O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

terça-feira, 20 de março de 2012

João Rui de Sousa recebe prémio Vida Literária

A Associação Portuguesa de Escritores distingue o poeta João Rui de Sousa com o prémio Vida Literária. Os prémios visam consagrar escritores de fição, poesia e ensaio. O prémio Vida Literária já distinguiu nomes como José Saramago, Miguel Torga, Sophia de Mello Breyner Andersen ou Eugénio de Andrade.

 
O RELÓGIO DA AMIZADE

Em cada relógio há sempre um amigo
que nos acorda, que suavemente nos percorre
os interstícios da alma, que nos assombra
com sinais discretíssimos de fraterna luz
ou que nos deixa, mesmo em minuto frágil,
um arco triunfal com tâmaras de afecto.
Nesse relógio há um lírio comestível
ou uma plena árvore com seus braços
de deslumbre, ou a mais ínfima erva
que por ele sobrevive à estrondosa queda
do granizo, à dissolução (inevitável) de casas
e areias, e mesmo ao advento da loucura.
É sempre tal relógio um rio profundo
onde a cor dum sol cheio, tantas vezes
reposto, tantas vezes presente em acenar
de címbalos e de búzios, pode acordar
em tons de uma aridez sombria, pode
deixar-nos tristes, sós e desolados,
numa gruta de horror frente ao deserto
- num recanto de sono e desalento.
Nesse amigo de sempre, um tal relógio
- com seus ponteiros de murta ou de veludo,
que saltam como lebres sobre as horas
ou são nichos de abrigo e cestos de avelãs –
é puro movimento e azul que estremece
o fio de cada dia, o voo do coração.
Mesmo em zonas de fogo e exaltação,
nesses lugares de praia mais sensíveis
(como o esplendor do corpo em combustão,
como o fremir da vaga e do desejo),
existe tal relógio, ó engrenagem mágica,
ó tiquetaque nítido, tão cúmplice.

João Rui de Sousa
em Revista Cultura Entre Culturas n.º4 
(Outubro de 2011)
.

O JARDIM DOS SUPLÍCIOS - OCTAVE MIRBEAU



Mirbeau começa este seu livro, com um interessante frontispício, do qual transcrevo alguns excertos:
Alguns amigos achavam-se reunidos, uma noite, em casa de um dos nossos mais célebres escritores. Tinham jantado copiosamente e a propósito não sei de quê, talvez a propósito de nada, começaram a falar de crimes. Eram só homens que ali estavam; moralistas, poetas, filósofos, médicos, tudo gente que podia discutir livremente, dando largas à sua fantasia, às suas manias e aos seus paradoxos…/…
Com uma tranquilidade de alma tão perfeita, como se unicamente fosse ponderar os méritos do charuto que estava a fumar, um membro da Academia de Ciências Morais e Políticas disse:
-Palavra de honra!...Considero o homicídio como a maior das preocupações humanas e acho que todos os nossos actos provém dele…
-É evidente!...Aprovou um sábio darwinista. O senhor acaba de dizer uma dessas verdades eternas, à maneira das que descobria diariamente o lendário de La Palisse…pois a morte é a própria base das nossas instituições sociais e portanto a mais imperiosa necessidade da vida civilizada….Se não se cometessem mais crimes, não haveria governos de nenhuma espécie, visto que o crime em geral e o homicídio em particular constituem, não só um pretexto, mas também a razão de ser desses governos…A não ser assim, viveríamos em plena anarquia, coisa que ainda não se pode conceber…Portanto, em vez de destruir o homicídio, devemos cultivá-lo com inteligência e perseverança…e não conheço melhor meio de o cultivar do que as leis.
(…)
-Aliás o homicídio, cultiva-se bastante por si mesmo…Falando com franqueza, não é o resultado de tal paixão, nem a forma patológica da degenerescência; trata-se de um instinto vital que existe em nós…que existe em todos os seres organizados e os domina com a mesma força de um instinto genésico…E isto é tão certo como, na maior parte das vezes, os dois instintos se combinarem entre si, confundindo-se um com o outro, de maneira que ambos formam um só instinto, não se sabendo qual dos dois nos impulsiona ora a dar vida, ora a deixá-la, onde está a morte e onde está o amor. Eu ouvi em confissão um respeitável assassino que matava as mulheres, não para as roubar, mas para as violar. O seu fito era que espasmo de prazer de um concordasse exactamente com o espasmo da morte da outra…«Nesses momentos, dizia-me ele, imagino-me um Deus e julgo criar o mundo!»
-Ah! – exclamou o célebre escritor.
–O senhor recorre a exemplos de profissionais do crime.
O sábio replicou suavemente:
É porque nós todos temos alguma coisa de assassinos…Todos nós temos notado no nosso cérebro sensações análogas, ainda que em menor grau…O impulso inato do crime contem-se, refreia-se por meio de executórios legais: A indústria, o comércio colonial, a guerra, a caça, o anti-semitismo…porque é muito perigoso o obedecer-lhes sem moderação e, prescindindo das leis, as satisfações morais que dele derivam não equivalem às consequências comuns de um acto atrevido, a prisão, os interrogatórios do juiz, sempre fatigantes e desprovidos de interesse científico…e por último a guilhotina…
-O senhor exagera – interrompeu o primeiro interlocutor. – Só para os assassinos sem arte e sem talento, brutos inconscientes e faltos de toda a psicologia, é que o homicídio é perigoso…Um homem inteligente e acostumado a raciocinar, poderá, se for dotado de uma serenidade imperturbável, cometer todos os homicídios que quiser. E pode estar certo de uma impunidade absoluta…A superioridade das suas combinações prevalecerá sempre à rotina das indagações policiais e, forçoso é confessá-lo, às míseras investigações criminalistas em que se comprazem os juízes de instrução…A este respeito, como em todos os mais, são os pequenos que pagam pelos grandes…Não se pode duvidar, meu querido amigo, de que o número dos crimes ignorados…
-E tolerados…
-E tolerados…ia já dizê-lo…Não admite o senhor que este número é mil vezes maior que o dos crimes descobertos e punidos, que os jornais espicaçam com uma tão estranha prolixidade e com uma tão repugnante falta de filosofia?..Se concorda com isto, não poderá negar que o gendarme está muito longe de ser um espantalho para os intelectuais do crime…
-Sim, senhor, tem razão…Mas não se trata disso…O senhor confunde as espécies…Eu dizia que, na natureza e em todo o ser vivo o homicídio é normal e não excepcional e disso mesmo resulta que as sociedades se arrogam o direito exclusivo de os matar, em prejuízo dos indivíduos a quem este direito compete exclusivamente.
-Sim, senhor!..proferiu o loquaz filósofo (…)
O nosso amigo tocou com o dedo na chaga…Pela minha parte não acredito que exista uma única criatura humana, que, pelo menos virtualmente não seja um assassino (…)
E exemplifica pela observação que faz às pessoas, examinando as suas fisionomias nas ruas, cafés, estações de comboio, etc…Refere ter ido a uma feira popular e ficar surpreendido com o interesse das pessoas pelas barracas onde com armas se acertava em bonecos com rosto humano, manifestando-se com regozijo, naqueles simulacros de morte e discorre sobre o desenvolvimento sofisticado destes jogos.
«- O senhor só nos fala de brutos, camponeses (…) e as «inteligências cultas (…) os homens de sociedade (…)
-Quais são os hábitos, os prazeres predilectos, desses homens que refere, não são a esgrima, o duelo, os desportos violentos, o abominável tiro aos pombos, as corridas de toiros, a caça…coisas que na realidade constituem retrocessos para épocas de antiga barbaria (…)
(…) e os militares, escolhem uma profissão honrosa, cujo único esforço intelectual consiste numa pessoa realizar as mais diversas violências, em desenvolver e multiplicar os mais completos, amplos e seguros meios de saque, destruição e morte (…) E eu próprio? Tenho a certeza que não sou um monstro! (...) Pois bem, quantas vezes não sobe do fundo do meu ser até ao cérebro, uma onda de sangue, o desejo…o áspero, violento e quase invencível desejo de matar!
(…) O moralista pode fazer os comentários que lhe agradarem…Essa necessidade de matar nasce com o homem com a necessidade de comer e ambos os impulsos se confundem…Esta necessidade instintiva, motor de todos os organismos vivos, desenvolve-se com a educação, em vez de se anular, e as religiões santificam-na em vez de a maldizer; todos os elementos se combinam para a converter em centro da nossa admirável sociedade. Desde que o homem desperta a voz da consciência, a ideia de morte germina no seu cérebro. O homicídio exaltado à categoria de dever, popularizado até ao heroísmo, acompanhá-lo-á em todas as fases da sua existência (…) Fará que só respeitem os heróis, feras repulsivas carregadas de crimes e avermelhadas pelo sangue humano. As virtudes, pelas quais se elevará a um grau proeminente e que lhe hão-de dar a glória, a fortuna, o amor, só se apoiarão no homicídio…Enfim encontrará na guerra a suprema síntese da eterna e universal loucura de matar, do assassínio regularizado, regulamentado, obrigatório, como uma verdadeira função nacional. Onde quer que for, faça o que fizer, verá sempre esta palavra: assassínio, perenemente escrita na portada do imenso matadouro, chamado humanidade (…) Obrigai-nos um dia a matar uma infinidade de indivíduos a quem não conhecemos e, por conseguinte, a quem não podemos odiar, é quanto maior é o número dos homicídios que executamos, tanto mais nos honram e recompensam? (…)
Um jovem interveio neste debate, para contar algumas situações ocorridas com o seu pai, médico cirurgião e a forma, como ele via o corpo de um ser humano e um caso específico. O pai operava uma mulher, fazendo uma operação difícil e aproveitando o seu estado inconsciente, deduziu que devia ter uma infecção no piloro, abriu o estômago e operou, no dia seguinte a mulher estava morta.
Outras experiências foram contadas, até que um ilustre escritor interveio, para falar das mulheres, seres sensíveis, mas também com uma curiosidade mórbida, pelas notícias mais escabrosas, pelos acontecimentos de rua mais sanguinolentos.
-Amam do mesmo modo que matam!...O assassínio nasce do amor e o amor alcança o seu máximo de intensidade no assassínio…A mesma exaltação fisiológica…os mesmos gestos de agonia…as mesmas sensações…frequentemente as mesmas palavras em contracções idênticas (…)
Os ânimos exaltaram-se debatendo antagonicamente a questão da mulher, até que o escritor resolveu contar a sua experiência dizendo:
(…) Espero que possam suportar o horror sangrento!...Isto chama-se:
O Jardim dos Suplícios


domingo, 18 de março de 2012

LUIGI PIRANDELLO

 O italiano Luigi Pirandello (1867-1936) foi dramaturgo, poeta e romancista. Recebeu o prémio Nobel em 1934.
Foi um grande renovador do teatro e entre outras peças que escreveu, falar de Pirandello é logo pensar na sua extraordinária peça «Seis Personagens à Procura de um Autor», que acaba por ser uma discussão filosófica sobre o teatro.
Hoje o Pirandello, cruzou comigo, nos meus caminhos na internet e li algumas das suas citações.

"Os factos são como os sacos; quando vazios não se têm de pé."

"O homem está sempre disposto a negar aquilo que não entende."

"Assim como existem filhos ilegítimos, existem também os pensamentos bastardos."

"Como podemos nos entender (...), se nas palavras que digo coloco o sentido e o valor das coisas como se encontram dentro de mim; enquanto quem as escuta inevitavelmente as assume com o sentido e o valor que têm para si, do mundo que tem dentro de si?"

 
É próprio da natureza humana, lamentavelmente, sentir necessidade de culpar os outros dos nossos desastres e das nossas desventuras."

"Não há uma estrada real para a felicidade, mas sim caminhos diferentes. Há quem seja feliz sem coisa nenhuma, enquanto outros são infelizes possuindo tudo."

"Assim é, se lhe parece."

"Todos vivemos com a ilusão de que os outros, por fora, nos vejam como nós imaginamos ser por dentro. E não é assim."

"A vida está cheia de uma infinidade de absurdos que nem sequer precisam de parecer verosímeis porque são verdadeiros."

"Frases! Frases! Como se o conforto de todos, diante de um facto que não se explica, diante de um mal que nos consome, não fosse encontrar uma palavra que não diz nada e na qual nos tranquilizamos!"

"Basta que ela comece a gritar a verdade na cara de todos. Ninguém acredita no que diz e todos a tomam por louca!"

"Abrir-se com alguém, isto sim é realmente coisa de louco!"

"A culpa é dos factos, meu amigo. Somos todos prisioneiros dos factos. Eu nasci, logo existo."