O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

sábado, 5 de maio de 2012

MÚSICA E POESIA


A música p'ra mim tem seduções de oceano! 
Quantas vezes procuro navegar,  
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano,  
Minha pálida estrela a demandar!  
O peito saliente, os pulmões distendidos  
Como o rijo velame d'um navio,  
Intento desvendar os reinos escondidos  
Sob o manto da noite escuro e frio;  
Sinto vibrar em mim todas as comoções  
D'um navio que sulca o vasto mar;  
Chuvas temporais, ciclones, convulsões  
Conseguem a minh'alma acalentar.  
— Mas quando reina a paz, quando a bonança impera,  
Que desespero horrivel me exaspera!  
Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"  
Tradução de Delfim Guimarães  

quinta-feira, 3 de maio de 2012

CONFUSÃO


Confusão

Meu coração 
é teu coração? 
Quem me reflexa pensamentos? 
Quem me presta 
esta paixão 
sem raízes? 
Por que muda meu traje 
de cores? 
Tudo é encruzilhada! 
Por que vês no céu 
tanta estrela? 
Irmão, és tu 
ou sou eu? 
E estas mãos tão frias 
são daquele? 
Vejo-me pelos ocasos, 
e um formigueiro de gente 
anda por meu coração. 

Federico García Lorca, in 'Poemas Esparsos' 
Tradução de Oscar Mendes

terça-feira, 1 de maio de 2012

Forjando a Armadura - Rudolf Steiner


Nego submeter-me ao medo,
Que tira a alegria de minha liberdade,
Que não me deixa arriscar nada,
Que me torna pequeno e mesquinho,
Que me amarra,
Que não me deixa ser direto e franco,
Que me persegue,
Que ocupa negativamente a minha imaginação,
Que sempre pinta visões sombrias.
No entanto, não quero levantar barricadas por medo do medo.
Eu quero viver, não quero encerrar-me.
Não quero ser amigável por medo de ser sincero.
Quero pisar firme porque estou seguro.
E não porque encobri meu medo.
E quando me calo, quero fazê-lo por amor.
E não por temer as conseqüências de minhas palavras.
Não quero acreditar em algo só por medo de acreditar.
Não quero filosofar por medo de que algo possa atingir-me de perto.
Não quero dobrar-me só porque tenho medo de não ser amável.
Não quero impor algo aos outros, pelo medo de que possam impor algo a mim.
Por medo de errar não quero tornar-me inativo.
Não quero fugir de volta para o velho, o inaceitável, por medo de não me sentir seguro no novo.
Não quero fazer-me de importante porque tenho medo de que senão poderia ser ignorado.
Por convicção e amor quero fazer o que faço e deixar de fazer o que deixo de fazer.
Do medo quero arrancar o domínio e dá-lo ao amor.
E quero crer no reino que existe em mim

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Ei-ichi Negishi – NOBEL DA QUÍMICA 2010


Negishi defende a teoria da síntese orgânica, que pode resolver os problemas do mundo, com novos métodos de síntese de compostos químicos complexos, mediante acoplamentos cruzados por paládio. Os métodos que desenvolveu transformaram a Acão das indústrias químicas (agrícola ou farmacêutica) e revolucionaram os laboratórios de sínteses orgânicas em todo o mundo.
Nigishi alega: «Para prevenir a fome precisamos de comida e a química pode ajudar. A maior parte das coisas que precisamos são químicos orgânicos e isso pressupõe carbono. A população está a crescer e no próximo século será imensa e precisamos de outro planeta».

Negishi defende como solução a síntese orgânica: dióxido
  de carbono (CO2) e água (H2O), matérias-primas essenciais. Presentemente, o dióxido de carbono é considerado desperdício e mau para o ambiente. Mas esse é um mau princípio, do ponto de vista científico, porque a natureza usa dióxido de carbono e água, para produzir hidratos de carbono e outros materiais orgânicos.»

terça-feira, 24 de abril de 2012

LIVROS





Nas estantes os livros ficam 
(até se dispersarem ou desfazerem) 
enquanto tudo 
passa. O pó acumula-se 
e depois de limpo 
torna a acumular-se 
no cimo das lombadas. 
Quando a cidade está suja 
(obras, carros, poeiras) 
o pó é mais negro e por vezes 
espesso. Os livros ficam, 
valem mais que tudo, 
mas apesar do amor 
(amor das coisas mudas 
que sussurram) 
e do cuidado doméstico 
fica sempre, em baixo, 
do lado oposto à lombada, 
uma pequena marca negra 
do pó nas páginas. 
A marca faz parte dos livros. 
Estão marcados. Nós também. 

Pedro Mexia, in "Duplo Império"

sábado, 21 de abril de 2012

MOVIMENTOS CÍVICOS ESPONTÂNEOS




Tema | 
“Movimentos cívicos espontâneos”

MoteOs movimentos cívicos, independentemente do seu mote, são o reflexo do pensamento e vivência social, movidos por uma vontade e força única de alcançar algo mais e melhor.
O cidadão deve não só ter consciência dos seus deveres como também dos seus direitos, deve procurar ouvir e fazer-se ouvir, sendo neste sentido que a união, a consciência colectiva e a reflexão devem solidificar esses princípios. É de facto, a partir desta consciência que têm vindo a surgir e a ampliar-se, nos mais variados contextos, os movimentos cívicos espontâneos, uma força que procura mover as mudanças sociais.
Estes movimentos perduram e continuarão a ser reproduzidos enquanto os cidadãos se questionarem; alimentam-se, de facto, da procura de mudança, do desejo de ampliação dos direitos sociais, da utopia da democracia e da importância efectiva da cidadania.
Em suma, a cidadania, como processo histórico que depende da força organizativa e mobilizadora dos cidadãos, assim como das organizações e associações sociais por eles criadas, impulsiona e fomenta a procura de dois princípios fundamentais da democracia - a igualdade e a liberdade.
A presença e progressiva reacção social no contexto em que actualmente se vive é constante e será tema de discussão, debatendo-se causas e razões e, sobretudo, fazendo-se entender que a qualidade da cidadania depende não só da participação no diálogo e na estrutura organizacional do País, como também da acção cidadã na procura consciente e reflectida da ampliação e efectiva implementação dos seus direitos e prática dos seus deveres.


Se uma manifestação pacífica é uma ferramenta efectiva da prática livre de expressão, porque são encaradas como uma apropriação abusiva do espaço público e controladas forçosamente? Partindo do pressuposto que a partir da comparação se pode melhorar, porque não se compararam situações passadas e são, hoje, novamente vividas? Ao vivermos hoje, num mundo global completo por um “todo” interligado, não será a capacidade de conjugar recursos, percepções e inquietações reais, uma forma de ampliar os contributos de uma gestão pública consciente?
Conscientes da importância do uso livre da expressão, propõe-se uma conversa que visa despertar para a importância da cidadania activa na organização da sociedade; reflectir sobre os mecanismos sociais; analisar o papel dos novos meios de comunicação e o impacto que exercem neste contexto, bem como conhecer e compreender os diferentes movimentos cívicos que representam as inquietações da sociedade contemporânea.

Local | Palácio das Artes – Fábrica de Talentos, Largo de S. Domingos, Porto

Data | 26 de Abril (Quinta-feira)