O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

domingo, 11 de setembro de 2011

11 DE SETEMBRO

As referências aos atentados de 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos floresceram na última década em romances, contos ou ensaios, apresentando sobretudo o vazio deixado pela destruição das Torres Gémeas de Nova Iorque.
--------------------

No best-seller "Freedom", publicado pelo americano Jonathan Franzen em 2010 e traduzido para português (Liberdade), o autor descreve um país onde tudo desmoronou na última década, referindo-se à família, ao amor, à moral ou à política.

No romance, cujos personagens principais são os membros de uma família, os atentados de 11 de Setembro de 2001 aparecem como pano de fundo, mas os posteriores atropelos nos planos político, militar e diplomático, incluindo o cinismo da guerra do Iraque ou os perigos que ameaçam a existência do planeta, ocupam um lugar importante no relato.


-------------------------

Em "Terrorista", John Updike lançou-se também no tema do terrorismo, embora tenha sido criticado por se colocar no lugar dos islâmicos. No livro, relata o que ocorreu com Ahmad, um jovem estudante que decide se dedicar à Jihad.


---------------------------


Em "Fantasma sai de cena", Philip Roth revive Zuckerman, protagonista de outros romances do escritor, que regressa a Nova Iorque após os atentados e volta a viver ali com uma mulher.


-------------------------


Paul Auster, que viu as Torres Gémeas desaparecerem do terraço da sua casa, imagina em "Homem no Escuro" uns Estados Unidos no qual não existiram os atentados de 11 de Setembro de 2001, que o escritor considera como "o dia mais longo" da sua vida. No entanto, a vida nos EUA está dominada por uma guerra civil.

Os atentados de 2001 aparecem ainda no fim de outro romance de Auster, "Brooklyn Follies".


------------------


Para Martin Amis, que publicou "O segundo avião", um livro com artigos, contos e ensaios, "continuámos a viver no 11 de Setembro" de 2001.


---------------------


Don DeLillo, autor do ensaio "Nas ruínas do futuro", afirma algo semelhante, quando diz que "há algo vazio no céu". Em "Homem em Queda", este mesmo escritor conta a vida de um sobrevivente traumatizado, inspirado na imagem captada pelo fotógrafo da Associated Press Richard Drew, de um homem que se atirou da Torre Norte do World Trade Center.

-------------------------------

Em "Uma desordem americana", Ken Kaulfus utiliza o humor negro. Cada um dos membros de um casal perto do divórcio espera que seu ex-amado ou amada tenha morrido nos atentados, o que não acontece.
----------------------------------

Em Portugal, Pedro Paixão publicou em 2001 "A Cidade Depois", 13 textos escritos em Nova Iorque depois de 11 de Setembro e um poema de Walt Whitman.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

MARCELINO DOS SANTOS

Nasceu em Lumbo em 1929, viveu em Lourenço Marques, hoje Maputo e em 1947 veio estudar para o Instituto Industrial de Lisboa.

O seu pai era um activista político, membro da Associação Africana de Moçambique e Marcelino dos Santos, na Casa dos Estudantes do Império, encontrou-se com futuros líderes do movimento de independência das colónias: Amílcar Cabral (Guiné-Bissau), Agostinho Neto (Angola), Eduardo Mondlane (Moçambique).

Em 1950 Agostinho Neto foi preso, Mondlane foi para os Estados Unidos e Marcelino dos Santos foi para Paris, com outros camaradas. Aí escreveu na revista, Présence Africaine. Sob o pseudónimo de Lilinho Micaia, escreveu um livro de poesia que foi publicado na URSS.

Marcelino dos Santos foi fundamental na formação do Movimento Anti-Colonial em Paris, juntando-se à União Democrática Nacional de Moçambique, um dos grupos nacionalistas que depois se fundem para formar a FRELIMO.

Como era um hábil comunicador, fez parte da Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas e discursou na Organização de Unidade Africana, na Conferencia Afro-Asiática de Solidariedade e na Organização das Nações Unidas.

Com o assassinato de Mondlane, foi presidente da Frelimo, com Uria Simango e Samora Machel, num dos seus períodos mais difíceis. Em 1970 Machel assume a presidência e Marcelino dos Santos é vice-presidente.

Depois da independência ocupou vários cargos políticos.

Sob os pseudónimos de Kalungano e Micaia Lilinho, publicou poemas no Brado Africano e em duas antologias editadas pela Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa. Com o seu nome real, publicou Canto do Amor Natural, editado pela Associação dos Estudantes do Império.

Os textos de Marcelino dos Santos descrevem a sorte do colonizado, vítima da sociedade e impossibilitado de atingir um meio de libertação. Mundo dividido e injusto. Marcelino dos Santos na sua poesia perspectivava uma situação e uma massificação de vontades verdadeiramente moçambicanas.

Já dentro da época de guerrilha, da luta armada em Moçambique, Marcelino dos Santos, levantou a voz e o gesto que proclamavam a destruição material dos demónios do colonialismo, na mais pura tentativa de cantar a libertação.

Assim, Marcelino dos Santos recorre ao estado mais puro de sentimentos: a infância. Regressar à infância, é regressar ao passado, invocando uma relação com a Natureza, a Terra, as Raízes, solidificando, assim, as estruturas existentes para definir o presente e arquitectar o futuro.

Desta forma, cingindo-se ao amplo conceito da Mãe-Negra, Mãe-África, define uma posição muito concreta na poesia moçambicana: uma posição combativa, da mais pura reivindicação. Marcelino dos Santos, é considerado como uma das vozes mais significantes da afirmação de uma poesia realmente Moçambicana.

SONHO DE MÃE NEGRA

Mãe negra

Embala o seu filho

E esquece

Que o milho já a terra secou

Que o amendoim ontem acabou.

Ela sonha mundos maravilhosos

Onde o seu filho irá à escola

À escola onde estudam os homens

Mãe negra

Embala o seu filho

E esquece

Os seus irmãos construindo vilas e cidades

Cimentando-as com o seu sangue

Ela sonha mundos maravilhosos

Onde o seu filho correria na estrada

Na estrada onde passam os homens

Mãe negra

Embala o seu filho

E escutando

A voz que vem do longe

Trazida pelos ventos

Ela sonha mundos maravilhosos

Mundos maravilhosos

Onde o seu filho poderá viver.

É PRECISO PLANTAR

É preciso plantar

mamã

é preciso plantar

é preciso plantar

nas estrelas

e sobre o mar

nos teus pés nus e pelos caminhos

é preciso plantar

nas esperanças proibidas

e sobre as nossas mãos abertas

na noite presente

e no futuro a criar

por toda a parte

mamã

é preciso plantar

a razão

dos corpos destruídos

e da terra ensanguentada

da voz que agoniza

e do coro de braços que se erguem

por toda a parte

por toda a parte

por toda a parte mamã

por toda a parte

é preciso plantar

a certeza

do amanhã feliz

nas caricias do teu coração

onde os olhos de cada menino

renovam a esperança

sim mamã

é preciso

é preciso plantar

pelos caminhos da liberdade

a nova árvore

da Independência Nacional.