O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O Jardim e a Noite

Atravessei o jardim solitário e sem lua,
Correndo ao vento pelos caminhos fora,
Para tentar como outrora
Unir a minha alma à tua,
Ó grande noite solitária e sonhadora.

Entre os canteiros cercados de buxo,
Sorri à sombra tremendo de medo.
De joelhos na terra abri o repuxo,
E os meus gestos dessa encantação,
Que devia acordar do seu inquieto sono
A terra negra canteiros
E os meus sonhos sepultados
Vivos e inteiros.

Mas sob o peso dos narcisos floridos
Calou-se a terra,
E sob o peso dos frutos ressequidos
Do presente,
Calaram-se os meus sonhos perdidos.


Entre os canteiros cercados de buxo,
Enquanto subia e caía a água do repuxo,
Murmurei as palavras em que outrora
Para mim sempre existia
O gesto dum impulso.

Palavras que eu despi da sua literatura,
Para lhes dar a sua forma primitiva e pura,
De fórmulas de magia.

Docemente a sonhar entra a folhagem
A noite solitária e pura
Continuou distante e inatingível
Sem me deixar penetrar no seu segredo
E eu senti quebrar-se, cair desfeita,
A minha ânsia carregada de impossível,
Contra a sua harmonia perfeita.

Tomei nas minhas mãos a sombra escura
E embalei o silêncio nos meus ombros.
Tudo em minha volta estava vivo
Mas nada pôde acordar dos seus escombros
O meu grande êxtase perdido.

Só o vento passou e quente
E à sua volta todo o jardim cantou
E a água do tanque tremendo
Se maravilhou
Em círculos, longamente.

Sophia de Mello Breyner Andresen, “Cem poemas de Sophia


terça-feira, 13 de dezembro de 2011

MELANCOLIA - CARL VON TRIES

Com: Kirsten Dunst, John Hurt, Kiefer Sutherland, Charlotte Gainsborough

Dinamarca - 2011

MÚSICA: TRISTÃO E ISOLDA - RICHARD WAGNER





domingo, 11 de dezembro de 2011


Dorme, que a Vida é Nada!

Dorme, que a vida é nada!
Dorme, que tudo é vão!
Se alguém achou a estrada,
Achou-a em confusão,
Com a alma enganada.

Não há lugar nem dia
Para quem quer achar,
Nem paz nem alegria
Para quem, por amar,
Em quem ama confia.

Melhor entre onde os ramos
Tecem docéis sem ser
Ficar como ficamos,
Sem pensar nem querer,
Dando o que nunca damos.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

sábado, 10 de dezembro de 2011

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

DIEGO RIVERA

Hoje o Google assinala o 125º aniversário da morte do pintor DIEGO RIVERA.
Diego María de la Concepción Juan Nepomuceno Estanislao de la Rivera y Barrientos Acosta y Rodríguez(Guanajuato, 8 de dezembro de 1886 - San Ángel, Cidade do México, 24 de novembro de 1957), foi um dos maiores pintores mexicanos.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Diego_Rivera



Diego Rivera foi casado com a extraordinária pintora FRIDA KAHLO.

domingo, 4 de dezembro de 2011

"A sinfonia é o mundo, deve abraçar tudo". Gustav Mahler ( 1860 — 1911)

Já fiz referência aqui à Sinfonia nº. 4 de Malher, mas como voltei a «ouver» e as sinfonias de Mahler nunca me cansam, aqui deixo o 4º. andamento

O quarto movimento, apresenta uma visão ingénua do paraíso, pelos olhos de uma criança, cantada por uma soprano.

A morte está sempre presente na obra de Mahler. Passagens alegres dão lugar a outras trágicas e de desespero, que reflectem a sua vida atribulada.

Mahler não teve uma infância fácil, o pai batia na mãe, um irmão querido morreu, os seus pais morreram mais ou menos logo, e ele viu-se na condição de chefe da família e responsável pelo sustento dos outros irmãos mais novos. Mesmo após tornar-se adulto e ser independente, a vida não foi fácil. O espectro da morte pairava sobre Mahler, pois ele, da mesma forma como a mãe, sofria de problemas cardíacos, a sua filha morreu em 1907 e era apaixonado pela mulher, Alma, contudo esta o traía.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Roberto Juarroz (Argentina,1925-1995)


42


Hay ángulos que no pueden cerrarse
y que ninguna línea convertirá en figura.
Ellos resumen el destino.
Tampoco el destino puede cerrarse.

El amor conoce esos ángulos
y con frecuencia acude a ellos.
También el pensamiento y la palabra.
También los párrafos del viento.

Pero no hay instrumento que pueda medirlos,
ni hay geometría que los abarque.
Ellos responden a otro orden del espacio:
la geometría de lo abierto.

Y quizá también respondan a un llamado,
pero no sabemos de dónde.


Duodécima poesía vertical- Roberto Juarroz