O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

FERNANDO PESSOA ((Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935)



A Casa Fernando Pessoa distinguiu ontem, dia em que se cumpriram 75 anos após a morte de Pessoa, com a Ordem do Desassossego a investigadora pessoana Maria Aliete Galhoz e o filósofo Eduardo Lourenço.
Trata-se de uma medalha de prata que retrata a figura icónica de Fernando Pessoa, "um Pessoa voador, um Pessoa flutuante, um Pessoa nas nuvens", descreveu Inês Pedrosa - um desenho feito em 1985 pelo designer Jorge Colombo para o Jornal de Letras, no âmbito das comemorações dos 50 anos da morte do poeta, adoptado pela CFP como imagem do Congresso Internacional - e que tem também inscrito um verso do poeta, "É o que me sonhei que eterno dura", da
Mensagem. Quando Inês Pedrosa, entregou a Ordem do Desassossego a Eduardo Lourenço, classificou-o como "um poeta e romancista que se sonhou ser e que diz que não foi", destacando da sua obra um título, Fernando, Rei da Nossa Baviera, que "é um poema em prosa, ele próprio".


O filósofo, de 87 anos, falou da importância da obra do poeta dos heterónimos, que definiu como "o grande poeta da incondição humana", e recordou que foi em 1942/43 que o encontrou, comentando: "Encontrarmos alguém que já nos viveu é qualquer coisa de paradoxal".



ALGUNS EXCERTOS DE LIVROS ESCRITOS POR EDUARDO LOURENÇO, SOBRE FERNANDO PESSOA
(…) Tudo é humilde nestes textos, por outro lado, vertiginosos. A bem dizer, as nobres referências literárias pertencem demasiadamente ao mundo da teoria para podermos, sem outra forma de procedimento, dar-lhes por companhia, ou eco, este «livro de pobre», este evangelho sem mensagem, esta espécie de estertor ontológico de uma voz que experimenta dizer-se, de uma existência que experimenta, também, existir. Claro que sabemos que por detrás deste grito abafado, desta repetida e interminável afirmação de uma impotência de ser, a da existência cinzenta incarnada por Bernardo Soares, existe o olhar frio, de uma neutralidade e de uma lucidez quase perversa que são património de Fernando Pessoa. Mas aqui, o jogador de xadrez indiferente, como se assumiu sob a máscara de Ricardo Reis, não joga outra coisa senão o seu xeque-mate existencial absoluto, a sua realidade humana sem nexo e sem verdadeira ligação aos outros, vida puramente sonhada, voluntariamente distanciada por essa espécie de sorriso vindo de dentro do desespero que faz com que certas páginas do Livro do Desassossego sejam, ao mesmo tempo, insuportáveis e estranhamente libertadoras. (…)

[Eduardo Lourenço, O Lugar do Anjo, Ensaios Pessoanos, Gradiva 2004, O “Livro do Desassossego” ou o Memorial do Limbo, pág. 96]

(…) Depois do herói de Homero, viajar deixou de ser, apenas, ir de um porto ao outro através de um espaço-obstáculo que faz com que aquele que se desloca adquira valor, positivo ou negativo. Viajar é, também, entrar em diálogo com esse espaço, ou ser «dito» por ele, situação que converte o viajante em sujeito de uma ficção ou de uma encenação mais ou menos conseguidas, de que ele e o mundo são cúmplices. Neste sentido, houve sempre em Pessoa algo que se opôs à encenação do mundo através de uma qualquer deslocação. «Viajar, perder países» é um dos versos em que revela uma atitude completamente oposta à de Cesário Verde, para quem viajar significava ganhar países. Talvez que no imaginário de Pessoa o desinteresse pelo acto de viajar e pela viagem fosse o resultado das múltiplas formas da inapetência vital que lhe caracterizou a infância. Todo e qualquer esforço sério no sentido de se tornar outro ou diferente através de uma mera alteração de cenário se lhe afigura uma perda do ser, aquilo que mais tarde exprimirá na imagem célebre do cansaço invencível que o impede de apanhar o eléctrico. (…)

[Eduardo Lourenço, O Lugar do Anjo, Ensaios Pessoanos, Gradiva 2004, Pessoa ou as três viagens, pág. 149]

(…) Nenhuma vivência humana contém, por isso, uma carga de irrealidade mais profunda do que aquela que chamamos amor, objecto quase exclusivo da lírica ocidental. A poesia de Pessoa, enquanto poética confessa e obsessiva da consciência como solidão ontológica, tinha de ser, fatalmente, uma poesia do não-amor. O que ela é de facto, mas em termos tão inabitualmente atrozes que de si mesma se assinala como o lugar de um sofrimento sem nome, de alguma maneira, como puro vazio afectivo, análogo na sua inversão ao que denominamos classicamente sofrimento de amor. Na verdade, esse vazio afectivo é essa espécie de ferida, e toda a poesia de Fernando Pessoa o seu eco inutilmente multiplicado. (…)
[Eduardo Lourenço, Fernando – Rei da Nossa Baviera, INCM, 1993, Fernando Pessoa Ou o Não-Amor, pág. 62]

(…) No seu ar de imitar a Antiguidade na sua perfeição ideal de mármore inscrito, dialogando com ela e na verdade digna dela, o que sobressai é um fundo de angústia moderna, como moderna sob cor antiga é a resposta para a não-resposta de onde nasce e extravasa. Nós somos tempo e nada mais, nós somos como depois de Schopenhauer tantas vezes se repetiu, uma breve luz irrompendo sem razão no seio de uma vida desprovida dela e de novo reenviada à pura noite? Pois se assim é, seja assim. Aceitemos o jogo e joguemo-lo que só nessa aceitação voluntária «o bem consiste». (…)
[Eduardo Lourenço, Pessoa Revisitado, Gradiva, 2003, Ricardo Reis ou o inacessível paganismo, págs. 53/54

Consulta: site da Casa Fernando Pessoa


terça-feira, 30 de novembro de 2010

FUNDAÇÃO CUPERTINO DE MIRANDA - PASSEANDO PELA COLECÇÃO MILLENIUM


A Fundação está situada na Avª. da Boavista (Porto)

e expõe «100 ANOS DE PINTURA PORTUGUESA» (Colecção Millennium) até 22.01.2011


Não se esgota nos quadros fotografados, que são por ordem de colocação: Sousa Pinto, Silva Porto, Malhoa, Manuel Amado, Júlio Resende, Júlio Pomar, João Vieira, Graça Morais, Eduardo Luiz, Eduardo Barata,Cesariny, Carlos Calvet, Carlos Botelho, Cargaleiro, Armanda Passos, Palolo, Almada Negreiros, Paula Rego, René Bertholo e Vieira da Silva
























segunda-feira, 29 de novembro de 2010

CASA DA MÚSICA

ONPCM - DIRIGIDA PELO MAESTRO EMILIO POMÁRICO

-CLAUDE DEBUSSY - Prélude à l'aprés-midi d'um faune
Poema de Mallarmé, numa interpretação livre. Sugestão...Evocação de sensações...distanciamento reflexivo...bucolismo associado ao miticismo de faunas e ninfas...
-ALBAN BERG - Três peças para orquestra
Segunda Escola de Viena...movimento de vanguarda introdutor do dodecofonismo e do serialismo. Schönberg lançou o repto a Berg, para compôr uma obra de folgo, já que a sua tendência era o minimalismo. Berg nunca se afastou totalmente da consonância, Mahler exercia uma grande influência e a sua estética foi mais expressionista.
-IGOR STRAVINSKY - Petruchka
Colaboração criativa de grande importância entre Stravinsky, Diaghilev e os seus Ballets Russes. Bailados concebidos tendo por base a tradição folclórica russa. Petruchka, personagem irreverente do teatro de robertos. A história é um triângulo amoroso...Petruchka, a bailarina e o mouro...musicada com padrões rítmicos repetitivos e enérgicos...

ORQUESTRA GULBENKIAN - DIRIGIDA POR SIMONE YOUNG

-MAGNUS LINDBERG - Chorale
Esta obra reporta-se ao coral de Bach «Es ist genug»...dramatismo de grande intensidade...compacto e multifacetado conjunto de variações.
-ALBAN BERG - Concerto para violino e orquestra - À memória de um Anjo
Estímulo emocional para este concerto, a morte de Manon Gropious com 18 anos, filha de Alma Mahler e do arquitecto Walter Gropious.
Nesta obra também é citado «Es ist genug» da Cantata O Ewigkeit, du Donnerwort de Bach.
É a composição mais célebre de Berg, peça difícil de referência para violino, com um lirismo transbordante. Foi uma espécie de testamento fúnebre porque Berg morreu no ano em que compôs este concerto.
Violinista - CHRISTIAN TETZLAFF
-ANTON BRUCKNER - Sinfonia nº.6
Bruckner teve dificuldade em que a sua produção sinfónica fosse aceite. As suas sinfonias são densas, pesadas com blocos maciços e contrastantes, mas outra das razões podia ter sido de se ter colocado ao lado do grupo que admirava Wagner, contra o grupo que se lhe opunha, defendendo Brahms.

Esta sinfonia só foi estreada postumamente dirigida por Mahler. A Sexta foi a concretização de um projecto expressivo espiritualizado, dedicado ao Criador, numa linguagem musical arrojada e surpreendente.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

terça-feira, 23 de novembro de 2010

POEMAS DE RILKE

Poema dedicado a Lou-Andreas Salomé, que quase se chegou a perder.Trata-se do poema de amor com mais impacto que conheço. Impossível tamanha emoção traduzida em palavras.

Lösch mir die Augen aus: ich kann Dich sehn
Wirf mir die Ohren zu: ich kann Dich hören
Und ohne Fuss noch kann ich zu Dir gehn
Und ohne Mund noch kann ich
Dich beschwören.
Brich mir die Arme ab: ich fasse Dich
Mit meinem Herzen wie mit einer Hand
Reiss mir das Herz aus: und mein
Hirn wir schlagenund wirfst
Du mir auch in das
Hirn den Brand
So will ich Dich auf meinem Blute tragen.
Apaga-me os olhos: e ainda posso ver-te,
tranca-me os ouvidos: e ainda posso ouvir-te,
e sem pés posso ainda ir para ti,
e sem boca posso ainda invocar-te.
Quebra-me os braços, e posso apertar-te
com o coração como com a mão,
tapa-me o coração, e o cérebro baterá
e se me deitares fogo ao cérebro
hei-de continuar a trazer-te no sangue".
(Tradução do germanista português, Paulo Quintela)



























WolgaBist Du auch fern:
ich schaue Dich doch an,Bist Du auch fern:
mir bleibst Du doch gegeben ---
Wie eine Gegenwart, die nicht verblassen kann.
Wie meine Landschaft liegst
Du um mein Leben.
Hätt ich an Deinen Ufern nie geruht:
Mir ist, als wüsst ich doch um Deine Weiten,
Als landete mich jede Traumesflut
An Deinen ungeheuren Eisamkeiten.





Volga


Por longe que estejas: posso ainda te ver,
Por longe que estejas: tu permanecerás
Qual presença que não pode empalidecer,
Qual paisagem, a mim sempre contornarás.
Se tuas margens eu jamais tivesse tocado,


Mesmo assim saberia tua imensidão:
Ondas de meus sonhos me teriam levado
À beira de tua infindável solidão

sábado, 20 de novembro de 2010

ANNE SEXTON (1928-1974)

Anne Gray Harvey nasceu em Newton, Massachusetts, em 1928. Filha do empresário Ralph Harvey e de Mary Gray Staples. Passou a maior parte da sua infância em Boston. Em 1945, estudou em Rogers Hall, em Lowell, Massachusetts e mais tarde, durante um ano, em Garland Junior College. Sexton trabalhou como modelo para a agência Hart de Boston. Em 1948, com dezanove anos, casou com Alfred Sexton, e permaneceram juntos até 1973, um ano antes de sua morte.
Em 1953 teve uma filha. Em 1954, foi diagnosticada com depressão pós-parto e sofreu o seu primeiro colapso mental. Foi admitida em Westwood Lodge, um hospital neuropsiquiátrico, onde repetidamente fez tratamento. Em 1955, após o nascimento da sua segunda filha, Sexton foi hospitalizada novamente. Nesse mesmo ano, no seu aniversário, tentou o suicídio.
Ao longo da sua vida, Sexton sofreu de severos transtornos mentais. Martin Theodore Orne, tornou-se o seu médico permanente e foi ele que a encorajou a escrever poesia. O primeiro workshop de poesia, foi ministrado por John Holmes. Sexton teve um rápido sucesso e os seus poemas foram aceites pelas revistas The New Yorker, Harper's e Saturday Review. Mais tarde, foi aluna de Robert Lowell na Universidade de Boston, juntamente com outros poetas como Sylvia Plath e George Starbuck.
Depois o seu mentor foi W. D. Snodgrass, que conheceu durante uma conferência de escritores. Enquanto trabalhava com John Holmes, Sexton conheceu Maxine Kumin. Tornaram-se grandes amigas e assim permaneceram pelo resto da vida de Sexton. Kumin e Sexton criticavam rigorosamente o trabalho de uma e da outra. Escreveram, juntas, quatro livros infantis. No final da década de 1960, a doença mental de Anne começou a afectar a sua carreira, embora ela continuasse a escrever e a publicar. Anne também colaborou com músicos, formando um grupo de jazz chamado Her Kind, que adicionava música à sua poesia. A sua peça teatral Mercy Street foi produzida em 1969, após anos de revisão e inspirou a canção homónima de Peter Gabriel.




Em 1974, Anne Sexton teve um encontro com Maxine Kumin, para reverem The Awful Rowing Toward God. Ao retornar a casa, vestiu o velho casaco de peles da sua mãe e trancou-se na garagem, deixando o motor do seu carro ligado. Morreu por intoxicação de monóxido de carbono.
Assim como Robert Lowell , Sylvia Plath , WD Snodgrass (que exerceu grande influência sobre o seu trabalho), a sua poesia confessional, deu ao leitor uma visão íntima da angústia emocional que caracterizou a sua vida.
Além dos seus temas padrões como depressão, isolamento, suicídio, morte e desespero, Anne Sexton escreveu também sobre questões específicas das mulheres, como menstruação, aborto, masturbação e adultério. Na época, tais matérias não eram focadas em poesia. Os temas dos seus poemas sofreram críticas negativas, mas a sua qualidade poética superou a controvérsia sobre o assunto.

http://www.poetryfoundation.org/bio/anne-sexton
http://www.poets.org/poet.php/prmPID/14
http://www.germinaliteratura.com.br/anne_sexton.htm