O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

segunda-feira, 1 de abril de 2013

RUA DE NENHURES


PEDRO TAMEN, lançou o seu 20º título «RUA DE NENHURES», Editora D. Quixote.
Um livro temático, como muitos outros que publicou.

De «RUA DE NENHURES»

Ardes-me no peito onde a custo
o meu amor perpassa, e vai até
às loucuras do corpo
e às agruras da alma.
Ardes-me no minuto, no segundo,
na hora amaciada por olhos entrevistos,
ardes-me no sangue obstruído
e na certeza muda que me diz
que o coração existe.


De cabelo crestado pela língua de fogo,
queimado segui pelo caminho
com as pústulas antigas, renovadas
na ciência que tinha agora delas.
Segui pelo caminho até ao monte crânio,
com as costas vergadas a tal peso
que a morte prometida me entregou.
E o meu único alívio, tuas mãos,
tuas mãos, meu sudário,

+++

Corro, feito merda, para os braços
teus, inexistentes, são-não-são,
pisco os olhos segados mas não cegos,
estremolhado de um sono sonegado,
abano abananado, meço-me, estremeço-me
( não é meu este fato, pesa, é do adelo),
será que ainda corro, ou morro, isto que é,
que nave me trabsporta, e a que porta?

E no baloiç’oiço a musa infusa,
acordo enfim plantado onde não estou.

Pedro Tamen. 64 poemas de um «não lugar».

quarta-feira, 27 de março de 2013

SHAKESPEARE

O Retrato de Chandos; pintura atribuída a John Taylore com autenticidade desconhecida. National Portrait Gallery, London.

O grande crítico e historiador francês Hyppolite Taine dizia que Shakespeare, tem o maior repositório de documentos que possuímos sobre a natureza humana'. Os sentimentos sublimes, os sórdidos, a perversidade, a generosidade, a melancolia, o desespero, a paixão correspondida, a paixão sem esperança, a paixão proibida, o deboche, a ironia, o humor corrosivo, o humor ingénuo, o ciúme, a inveja, a ambição pelo poder, enfim, tudo está plasmado em dezenas de peças de teatro e poemas do bardo inglês, um legado que se constitui numa das manifestações artísticas mais importantes da humanidade.
William Shakespeare criou personagens, dramas e comédias, que ganharam  as ruas, mentes e corações do mundo inteiro. Um fenómeno sem fronteiras. Frases e idéias de Shakespeare, tornaram-se ditos populares, aforismos, anedotas e expressões que se repetem através dos séculos (e muita gente nem desconfia da autoria). 'Nem tudo que reluz é ouro' foi criada por Shakespeare e faz parte do monólogo do príncipe de Marrocos no segundo ato de O mercador de Veneza; 'o que não tem remédio, remediado está' vem de Otelo; 'Meu reino por um cavalo', de Ricardo III; 'Há algo podre no reino da Dinamarca' e 'há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia' são de Hamlet. E isso é só o começo da avassaladora riqueza e inteligência da obra shakespeariana

segunda-feira, 25 de março de 2013

AFONSO LOPES VIEIRA


Afonso Lopes Vieira (Leiria, 26 de janeiro de 1878 — Lisboa, 25 de janeiro de 1946) é um poeta português, pouco divulgado, num país onda existem muitos bons poetas.
Foi um cidadão do mundo, mas não esqueceu as suas origens, conservando as imagens de uma Leiria de paisagem bucólica e romântica, rodeada de maciços verdejantes plantados de vinhedos e rasgados pelo rio Lis, mas, sobretudo, de São Pedro de Moel, paisagem de eleição do escritor, enquanto inspiração e génese da sua obra. O Mar e o Pinhal são os principais motivos da sua poética.
Nestas paisagens o poeta confessa sentir-se «[…] mais em família com o chão e com a gente», evidenciando no seu tratamento uma apetência para motivos líricos populares e nacionais. Essencialmente panteísta, leu e fixou as gentes, as crenças, os costumes, e as paisagens de uma Estremadura que interpretou como «o coração de Portugal, onde o próprio chão, o das praias, da floresta, da planície ou das serras, exala o fluido evocador da história pátria; província heróica, povoada de mosteiros e castelos…»
Lopes Vieira é considerado um eminente poeta, um dos primeiros representantes do Neogarretismo e esteve ligado à corrente conhecida como Renascença Portuguesa.

Pinhal do Rei

Encantado jardim da minha infância,
aonde a minh'alma aprendeu;
a música do Longe e o ritmo da Distância
que a tua voz marítima lhe deu;
místico órgão cujo além se esfuma
no além do Oceano, e onde a maresia
ameiga e dissolve em bruma,
e em penumbra de nave, a luz do dia.
Por estes fundos claustros gemem
os ais do Velho do Restelo...
Mas tu debruças-te no mar e, ao vê-lo,
teus velhos troncos de saudades fremem...
Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
que vedes no mar?
Ai flores, ai flores do Pinhal louvado,
são as caravelas, teu corpo cortado,
é lo verde pino no mar a boiar.

....
Afonso Lopes Vieira
(In Onde a Terra se Acaba e o Mar Começa)

quarta-feira, 20 de março de 2013

Quasimodo


Salvatore Quasimodo (20/8/1901-14/6/1968), poeta, tradutor e crítico italiano. Nobel de Literatura (1959). Nascido na Sicília, filho de um ferroviário, inicia os seus estudos na cidade de Siracusa. Forma-se matemático em Palermo e, mais tarde, conclui o curso de engenharia em Roma. Ganha a vida como engenheiro e funcionário público nos dez anos seguintes e escreve poesia nas horas vagas até 1935, quando abandona a carreira para ensinar literatura italiana em Milão.
Os seus primeiros poemas, publicados num jornal literário de Florença, revelam a sua ligação com os poetas herméticos Giuseppe Ungaretti e Eugenio Montale. São versos curtos, de estilo sofisticado, sobre temas pessoais, próprios do intimismo dos poetas herméticos.
Com a publicação da primeira coletânea de poesias Águas e Terras (1930), assume gradativamente a liderança dessa tendência literária até os anos 40. A sua fase hermética termina com o final da II Guerra Mundial e a publicação de Dia Após Dia (1947). A partir daí, detém-se sobre as injustiças do regime fascista e os horrores do conflito mundial. Publica A Terra Incomparável (1958), Toda Poesia (1960) e O Dar e o Ter (1966).
Quasimodo é responsável também por traduções para o italiano de escritores clássicos, como Sófocles e Eurípedes, Catulo, Ovídio e Virgílio, e contemporâneos, como o norte-americano E.E. Cummings e o chileno Pablo Neruda.

NÃO PERDI NADA
Estou Aqui agora, o sol gira 
às minhas costas como um falcão e a terra
 
repete minha voz na tua.
 
Recomeça o tempo visível
 
no olho que redescobre a luz.
 
Não perdi nada.
 
perder é andar mais além
de um diagrama do céu
em movimentos de sonhos, um rio
 
pleno de folhas.
 
 
 
INVERNO ANTIGO
 
 
Desejo de tuas mãos claras
 
na penumbra da chama:
 
sabiam a carvalho e a rosas;
 
a morte. Inverno antigo.
 
 
 
Buscavam o milho os pássaros
 
e de repente eram de neve;
 
igual as palavras.
 
Um pouco de sol, uma auréola de anjo,
 
e depois a névoa; e as árvores,
 
e nós feitos de ar pela manhã.
 


AGUAMORTA 

Água estagnada, sonho dos pântanos
que em longa lâmina maceras veneno,
ora branca ora verde nos relâmpagos,
te assemelhas a meu coração.
O álamo se acinzenta em torno do azevinho;
as folhas e as bolotas se aquietam dentro,
e cada uma tem seus círculos de único centro
franzidos pelo profundo zumbido do vendaval.
Assim, como sobre a água
 
a lembrança estende seus anéis, meu coração;
se move de um ponto e logo morre:
assim tua irmã é águamorta.
(do livro "Acque e Terre",1920-1929)



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O Jogo de Forças

William-Adolphe Bouguereau
A beleza começou por ser uma explicação que a sexualidade deu a si-própria de preferências provavelmente  de origem magnética. Tudo é um jogo de forças, e na obra de arte não temos que procurar «beleza» ou coisa que possa andar no gozo desse nome. Em toda a obra humana, ou não humana, procuramos só duas coisas, força e equilíbrio de força - energia e harmonia. 
Perante qualquer obra de qualquer arte - desde a de guardar porcos à de construir sinfonias - pergunto só: quanta força? quanta mais força? quanta violência de tendência? quanta violência reflexa de tendência, violência de tendência sobre si própria, força da força em não se desviar da sua direcção, que é um elemento da sua força? 

Fernando Pessoa, in 'Correspondência'

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

MANUEL DE FREITAS

Ode à noite (inteira)

Gosto do momento, exacto ou nem por isso,
em que se torna possível colar cartazes
nas paredes ao lado dos meus ombros (espero

o autocarro, vejo devagar, sorrio). Mas
gosto, sobretudo, dos cães quase sem dono
que roçam as esquinas, pisando restos de garrafas
– ou das pessoas que desconheço
e das bebidas todas que ignoro
(porque me matam menos e se chamam
– como eu – insónia, pesadelo, golpe baixo).
Existem, claro, raparigas louras um tanto
heterodoxas que não te apetece beijar
(a forca do bâton, perfeita – o cigarro aceso
pedindo outro lume). Essas mesmas que hão-de
um dia procriar com zelo, evitando rugas,
tumores e o mundo como representação misógina.
Mais lírica, sem dúvida, é a lavagem das ruas,
com a cerveja a premiar a farda
demasiado verde e os bigodes de serviço.
Outros, alguns, tornam concreto o torpor
de um charro e pedem-te em crioulo básico
um cigarro português que tu vais dar,
sem esforço nem palavras. Entre shots, piercings,
t-shirts de Guevara e gel, podes não acreditar
por algumas horas no axioma frágil do teu corpo.
Esfumas-te, como eles, no espelho de um bar
qualquer, país de enganos e baratas. E
quase gostas disso, quase: a música de punhais,
servil, um certo e procurado desencontro.
Um táxi te ensinará depois o caminho de casa
– ou o seu contrário, pois só ali (anónimo
e desfocado) eras finalmente tu, ou podias ser.
O resto, a vida, fica para outra vez.



pressa de viver

[para o Zé, que nunca lerá este poema]

Negro, trinta e dois anos,

dealer. Pensava que a guerra
no Kosovo tinha por motivo único
a resistência à conversão em euros
─ e talvez nisso tivesse, afinal, uma obscura
razão. Noutra noite, vi-me obrigado
a explicar-lhe o melhor que pude
o que era o FMI - que ele decerto
interpretou como um partido de 'tugas
vagamente hermético. De facto, é outra
a sua economia: contos de xamon, pastilhas,
piropos de esquina, os dois ou três filhos
de que apenas bêbedo se lembra.

Mas não é bem disso que eu hoje
queria falar. Passámos a noite
lado a lado, no mesmo balcão.
Demorei algum tempo a cumprimentá-Io
─ «tá-se?». Pediu logo grandes, imensas
desculpas por não me ter visto.
Que era «pressa de viver», garantiu-me,
aquilo que nos torna tão cegos é
às evidências, ao rosto desse próximo
que só por bíblico acaso amamos
─ quando o ódio, mais discreto,
dá nome e sentido às ruas.

Fingi acreditar, procurei não
desmentir o seu olhar verde
vindo de outro qualquer planeta.
Seria difícil explicar-lhe àquela hora
a compulsiva demora de morrer
que me faz sair de casa e procurar,
entre ninguém, a pior das companhias: eu.

Acabou por levar para a rua
uma imperial de plástico, lembrado
talvez dos possíveis clientes
a quem ajudará a esquecer um emprego,
o desamor, o calor sinistro deste Verão.
Na verdade, pouco mais haveria
a dizer sobre este corpo brando que
há vários anos se encosta às minhas noites.
Serve-me de escudo para os bárbaros mais novos
─ e protege-se, o melhor que pode,
da rusga sem objecto a que chamamos vida.

sábado, 9 de fevereiro de 2013