O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

ISABELLE EBERHARDT – ESPÍRITO NÓMADA

Em Outubro de 1904 um rio transbordante arrasa as casas do bairro de Ain Sefra em Argel. Entre os escombros de uma casa humilde encontram o cadáver de uma mulher europeia. Pouco tempo depois descobre-se a sua identidade, é a escritora suíça Isabelle Eberhardt, que encontrou no Sara argelino a sua verdadeira casa e se integrou plenamente na vida dos nómadas. Da lama foram ainda resgatados os seus manuscritos e diários íntimos, que relatam os sete anos intensos vividos desde a sua chegada à Argélia, em 1897, com a idade de 20 anos.
É preciso ler os seus relatos, de um estilo directo e vigoroso, para compreender a complexa e fascinante personalidade desta mulher rodeada de uma aura de lenda. Ninguém como ela retratou as paisagens e as gentes do Norte de África e esses desertos infinitos com os quais sonhava desde menina.
Nestes mares de areia podia ser livre, viver longe do asfixiante ambiente familiar onde cresceu e foi educada. «Serei nómada toda a minha vida, amante dos horizontes que mudam, das paragens distantes ainda inexploradas, pois toda a viagem, ainda que às regiões mais frequentadas e conhecidas, é uma exploração», anotou no seu diário. A viagem iniciática ao Sul de Isabelle não teve nada de exótico; precisava de encontrar o sossego na solidão das dunas.
Isabelle nasceu em Genebra em 1877. Filha de pais russos exilados, foi educada como se fosse um rapaz pelo tutor, um filósofo extravagante e erudito chamado Vava. Foi ele quem lhe ensinou, entre outras coisas, grego, latim, turco, árabe, alemão, italiano e, principalmente russo. Desde muito jovem que despreza as peças de roupa femininas e prefere vestir-se como um rapaz. Os que a conheceram falam da sua ausência de feminilidade e das suas maneiras varonis. Nos escassos relatos que dela se conservam parece uma adolescente, mas é denunciada pela beleza excessiva dos seus traços.
Já nessa altura se sente fascinada pela cultura do Islão, lê o Corão, no original, e escreve árabe sem a menor dificuldade. Nas cartas que escreve refere-se a si mesma no masculino e utiliza nomes diferentes, entre eles Mahmoud Saadi ou Nicolas Podolinski. Durante a sua curta mas intensa vida, Isabelle jogará sempre com a sua identidade. A chegada à Argélia veste como um árabe, tem o cabelo cortado à escovinha e ninguém percebe que sob a túnica branca se esconde uma bonita europeia, muçulmana de coração.
O seu comportamento escandalizará a sociedade colonial, que não pode compreender que esta jovem vestida como um rapaz muçulmano, que só se relaciona com os nativos, chegue a ser membro de uma das confrarias muçulmanas mais influentes e viva um amor apaixonado com um muçulmano.
Depois da repentina morte da mãe e, mais tarde, do tutor, ela decidiu viajar até Tunes. Viveu ali, numa casa velha do bairro mais antigo. «Ali, na fresca penumbra, no silêncio apenas perturbado pelo canto melancólico das chamadas à oração, passavam os dias, deliciosamente lânguidos e de uma doce monotonia sem tédio…» Nas estreitas ruelas, que ainda hoje cheiram a jasmim, Isabelle perdeu-se dias a fio, aspirando os aromas e admirando os belos palácios e mesquitas. Não é difícil imaginá-la misturada entre a gente dos bazares, sentada nos cafés a discutir o Corão com muçulmanos ilustrados, ou talvez a contemplar o entardecer numa açoteia.
O deserto e a vida nómada dos seus habitantes iam ser outra das suas grandes descobertas. Depois do seu descanso em Tunes, Isabelle viajou até o Sara, percorreu o deserto de Biskra até Tuggourt e renasceu nela a paixão da viagem. Fez-se passar por um jovem tunisino em viagem de instrução espiritual. Quando finalmente chega a El Oued, descobre o grande oásis do Suf e a alma do País da Areia revela-se-lhe. Nunca esquecerá esta primeira visão. «Jamais, em região alguma da terra, tinha visto um entardecer ornamentar-se de cores tão mágicas…»
Um ano depois daquele encontro, regressou a El Oued com a ideia de ficar a viver ali. Era feliz a cavalgar pelo deserto, acompanhando as tribos de pastores nómadas nas suas longas deslocações e adormecendo nas suas tendas, debaixo das estrelas. «Grandes e belos são os nómadas…aqui estão em sua casa, na grandeza vazia do seu horizonte ilimitado onde vive e reina a esplêndida luz soberana», escreveu nos seus diários.
Com frequência caía vítima de malária, mas recusou-se a abandonar a vida de vagabunda que a tinha agarrado e além disso iniciou-se noutra vida marcada pelo misticismo. Poucos dias da chegada conheceu aquele que se tornaria seu companheiro inseparável, Sliméne, um jovem oficial árabe com o qual viverá um apaixonado amor. Durante a sua estada foi iniciada pelos importantes membros da importante confraria dos Quadirya e aprendeu as técnicas sufitas de êxtase místico. Tendo em conta o carácter fechado destas irmandades, é surpreendente que tenho sido aceite, sendo além de tudo o mais mulher e europeia.
Isabelle começou uma nova vida de retiro e pobreza, afastada da civilização, e estava cada vez mais segura de ter por fim encontrado o seu lugar no mundo: «Sim, eu amo o meu Sara com um amor obscuro, misterioso, profundo e inexplicável, mas real e indestrutível. Agora parece-me que já não podia voltar a viver longe destes países do Sul».
No entanto teve de abandonar à força a Argélia quando as autoridades francesas ordenaram a sua expulsão. A jovem rebelde, crítica do colonialismo francês, à qual não era perdoado o passado anarquista, era uma figura incómoda. Mudou-se para Marselha, onde a melancolia a invadiu. Sonhava apenas com o reencontro com Silmène, com quem se tinha unido num casamento muçulmano. Ao adquirir nacionalidade francesa regressou do exílio, estabeleceu-se em Argel, e continuou a escrever artigos, relatos e os seus diários.
A sua última viagem foi a Uchda, em Marrocos, e depois de percorrer o sul oranês, e sentindo-se já muito doente, regressou a Ain Sefra. Antes de morrer, e segura da sua recuperação, anotou nos seus cadernos: «Sei que voltarei a contrair a febre da vida errante, que voltarei a partir. Sim, sei que ainda estou muito longe da sabedoria dos faquires e dos anacoretas muçulmanos».
A lama acabou com a sua vida, mas salvaram-se as suas palavras carregadas de poesia que ainda fazem sonhar e estremecer os viajantes que se adentram na magia do Magreb e seguem as suas pegadas nas dunas do Suf.

FONTE: Moratò, Cristina – Viajeros Intrepidas y Aventureras (ed. Plaza y Janés)

ETTA JAMES (1938-2012)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

ART- DÉCO - MA BELLE-ÉPOQUE...

Janela Rua Galeia de Paris, Porto


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

MARY KINGSLEY – A RAINHA AFRICANA

Enfrentou a desconhecida África Ocidental, foi a responsável pelos mais importantes estudos de campo realizados na área, e tudo sem nunca renunciar à sua indumentária vitoriana.
Será que o escritor Cecil Scott Forester, autor de «A Rainha Africana» conheceu Mary Kingsley, quando criou a personagem de Rose Sayer, interpretada no cinema por Katharine Hepburn? A rígida e puritana solteirona que viveu com o irmão numa missão perdida na selva, tem muito em comum com Mary Kingsley, a exploradora inglesa, nascida em 1862, também solteirona e disposta a enfrentar todas as adversidades.
No século XIX, o interior de África era ainda uma terra incógnita e, eram poucos os europeus, que se aventuravam a viajar, por aquelas regiões remotas povoadas de «animais ferozes, canibais e uma natureza indomável».
Mary, ao contrário das suas contemporâneas, viaja com pouca bagagem, recusa ser transportada, só contrata bagageiros quando é imprescindível, cruza pântanos a nado, aprende a manobrar sozinha uma piroga, dorme ao «ar livre» e come a comida dos selvagens, os seus únicos luxos são uma almofada e o chá.
Kingsley realizou os estudos de campo mais completos até então na África Ocidental, além de ter criticado alguns colonialistas e missionários acusando-os de forçar os nativos a aceitar uma cultura branca «asquerosa e em segunda mão». Mas antes teve de enfrentar aqueles que não aceitavam que uma mulher pudesse ir além dos limites do lar e que rotulavam o seu comportamento como «pecaminoso e antinatural».
Ninguém podia imaginar que um inquieto espírito aventureiro se escondesse por detrás de uma tranquila mulher solteirona dedicada às tarefas domésticas e a cuidar de uma mãe doente e de um irmão mais novo. Mary, filha de um médico e de uma «criada», não conheceu até aos 30 anos mais mundo do que o das quatro paredes de sua casa. Educou-se de maneira autodidacta, devorando os livros da biblioteca paterna e consultando mapas de países remotos.
Quando ficou sem encargos familiares, depois da morte dos pais e do irmão ter partido para o Oriente, partiu para a África Ocidental. «Parti para África para morrer, a África divertiu-me, foi amável comigo e não quis matar-me imediatamente». Mary dirigiu-se rumo ao golfo de Benim, conhecido então como «o túmulo do homem branco».
Mary viajou a bordo de cargueiros que faziam intermináveis escalas em todos os portos, alojou-se em missões remotas e dormiu ao ar livre em canoas. Teve de se haver com leopardos, crocodilos e gorilas enquanto atravessava sozinha territórios por cartografar. A interminável lista de mortíferas e exóticas doenças as quais se expôs teriam feito empalidecer o viajante mais experiente.
A primeira viagem foi a bordo do cargueiro Lagos, em 1893, e visitou, entre outras terras, a Serra Leoa, a Libéria, a Costa do Ouro, o Benim, os Camarões e Angola. Quando os europeus que encontrava, lhe perguntavam que fazia uma mulher sozinha naquelas latitudes ela respondia que procurava o marido desaparecido na selva.
Ao fim de seis meses regressou viva e com uma boa colecção de peixes e escaravelhos que recolheu para o Museu Britânico. Decidida a conseguir novas espécies de peixes de água doce procedentes dos rios Congo e Niger, partiu outra vez, rumo a Calabar. Desta vez visitou a ilha de Fernando Pó e realizou um minucioso estudo sobre a etnia bubi. Durante esta longa viagem, como não tinha financiamento algum, dedicou-se ao comércio com os nativos, trocando panos, rum e anzóis por víveres, alojamento e peixes para a colecção.
Quando chegou ao Congo, subiu o imponente rio Oguooué na companhia de carregadores e instalou o seu centro de operações na missão de Lambarené. A partir de lá visitou os temidos canibais, que devem ter ficado boquiabertos ante a presença de uma mulher vestida daquela maneira e que se arriscava a pescar nos pântanos, rodeada de insectos e crocodilos.
Antes de chegar a Inglaterra chegou ao topo do Monte Camarões por uma via até então desconhecida, sem qualquer experiência em montanhismo.
Nessa altura já era uma celebridade em Londres e o seu livro mais famoso «Travels in West Africa», transformou-se rapidamente num êxito de vendas. Todos queriam conhecê-la e tinha inúmeros convites para conferências. E ela gostava de contar as suas histórias, como a daquela vez em que saiu de um rio com uma colecção espantosa de sanguessugas à volta do seu pescoço ou quando afugentou um hipopótamo que tentava voltar-lhe o barco e lhe acariciou a orelha com a ponta da sobrinha. Era difícil conter o riso perante aquela mulher pequena e apertada num corpete que contava, muito séria, as suas viagens.
Mary Kingsley não morreu na sua amada costa da África Ocidental, como teria gostado, mas na África do Sul, onde trabalhou como enfermeira a cuidar dos prisioneiros boers. Morreu com 39 anos, vítima de uma doença tropical, e o seu único desejo foi que atirassem o seu corpo ao mar. Nunca pensou ter feito nada de outro mundo, embora tenha tido a admiração, entre outros, de Rudyard Kipling, o autor de «O Livro da Selva», que a apontava como a mulher mais corajosa que alguma vez tinha conhecido

Fonte: MORATÓ, Cristina, Viajeras Intrepidas y Aventureras (ed. Plaza y Janés)

domingo, 15 de janeiro de 2012

HOMENAGEM A NADIR AFONSO

O TNSJ (Teatro Nacional de S. João) presta uma homenagem a Nadir Afonso, arquitecto, ensaísta, pintor, autor de uma obra estruturada no contexto artístico internacional com persistente pioneirismo, construída em total liberdade, o que lhe permitiu manter, em paralelo, várias orientações e linhas de trabalho.
Esta homenagem consta de uma exposição de fotografias, um filme e um livro. Três modos complementares de aceder à «intimidade» de uma vida e de uma obra.

NADIR AFONSO – NO TEMPO E NO LUGAR, fotografias de Olívia da Silva

Estar sem invadir, captar as observações diegéticas do pintor como se este apenas falasse consigo, com as linhas e cores.

NADIR AFONSO conversa com Agostinho Santos

Um livro indispensável para conhecer a obra e o homem. Intermináveis conversas, onde se conhece uma personalidade ainda e sempre desconcertante, inquieta, frontal.

NADIR AFONSO – O TEMPO NÃO EXISTE - Filme de Jorge Campos

Observação do dia a dia de Nadir na companhia da família, ouvindo-o e vendo-o deambular em volta da pintura, mergulhado nas suas raízes rurais. Trás-os-Montes, campo e contracampo da essência matemática da arte e da natureza não por acaso o centro de gravidade da poética de Nadir Afonso.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

VIVE LA FRANCE!

Sem qualquer alusão política (França perdeu triplo A, numa revoada de 9 mexidas de notação pela Standard & Poor's)!

A Casa da Música dedica o ano de 2012 à França e deste modo vai ouvir-se muita música francesa, também é celebrado os 150 anos do nascimento de Claude Debussy.
Neste concerto, além da obra Reverso, solo para orquestra nº. 6 de Pascal Dussapin, compositor contemporâneo em residência 2012, foi tocada a SINFONIA FANTÁSTICA de HECTOR BERLIOZ, que é realmente FANTÁSTICA!
É a primeira sinfonia de um jovem estudante, mas demonstra uma audácia e capacidade de inovação surpreendentes a par de uma mestria de orquestração genial.
Aos 25 anos, Berlioz, apaixona-se perdidamente pela actriz irlandesa Harriet Smithson. Inspiradas neste seu amor compõe: A Sinfonia Fantástica e Romeu e Julieta.
Esta sinfonia é programática: Episódio na vida de um artista – e relata alguns dos momentos da sua paixão pela actriz. A existência do programa torna unívoca a interpretação da música, esclarece o seu sentido aos ouvintes e explica a sua forma. Alguns pormenores de instrumentação como as harpas, o corne inglês e os sinos são pela primeira vez utilizados em música sinfónica. A sinfonia tem 5 andamentos: 1- Sonhos e Paixões, 2- Um Baile, 3 – Cena nos Campos, 4 – Marcha para o suplício, 5 – Sonho de uma Noite de Sabbat. Características originais na época. Uma outra inovação inserida por Berlioz é o conceito de ideé-fixe, um tema melódico, associado a uma personagem (neste caso a sua amada), que surge de forma recorrente ao longo da obra.
Berlioz dedicou o seu tempo mais à regência do que â composição, mas deixou uma obra bastante interessante. Era um amante da literatura, e muitas de suas melhores composições são influenciadas por obras literárias. Para compor, A Danação de Fausto, baseou-se no Fausto de Goethe, para Harold na Itália em Childe Harold, de Lord Byron, para Benvenuto Cellini, na autobiografia de Cellini, assim como Romeu e Julieta em Shakespeare e a sua grande obra Les Troyens , foi inspirada pela leitura da Eneida de Virgilio.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

UM LIVRO, UM FILME, UM POEMA.

HEART OF DARKNESS, de JOSEPH CONRAD

O livro relata a experiência de um comandante de navio que vai trabalhar para uma companhia comercial na África. Lá ele encontra um homem misterioso, um dos melhores homens da companhia, considerado por todos um verdadeiro génio, mas que acaba completamente louco e doente, morrendo na viagem de volta ao posto da companhia. Numa primeira leitura, o livro é uma denúncia do colonialismo europeu, que comete as maiores barbaridades contra os colonizados em nome de uma missão civilizadora. Ao descrever a exploração e as contradições dos colonizadores Conrad acaba retratando a exploração humana de um modo mais amplo, o que pode acontecer não só numa colónia mas também em outras situações de exploração irresponsável. Este é um dos livros mais lidos e comentados de todos os tempos.


APOCALIPSE NOW, de FRANCIS FORD COPPOLA


Baseado no livro Heart of Darkness de Joseph Conrad.

Em plena Guerra do Vietname, por volta de 1969, um alto comando do exército americano designa o capitão Willard para matar o coronel Kurtz, que tinha enlouquecido, chegando a assassinar inocentes no interior da selva do Camboja. Subindo o rio num barco de patrulha e escoltado por quatro soldados, Willard depara-se com situações inacreditáveis e absurdas geradas pela guerra enquanto examina os documentos a respeito do coronel. Ao chegar ao seu destino, percebe que os nativos adoram Kurtz como a um deus e terá de decidir se cumpre ou não a sua missão.

COM: Martin Sheen,Marlon Brando, Robert Duvall....

POEMA «THE HOLLOW MEN» de T.S. ELIOT

Poema que o Coronel Kurtz lê a Willard.


OS HOMENS OCOS

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dissecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos rectos, para o outro reino da morte
Nos recordam - se o fazem - não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frémito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

- Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

III

Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão erectas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trémulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.

IV

Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Neste último sítio de encontros
Juntos tacteamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio

Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.

V

Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada

Entre a ideia
E a realidade
Entre o movimento
E a acção
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reacção
Tomba a Sombra
A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o Reino

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.

(tradução: Ivan Junqueira)

http://www.culturapara.art.br/opoema/tseliot/tseliot.htm