mensagem com base estóica de coragem, compaixão e uma capacidade de compreender e perdoar.