O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Destino, Acaso ou Coincidência

Podemos muito bem, se for esse o nosso desejo, vaguear sem destino pelo vasto mundo do acaso. Que é como quem diz, sem raízes, exactamente da mesma maneira que a semente alada de certas plantas esvoaça ao sabor da brisa primaveril. 
E, contudo, não faltará ao mesmo tempo quem negue a existência daquilo a que se convencionou chamar o destino. O que está feito, feito está, o que tem se ser tem muita força e por aí fora. Por outras palavras, quer queiramos quer não, a nossa existência resume-se a uma sucessão de instantes passageiros aprisionados entre o «tudo» que ficou para trás e o «nada» que temos pela frente. Decididamente, neste mundo não há lugar para as coincidências nem para as probabilidades.


Haruki Murakami, in 'Em Busca do Carneiro Selvagem'



terça-feira, 31 de julho de 2012

NEDKO SOLAKOV: TUDO POR ORDEM, COM EXCEPÇÕES


Nedko Solakov (1957, Cherven Briag. Vive e trabalha em Sófia, na Bulgária) é um dos artistas que protagoniza a cena artística contemporânea, como se poderá constatar pela sua participação com um grande projecto, neste momento, na 13ª edição da Documenta de Kassel. Solakov utiliza uma grande diversidade de técnicas artísticas, do desenho à pintura, da fotografia à colagem, da escultura à instalação, do texto ao vídeo, para desmascarar, por vezes através de um humor afinado e certeiro, as convenções da vida quotidiana, os estereótipos dos sistemas de comportamento e de pensamento contemporâneos, articulando as suas histórias pessoais com a história colectiva, a esfera privada com a dimensão social, a realidade e a imaginação.

Patente no MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA DE SERRALVES, uma grande quantidade e diversidade de desenhos, quadros, pinturas murais, fotografias, vídeos, reconstituições de instalações, assim como a apresentação de projectos até agora nunca realizados, feitos especialmente para esta exposição.
De certo modo, a exposição transforma-se numa outra obra que se junta às obras de arte que apresenta, num projecto ambicioso que reconstitui toda a vida e o trabalho de Nedko Solakov, num percurso autobiográfico que as suas salas nos propõem. A vastidão e a diversidade da obra produzida em trinta anos de actividade artística, que atravessaram também importantes mudanças históricas no seu país, a Bulgária, assim como na Europa, serão também acessíveis aos visitantes através de um sistema de apresentação de pastas de arquivo que o artista criou especialmente para esta ocasião, abrindo possibilidades para um conhecimento tão pessoal quanto enciclopédico do mundo de Nedko Solakov, filtrado pelo seu agudo sentido de humor.
















Coleccionador de arte no deserto, com peças cedidas pelo Museu Soares dos Reis e Museu de Serralves,

quarta-feira, 18 de julho de 2012

LUCIEN FREUD


As artes atravessam um período de saturação, um deserto de cansadas reelaborações, Se forem fieis ao real, poucas pessoas sabem ser originais, se o caminho for a abstração fácil é cair na trivialidade. A pintura que chama a atenção…por ex- Lucien Freud! A pintura tem que nos incomodar, causar repulsa… ser   humana! Como está tudo inventado é preciso fazer isso, tocar a consciência.

ALAIN RESNAIS

Em Hiroshima Meu Amor e o Último Ano em Marienbad é visível uma leitura da consciência. Dá-nos o sentimento do eu e do que o mundo é, condição necessária para existir a consciência moral. A consciência é uma sombra projectada sobre a nossa imaginação. A imaginação é dominada pelo problema da sobrevida do próprio e do outro. Esta sombra é a sombra da vida. Tudo que chamamos arte não acontece  por acaso, são produtos da mente humana que estão preocupados com a condição humana. Isto é a grande arte, porque se não for assim não é grande arte. O ponto de vista interior de pessoas não normais. A anormalidade de um ser conduz à diferença, de uma forma ou de outra!
 

quinta-feira, 12 de julho de 2012

L'ÀPRES-MIDI D'UN FAUNE

Prelúdio L'ÀPRES-MIDI D'UN FAUNE", baseado no poema de Mallarmé, causou estranheza pela 'ausência de melodia': Debussy lançou na verdade, a sugestão de um tema melódico, sem desenvolvimento.

”Que à exaltação dos teus sentidos atribuis?
Fauno, a ilusão se escapa dos olhos azuis
E frios, como fonte em prantos, da mais casta
Toda suspiros, a outra, achas que ela contrasta
Qual brisa matinal
 quente no teu tosão?
Mas não! no lasso espasmo e na sufocação
Do calor, que a manhã combate, não murmura
Água se não a verte a minha flauta pura”


O poema «L'ÀPRES-MIDI D'UN FAUNE», de Stéphane Mallarmé, foi um marco na literatura francesa, como expoente do simbolismo e cujo refinamento lírico fez com que Paul Valéry o considerasse como o maior poema da literatura da França. Na obra o autor retrata um fauno a relembrar as aventuras sensuais que tivera pela manhã, junto às ninfas.




quarta-feira, 11 de julho de 2012

NO MEU CASULO

Faço a ronda pela estante dos livros. Retiro Gedeão… ouço o trisavô Bach, dulcificador do tempo e beberico um chá frio. Absorvo poemas e fixo-me num que me retém. Farpeia-me a alma e deixa-me errante na parede amarelecida, em frente! O ruido da rua sobressalta-me, aproximo-me da janela, do mundo complexo e estranho, que também é o meu! Isolo-me da cidade, mas nela estou e soletro em  surdina um excerto do poema de Gedeão!



Tanto sonho! Tanta mágoa!
Tanta coisa! Tanta gente!
São automóveis, lambretas,
motos, vespas, bicicletas,
carros, carrinhos, carretas,
e gente, sempre mais gente,
gente, gente, gente, gente,
num tumulto permanente
que não cansa nem descansa,
um rio que no mar se lança
em caudalosa corrente.





sábado, 7 de julho de 2012

O ESPLENDOR DO ESPAÇO


Joseph Mallord William Turner (Londres, 23 de Abril de 1775 - Chelsea, 19 de Dezembro de 1851), pintor romântico, considerado por alguns um dos precursores do Impressionismo, em função dos seus estudos sobre cor e luz.
Romântico na pesquisa extrema de um absoluto que excede o real e encontra na sensibilidade, intuição e imaginação, o seu ponto de referência, a sua maior garantia de autenticidade. Romântico nos seus grandes temas e na sua expressão, na comunhão da paisagem e do sonho, na apoteose da tragédia, na sua recusa, na sublimação da dor e na afirmação de um espaço de cor e de luz, que é também o do espírito. Perturbadora no elo que não deixa nunca de estabelecer com o mundo perceptível, ainda que este tenha sobretudo o valor de uma metáfora.