O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O DISTINTO E CONTROVERSO JORGE LUIS BORGES

JORGE LUÍS BORGES, foi um caso à parte, pelo seu universalismo, a variedade e a excentricidade dos seus temas. Transitava pelos clássicos e por temas exóticos com uma intimidade assombrosa. Não satisfeito com Dante, Shakespeare ou Kafka, mergulhava nas sagas islandesas, nas lendas orientais e deliciava-se com As mil e uma noites, traduzidas por Sir Richard Burton. Eventualmente incursionava pelos subúrbios da sua amada Buenos Aires. Multifacetado escritor (poesia, conto e ensaio), notável estilista da língua espanhola moderna, talvez mesmo um dos mais relevantes do século XX, o Homero do Rio da Prata.
Manchou-lhe a gloriosa trajectória (nos últimos anos de vida, Borges virara um totem cultural consumido pela média internacional) a sua confraternização pública com as ditaduras militares. Ao apertar a mão de Augusto Pinochet em 1976, aceitando-lhe uma condecoração, perdeu definitivamente a possibilidade de lhe outorgarem o Prémio Nobel de Literatura.
BIOGRAFIA DE JORGE LUÍS BORGES:
http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u221.jhtm

O Presente não Existe
Não é extraordinário pensar que dos três tempos em que dividimos o tempo - o passado, o presente e o futuro -, o mais difícil, o mais inapreensível, seja o presente? O presente é tão incompreensível como o ponto, pois, se o imaginarmos em extensão, não existe; temos que imaginar que o presente aparente viria a ser um pouco o passado e um pouco o futuro. Ou seja, sentimos a passagem do tempo. Quando me refiro à passagem do tempo, falo de uma coisa que todos nós sentimos. Se falo do presente, pelo contrário, estarei falando de uma entidade abstracta. O presente não é um dado imediato da consciência.
Sentimo-nos deslizar pelo tempo, isto é, podemos pensar que passamos do futuro para o passado, ou do passado para o futuro, mas não há um momento em que possamos dizer ao tempo: «Detém-te! És tão belo...!», como dizia Goethe. O presente não se detém. Não poderíamos imaginar um presente puro; seria nulo. O presente contém sempre uma partícula de passado e uma partícula de futuro, e parece que isso é necessário ao tempo.


Jorge Luís Borges, in 'Ensaio: O Tempo'

LIMITES

quinta-feira, 8 de julho de 2010

OCTAVIO PAZ


Para Octavio Paz a poesia é a forma natural de convivência entre os homens. Sua crítica é um diálogo aberto com o mundo, sendo seu desejo "a busca de identidade da natureza humana na multiplicidade de signos". Segundo o poeta Sebastião Uchoa Leite, "a crítica de Octavio Paz é de ordem antropológica e poética. Paz é poeta e crítico das civilizações, acreditando, ao contrário de que as civilizações são mortais, na frase de Valéry, que mesmo as aparentemente mortas estão vivas: os seus signos circulam nessa ars combinatoria do universo histórico. Como tudo é linguagem, tudo significa".



Isto e isto e isto

O surrealismo tem sido a maçã de fogo na árvore da sintaxe

O surrealismo tem sido a camélia de cinza entre os peitos da adolescente possuída pelo espectro de Orestes

O surrealismo tem sido o prato de lentilhas que o olhar do filho pródigo transforma em festim fumegante de rei canibal

O surrealismo tem sido o bálsamo de Ferrabrás que apaga os sinais do pecado original e o umbigo da linguagem

O surrealismo tem sido a cusparada na hóstia e o cravo de dinamite no confessionário e o abre-te sésamo das caixas de segurança e das grades dos manicómios

O surrealismo tem sido a chama ébria que guia os passos do sonâmbulo que caminha na ponta dos pés sobre o fio de sombra que traça a folha da guilhotina no pescoço dos justiçados

O surrealismo tem sido o prego ardente na fronte do geómetra e o vento forte que à meia-noite levanta o lençol das virgens

O surrealismo tem sido o pão selvagem que paralisa o ventre da Companhia de Jesus até que a obriga a vomitar todos os seus gatos e seus diabos encarcerados

O surrealismo tem sido o punhado de sal que dissolve as velhas moedinhas do realismo socialista

O surrealismo tem sido a coroa de papelão do crítico sem cabeça e a víbora que desliza entre as pernas da mulher do crítico

O surrealismo tem sido a lepra do ocidente cristão e o açoite de nove cordas que desenha o caminho de saída para outras terras e outras línguas e outras almas sobre o lombo do nacionalismo embrutecido e embrutecedor

O surrealismo tem sido o discurso da criança soterrada em cada homem e a aspersão de sílabas de leite de leoas sobre os ossos calcinados de Giordano Bruno

O surrealismo tem sido as botas de sete léguas dos foragidos das prisões da razão dialéctica e a tocha de Pulgarcito que corta os nós da trepadeira venenosa que cobre os muros das revoluções petrificadas do século XX

O surrealismo tem sido isto e isto e isto

quarta-feira, 7 de julho de 2010

URSULA RUCKER (SPOKEN WORD)






A história, a obra e a vida de uma das artistas mais interessantes da actualidade:

http://www.ruadebaixo.com/ursula-rucker.html

terça-feira, 6 de julho de 2010

A APARENTE VIVÊNCIA EM PAZ DE UM CASAL DE MEIA-IDADE

Edward Hopper

Imaginem duas pessoas robotizadas. Levantam-se, quarto de banho, pequeno-almoço, compras, um toma café e o outro compra o jornal. Vão para casa, um lê o jornal o outro vai ler as notícias à Internet! De vez enquanto cruzam-se e dizem palavras imperceptíveis. Há hora do almoço, juntam-se na cozinha e ligam a televisão para ver as notícias. Há alguns comentários superficiais, já combinaram não falar na política, para evitar discussões, aliás já desistiram de falar de muitas coisas, nas quais estão sempre em desacordo.
Nós já não conversamos, ficamos calados para não discutirmos.
Ela diz «vou dar um passeio, o tempo não está mau».
Ele diz «vais?»
Ela. «Vamos, se quiseres!»
«Não sei se quero, estou cansado!»
Os dois, caminham até ao parque, de que falam?
De pouco, coisas muito triviais.
Depois sentam-se numa esplanada e ficam olhando para um lado e para o outro em silêncio. Ela leva sempre um livro, ele fecha os olhos. Dorme? Não dorme?
Regressam a casa e ele vai para o sofá.
Mas no que havia de dar isto, não passas de um mongo de chinelos, numa letargia, entre o sono e a realidade.
Ela vai para o computador, ou ler ou falar ao telefone.
Ele diz: Tu muito falas e muito escreves!?...
Ela faz que não ouve.
Mais tarde, ela vai fazer o jantar.
Jantam na sala, como sempre correm as notícias. Ela barafusta irritado para a televisão, ela fica em silêncio.
Depois ele regressa ao sofá. Ela vai para o quarto. Cada um tem uma televisão, porque não vêem os mesmos programas. Ele vê, dorme e fica até às tantas no sofá. Nem se apercebe quando ela vai à cozinha, comer qualquer coisa! Depois disso ela mete-se na cama e adormece, só o vê de manhã deitado ao seu lado!..

domingo, 4 de julho de 2010

BACH - Passacaglia BWV 582/1 - Karl Richter - Orgão

CONCERTO ORGÃO IBÉRICO (IGREJA DOS GRILOS) - GIAMPAOLO DI ROSA

PROGRAMA:
J.S. BACH - Suíte Inglesa II BWV 807
G. DI ROSA - Sopras una melodia antiga para orgão Ibérico
Improvisação de um sonata em três andamentos
N. LEBEGUE - Offertorio en Ut


Ouvir extasiada os acordes empolgantes de um instrumento, que «combinando diferentes registos que produzem o som», atinge, por vezes, o sublime.
Olhos que se fecham para usufruir mais intimamente a música e que se abrem para o belo desta igreja, de nome S. Lourenço, mais conhecida pela dos Grilos, muito perto da Sé Catedral.





GIAMPAOLO DI ROSA - AQUI

sábado, 3 de julho de 2010

TODOS OS DIAS TE DESCUBRO...OCTAVIO PAZ


Todos os dias te descubro...

Segundo um poema de Fernando Pessoa

Todos os dias descubro
A espantosa realidade das coisas:
Cada coisa é o que é.
Que difícil é dizer isto e dizer
Quanto me alegra e como me basta
Para ser completo existir é suficiente.
.
Tenho escrito muitos poemas.
Claro, hei-de escrever outros mais.
Cada poema meu diz o mesmo,
Cada poema meu é diferente,
Cada coisa é uma maneira distinta de dizer o mesmo.
.
Às vezes olho uma pedra.
Não penso que ela sente
Não me empenho em chamá-la irmã.
Gosto porque não sente,
Gosto porque não tem parentesco comigo.
.
Outras vezes ouço passar o vento:
Vale a pena haver nascido
Só por ouvir passar o vento.
Não sei que pensarão os outros ao lerem isto
Creio que há de ser bom porque o penso sem esforço;
.
O penso sem pensar que outros me ouvem pensar,
O penso sem pensamento,
O digo como o dizem minhas palavras.
Uma vez me chamaram poeta materialista.
E eu me surpreendi: nunca havia pensado
Que pudessem me dar este ou aquele nome.
.
Nem sequer sou poeta: vejo.
Se vale o que escrevo, não é valor meu.
O valor está aí, em meus versos.
Tudo isto é absolutamente independente de minha vontade.

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)
SOBRE OCTAVIO PAZ AQUI