O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

sexta-feira, 1 de julho de 2011

ILUSÃO


Tudo é ilusão (1).
A ilusão do pensamento, a do sentimento, a da vontade. Tudo é criação, e toda a criação é ilusão.
Criar é mentir.
Para pensar o não‑ser criamo‑lo, passa a ser uma coisa. Todos os que pensam ocultistamente criam em absoluto todo um sistema do Universo, que fica sendo real. Ainda que se contradigam: há vários sistemas do universo, todos eles reais.
Nós próprios, porque existimos, somos criações também, portanto ilusões. Mas somos criações de quem? Do Deus que nós‑próprios criámos? Como se o criámos nós, e lhe somos portanto anteriores? Isso é supondo real o tempo, que é outra criação nossa. Tudo é um amontoado de ilusões.
Aquilo a que chamamos verdade é aquilo a que também chamamos o ser. Verdadeiro é o que é. Mas o que é, é ilusão. Por isso a verdade é a ilusão, é uma ilusão.
A que abismo vamos ter?
Quanto mais forte o pensamento, o sentimento, a vontade, maior o poder criador.
O que a ocultistas é verificável é falso. Há imortalidade, mesmo eternidade da alma, mas isto é falso. Há um Deus eterno, criador do céu e da terra, e isto é falso. Ser é não‑ser.
Nunca podemos deixar de criar, por isso nunca podemos deixar de mentir.
A própria ilusão é uma ilusão.
O que nós não sentimos não existe. O que nós sentimos (...)
Só há uma coisa que não pode ser ilusão, porque ela não é criada: é a consciência. Uma só coisa escapa a toda a crítica — a consciência. A consciência não cria, nem é um conceito nosso, porque a não podemos pensar nem como sendo, nem como não‑sendo. Pensar, sentir, querer, são ilusões; mas ter consciência não é uma ilusão.
A verdade é da consciência para lá. «Deus» é a consciência da consciência, coisa que não podemos pensar.
A consciência não é concreta nem abstracta, não é um ser nem não‑ser.
Na proporção em que a consciência é uma ideia falsa.
Existem realmente Deus, céu, anjos, almas imortais e eternas. E contudo nada disso é verdade. Existe e dura eternamente, mas é falso.
O niilismo transcendental ...
Temos todos a noção de que há qualquer coisa: isso é falso. Não há; não há nem não há. A própria consciência não existe, mas é a única verdade.
Não haverá graus na ilusão? Quanto mais criadora uma coisa é mais ilusória. Partindo do nosso espírito, vemos quais as maiores ilusões ...
(1) Tudo se reduz a criar.
Tudo se reduz a iludir-se.
Portanto criar é mentir.
1915?
Textos Filosóficos. Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993).

quinta-feira, 30 de junho de 2011

QUE DIFÍCIL ESCOLHER OS LIVROS DA NOSSA VIDA...

Considero bastante difícil, depois de muito ler, fazer uma lista dos livros da minha vida, ( como os filmes e como as músicas) até porque há livros que faziam todo o sentido numa determinada época da vida e noutra já não fazem tanto, por outro lado também é de considerar a temática e assim uns agradam por uma razão, outros por outra. Apesar disto vou sempre ler, quando alguém fala de livros preferidos, até para ler o que ainda não li. Neste caso foi uma escritora editora.

Dos livros citados li: «Odisseia» de Homero, já que foi para mim livro obrigatório, «A Mancha Humana» de Philip Roth, «A Tia Júlia e o Escrevedor» de Mário Vargas Losa, «Poesia» de W.B. Yeats. São livros de facto do meu agrado, mas que sejam os mais…aí reside a minha dificuldade!

Não li «Pedro Páramo in «Obra Reunida» (Uma pequena obra prima que inspirou o realismo mágico), nem «Nenhum Olhar» de José Luís Peixoto, embora tivesse lido outros livros dele.

Como quarteto de ouro da literatura portuguesa do século XX, são considerados: «Sinais de Fogo» de Jorge de Sena, «Finisterra» de Carlos de Oliveira, «Húmus» de Raul Brandão e «Mau Tempo no Canal» de Vitorino Nemésio. Li estes livros, mas o último livro, custou-me bastante a ler, eu é que sou sempre muito persistente!

Não sei…sei sem dúvida que acrescentaria «O Livro do Desassossego» de Bernardo Soares.


terça-feira, 28 de junho de 2011

FILÓSOFO INSPIRA MANIFESTAÇÕES

As manifestações contra a crise têm surgido um pouco por toda a Europa ao arrepio dos partidos políticos tradicionais.Com mais ou menos incidentes e perturbação da ordem pública. Juntam gerações, que ganham a compreensão de alguns intelectuais, que vêem nos protestos a confirmação dos seus alertas, sobre os perigos que espreitam o futuro. É o caso do francês Edgar Morin, que acaba de publicar, La voie. Pour l’ Avenir de l’Humanité (O Caminho. Para o Futuro da Humanidade).

O pensador junta a sua voz a outro francês, Stéphane Hessel, que este ano lançou o panfleto, Indignai-vos, que serviu de rastilho para movimentos de protesto, que tomaram por exemplo, várias cidades espanholas.

Morin defende a reforma da sociedade de consumo e aquilo a que chama «democracia participativa», resultante do activismo da sociedade civil. O filósofo participou na resistência à ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial e aderiu ao Partido Comunista Francês, do qual depois se desviou. Morin, numa entrevista recente, reconhece que o fim do comunismo provocou o despertar da hidra do fanatismo religioso e a sobreexcitação da hidra do capitalismo financeiro, numa sucessão de processos que tornam provável a ocorrência de uma catástrofe para a humanidade.

domingo, 26 de junho de 2011

AMBIENTE - MOHAN MUNASINGHE

MOHAN MUNASINGHE – Vice-presidente do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC), das Nações Unidas, que em 2007 partilhou o prémio Nobel da Paz com Al Gore. Formado pela Universidade de Cambridge em Física, dá aulas de Desenvolvimento Sustentável em Manchester e é consultor do Governo do Sri Lanka, seu país de origem.

Algumas declarações de Munasinghe:

PONTO EM QUE ESTAMOS NO COMBATE AO AQUECIMENTO GLOBAL

O relatório do IPCC, publicado em 2007, era muito claro a dizer que o aquecimento global é um facto cientificamente confirmado e é causado pela actividade humana. Estudos mais recentes sugerem que a situação piorou. Em 2100, haverá pelo menos um aumento de três graus Celsius de temperatura; meio metro de aumento do nível do mar, no mínimo; teremos o degelo dos calotes polares; alteração na precipitação, mais tempestades, mais inundações. A situação será pior se não mudarmos o nosso comportamento.

MUDANÇA DE ESTILO DE VIDA É UMA QUESTÃO PRIORITÁRIA

As emissões de dióxido de carbono, na sua maioria vêm de países onde o rendimento per capita é elevado. No caso dos países pobres, a primeira prioridade vai no sentido de proteger os mais vulneráveis, isto porque as alterações climáticas vão afectar sobretudo os mais pobres o que é uma injustiça, porque não são eles que causam os problemas.

A crise mundial pode ser uma oportunidade para mudar comportamentos, para mudanças no sentido da sustentabilidade, mas pode-se continuar a não fazer mudanças e nesse caso cai-se num precipício e se assim for se houver uma grande catástrofe, já será demasiado tarde.

É preciso resolver os problemas do desenvolvimento sustentável: pobreza, fome, doenças, escassez de água…há uma série de problemas para resolver em conjunto. Tem que ser flectida a curva do desenvolvimento. Nos países ricos é preciso moderar o consumo, tem de haver um consumo e uma produção mais sustentáveis, com uma redução não só nas emissões do dióxido de carbono, mas também na água, na comida e por aí fora.

A questão principal é mudar a mentalidade das pessoas, não é impossível! Começa-se pelas coisas simples, hoje apagas a luz, amanhã plantas uma árvore, comes menos carne, fechas a torneira. De passos simples chegam-se a passos mais difíceis Temos que levar isto a sério, porque os líderes não estão a tomar as decisões correctas. Há uma falta de vontade política. Temos que fazer a mudança desde a base.

CONFERÊNCIA DO RIO+20, QUE SE VAI REALIZAR EM 2012

Vão ser estabelecidos os objectivos do consumo do milénio. Já temos as metas para o desenvolvimento dos mais pobres, agora os objectivos são para os mais ricos. Há 1,4 milhões de pessoas ricas no Mundo, que representam 20% da população mundial e são responsáveis por 85% de todo o consumo no Planeta. Estes precisam de fazer mudanças nos seus hábitos e se isso acontecer o impacto será enorme.

A IDEIA COM QUE SE FICA DAS CIMEIRAS É QUE AS DECISÕES NÃO SÃO IMPLEMENTADAS

Há duas coisas essenciais: as decisões são fracas e a implementação é ainda pior. Em 1992 ajudei a desenhar a Agenda XXI e a base para a convenção para as alterações climáticas, documentos excelentes para o futuro da Humanidade. Em 97 realizou-se a Convenção de Quioto, acordo fraco para o clima, mas nem isso foi correctamente implementado pela recusa dos E.U.A. O acordo de Copenhaga ainda foi ainda mais fraco. Os acordos são fracos e nem assim são implementados, porque aos líderes falta vontade política.

Em todos os países, as emissões aumentaram em vez de terem diminuído. As pessoas pensam não serem capazes de mudar, esperam que o senhor Obama, o senhor Hu Jintao façam alguma coisa. É necessário que as pessoas percebam que são capazes, porque depois, os líderes vão atrás, para já assiste-se a um recuo, as pessoas do topo não querem mudar nada, pensam na sua própria sustentabilidade. Mas isto é como o Titanic! Se o navio afundar, vão todos. Esta é a a mensagem para quem está a bloquear a mudança. São pessoas ricas, dos lóbis dos combustíveis fósseis, etc...

sábado, 25 de junho de 2011

haiku

A sensação de tocar com os dedos

O que não tem realidade-

Uma pequena borboleta.

Yosa Buson

Tocar um corpo

e o ar

e a língua de neve.

.

Tocar a erva

mortal e verde

de cinco noites

e o mar.

.

Um corpo nu.

E as praias fustigadas

pelo sol e o olhar.

.

Eugénio de Andrade

Jogo de sedução

entre o vento e as folhas.

Prazer volátil.

.

Juncos em movimento.

Os cabelos da água

penteados pelo vento.

.

Albano Martins

segunda-feira, 20 de junho de 2011

PRISIONEIROS NAS FILIPINAS...

Centro de Detenção e Reabilitação de Cebu, Filipinas: quase 1.500 detidos dançam This Is It.. Têm vários vídeos realmente impressionantes como este, a coordenação obtida não é fácil! È preciso empenho e disciplina.

Em Portugal têm sido feitas algumas experiências incluindo reclusos, vi ultimamente uma peça de teatro com actores profissionais e reclusos, mas não espectáculos desta dimensão.

É uma boa forma, de dar entusiasmo para uma vida positiva, a pessoas excluídas temporariamente da sociedade, dando-lhes uma ocupação de corpo e espírito, onde poderá estar implícita uma forma diferente de encarar a vida e impedir que o seu pensamento se concentre em aspectos sombrios.

Obviamente que têm que cumprir a sua pena, mas já lá vai o tempo de serem tratados como seres ignobeis.

O final deste vídeo é de facto surpreendente!

sexta-feira, 17 de junho de 2011

«A LARANJA MECÂNICA» - STANLEY KUBRICK


NA AMÉRICA ESTE POST FOI VOTADO COMO O MAIS ICONOGRÁFICO DA HISTÓRIA DO CINEMA.

Após 40 anos, o filme volta a ser exibido no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (Moma) e no Festival de Cannes.
Tenho bem na memória o filme, que de facto muito me impressionou.
Turning Like Clockwork incide sobre o conceito de «ultraviolência» e mostra todos os impactes culturais da mesma (foi sempre um desgosto para o realizador que movimentos de skinheads e punks tenham usado o filme como justificação para actos violentos).
O filme narra a história de um «hooligan» violento que é usado pelo Estado opressivo como exemplo de um programa de reinserção social parece ter um eco muito actual nas nossas sociedades. Se há quarenta anos o filme tinha um peso futurista, hoje, à parte o design retro, parece actual.
«Laranja Mecânica» envelheceu bem e ainda mete respeito toda a sua simbologia de lavagem cerebral e discurso sobre a ruindade do ser humano e a ultraviolência que nasce de nós.
Apesar do sucesso da bilheteira a controvérsia foi muito forte. Kubrick recebeu ameaças de morte. O filme apesar de estar a ter bastante êxito foi retirado dos cinemas americanos pela Warner.
O actor principal, Malcom McDowell disse: «O Alex foi o primeiro psicopata do cinema, acho que preparei o terreno para Hannibal Lecter (O Silêncio dos Inocentes)



Stanley Kubrick (Nova Iorque, 26 de julho de 1928Hertfordshire, 7 de março de 1999) foi um dos cineastas mais importantes do século XX, considerado por muitos como o maior cineasta de todos os tempos, responsável por uma carreira notável e bem-estruturada, de início seus filmes eram sempre muito polémicos e mal-recebidos pela crítica, depois tornaram-se todos clássicos consagrados pelos mesmos.

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MAIS

Há realizadores que acompanhei o seu percurso, Kubrick foi um deles a partir de: Spartacus e depois Lolita, Dr. Estranhoamor, 2001 Odisseia no Espaço, Laranja mecânica, Shining, Nascido Para Matar e De olhos bem Fechados.

O filme que sempre quis fazer sobre Napoleão, poderá estar em vias de acontecer, usando tudo aquilo que o realizador escreveu e o arquivo imenso que tem sobre esta figura histórica, mas não era um filme sobre história no sentido literal, que pretendia fazer.