O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.
JEAN-PAUL SARTRE

sábado, 29 de junho de 2013

DEUS

KOSTABI
"A religião chegou a convencer as pessoas de que existe um homem-invisível morando no céu, que vê tudo, todo dia, a todo instante. E esse homem-invisível criou uma lista de 10 coisas que ele não quer que faça. Se fizer uma dessas 10 coisas, ele tem um lugar especial cheio de fogo, fumaça, ardor, tortura e angústia, para onde ele o envia para sofrer e se queimar e se sufocar e gritar e chorar para todo o sempre até o fim dos tempos...mas ele te ama!"
"Já tentei acreditar que existe um Deus que criou cada um de nós à sua imagem e semelhança, que nos ama muito e observa tudo. Eu realmente tentei acreditar. Mas tenho que lhes dizer a verdade: quanto mais se vive, quanto mais se olha ao redor, mais se percebe: alguma coisa esta errada.(...) Isso não é um trabalho bem feito, se isso é o melhor que Deus pode fazer não me impressiona."
"Se existe um Deus, acho que a maioria das pessoas devem concordar que Ele é, no mínimo, incompetente e talvez, simplesmente não quer saber."
Suponhamos que suas preces não sejam atendidas, o que diz? Oh, é desejo de Deus. Assim seja. Está bem, mas se é desejo de Deus e se ele vai fazer o que quer de qualquer modo, pra quê serve rezar?"

George Dennis Patrick Carlin (Nova Iorque, 12 de maio de 1937 - 22 de junho de 2008) foi um comediante norte-americano conhecido pela sua postura crítica à religião.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

sábado, 22 de junho de 2013

«TODAS AS CARTAS DE AMOR SÃO RIDÍCULAS» - FERNANDO PESSOA

Fernando e Ofélia
O encontro/desencontro destes dois seres predestinados para nunca se encontrarem e, uma vez encontrados, cada um deles viver, um na plena e redentora ilusão de se saber amado – miticamente «para sempre» -, e outro num mundo alheio, insuspeitado e ingénuo, votada à desilusão.

Se Ofélia, tivesse lido o menor dos poemas do seu efémero e improvável «namorado» onde nada se glosa senão a evidência de que a vida é pura Ficção e a chamada Ficção a única e impenetrável «verdade» dela, não teria embarcado nessa travessia do coração para um porto que nunca existiu para o companheiro/fantasma dessa viagem sem viajante dentro. Ofélia tinha razão quando Fernando vinha com o seu duplo infernal Álvaro de Campos, que a afastava dela. Fernando Pessoa teve como única musa o desamor.
No combate venceu a Literatura, monstro sublime da imaginação, única paixão que assolou Pessoa.(Eduardo Lourenço)

ALGUMAS CARTAS DE FERNANDO A OFÉLIA, UMA DELAS ESCRITA PELO SEU HETERÓNIMO ÁLVARO DE CAMPOS:

 Meu Be«be»zinho lindo:
     
Não imaginas a graça que te achei hoje á janella da casa de tua irmã! Ainda bem que estavas alegre e que mostraste prazer em me ver (Álvaro de Campos).
     
Tenho estado muito triste, e além d'isso muito cansado - triste não só por te não poder ver, como também pelas complicações que outras pessoas teem interposto no nosso caminho. Chego a crer que a influência constante, insistente, hábil d'essas pessoas; não ralhando contigo, não se oppondo de modo evidente, mas trabalhando lentamente sobre o teu espírito, venha a levar-te finalmente a não gostar de mim. Sinto-me já differente; já não és a mesma que eras no escriptorio. Não digo que tu própria tenhas dado por isso; mas dei eu, ou, pelo menos, julguei dar por isso. Oxalá me tenha enganado...
     
Olha, filhinha: não vejo nada claro no futuro. Quero dizer: não vejo o que vãe haver, ou o que vãe ser de nós, dado, de mais a mais, o teu feitio de cederes a todas as influencias de familia, e de em tudo seres de uma opinião contraria á minha. No escriptorio eras mais dócil, mais meiga, mais amorável.
     
Enfim...
     
Amanhã passo  á mesma hora no Largo de Camões. Poderás tu apparecer à janella?
     
Sempre e muito teu
     
CARTA A OFÉLIA QUEIRÓS - 31 DE MAIO DE 1920
     
     
Bebezinho do Nininho-ninho:
     
Oh!
     
Venho só quevê pâ dizê ó Bebezinho que gotei muito da catinha dela. Oh!
     
E também tive munta pena de não tá ó pé do Bebé pâ le dá jinhos.
     
Oh! O Nininho é pequenininho!
     
Hoje o Nininho não vai a Belém porque, como não sabia se havia carros, combinei tá aqui às seis ho'as.
     
Amanhã, a não sê qu'o Nininho não possa é que sai daqui pelas cinco e meia. [desenho de uma meia] (isto é a meia das cinco e meia).
     
Amanhã o Bebé espera pelo Nininho, sim? Em Belém, sim? Sim?
     
Jinhos, jinhos e mais jinhos.
     
CARTA A OPHÉLIA QUEIROZ – 25 DE SETEMBRO DE 1929
   
   
Exma. Senhora D. Ophélia Queiroz:
    
Um abjecto e miserável indivíduo chamado Fernando Pessoa, meu particular e querido amigo, encarregou-me de comunicar a V. Ex.ª — considerando que o estado mental dele o impede de comunicar qualquer coisa, mesmo a uma ervilha seca (exemplo da obediência e da disciplina) — que V. Ex. ª está proibida de:
(1) pesar menos gramas,
(2) comer pouco,
(3) não dormir nada,
(4) ter febre,
(5) pensar no indivíduo em questão.
   
Pela minha parte, e como íntimo e sincero amigo que sou do meliante de cuja comunicação (com sacrifício) me encarrego, aconselho V. Ex.ª a pegar na imagem mental, que acaso tenha formado do indivíduo cuja citação está estragando este papel razoavelmente branco, e deitar essa imagem mental na pia, por ser materialmente impossível dar esse justo Destino à entidade fingidamente humana a quem ele competiria, se houvesse justiça no mundo.
   
Cumprimenta V. Ex. ª
   
Álvaro de Campos
eng. Naval
CARTA A OFÉLIA QUEIRÓS - 9 DE OUTUBRO DE 1929
   
   
     Terrivel Bébé
   
      Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é  sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que a havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao princípio, e parece-me que ainda lhe telephono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na bocca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a bocca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu hombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e porque é que a Ophelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gás e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fôsse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece ser impossível ser escripto por um ente humano, mas é escripto por mim .
 


 
Cartas de Amor, Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa, Ática, 1978 (3ª ed. 1994)





segunda-feira, 17 de junho de 2013

isidore ducasse conde de lautréamont / cantos de maldoror .

 Durante toda a minha vida vi os homens, de ombros estreitos, fazerem, sem uma única excepção, actos estúpidos e numerosos, embrutecerem os seus semelhantes e perverterem as almas por todos os meios. Aos motivos das suas acções chamam glória. Ao ver estes espectáculos, quis rir como os outros; mas isso, estranha imitação, era impossível. Peguei num canivete, cuja lâmina tinha um afiado gume, e rasguei a carne nos sítios onde os lábios se reúnem. Por um momento julguei ter atingido o objectivo. Contemplei num espelho esta boca ferida por minha própria vontade! Era um erro! O sangue que abundantemente corria dos dois ferimentos não deixava aliás distinguir bem se era realmente aquele o riso dos outros. Mas, após alguns instantes de comparação, vi claramente que o meu riso não se assemelhava ao dos humanos, que eu não ria. Vi os homens, de cabeça feia e terríveis olhos enterrados na órbita escura, ultrapassarem a dureza do rochedo, a rigidez do aço fundido, a crueldade do tubarão, a insolência da juventude, a fúria insane dos criminosos, as traições do hipócrita, os comediantes mais extraordinários, a força de carácter dos padres, e os seres mais escondidos por fora, os mais frios dos mundos e do céu; vi-os cansar os moralistas para descobrirem o seu coração e fazerem recair do alto sobre eles a cólera implacável. Vi-os todos ao mesmo tempo: ora, com o mais robusto punho erguido para o céu, como o de uma criança, já perversa, contra a mãe, provavelmente incitados por algum espírito do inferno, com os olhos carregados de um remorso agudo mas cheio de ódio, num silêncio glacial, sem ousarem emitir as meditações vastas e ingratas que abrigavam no peito, tão plenas de injustiça e de horror elas eram, e entristecerem de compaixão o Deus de misericórdia; ora, em cada momento do dia, desde o começo da infância até ao fim da velhice, espalhando inacreditáveis anátemas sem senso comum contra tudo o que respira, contra si próprios e contra a Providência, prostituírem as mulheres e as crianças e desonrarem assim as partes do corpo consagradas ao pudor. Então, os mares erguem as suas águas, engolem as tábuas nos seus abismos; os furacões e os tremores de terra derrubam as casas; a peste e as diversas doenças dizimam as famílias em oração. Mas os homens não dão por isso. Também os vi a corarem e empalidecerem de vergonha pelo seu comportamento sobre a terra; raramente. Tempestades, irmãs dos furacões; firmamento azulado, cuja beleza não admito; mar hipócrita, imagem do meu coração; terra, de misterioso seio; habitantes das esferas; universo inteiro; Deus, que com magnificência o criaste, é a ti que eu invoco: mostra-me um homem que seja bom!... Mas que a tua graça multiplique por dez as minhas forças naturais; pois, perante o espectáculo desse monstro, posso morrer de espanto; morre-se por menos.





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conde de lautréamont
cantos de maldoror
poesias
.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

BILLIE HOLIDAY: SOLO - AMADEU BAPTISTA



Não tenho mais visões, não tenho obsessões,
sigo a trompete apenas, a ternura
é esse outro lado das coisas em que me perco
porque nada mais me chama e nada mais
revejo no lentíssimo torpor que pelas veias
senti outrora num azul imenso
que mais do que tocar-me me esvaía
no inferno do mundo e em seus ramais
de pura nostalgia, tristeza e desencanto.
Só ergo agora a voz para esquecer
e ter o olhar toldado para as coisas
que como grito lancinante escuto no silêncio
enquanto outras vozes me chamam,
outros indícios me vêm perturbar
quando pressinto a noite antíquissima
em que se esconde o sobressalto da serenidade do meu tempo. Nem já a sombra aguardo
ou o sentido destes brilhos espessos,
estas chamas que consomem o meu corpo
e a minha alma no mistério de tudo
e no liminar enigma que adensa nos outros
os sentidos, certa atenção venal, um desespero
que em fumos e rastros me pergunta
por esta vida que já não é minha
e no coração recebo como salvação e ruína.
Sigo a trompete, o subtil sinal da despedida.
Só ergo agora a voz para esquecer.


Amadeu Baptista

quinta-feira, 6 de junho de 2013

AMADEU BAPTISTA - XXIX PRÉMIO POESIA CIDADE DE OURENSE


A NOITE DE PAVESE

Raras vezes me franquearam a porta
e deixaram entrar. A febre
sitia-me a alma e quem me vê
assusta-se do aspecto do meu rosto,
esta barba por fazer onde um rouxinol
se esconde. E mais ainda assusta
a minha altura, este lugar de vertigem
e palavras poderosas, a presença
de ilimitados segredos que ninguém quer conhecer, o estremecimento que corre
nos meus ombros. Embora nada peça, sabem que sou um pedinte. E quando entro nas casas os meus gestos afeiçoam-se a alguma coisa enigmática que contorna o pavor e o entrega
por não se saber que espécie de vida
ou de morte vem comigo. Obviamente, eu abençoo quem me deixa entrar, dou a entender
que alguma coisa brilha nas minhas mãos
e posso matar a fome com uma ou outra palavra próxima do amor, um dedo nos cabelos
de quem me recebe. Subi as escadas que vão dar a esta casa em silêncio e em silêncio aceitei
que me aguardassem com as inefáveis sombras que vejo nos outros e tento decifrar para meu contentamento. Mandaram-me sentar
e deram-me de beber. Esse álcool
reconfortou-me a alma. E a minha gratidão expressa-se deste modo, limpo e nítido, observando a mulher nesse sem fim das coisas, onde todos os mistérios avançam
para uma explicação que a qualquer momento pode irromper do espírito como uma explosão.
Olho-te nos olhos e recebo as duas moedas
que me ofereces, o teu rosto é-me familiar
se recuar à infância e subitamente perceber
que também pertenci ao exercício desta árvore
que nesta sala se levanta. Em frente,
na fotografia que o meu olhar alcança
porque me alcança o olhar que dela
se desprende, inscreve-se o enigma que me fez aqui chegar, mais que um rumor ou um fio ténue com o nome de todas as coisas inesperadas que me aconteceram na vida, sempre que me franquearam a porta e deixaram entrar. Agora, com a memória de ter estado
em tua casa e ter recebido a graça de alguma atenção, eu, que sou pedinte embora nada peça,
entrego-te este sulco da desordem
sobre a página em branco e agradeço-te
com o conhecimento de um outro mundo
ainda mais inexplicável. Não tendo havido despedida, sabe que permaneço
e na encruzilhada das dores que me couberam viver não esquecerei o teu nome no dia
em que também tiver partido
e mais nenhuma luz houver além daquela
que ilumina o teu rosto na solidão da noite.
Os anjos esperam-me. Não me é possível demorar. Que me seja a alba a tua tolerância.

AMADEU BAPTISTA



sexta-feira, 31 de maio de 2013

NÃO ACREDITE EM TUDO QUE PENSA. MITOS DO SENSO COMUM NA ERA DA AUSTERIDADE.

Temos vivido sob um discurso ideológico de direita, que prega o neoliberalismo e a austeridade que preponderam como «mitos do senso comum». Não há nada fazer? Há muito a fazer!
Hoje em dia debates, seguem-se a debates, muito se fala, mas sempre se foge às abordagens essenciais! Porque não se questiona se não seria melhor Portugal sair da União Europeia? E analisar quais os impactos desta saída e se os vaticínios mais catastrofistas serão mesmo inevitáveis? Porque não perguntar aos portugueses se lhes é relevante, esta situação de estar na EU, com a ilusão de estar no centro? Portugal é um país semi-periférico com limitada importância nas instâncias internacionais. Os portugueses estão a viver mitos, mas qual é a sua situação real neste xadrez? O que querem os portugueses? Há alternativas e pessoas capazes de lhes dar viabilidade? Com certeza que há e com a nobre postura de servir o país.
O caso da dívida tem uma carga ideológica forte da direita, mas a História mostra-nos, muitos exemplos, que não pagar a dívida, foi muitas vezes um imperativo nacional. A direita considera o seu pagamento uma inevitabilidade, essa é a sua convicção.
Tudo começou ou muito passou por aí, do argumento de estarmos a gastar mais que as nossas possibilidades, mas isso resulta de uma política europeia de liberalização dos mercados monetários e financeiros, com vista à criação de uma união monetária entre países muito diferentes, da qual Portugal fez parte, o que tornou o crédito mais acessível. Fomos incentivados para consumir. Neste contexto, não só os países do sul da Europa estão endividados, segundo dados da Eurostat, também estão os do centro e do norte: Dinamarca, Holanda, Irlanda, Noruega, Suécia e Reino Unido.
Viver fixado no consumo, foi uma perspectiva de aliciamento e no entanto segundo dados do Banco de Portugal e do Instituo Nacional de Estatística, os empréstimos para a habitação foram maioritários, por um sistema de crédito bonificado e de um conjunto de incentivos fiscais favoráveis.
A Comunicação Social, na sua grande maioria faz um discurso de pensamento único, segue-o e pouco o questiona. Obviamente que os mais importantes veículos de informação estão nas mãos de grandes grupos económicos. É de reconhecer no entanto, que alguns jornalistas apostam na diferença, embora depois sofram as consequências.

Miguel Cardina

Acabou de sair um livro, com a participação de várias pessoas, para as quais investigação e política andam de mãos dadas, o livro intitula-se: NÃO ACREDITE EM TUDO QUE PENSA. MITOS DO SENSO COMUM NA ERA DA AUSTERIDADE.
Alguns mitos são: Temos vivido acima das nossas possibilidades, Temos de pagar a Dívida, O desemprego é uma oportunidade, Há professores a mais e Alunos a menos, A Cultura pode Viver do Mercado, Isto não vai lá com Manifestações….são vários os temas.

O título deste livro é uma provocação. É bem sabido que temos uma certa tendência para nos sintonizarmos mais facilmente com o que já confirma os nossos juízos. O desafio no sentido inverso: não acreditar em tudo o que se pensa. Ou seja, estar disponível para pôr em causa o que eventualmente tenha como óbvio sobre as grandes questões políticas dos nossos dias.
Uma das maiores dificuldades para compreendermos o que nos está a acontecer reside no simplismo das explicações que circulam sobre a origem dos nossos males e que impede, em grande medida, a sua superação. Expressões como «andámos a viver acima das nossas possibilidades», «a culpa é dos políticos», «temos de ser empreendedores», «é preciso fazer sacrifícios para pagar a dívida», entre tantas outras, instalaram-se no nosso quotidiano. São repetidas incessantemente nos mais variados lugares e a repetição cristaliza essas ideias como naturais. Os debates mais urgentes que temos pela frente são aqueles que tomam estas expressões como o objeto de discussão. Precisamente porque a força insidiosa destas ideias consiste em se insinuarem como autoevidentes.
Inclui textos de Ana Cordeiro Santos | Ricardo Sequeiros Coelho | José Castro Caldas | Mariana Mortágua | Elísio Estanque | Francisco Louçã | José Soeiro | Luís Fernandes | Nuno Serra | António Rodrigues | Sílvia Ferreira | Paulo Pedroso | Catarina Martins | Manuel Jacinto Sarmento | Fernando Rosas | Mª José Casa-Nova | Manuel Loff | Miguel Cardina
Coordenação de: Nuno Serra, Miguel Cardina, José Soeiro 
Tinta da China (abril de 2013)

PARA QUE A MEMÓRIA NÃO SE APAGUE ... FAZ 60 ANOS!


ACORDO DE LONDRES SOBRE AS DÍVIDAS ALEMÃS

Entre os países que perdoaram 50% da dívida alemã estão a Espanha,
 Grécia e Irlanda.

O Acordo de Londres de 1953 sobre a divida alemã foi assinado em 27 de Fevereiro, depois de duras negociações com representantes de 26 países, com especial relevância para os EUA, Holanda, Reino Unido e Suíça, onde estava concentrada a parte essencial da dívida.

A dívida total foi avaliada em 32 biliões de marcos, repartindo-se em partes iguais em dívida originada antes e após a II Guerra. Os EUA começaram por propor o perdão da dívida contraída após a II Guerra. Mas, perante a recusa dos outros credores, chegou-se a um compromisso. Foi perdoada cerca de 50% (Entre os países que perdoaram a dívida estão a Espanha, Grécia e Irlanda) da dívida e feito o reescalonamento da dívida restante para um período de 30 anos. Para uma parte da dívida este período foi ainda mais alongado. E só em Outubro de 1990, dois dias depois da reunificação, o Governo emitiu obrigações para pagar a dívida contraída nos anos 1920.

O acordo de pagamento visou, não o curto prazo, mas antes procurou assegurar o crescimento económico do devedor e a sua capacidade efectiva de pagamento.

O acordo adoptou três princípios fundamentais:
1. Perdão/redução substancial da dívida;
2. Reescalonamento do prazo da divida para um prazo longo;
3. Condicionamento das prestações à capacidade de pagamento do devedor.

O pagamento devido em cada ano não pode exceder a capacidade da economia. Em caso de dificuldades, foi prevista a possibilidade de suspensão e de renegociação dos pagamentos. O valor dos montantes afectos ao serviço da dívida não poderia ser superior a 5% do valor das exportações. As taxas de juro foram moderadas, variando entre 0 e 5 %.

A grande preocupação foi gerar excedentes para possibilitar os pagamentos sem reduzir o consumo. Como ponto de partida, foi considerado inaceitável reduzir o consumo para pagar a dívida.

O pagamento foi escalonado entre 1953 e 1983. Entre 1953 e 1958 foi concedida a situação de carência durante a qual só se pagaram juros.

Outra característica especial do acordo de Londres de 1953, que não encontramos nos acordos de hoje, é que no acordo de Londres eram impostas também condições aos credores - e não só aos paises endividados. Os países credores, obrigavam-se, na época, a garantir de forma duradoura, a capacidade negociadora e a fluidez económica da Alemanha.

Uma parte fundamental deste acordo foi que o pagamento da dívida deveria ser feito somente com o superavit da balança comercial. 0 que, "trocando por miúdos", significava que a RFA só era obrigada a pagar o serviço da dívida quando conseguisse um saldo de dívisas através de um excedente na exportação, pelo que o Governo alemão não precisava de utilizar as suas reservas cambiais.

EM CONTRA PARTIDA, os credores obrigavam-se também a permitir um superavit na balança comercial com a RFA - concedendo à Alemanha o direito de, segundo as suas necessidades, levantar barreiras unilaterais às importações que a prejudicassem.