O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

sexta-feira, 4 de junho de 2010

FOTOGRAFIAS DE STEVE MCCURRY POR VÁRIOS CANTOS DO MUNDO
































STEVE MCCURRY





Steve McCurry é um fotógrafo americano da National Geographic responsável pelo registo da famosa imagem da Menina Afegã, cujo rosto foi capa da revista e reconhecido por todo o mundo.



McCurry começou por estudar história do cinema, cinematografia e filmagem na Universidade do Estado da Pensilvânia - Estados Unidos - em 1968. Interessou-se pela fotografia ao começar a fotografar para um jornal da sua universidade.
Steve McCurry é um dos mais prestigiados fotógrafos da actualidade, tendo já ganho muitos dos maiores galardões da fotografia. Na melhor tradição do documentário, Steve McCurry consegue capturar a essência das lutas e das alegrias do Homem. É membro da Magnum desde 1986 e algumas das suas fotografias tornaram-se verdadeiros ícones dos nossos tempos, trabalhando para vários jornais e revistas.

terça-feira, 1 de junho de 2010

HOMENS DE ESCABECHE - TEATRO SEIVA TRUPE




HOMENS DE ESCABECHE – ANA ISTARÚ
TEATRO SEIVA TRUPE
ENCENAÇÃO: ANTÓNIO FEIO
ACTORES: JOANA ESTRELA – JOSÉ FIDALGO

*
HOMENS DE ESCABECHE, relata na primeira pessoa, a vida de Alice passando pelos vários homens que fazem parte da sua vida: infância, adolescência e idade adulta. De uma forma docemente provocadora e divertida, a história leva-nos para um caminho que conta com o saudável costume de nos rirmos de nós próprios. Alice, sem o querer converte-se numa narradora dos seus fracassos, mantendo um difícil equilíbrio entre a ilusão e a amargura.
Ao longo do espectáculo, assiste-se às cenas normais do quotidiano, onde Alice desenvolve a consciência do género feminino e a descoberta do mundo adulto. O pai é sempre uma figura presente pela negativa. De tropeço em tropeço Alice, vai do seu primeiro amor até ao mais profundo, averiguando se os seus desejos são efectivamente seus ou algo imposto desde criança.
Os temas tocados são diversos: o amor, o desejo, o casal, o sexo, a maternidade. A peça questiona a sobrevivência ainda do machismo, através de expressões e atitudes mais subtis, difíceis de erradicar por completo. Revela estereótipos sexuais com uma visão aberta e sensível, através das reflexões de Alice.
HOMENS DE ESCABECHE, mostra a tensão homem-mulher a partir das suas diferenças, mas de uma forma cheia de humor inteligente.






[ANA ISTARÚ- Poeta, actriz e dramaturga, que nasceu em Porto Rico em 1960. Escreveu o seu primeiro livro com 15 anos e tem uma carreira de sucesso, tendo sido muito premiada.]
*
Uma lua crescente
Cavalga entre minhas pernas.

Em suas coxas doura-se,
Corcel, o sol nascente.

Que o marido pombo,
A ameixa rotunda.

Esta esposa que sou
A concha.
A mais morena lebre
Em meu varão se eleva.

Horizonte me habita
De goiaba e de curva.

O eixo do seu corpo
Do meu corpo é eixo.

Um ébano em dois ramos,
Uma emaranhada tinta.
Uma lua crescente
Cavalga entre as suas pernas.

Em minhas coxas se doura,
Corcel, o sol nascente.
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NO INÍCIO

No inicio era minha mãe
Caverna tépida e arredondada
Berço de carne florescida,
Rincão banhado de pulsações,
Cascata de lençóis engomados.
E no início era meu pai,
Horto de trepadeiras sob a lua,
Sangue clara de amor nas janelas
Contra seu pescoço de lume.
Então eu cresci, ramalhada suave,
Como um vento intenso
Sobre seu ventre.
E a vida me despertou
No país acima do chão
Com o odor que brota dos troncos
E as mãos que dependuram roupa nos pátios,
Quando a chuva rebenta
Sobre Outubro,
Cavalo imenso e desbocado.

AMADEU DE SOUZA-CARDOSO (1887-1918) - O VISIONÁRIO


Amadeu de Souza-Cardoso, nasceu em Manhufe, perto de Amarante, oriundo de uma família rica. A família quis que fosse para Coimbra estudar Direito, mas vocacionado para a arte, foi para Lisboa, cursar Arquitectura. Passado um ano desistiu e partiu para Paris, instalando-se em Montparnasse, para estudar pintura.


Meu querido tio

Estranhei a sua carta pela maneira como me compreendeu, ou eu mal me exprimi. A minha vida não é nada de contemplação, ao contrário tudo o que há de mais real, mais de facto. Nem eu sou um temperamento contemplativo, essa idade passou quando eu ia pelo Coliseu ouvir a Tosca. Não, isso permite-se numa outra idade, e se acaso não passa, é um sinal incontestável de inferioridade. Agora a minha idade é outra - resolver problemas e marchar, subir em cultura física, espiritual e artística ao mais alto degrau, aproveitar desta vida o mais possível, pois que tudo é passageiro, e o Céu outrora prometido já não seduz os homens modernos. Em Arte estamos em absoluto desacordo. De resto, estou-o também com os amigos compatriotas que marcham numa rotina atrasada. Arte é bem outra coisa que quase toda a gente pensa, é bem mais que muita gente julga. Tudo quanto para aqui se faz é medíocre, aparte raras coisas. Porque eu não gosto de Rodin ou Ticiano, todos me dizem que sigo um mau caminho. E porquê? Se cada um se fiasse no caminho que nos aconselham nada de mais se fazia, pois que eles, os outros, só sabem indicar-nos as suas próprias pisadas. Há gente que chama ao meu estado uma pretensão para sair fora do vulgar - que pensem o que queiram, indiferente me é - eu tenho as minhas razões e bastam. Eu sei o que agrada em geral - eu na generalidade desagrado. Até certo ponto não é menos lisonjeiro.
A técnica de que fala é coisa em que nem penso. Fixar aí a ideia é parar muito aquém do fim. Qualquer aprende. Ninguém deixa de fazer uma obra de arte intensa por falta de técnica, mas por falta de outra coisa que se chama temperamento.
Enfim, para mim os tais artistas de técnica acabaram.
Não é precisamente uma exposição que vou fazer. São apenas alguns desenhos e alguns cartões que fiz aí que colocarei no meu atelier com o fim de serem visitados em intimidade e ver se vendo alguns. Tudo isto são coisas a que não ligo nenhuma sorte de importância e talvez as únicas que poderei vender. As coisas que aí fiz serão más, há porém quatro ou cinco entre elas melhores que tudo quanto fiz até então. Eu não me iludo, sei separar-me de mim para julgar. O Vianna creio que partiu para não sei onde. As coisas que expôs nessa tal Academia, a meu ver, particularmente, não são absolutamente nada. Agora outra coisa: as minhas ideias não tem relação nenhuma com a nossa estima, e espero que me julgue sempre bom amigo e grato a toda a afeição e favores que me concede. Dê um abraço à Avozinha e outro para si do seu sobrinho e grande amigo
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Em Paris conviveu com: Amedeo Modigliani, Constantin Brancusi, Alexander Archipenko, Juan Gris e Robert Delaunay. Amadeu Modigliani, foi um dos seus grandes amigos, compartilhando com ele um atelier e até realizando exposições juntos, em 1911. Expôs pela primeira vez, no Salon des Indépendantse participou na exposição Armory Show (Estados Unidos da América) e voltou a Portugal, ousando fazer duas exposições, no Porto e em Lisboa. Ele era muito avançado, para o meio artístico português, uma «novidade escandalosa»! As suas obras foram criticadas, ridicularizadas e, por breves momentos, houve até confronto físico entre críticos e defensores da arte moderna. Amadeu foi sempre um incompreendido no seu país. Expôs depois no Herbstsalon da Galeria Der Sturm, em Berlim.
Poder-se-á dizer, que foi impressionista, expressionista, cubista, futurista, embora sempre tenha recusado qualquer rótulo. Apesar das múltiplas influências, procurava a originalidade e a criatividade na sua obra. Amadeo de Souza-Cardoso, nos seus últimos trabalhos, experimentou novas formas e técnicas, como as colagens e outras formas de expressão plástica.
Em 25 de Outubro de 1918, aos 31 anos de idade, morreu prematuramente em Espinho, vítima da "pneumónica" que grassava em Portugal.
Amadeo de Souza-Cardozo não teve oportunidade de ver o seu trabalho reconhecido: seguiu o mesmo trilho dos vanguardistas de todos os tempos e de todas as actividades, administrando a incompreensão alheia. Muito tempo se passou até que as opiniões fossem revistas e o seu nome ocupasse o devido lugar na história da pintura portuguesa.
Em 1925, a França realizou uma retrospectiva do pintor, com 150 trabalhos, bem aceites pelo público e pela crítica. Dez anos depois, em Portugal, foi criado um prémio para distinguir pintores modernistas, que recebeu o nome de «Prémio Souza-Cardoso». Em 1953, a Biblioteca-Museu de Amarante, sua cidade natal, deu a uma de suas salas o nome do pintor.
Lentamente, à medida que os preconceitos em relação ao modernismo foram sendo afastados, o nome de Souza-Cardoso ganhou a devida importância em Portugal. Ele era um visionário, vivia fora do seu tempo, tal como outros tantos, pagou um alto preço por isso.
ALGUNS QUADROS:
BARCOS
CABEÇA
CANÇÃO POPULAR A RUSSA E O FIGARO
COZINHA DE MANHOUCE

ENTRADA
LES CAVALIERS

PINTURA (BRUT 300 TSF)

PROCISSÃO CORPUS CHRISTI

SAUT DU LAPIN
Amadeu, título de uma «psico-socio-biografia» do pintor, do escritor Mário Cláudio, (Grande Prémio de Romance e Novela APE/IPLB 1984).

segunda-feira, 31 de maio de 2010

EXCERTO DA SINFONIA Nº.3 DE MAHLER

TERCEIRA SINFONIA DE MAHLER

Excelentíssimo Senhor Director: Para lhe transmitir a inaudita impressão que a sua sinfonia me deixou tenho de lhe falar não de músico para músico, mas sim de Homem para Homem. É que eu vi a sua alma, nua, despojada. Ela surgiu à minha frente como uma paisagem, bravia, misteriosa, cheia de assustadores baixios e poços ao lado de alegres e límpidos prados ensolarados, idílicos locais de repouso. Eu vi-a como um fenómeno da Natureza, cheia de sobressaltos e desgraças, mas também com luminosos e tranquilizantes arco-íris. Senti uma luta com as ilusões; senti a dor de um desiludido. Vi o combate de forças más e boas, vi um homem cansado da extenuante luta por harmonia interior. Senti um Homem, um «drama», «verdade», «verdade» sem nenhuma concessão!

ARNOLD SCHÖNBERG (12.12.1904)


Inicialmente intitulada A GAIA CIÊNCIA e, depois, SONHO DE UMA MANHÃ DE VERÃO, a Terceira Sinfonia de Mahler, divide-se em seis andamentos, cujos subtítulos o compositor deu a conhecer: I «Pan desperta. O Verão anuncia-se»; II «O que as flores do campo me contam»; III «O que os animais do bosque me contam»; IV «O que o Homem me conta»; V «O que os anjos contam»; VI «o que o Amor me conta» e VI « O que a criança me conta».
A presença da natureza e a relação do homem com a transcendência através de uma submersão radical na natureza são elementos centrais de todas as quatro primeiras sinfonias de Mahler: na Primeira encontramos a natureza primordial, habitada por um herói que acabará por morrer; na Segunda acompanhamos o processo de resgate desse herói do mundo dos mortos para uma ressurreição poderosa; na Quarta assistimos à passagem da vida terrena para a vida celestial, cheia de anjos, santos e crianças.
A Terceira sinfonia desempenha um importante papel, definindo uma concepção estética-filosófica em patamares sucessivos do Ser, concepção fortemente influenciada pelos escritos de Schopenhauer e de Nietzche. Esta sinfonia desenha um percurso que corresponde à «arquitectura do mundo» de Schopenhauer. Por outro lado, o título provisório A Gaia Ciência, bem como o canto da Meia-Noite [Oh Homem, escuta!»] de Assim falou Zaratustra musicado no quarto andamento, apontam explicitamente para a obra de Nietzsche.
Mahler tinha uma vida muito sobrecarregada em Hamburgo, como director da Ópera, não tinha tempo para compor, para se distanciar da música lia e, Nietzsche era na altura o autor em que mergulhava. Só nas férias, passadas na pequena aldeia de Steinbach, no Tirol, Mahler compunha. Tinha mandado construir uma pequena barraca, onde tinha um pequeno piano, uma mesa e um sofá, território íntimo e inviolável. Levantava-se às cinco e meia da manhã ia para a cabana, trabalhando sete horas por dia, regressava para almoçar e depois fazia os seus passeios a pé. Esta era a rotina de férias, com duas imersões: uma no mundo da natureza, outra na interioridade criativa.


PRIMEIRO ANDAMENTO – PODEROSO-DECIDIDO
Neste andamento o compositor, pretende afirmar o poder do movimento, da marcha, da força construtiva que se opõe à rigidez da matéria «sem alma», à natureza primordial, «as forças elementares da natureza inanimadas e rígidas».


SEGUNDO ANDAMENTO – TEMPO DI MINUETTO- MUITO MODERADO

Mahler oferece uma visão serena e inocente da natureza campestre. Este andamento sugere um universo sonoro rococó, um idílio pastoril do séc. XVIII (Minuetto) visto pelos binóculos histoiricistas do Romantismo do século XIX. Como se as flores e pastores da montanha entrassem nos salões espelhados da cultura burguesa da Viena fin de siècle.
Mahler disse: Claro que não me fico pela serenidade das plantas; repentinamente tudo se põe mais sério e grave, Como se um vento tempestuoso varresse os prados e abanasse as folhas e flores das plantas, dobrando-as e quebrando-as, forçando-as a entrarem num reino mais alto.


TERCEIRO ANDAMENTO – COMODO, SCHERZANDO

Descreve a morte da Primavera e o surgimento do Verão. Aqui Mahler aproxima-se de idiomas populares, numa concepção de humor influenciado por Jean Paul: descendo aos níveis mais baixos da representação revela-se a máscara trágica da existência. O humor negro ou carnavalesco de Mahler é sempre porta de acesso aos abismos mais radicais da sua alma.

QUARTO ANDAMENTO – MUITO LENTO. MISTERIOSO

O andamento nietzscheano «Oh Homem, escuta!»

Oh Homem! Presta atenção
O que diz a profunda meia-noite?
«Eu dormia, eu dormia,
E despertei de um sonho profundo:
O mundo é profundo,
E mais profundo que o dia julga,
Profunda é a sua dor,
E a alegria…mais profunda que o sofrimento.
A dor diz: Passa!
Mas toda a alegria deseja a eternidade,
A profunda, profunda eternidade!»

Trata-se do Canto da Meia-Noite, o apelo de Zaratustra ao despertar do homem, ao abandono do «sono profundo», em que se encontra. Sobre uma sonoridade de fundo sombria, entregue às cordas graves, surge a voz desolada (O Mensch!). Ouvem-se depois trombones agudos e terceiras trompas (Gib Acht!) até que o oboé se impõe «como uma sombra da natureza».

QUINTO ANDAMENTO – NUM TEMPO DIVERTIDO E COM UMA EXPRESSÃO JOVIAL

«Bim! Bam!» Exalta a alegria e o sonho de um universo ingénuo e inocente

SEXTO ANDAMENTO – ADAGIO – LENTO-CALMO-SENTIDO

Um andamento lento de grande intensidade sonora e força expressiva. Mahler neste andamento pretende atingir as mais altas esferas do Ser – o «Amor», o amor que se confunde com a ideia de Deus. «Deus só pode ser pensado como «o amor». Neste andamento são inseridos episódios de vida, momentos mais ou menos burlescos da existência, etapas necessárias ao Ser para passar de um estado inorgânico ao mundo das esferas.

[Elementos colhidos do programa, escrito por: Paulo Pereira de Assis.]




CASA DA MÚSICA – 29.05.2010
SINFONIA Nº.3 DE MAHLER
ONP
DIRECÇÃO MUSICAL – CHRISTOPH KÖNIG
MEIO-SOPRANO – ANKE VONDUNG
CORO CASA DA MÚSICA
CORO INFANTIL DO CPO

sexta-feira, 28 de maio de 2010

O ANDAIME - FERNANDO PESSOA

(POETA - Google)

O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!
.
Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anônimo e frio,
A vida vivida em vão.
.
A ‘sp’rança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobre mais que minha ‘s’prança,
Rola mais que o meu desejo.
.
Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam — verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.
.
Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.
.
Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!
.
Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.
.
Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só lembranças — Mortas,
porque hão de morrer.
.
Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim
— O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser — muro
Do meu deserto jardim.
.
Ondas passadas, levai-me
Para o alvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"