O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

terça-feira, 30 de novembro de 2010

FUNDAÇÃO CUPERTINO DE MIRANDA - PASSEANDO PELA COLECÇÃO MILLENIUM


A Fundação está situada na Avª. da Boavista (Porto)

e expõe «100 ANOS DE PINTURA PORTUGUESA» (Colecção Millennium) até 22.01.2011


Não se esgota nos quadros fotografados, que são por ordem de colocação: Sousa Pinto, Silva Porto, Malhoa, Manuel Amado, Júlio Resende, Júlio Pomar, João Vieira, Graça Morais, Eduardo Luiz, Eduardo Barata,Cesariny, Carlos Calvet, Carlos Botelho, Cargaleiro, Armanda Passos, Palolo, Almada Negreiros, Paula Rego, René Bertholo e Vieira da Silva
























segunda-feira, 29 de novembro de 2010

CASA DA MÚSICA

ONPCM - DIRIGIDA PELO MAESTRO EMILIO POMÁRICO

-CLAUDE DEBUSSY - Prélude à l'aprés-midi d'um faune
Poema de Mallarmé, numa interpretação livre. Sugestão...Evocação de sensações...distanciamento reflexivo...bucolismo associado ao miticismo de faunas e ninfas...
-ALBAN BERG - Três peças para orquestra
Segunda Escola de Viena...movimento de vanguarda introdutor do dodecofonismo e do serialismo. Schönberg lançou o repto a Berg, para compôr uma obra de folgo, já que a sua tendência era o minimalismo. Berg nunca se afastou totalmente da consonância, Mahler exercia uma grande influência e a sua estética foi mais expressionista.
-IGOR STRAVINSKY - Petruchka
Colaboração criativa de grande importância entre Stravinsky, Diaghilev e os seus Ballets Russes. Bailados concebidos tendo por base a tradição folclórica russa. Petruchka, personagem irreverente do teatro de robertos. A história é um triângulo amoroso...Petruchka, a bailarina e o mouro...musicada com padrões rítmicos repetitivos e enérgicos...

ORQUESTRA GULBENKIAN - DIRIGIDA POR SIMONE YOUNG

-MAGNUS LINDBERG - Chorale
Esta obra reporta-se ao coral de Bach «Es ist genug»...dramatismo de grande intensidade...compacto e multifacetado conjunto de variações.
-ALBAN BERG - Concerto para violino e orquestra - À memória de um Anjo
Estímulo emocional para este concerto, a morte de Manon Gropious com 18 anos, filha de Alma Mahler e do arquitecto Walter Gropious.
Nesta obra também é citado «Es ist genug» da Cantata O Ewigkeit, du Donnerwort de Bach.
É a composição mais célebre de Berg, peça difícil de referência para violino, com um lirismo transbordante. Foi uma espécie de testamento fúnebre porque Berg morreu no ano em que compôs este concerto.
Violinista - CHRISTIAN TETZLAFF
-ANTON BRUCKNER - Sinfonia nº.6
Bruckner teve dificuldade em que a sua produção sinfónica fosse aceite. As suas sinfonias são densas, pesadas com blocos maciços e contrastantes, mas outra das razões podia ter sido de se ter colocado ao lado do grupo que admirava Wagner, contra o grupo que se lhe opunha, defendendo Brahms.

Esta sinfonia só foi estreada postumamente dirigida por Mahler. A Sexta foi a concretização de um projecto expressivo espiritualizado, dedicado ao Criador, numa linguagem musical arrojada e surpreendente.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

terça-feira, 23 de novembro de 2010

POEMAS DE RILKE

Poema dedicado a Lou-Andreas Salomé, que quase se chegou a perder.Trata-se do poema de amor com mais impacto que conheço. Impossível tamanha emoção traduzida em palavras.

Lösch mir die Augen aus: ich kann Dich sehn
Wirf mir die Ohren zu: ich kann Dich hören
Und ohne Fuss noch kann ich zu Dir gehn
Und ohne Mund noch kann ich
Dich beschwören.
Brich mir die Arme ab: ich fasse Dich
Mit meinem Herzen wie mit einer Hand
Reiss mir das Herz aus: und mein
Hirn wir schlagenund wirfst
Du mir auch in das
Hirn den Brand
So will ich Dich auf meinem Blute tragen.
Apaga-me os olhos: e ainda posso ver-te,
tranca-me os ouvidos: e ainda posso ouvir-te,
e sem pés posso ainda ir para ti,
e sem boca posso ainda invocar-te.
Quebra-me os braços, e posso apertar-te
com o coração como com a mão,
tapa-me o coração, e o cérebro baterá
e se me deitares fogo ao cérebro
hei-de continuar a trazer-te no sangue".
(Tradução do germanista português, Paulo Quintela)



























WolgaBist Du auch fern:
ich schaue Dich doch an,Bist Du auch fern:
mir bleibst Du doch gegeben ---
Wie eine Gegenwart, die nicht verblassen kann.
Wie meine Landschaft liegst
Du um mein Leben.
Hätt ich an Deinen Ufern nie geruht:
Mir ist, als wüsst ich doch um Deine Weiten,
Als landete mich jede Traumesflut
An Deinen ungeheuren Eisamkeiten.





Volga


Por longe que estejas: posso ainda te ver,
Por longe que estejas: tu permanecerás
Qual presença que não pode empalidecer,
Qual paisagem, a mim sempre contornarás.
Se tuas margens eu jamais tivesse tocado,


Mesmo assim saberia tua imensidão:
Ondas de meus sonhos me teriam levado
À beira de tua infindável solidão

sábado, 20 de novembro de 2010

ANNE SEXTON (1928-1974)

Anne Gray Harvey nasceu em Newton, Massachusetts, em 1928. Filha do empresário Ralph Harvey e de Mary Gray Staples. Passou a maior parte da sua infância em Boston. Em 1945, estudou em Rogers Hall, em Lowell, Massachusetts e mais tarde, durante um ano, em Garland Junior College. Sexton trabalhou como modelo para a agência Hart de Boston. Em 1948, com dezanove anos, casou com Alfred Sexton, e permaneceram juntos até 1973, um ano antes de sua morte.
Em 1953 teve uma filha. Em 1954, foi diagnosticada com depressão pós-parto e sofreu o seu primeiro colapso mental. Foi admitida em Westwood Lodge, um hospital neuropsiquiátrico, onde repetidamente fez tratamento. Em 1955, após o nascimento da sua segunda filha, Sexton foi hospitalizada novamente. Nesse mesmo ano, no seu aniversário, tentou o suicídio.
Ao longo da sua vida, Sexton sofreu de severos transtornos mentais. Martin Theodore Orne, tornou-se o seu médico permanente e foi ele que a encorajou a escrever poesia. O primeiro workshop de poesia, foi ministrado por John Holmes. Sexton teve um rápido sucesso e os seus poemas foram aceites pelas revistas The New Yorker, Harper's e Saturday Review. Mais tarde, foi aluna de Robert Lowell na Universidade de Boston, juntamente com outros poetas como Sylvia Plath e George Starbuck.
Depois o seu mentor foi W. D. Snodgrass, que conheceu durante uma conferência de escritores. Enquanto trabalhava com John Holmes, Sexton conheceu Maxine Kumin. Tornaram-se grandes amigas e assim permaneceram pelo resto da vida de Sexton. Kumin e Sexton criticavam rigorosamente o trabalho de uma e da outra. Escreveram, juntas, quatro livros infantis. No final da década de 1960, a doença mental de Anne começou a afectar a sua carreira, embora ela continuasse a escrever e a publicar. Anne também colaborou com músicos, formando um grupo de jazz chamado Her Kind, que adicionava música à sua poesia. A sua peça teatral Mercy Street foi produzida em 1969, após anos de revisão e inspirou a canção homónima de Peter Gabriel.




Em 1974, Anne Sexton teve um encontro com Maxine Kumin, para reverem The Awful Rowing Toward God. Ao retornar a casa, vestiu o velho casaco de peles da sua mãe e trancou-se na garagem, deixando o motor do seu carro ligado. Morreu por intoxicação de monóxido de carbono.
Assim como Robert Lowell , Sylvia Plath , WD Snodgrass (que exerceu grande influência sobre o seu trabalho), a sua poesia confessional, deu ao leitor uma visão íntima da angústia emocional que caracterizou a sua vida.
Além dos seus temas padrões como depressão, isolamento, suicídio, morte e desespero, Anne Sexton escreveu também sobre questões específicas das mulheres, como menstruação, aborto, masturbação e adultério. Na época, tais matérias não eram focadas em poesia. Os temas dos seus poemas sofreram críticas negativas, mas a sua qualidade poética superou a controvérsia sobre o assunto.

http://www.poetryfoundation.org/bio/anne-sexton
http://www.poets.org/poet.php/prmPID/14
http://www.germinaliteratura.com.br/anne_sexton.htm

POESIA DE ANNE SEXTON


QUANDO O HOMEM ENTRA NA MULHER
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Quando o homem entra na mulher,
como a onda batendo contra a costa,
de novo e de novo,
e a mulher abre a boca com prazer
e os seus dentes brilham
como o alfabeto,
Logos aparece ordenhando uma estrela,
e o homem dentro da mulher
ata um nó de modo que nunca
possam voltar a separar-se
e a mulher sobe a uma flor e engole o seu caule
e Logos aparece e solta os seus rios.
Este homem,esta mulher,com a sua dupla fome,
tentaram atravessar a cortina de Deus,
e por um instante conseguiram,
ainda que Deus na Sua perversidade
desate o nó.
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PALAVRAS
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Tem cuidado com as palavras
mesmo as milagrosas.
Pelas milagrosas nós fazemos o melhor possível,
por vezes são como uma multidão de insectos
que não nos deixam uma picada mas um beijo.
Podem ser tão boas como dedos.
Podem ser tão seguras como a rocha onde te sentas.
Mas também podem ser ao mesmo tempo margaridas e [amachucadas].
Contudo, estou apaixonada pelas palavras.
São pombas que caem do tecto.
São seis laranjas santas pousadas no meu regaço.
São as árvores, as pernas do verão,
e o sol, o seu impetuoso rosto.
No entanto, falham-me com frequência.
Eu tenho tantas coisas que quero dizer,
tantas histórias, imagens, provérbios, etc.
Mas as palavras não são suficientemente boas,
as erradas beijam-me.
Por vezes voo como uma águia
mas com as asas de uma carriça.
Mas tento ter cuidado e ser amável com elas.
As palavras e os ovos devem manipular-se com cuidado.
Uma vez partidas há coisas impossíveis de reparar.
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DEPOIS DE AUSCHWITZ
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Raiva tão negra como um gancho,alcança-me.
Cada dia, cada nazi pega, às oito da manhã,
num bebé e serve-o ao pequeno-almoço com pão frito.
E a morte olha despreocupada
e limpa a sujidade que tem debaixo das unhas.
O homem é maldade, digo em voz alta.
O homem é uma flor que poderia ser queimada,
digo em voz alta.
O homem é um pássaro cheio de barro
digo em voz alta.
E a morte olha despreocupada e arranha o ânus.
O homem, com seus pequenos e rosados dedos dos pés,
com seus dedos milagrosos
não é um templo mas um anexo,digo em voz alta.
Que o homem nunca mais levante A sua chávena de chá.
Que o homem nunca mais escreva um livro.
Que o homem nunca mais calce um sapato.
Que o homem nunca mais eleve os seus olhos
numa suave noite de Junho.
Nunca. Nunca. Nunca. Nunca. Nunca.
Digo isto em voz alta.
E suplico ao Senhor que não ouça.
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Versão dos poemas “When man enters woman”, “Words” e “After Auschwitz” de Anne Sexton
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OS BOMBARDEIROS
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Nós somos a América.
Somos os enchedores de caixões.
Nós somos os merceeiros da morte.
Nós empacotamo-los como se fossem couves-flor.
A bomba abre-se como uma caixa de sapatos.
E a criança?A criança certamente não boceja.
E a mulher?A mulher lava o seu coração.
Foi-lhe estropiado e, porque está queimado,
num acto derradeiro,ela enxagua-o no rio.
Este é o mercado da morte.
América,onde estão as tuas credenciais?

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BONECAS
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Bonecas,aos milhares,estão a cair do céu
e eu olho para cima com medo
e pergunto-me quem as irá apanhar?
As folhas, segurando-as como pratos verdes?
Os charcos, abertos como copos de vinho
para as beber?
Os topos dos edifícios para se esmagarem nas suas barrigas
e deixa-las ali para ganhar fuligem?
As auto-estradas com as suas peles duras
para que sejam atropeladas como almiscareiros?
Os mares, à procura de algo que choque os peixes?
As cercas eléctricas para lhes queimar os cabelos?
Os campos de milho onde podem estar sem ser colhidas?
Os parques nacionais onde séculos mais tarde
Serão encontradas petrificadas como bebés de pedra?
Eu abro os braços e apanho uma,duas,três…
dez ao todo a correr para a frente e para trás
como um jogador de badmington,
apanhando as bonecas,
os bebés onde eu pratico,
mas outras estilhaçam-se no telhado
e eu sonho, acordada, eu sonho com bonecas a cair.
que precisam de berços e cobertores e pijamas,
com pés verdadeiros
Porque é que não há uma mãe?
Porque é que estas bonecas todas estão a cair do céu?
Houve um pai?
Ou os planetas cortaram buracos nas suas redes
e deixaram a nossa infância sair,
ou somos nós as próprias bonecas,
nascidas mas nunca alimentadas.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010